Opiniões


Simplesmente ‘aprender a pensar’ um pouco com Noam Chomsky…

Sou docente do grupo de Educação Física e leciono há cerca de 28 anos, estando atualmente posicionado no 8º Escalão do ECD (já poderia estar no 9º, não fosse o ‘congelamento’ de carreiras, que pelos vistos, se mantém, pelo menos, mais um ano, segundo o OE 2015 previsto, o que seria, naturalmente, de prever, face à ‘nova moda de conjugação verbal’ – ‘manterá’). Começo por referir isto, apenas para lhe ‘reforçar’, que sou um docente com larga experiência no ensino e, no meu caso particular, com larga experiência paralela no ‘mundo do Desporto’, mais que suficiente para credibilizar a minha função, enquanto docente da disciplina de Educação Física no contexto escolar. Poderia acrescentar, que para além de uma licenciatura em Educação Física (cinco anos de licenciatura, mais dois anos de Profissionalização em Serviço, para quem saiba, ainda, o que isso é…) numa das mais prestigiadas universidades em Portugal (nos idos anos 80), fiz, entretanto, um ‘verdadeiro’ (desculpe o adjetivo, mas é apenas, uma vez mais para ‘reforçar algo’…) Curso de Mestrado em Ciências do Desporto (com 2 anos de duração) e um Curso de Doutoramento na mesma área (com 4 anos de duração). Ou seja, para além de toda uma extensa experiência profissional, quer ao nível do ensino (onde ocupei, durante estes 28 anos de serviço docente, ‘quase’ todos os cargos possíveis no universo escolar: Docente, Representante/Delegado de Grupo Disciplinar, Diretor de Instalações, Diretor de Turma, Coordenador de Departamento, Coordenador de Diretores de Turma, Coordenação dos Cursos de Ofertas Qualificantes, Assessor de uma Direção Executiva e Subdiretor de um Agrupamento de Escolas… Só não cheguei a exercer, portanto, a função de Diretor…), quer ao nível do Desporto (preferia não mencionar o meu ‘percurso’ neste âmbito, pois para além de extenso, implicaria mencionar algumas entidades que representei, as quais preferia manter no anonimato, apenas por uma questão de ética), penso ter realizado, paralelamente, ao meu desempenho profissional todo um conjunto de formações académicas e outras que vieram, de facto, enriquecer-me, quer enquanto pessoa/indivíduo, quer enquanto profissional.

Creio que possa imaginar, com que custos pessoais realizei todo este percurso. Poderia, ainda, acrescentar que, pelo meio, fui realizando umas quantas (duas para ser mais preciso) ‘pós-graduações’ na área da Educação, apenas, para me manter ‘atualizado’ quanto a alguns aspetos mais pertinentes, como por exemplo, uma das que realizei sobre ‘Avaliação Educacional’, aquando da ‘avalanche’ de todo o processo de avaliação (docente e institucional), ou seja, tal como referiu o filósofo José Gil, quando demos início ao período de ‘avaliocracia’.

Bem, mas poderá parecer que lhe venho falar do meu ‘ego’, ou do meu currículo pessoal. Não, de modo algum. Como lhe comecei por referir, pretendia apenas introduzir ‘aquilo’ que verdadeiramente pretendo partilhar consigo e, se porventura entender, talvez pudesse ‘trabalhar’ melhor o meu texto (pois reconheço-lhe toda a autoridade/legitimidade e, sobretudo, competência para o fazer) e partilhar o ‘essencial’ com os demais colegas no seu blogue, pois, e ainda que não seja essa a minha principal pretensão, não tenho ‘meios de passar uma mensagem’, a qual gostaria, pelo menos, servisse de apoio à vossa/nossa manifestação: “Nem mais um dia sem aulas”.

De facto, o que pretendo evidenciar, é que este ‘Estado’ em que vivemos (o português mesmo) tornou-se, na minha humilde opinião, num verdadeiro ‘triturador’ (no sentido de destruidor) de profissões, de carreiras, de ambições; diria mesmo de sonhos e de vidas. Apresentei, portanto, o meu caso pessoal, para que se perceba como um ‘técnico altamente qualificado’ e cidadão cumpridor dos seus deveres é, ou tem vindo a ser ‘tratado’ pelo seu ‘patrão’, tal como acredito, o mesmo se passará com milhares de outros colegas e cidadãos por esse país fora.

A verdade é que aos 53 anos de idade (um ‘jovem’, portanto…), para além de estar cansado física e intelectualmente de trabalhar/estudar, estou, sobretudo, esgotado e sinto-me completamente impotente para dar mais uma oportunidade que seja aos neoliberalistas que ‘desgovernam’ este nosso país. Reforço, não estou ‘desiludido’ com o meu país, pois esse não tem ‘culpa’ de nada. Foquemo-nos no essencial, na ‘raiz’ do(s) problema(s)…

Foi nesse contexto que decidi aderir em dezembro de 2013 a um ‘suposto’ Programa de Rescisões por Mútuo Acordo (PRMA) lançado pelo atual executivo e sobre o qual não pretendo aqui debruçar-me, pois foi mais um processo tão ‘mau’, tão ridiculamente ‘manipulativo’ de pessoas (que também são profissionais) tão já de si fragilizadas, cansadas, que seria, uma vez mais ‘pregar aos peixes’ – Sim, fui um dos contemplados com um ‘leviano mail’ transmitido pelo meu atual Diretor de Agrupamento a agradecer ter aderido ao referido processo e pouco mais…

E aqui, começo por questionar: Será que só ‘alguns’ de nós conseguem perceber o ‘maquiavelismo’ com que os nossos governantes conseguem ‘levar a água ao seu moinho’ (neste caso, talvez fosse melhor dizer: “o dinheiro ao bolso certo”)?

Estaremos todos, de facto, ‘adormecidos’? ‘Entorpecidos’ acredito que sim, mas gostaria de acreditar que existe por aí, ainda alguma réstia de ‘inteligência’, de caráter, de dignidade, de coragem (perdoem-me a afirmação, pois não pretendo imiscuir-me da mesma, de modo algum…).

Em 28 anos ao serviço do MEC, como hão de imaginar, vi-me envolvido em múltiplas ‘trapalhadas’ e a uma cada vez mais estrategicamente ‘elaborada’ burocratização do sistema. Ver-me, uma vez mais, enganado, neste ‘desejado’ final de carreira antecipada (processo de adesão ao PRMA) e, como se não bastasse, assistir a um total ‘desrespeito’ por milhares de colegas, cidadãos e profissionais num ‘elaboradíssimo’ (com requintes de uma total ‘frieza’ digna de um qualquer psicopata) processo de ‘recrutamento’ de docentes, pondo em causa o normal funcionamento de uma instituição tão ‘grande’ como é a do Ensino/Educação e a de milhares de alunos e famílias, deixou-me, de vez, com vontade de também eu começar a fazer ‘algo diferente’ por este meu país e deixar, qual ‘Calimero’, de me lamuriar de forma mais recatada (em privado) e respeitosa (pois é disso que também se trata, não fosse eu um docente).

Caro Paulo Guinote, o que lhe posso ‘dizer’, então…

Estava de saída (parafraseando alguém, ‘estarei de saída’…) deste ‘sistema ignóbil’ e vi-me, de repente, de novo ‘engolido’ por ele. Mas antes de sair (e acredite que ‘sairei’, de uma forma ou de outra, pois basta de ser menosprezado, desrespeitado e ‘empurrado’ para fora…), se me permite, é hora de ‘vomitar’ alguma coisa, pois de tão ‘indigesto’, não há quem aguente…

Passarei, então, ao verdadeiro assunto que me trás até si, que tal como referi em subtítulo, resultou de uma reflexão após uma entrevista que li de Noam Chomsky há algum tempo a esta parte e que me parece ser esclarecedora (no mínimo) para quem pretenda ‘perceber’ um pouco as razões para este ‘Estado’ – da Educação e de um país…

Então,

Gostaria de começar por ir, desde já, ao cerne da questão:

Tudo não passa, afinal, de um grande negócio!

Tal como temos vindo a observar nas grandes empresas, o nosso ministério, aquilo que pretende é passar a fazer uma espécie de ‘contratação de empregados temporais’, empregados sem qualquer tipo de direitos sociais, com o único objetivo de reduzir os custos laborais, incrementando, desse modo, um total ‘servilismo laboral’.

Ou seja, estamos perante a transformação da Educação num ‘modus’ empresarial, através de um ‘assalto’ neoliberal (que já nem precisa de estar/ser camuflado), tendo como principal intenção manter, a custos cada vez mais baixos, o ‘sistema’, e assegurando-se, em simultâneo, de que os ‘funcionários’ permaneçam dóceis e obedientes; e que melhor forma de o conseguir fazer, através de trabalho precário temporal…

Segundo Noam Chomsky, a ideia fundamental deste ‘movimento neoliberal’ é dividir a sociedade em dois grupos. A um deles, Chomsky chama-lhe de ‘plutocratas’, os quais não são mais do que uma pequena elite dominante da riqueza global, a qual se encontra, sobretudo concentrada nos EUA. O outro grupo, não é mais que todo o resto da população mundial, ‘gentes’ (como nós…) que vivem uma ‘existência’ precária (ou ainda acham que não?).

E Chomsky dá-nos o exemplo real de tudo isto, lembrando-nos o discurso de Alan Greenspan, perante o Congresso americano em 1997, sobre as maravilhas da economia que dirigia. Greenspan disse muito claramente que uma das bases do seu êxito económico era que estava a impor o que ele mesmo chamou “uma maior insegurança nos trabalhadores”. Se os trabalhadores estão mais inseguros, isso é muito ‘bom’ para a sociedade, porque se os trabalhadores estão inseguros, não exigirão aumentos salariais, não realizarão greves, não reclamarão direitos sociais – servirão apenas os seus ‘amos’ passivamente. E imaginam como isto possa ser ótimo para a ‘saúde económica’ das grandes empresas. Se não acreditam nas minhas ‘palavras’, pelo menos, seria bom que acreditassem nas de Greenspan, pois ele (ou o que ele ‘representa’), de facto, tem muito mais ‘poder’ do que qualquer um de nós…

Pois, então, a agenda destes ‘senhores’ não é mais do que arranjar formas de criarem uma maior insegurança no mundo laboral; em nós, não é assim?

E como o têm vindo a fazer?

Simples, essencialmente, deixaram de nos garantir a empregabilidade, mantêm-nos pendentes, ou dependentes de um fio que a qualquer momento podem a seu belo prazer cortar e, adicionalmente, de maneira que continuemos de boca calada, aceitando os salários cada vez mais baixos e ‘demos graças a Deus’ (como tenho ouvido tanto por aí dizer…) por ter um emprego… E ainda nos dizem que é só por mais um ano… Corrijo, ‘será’…

Pois, caros colegas, é desta forma que se conseguem sociedades mais eficientes e que a economia (as empresas) ‘ganha(m) saúde’.

Mas este é apenas um dos aspetos, ou ‘pormenores’ deste ‘assalto neoliberal’, se não reparem:

Já se deram conta, de certeza, que temos vindo a observar, paralelamente a esta precariedade laboral, a uma certa ‘burocratização’ do sistema’ Parece-me que sim, pois vejo grande parte dos nossos colegas queixarem-se sistematicamente disso. De facto, esta é outra estratégia ‘complementar’ – o aumento dos níveis administrativos e burocráticos. E é muito simples, meus caros – se queremos ‘controlar a populaça’, temos de dispor de uma força administrativa que o faça. Se formos fazer uma análise minuciosa, percebemos que ao invés da ‘propaganda’ que proclama uma redução de funcionários públicos (a tal ‘massa administrativa’), verifica-se uma cada vez maior estratificação administrativa e económica muito útil para o necessário controlo e dominação do sistema e das pessoas. Ainda têm dúvidas? Observem no nosso MEC (apesar de alguém ter referido há algum tempo a esta parte que haveria de ‘implodir’ – corrijo, de novo, haverá…) as numerosas estruturas administrativas e de gestão de pessoal e de recursos, e que sobressaem quando alguma ‘trapalhada é lançada’ e, vem-se a perceber, não se sabe muito bem de onde veio, quem foi, de facto, o responsável e, se necessário, em último caso, demite-se um qualquer ‘diretor’ de um desses ‘departamentos/gabinetes/direções’, o que lhe quiserem chamar… E quando se liga para ‘lá’, a tentar solicitar uma explicação (minimamente ‘justificada’) sobre um qualquer assunto específico (quantos colegas não terão ligado, neste últimos dias, sobre esta ‘trapalhada’ das colocações e das BCE’s e outras que tais…) e ninguém sabe ‘muito bem’ sobre o assunto e remete-nos para uma outra ‘extensão’, que por vezes, incrível, contradiz a opinião anterior… Não me digam que tal nunca vos aconteceu?

Pois, é uma ‘pesada e intricada’ máquina burocrática…

Mas creio que sabem, por exemplo, que esta não é mais que uma simples prática de negócio que poderemos encontrar nas empresas privadas. Por acaso nunca ligaram para um banco, ou para alguma seguradora, ou empresa de telecomunicações para tentarem resolverem algum assunto que vos ‘incomodasse’? O que se passa normalmente, nesses casos? Pois, fazemos uma chamada, a maior parte das vezes, somos atendidos por um atendedor de chamadas automático, por vezes com mensagens pré-gravadas, que depois de uma ‘lenga-lenga’ de boas vindas e de instruções vagas nos remetem para um ‘menu’. Se por acaso, acertamos na opção certa, talvez consigamos ouvir uma voz ‘humana’, à qual temos de explicar, com muita dificuldade e paciência (pois parece que não sabe nada do que se trata), o que nos levou a efetuar aquela chamada.

É a este ‘procedimento’ que os economistas chamam de ‘eficiência’. Com este ‘modelo’ de gestão, reduzem-se os custos laborais (aumentando-nos os nossos) e, adicionalmente, ‘transfere-se a instrução’ aos diversos estratos administrativos, melhorando, assim, a disciplina e o controlo…

Caros colegas, não estamos mais do que perante ‘técnicas altamente doutrinárias’. Ao permanecerem ‘ocultas’ as responsabilidades, sem rosto, portanto, não se está mais do que a ‘lançar-nos a dúvida’. Quantas vezes se sentiram, nestas e noutras situações tremendamente impotentes? Incrédulos até? A dúvida é uma ótima ‘arma’ para estes ‘senhores’, ainda por cima, quando ‘acompanhados’ de leis perfeitamente ‘desenhadas’ para que ninguém possa ‘sair delas’ (a não ser aqueles mesmos que as ‘desenharam’…). Chomsky chama-lhes “técnicas de disciplinamento, de doutrinamento e de controlo”, as quais ‘cortam’ o nosso contacto com os verdadeiros responsáveis, tal como se passa numa grande organização em que os trabalhadores/funcionários têm de ser disciplinados e obedientes, evitando que desempenhem qualquer papel na produção ou determinação do funcionamento da mesma, pois isso deverá ser responsabilidade exclusiva dos ‘executivos’.

Ainda não tive a oportunidade de afirmar, mas aproveito, agora, para deixar muito claro que as ‘ideias’ que procuro aqui expressar, a partir do pensamento de Noam Chomsky, não são, de modo algum, ideias de ‘esquerda’ (ou de qualquer outra ‘banda’). Basta lerem, por exemplo, John Stuart Mill, uma figura fundamental da tradição liberal clássica, e verão que ele já defendia que os postos de trabalho deviam ser geridos e controlados pelas pessoas que trabalham neles. A isso chama-se, simplesmente, liberdade e democracia (John Stuart Mill, “Principles of Political Economy”, 4: 7). Ou se, porventura, lerem John Dewey, um filósofo social do século XX, notarão que também ele não só defendia já uma educação direcionada para a independência criativa, mas também, por um controlo da indústria pelos próprios trabalhadores; aquilo a que ele chamava de “democracia industrial”. Já dizia Dewey em 1931, que enquanto as instituições cruciais da sociedade – produção, comércio, transportes, meios de comunicação, etc. – não estiverem debaixo do controle democrático, a “política será a sombra projetada no conjunto da sociedade por uma grande empresa” (John Dewey, “The Need for a New Party”). Esta ideia é, portanto, do mais elementar que possamos imaginar e tem raízes profundas já na história do liberalismo clássico.

Assim, penso que deveremos deixar-nos, de vez, de ‘divisões’ ideológicas e/ou partidárias e ‘deitar mãos’ ao trabalho, pois há muito para ‘refazer’ na nossa sociedade (país). Estamos ainda a tempo de contrariar a tentativa de assalto deste ‘modelo de negócio’ que nos querem impor, em todos os aspetos da nossa vida quotidiana (e nem vale a pena falarmos aqui na ‘próxima – eu diria já – privatização do ensino’, tal como aconteceu, ou tem vindo a acontecer com a Saúde).

Termino com mais um ‘falso’ conceito que nos têm vindo a lançar ultimamente. Não sei se já se aperceberam, mas falam-nos muito em ‘flexibilidade’. É talvez das palavras mais propaladas ultimamente no nosso país. Não é, também, por acaso…

É que parte da chamada ‘reforma laboral’ com que temos vindo a ser ‘bombardeados’, consiste, simplesmente, em tornar mais ‘flexível’ o trabalho, em facilitar a contratação e, sobretudo, o despedimento das pessoas. Ora, isto não é mais do que assegurar a maximização do benefício e do controlo. Supunha-se que a ‘flexibilização’ seria uma ‘coisa boa’, mas parece que não é mais do que uma ‘má tradução’ de maior insegurança para todos.

Se não vejamos: ‘falam-nos’ insistentemente, por exemplo, que o MEC tem de reduzir o número de docentes, face ao cada vez menor número de alunos que se verifica por esse país fora. Pergunto: Porque temos de aceitar esta estratégia de ‘insegurança’, com a ‘pressão’ constante sobre a redução do número horários/turmas em face da redução demográfica (real)? Não haverá, por acaso, outras formas de nos podermos ‘ajustar’ a esta variação demográfica, para além desta que nos querem impor à força?

É que, caros colegas, esta ideia de que o trabalho deve submeter-se às condições da ‘flexibilidade’, não é mais do que outra técnica corrente de controlo e dominação. Se não, porque não demitem/despedem também os quadros dirigentes/superiores (aqueles que estão ‘alapados’ ao poder e aos centros de decisão) se, também, para eles se verifica uma redução substancial de serviço/responsabilidades? Para que servem eles, num país que vê cada vez mais reduzida a sua ‘máquina administrativa’? Se o trabalho tem que ser ‘flexível’, porque não se passa o mesmo com a ‘gestão executiva’?

Pois, parece é que está na hora de nos livramos definitivamente destes inúmeros cargos inúteis que foram estrategicamente disseminados na hierarquia de poder. Mas não é por aqui que caminhamos, infelizmente. O que se observa, de facto, é que ‘são sempre os mesmos a sofrer’, a sentir a insegurança do dia de amanhã. É assim que se disciplina um país e torna obedientes os seus cidadãos, para que não questionem nada, nem exijam os seus direitos.

Caros colegas, ainda continuam ‘entorpecidos’, cansados, incrédulos com tudo o que se passa bem em frente aos nossos olhos e pensam que um ‘grande’ responsável no nosso país, ‘especialista’ em matemática, se iria enganar numa ‘formulazinha’ qualquer? Não, caros colegas, tudo foi muito bem pensado… Para que todos nós deixemos de fazer aquilo que nos ‘trouxe’ das cavernas até aqui – PENSAR pelas nossas próprias ‘cabeças’!!!

J. M.

… e acabou como se fosse artigo de opinião.

Paulo Guinote sobre o OE 2015. Devastador corte no ensino não superior

Aqui, as outras 11 opiniões.

A marmota educativa

 

Doutor Nuno Crato: DEMITA-SE!

Segundo creio, Nuno Crato será recordado pela História como um dos piores Ministros da Educação do pós-25 de Abril. Um Ministro que, contrariamente ao que seria expectável aquando da sua entronização, mostrou não ter qualquer tipo de ideia própria em relação à sua pasta, navegando pura e simplesmente aos encontrões, que é como quem diz às apalpadelas. A mais recente trapalhada com as colocações dos professores é apenas a ponta de icebergue de um académico de gabinete e antigo crítico encartado em assuntos educativos, que denota um total desconhecimento da realidade diária das escolas nacionais.

Garantiu Nuno Crato em pleno Parlamento (casa primordial da Democracia) que ninguém sairia prejudicado pelos erros verificados nas colocações (pelos quais, de resto, pediu mesmo desculpa). Eis as suas palavras: “onde houver e se houver alguma ultrapassagem de posições, essa situação será corrigida. Os professores colocados mantêm-se, os alunos não serão prejudicados. Depois da nova ordenação, eventuais duplicações serão avaliadas caso a caso. O objectivo é que ninguém seja prejudicado”. Porém, pouco depois, Nuno Crato ordenou a anulação das colocações obtidas no passado dia 12 de Setembro: uma ordem transmitida aos Directores das Escolas, sublinhe-se, com o objectivo de revogar um acto administrativo da autoria da Direcção-Geral da Administração Escolar! Na edição do Público de 9 de Setembro vinha a explicação do Ministro para tentar justificar o injustificável: “Eu disse mantêm-se. Não disse manter-se-ão” (p. 51)! A isto chama-se, sem eufemismos, Doutor Nuno Crato, mentir descaradamente e usar os subordinados para matar os elos mais fracos: professores contratados que leccionam há várias décadas, na mais absoluta precariedade laboral e sem qualquer tipo de esperança num futuro melhor. Frágeis elos que, afinal, reflectem a situação da grande maioria da população portuguesa na actualidade.

Na sua crítica da pedagogia romântica e construtivista (O “Eduquês” em discurso directo), Nuno Crato sustentou que “As mudanças devem ser graduais, experimentadas e avaliadas” (2011, p. 116). A sua governação, porém, como já sustentei, assemelha-se a alguém que navega sem qualquer tipo de orientação ou preparação prévia, senão vejamos…

Os programas escolares manifestam-se cada vez mais desadequados à faixa etária/maturidade intelectual dos alunos, mostrando-se igualmente pouco ou nada articulados entre os vários ciclos (v.g., essa de introduzir as “Homotetias” no programa de Matemática do 7.º ano não lembraria nem ao Diabo, isto para já não falar nas isometrias leccionadas no 1.º e 2.º ciclos ou na dantesca dose de gramática que inunda os manuais de Português! – e os exemplos poderiam prolongar-se quase até ao infinito…). A ideia central deste tipo de políticas ditas educativas parece querer passar por introduzir a universidade logo nas primeiras etapas escolares, procurando matar todo o tempo necessário para amadurecer ou consolidar o que quer que seja, desde logo, a capacidade crítica (depois, queixam-se que os alunos não têm bases: poderiam possuí-las, se nunca definimos o que é realmente prioritário em cada ciclo e raramente tivemos a preocupação de percepcionar as várias etapas do ensino como uma cadeia interligada?!). Será tudo isto intencional (um dos hábeis mecanismos dos novos “Estados Totalitários”) ou resultará pura e simplesmente da ignorância/improviso que nos comandam? Depois – prossigamos –, os programas (e a legislação) mudam a uma velocidade estonteante, havendo, neste momento, alunos dentro das salas de aula com dois manuais diferentes: os mais recentes já respeitam as novas “metas curriculares”. O que nós não ganharíamos se todos voltássemos pura e simplesmente a falar em conteúdos e deixássemos de lado essa dimensão romântica e esotérica que algumas correntes das Ciências da Educação e outras “psicologices” ditas modernas vieram acrescentar à utopia de um ensino estruturado nas tais competências, que alguns iluminados imaginam poder desligar-se dos conteúdos, do trabalho puro e duro, da memorização e, claro, do desgaste provocado pelo estudo. Sim, que ninguém se iluda: é preciso suar para aprender. O prazer vem depois.

A famosa Prova de Avaliação de Conhecimentos e Competências – uma das bandeiras deste Ministério – revelou-se um verdadeiro fiasco. Afinal, se querem avaliar os professores (e, já agora, porque não os docentes das Universidades privadas e demais Institutos Superiores, subindo, assim, a montante?), não faria mais sentido avaliá-los (já agora a todos) nas suas áreas específicas, em detrimento das várias charadas que marcaram as Provas já aplicadas? Um professor de História não deverá saber, sobretudo, de História? Um professor de Matemática não deverá saber, sobretudo, de Matemática? Ou isso são apenas pormenores? Não terá chegado o momento de investir, isso sim, na formação contínua (séria e rigorosa) dos docentes nas suas áreas específicas, premiando quem, de facto, continua a actualizar-se científica e pedagogicamente?

No decurso da última década, continuámos a investir em infra-estuturas, em recursos materiais, e voltámos a esquecer que o mais importante são os recursos humanos (Arnold Toynbee escreveu um dia que “é muito fácil construir igrejas; o que é difícil é meter Deus lá dentro”). O dia em que, efectivamente, se quiser contribuir para a melhoria do sucesso educativo em Portugal, desde logo em Matemática, no 3.º ciclo, pense-se em desdobrar as turmas, à semelhança do que sucede nas Ciências, e, de um modo mais geral, reduzir o número de alunos por turma…

Queiramos ou não, a Escola pública, com todos os seus defeitos, é uma das maiores conquistas do pós-25 de Abril em Portugal. Existem, porém, alguns indícios perturbadores, que parecem levar-me a pensar que o ensino cada vez mais elitista está irremediavelmente de regresso (terá este Governo em mente a efectiva destruição da Escola pública e o lançamento das bases para a sua privatização total?). Outrossim, a crescente tendência para dotar as Escolas de maior autonomia no que se refere à contratação de professores introduz uma variável extremamente perversa, que, afinal, significa o regresso em força da famosa cunha e, como tal, a destruição dos mais elementares princípios que presidem a uma sociedade dita democrática.

No passado dia 3 de Outubro, centenas de professores que já se encontravam a leccionar nas suas escolas (onde haviam sido colocados pelo Ministério da Educação) foram atirados para a rua, literalmente humilhados, enganados, ultrajados. Se o Ministério da Educação errou (tão só porque não compreende – ou não quer compreender – que existe uma lista nacional de ordenação dos candidatos que deve ser impreterivelmente respeitada, em detrimento desses manhosos critérios existentes nas ofertas de escola – repito, se o Ministério da Educação errou, o seu responsável máximo deve ter a verticalidade de assumir a falha e demitir-se de uma vez por todas (o que é diferente de colocar o lugar à disposição) –, atitude que, naturalmente, colocaria o nosso agonizante Primeiro-Ministro numa posição algo delicada, pois seria interessante perceber quem, para além dos boys, estaria neste momento disponível para substituir o Doutor Nuno Crato nesta recta final… Quanto aos professores, segundo penso, é evidente que a Escola e os alunos precisam, cada vez mais, do seu precioso trabalho. Se este Governo tivesse o mínimo de honestidade intelectual nenhum dos docentes demitidos no início do presente mês deveria ficar por colocar. Sugestão minha: os custos financeiros deveriam ser suportados por quem errou. Afinal, também não exigem à população portuguesa que continue a suportar os erros políticos que nos conduziram à tragédia? Haja vergonha.

Segundo penso, não existem as mínimas condições para que o Doutor Nuno Crato se mantenha no cargo que ocupa. Perdeu o respeito de quase todos. Demita-se… ou demitam-no. É um favor que se faz ao futuro do país. Ele já pertence ao passado; um profundo vazio cósmico – eis como o actual Ministro da Educação será recordado.

Renato Nunes

Pela extensão, fica em ficheiro: Os horários dos professores.

ISTO É QUE É DESCENTRALIZAÇÃO!

(Deslarga-nos, Mário Nogueira!)
 .
A fase do experimentalismo concursal do MEC que está a decorrer – esta que está a colocar, às resmas, um professor em diferentes escolas – deu-me uma grande, enorme!, ideia ultraliberal, daquelas para além das quais é difícil conceber mais liberdade de escolha e maior descentralização. Para não dizerem que os professores são uns corporativistas com medo da mudança, escondidos por debaixo do bigode protector do Mário Nogueira…
 .
A ideia – agarrem-se bem! – é esta: no lugar de haver apenas concursos de colocação de professores para todo o do ano lectivo e para a mesma escola, existiriam, isso sim, concursos mensais, para todos os professores interessados (os “quadros de escola” são um atavismo imobilista, um tique socialista!) e para todas as escolas.
 .
Procedimentos concursais mensais para todos os professores e para todas as escolas, isso mesmo! Isto é que é uma inovação genial!
 .
Duvidam? Então vejam lá a revolução libertária que isto permite no nosso sistema de ensino, que ficará ímpar entre todos, mesmos o que se julgam mais liberais ou descentralizados!
 .
Os professores experimentavam a escola durante um mês; se gostassem do lugar, podiam continuar por mais um mês, ou por mais tempo ainda, renovando então o seu contrato sucessivamente, mas, claro – somos libertários, mas não somos irresponsáveis! -, tendo também que esperar pela opinião da direcção da escola; se o lugar não lhes agradasse, concorriam a outro lado ao fim desse período de tempo.
As direcções, por sua vez, avaliavam o trabalho dos professores e, se aquele não agradasse, propunham-nos para o próximo procedimento concursal mensal.
 .
Liberdade de escolha para os professores e para os directores: ora aí está! E nem vestígios do centralismo estalinista que abafa e distorce o sistema.
 .
Podia haver até trocas entre escolas, coisas deste género: entre professores: “Colega, eu vou para o mês que vem para a sua escola e sei que você vem para a minha, diga-me lá se a casa que alugou é porreira, que eu cedia-lhe em troca a minha, que é muito jeitosa”. “Troco senhas do refeitório da minha escola com as do da escola para onde quero ir”.
.
Ou o director de uma escola para o seu colega de outra: “Ó João, temos aqui um professor de Ed. Física que puxa muito pelos garotos; não queres experimentar trocar com o teu, pode ser que aí o apreciem?”. As possibilidades são quase infinitas! Mais liberdade do que isto…
 .
Com uma vantagem suplementar não despicienda: os alunos, com este sistema, não se aborreciam por levarem sempre com os mesmos professores (“Eh pá, este mês temos uma nova stora de matemática, fiche!”; “Este gajo de história já chateia, vamos lá ver se nos mandam outro melhor!”). Haviam de ver como as aulas corriam melhor!
 .
A liberdade de escolher, a descentralização, são uma grande coisa!
 .
FARPAS

O desperdício humano das escolas contamina a democracia

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