Opiniões


Key For Schools, ou o eduquês facilitista da direita

 

Em coerência com um programa político globalmente baseado no “emagrecimento” do Estado e na inevitabilidade dos cortes da despesa pública, também na educação o actual governo desinvestiu fortemente na educação pública, alegando a necessidade de “fazer mais com menos” e dessa forma justificando o emagrecimento dos currículos e dos apoios educativos, o aumento do número de alunos por turma e a redução do número de professores, o encerramento de escolas e a política concentracionária dos mega-agrupamentos.

 Corolário de uma política educativa que, apesar de dar cada vez menos respostas às necessidades dos alunos e das comunidades educativas, continua a precisar de apresentar resultados, os exames surgem em lugar de destaque em toda a estratégia ministerial de promoção do sucesso educativo e de certificação da qualidade das aprendizagens. Os exames são o ovo de Colombo de Nuno Crato e dos seus acólitos, pois pressupõem que mesmo com turmas maiores, menos apoios, eventualmente maiores dificuldades a nível sócio-familiar, pois a situação económica e social das famílias se degradou perigosamente durante a vigência do actual governo, mesmo assim os alunos estudarão e aprenderão mais, apenas porque sabem que no final têm exames “rigorosos” e “exigentes” onde “só passa quem souber”…

 Pomposamente anunciado, desde o início do presente ano lectivo, o exame de Inglês Key For Schools, a aplicar aos alunos do 9º ano em parceria com um departamento da Universidade de Cambridge que certificará os resultados finais, é uma criação original deste governo, não seguindo qualquer dos modelos de avaliação externa usados nos últimos anos, como os exames nacionais de final de ciclo, as provas de aferição ou os testes intermédios. Por esse motivo, será um bom exemplo para avaliarmos o rigor, a exigência e a seriedade das políticas educativas, ou melhor, das políticas avaliativas, pois nisso se têm vindo a especializar, de uma forma ou de outra, os ministérios de educação desde 2005.

 Dando o devido desconto aos textos empolados e propagandísticos do IAVE e indo directamente à fonte original, constatamos que o teste internacional Key For Schools corresponde a um nível básico de qualificação que mostra que o estudante é capaz de usar o Inglês para comunicar em situações simples. Este teste corresponde, no Quadro Europeu Comum de Referência para línguas estrangeiras, ao nível A2, o que significa que, para obter aprovação, e segundo afirma a própria entidade certificadora, apenas se exige que o examinando seja capaz de entender e usar expressões básicas, apresentar-se e responder a perguntas simples sobre si mesmo, interagir com interlocutores que falem devagar e com clareza e escrever notas simples e curtas.

Será isto o que se deve exigir a um aluno do 9º ano, que estuda Inglês desde, pelo menos, o 5º ano de escolaridade? Uma questão que é pertinente para aferir do nível de exigência deste novo exame, da sua adequação ao público-alvo e da relevância dos seus resultados. E que tem uma resposta clara, se confrontarmos este projecto com uma outra criação do actual MEC, as Metas Curriculares de Inglês, que identificam claramente o nível A2 como meta a atingir pelos alunos do 7º ano de escolaridade. De acordo com este documento, já oficialmente homologado, no 9º ano o nível de proficiência linguística a alcançar pelos alunos é o B1, ao qual corresponde, no catálogo de exames da Cambridge English, não o Key, mas o Preliminary For Schools.

Aplicando aos alunos do 9º ano um exame que colegas seus do 7º ano deveriam ser capazes de fazer, o eduquês de direita do ministro Crato parece assim caminhar a bons passos na senda do sucesso educativo nada rigoroso, pouco sério e falho de exigência que tanto criticou aos seus antecessores. O facilitismo de baixar o nível de exigência para que as notas subam e as “boas políticas” pareçam dar frutos. Compreende-se, aproxima-se a recta final do mandato, está na altura de começar a apresentar bons resultados e a comprovar os sucessos da política educativa de fazer mais com menos. Ou de, em bom Português, fazer omeletes sem ovos…

 

António Duarte

Que políticas educativas são estas?

… e ao seu texto no Público de hoje, ao qual tive acesso há umas semanas numa versão um pouco mais longa, por gentileza do autor, deixo aqui a resposta que lhe enviei.

*

1) Nada tenho a obstar quanto ao princípio teórico da liberdade de escolha numa sociedade ideal ou em que as instituições funcionem e os índices de desigualdade económica e cultural sejam moderados.

2) Quanto à total liberdade para a criação de escolas, estou de acordo, desde que essa liberdade – em coerência – funcione em regime de mercado e não de subsidiodependência. Uma escola não deve ser criada a pensar no contrato que pode fazer com o Estado.

3) A questão da “concorrência potencial” levanta-me muitas reservas, pois é um artifício intelectual que tem escassa substância. Sim, é verdade que a “possibilidade” de concorrência pode alterar práticas, mas só quando essa possibilidade é credível e mesmo assim, nada indica que essa pressão tenha verdadeiros efeitos em muitas práticas.

4) A flexibilidade e autonomia curricular devem aumentar no Ensino Secundário e ser moderadas no Ensino Básico, devendo a aposta ser actividades extra-curriculares e não na amputação de uma formação geral de base. Essa autonomia deve ser criada a parte da comunidade educativa e não da direcção (administrativa ou pedagógica).

5) A ausência de propinas deve ser combinada com a ausência de encargos-extra, como sejam serviços adicionais que se prestam em troca de pagamento e levam a diferenciações no acesso ou usufruto do serviço educativo (transportes, as tais actividades extra-curriculares, uniformes, materiais).

6) De acordo com o sorteio.

7) O acesso à escola para todos tem implicações práticas muito concretas que só se conseguem se existir uma rede planeada e não apenas dependente das “leis do mercado”. Porque há situações em que a necessidade de deslocação dos alunos é um factor de perturbação e desigualdade de oportunidades.

8) Sou 200% a favor da produção de informação idónea e em igualdade de circunstâncias entre todas as escolas, seja acerca das características do corpo docente, como da remuneração das administrações e direcções, as características das famílias, dos alunos, etc, etc.

9) Sem uma regulação central isenta e em que os seus agentes não sejam pressionáveis ou aliciáveis para funções posteriores em grupos de escolas ou escolas nada disto funciona. É essencial um período efectivo de nojo entre o desempenho de funções públicas e privadas, ou entre funções políticas e desempenho de actividades profissionais ligadas à área de acção governativa em que se tomaram decisões.

10) A gestão privada de escolas com dinheiros públicos não deve ser feita com base no princípio estrito da “eficácia económica” e da redistribuição dos lucros eventualmente gerados.

 

desta visão catastrofista das escolas que o Carlos Fiolhais transmite, pois fui aluno e também professor em períodos em que elas eram muito, mas muito mais, caóticas.

Percebo que quem não foi aluno ou professor na segunda metade dos anos 70 e boa parte dos anos 80, em especial em escolas para as massas, considere que agora tudo parece estar à beira do colapso.

Mas, por muitas críticas que eu tenha a fazer e muita coisa que ache estar mal (a começar pela imagem que algumas escolas deixam transmitir mesmo antes do portão), ainda estou distante deste olhar apocalíptico.

Texto recebido para divulgação e que, pela sua extensão, incluo como anexo: PRAXE – LRTorgal.

Via Hugo’s Peep Box:

Interview with Álvaro Siza Vieira – What’s a “good student”?

Interview with António Câmara – Creativity vs. Literacy (Part 1)

 

A Escola ainda tem futuro?

Onde está o futuro da Escola? Está nos jovens, nas crianças e nos pais que todos os dias a procuram; na população adulta que quer saber mais; nos desajustados que desejam ser reconvertidos; nos arrependidos que cobiçam reiniciar um novo ciclo da sua vida; nos que não tiveram oportunidade (porque a vida também sabe ser madrasta) e agora buscam o alimento do sucesso; na sociedade e no Estado que já não sabem (e não podem…) viver sem ela e, sobretudo, pressente-se nos professores e educadores que são a alma, o sal e o sangue de que se faz todos os dias essa grande construção colectiva.

A Escola é uma organização muito complexa…É paixão e movimento perpétuo. É atracção e remorso. É liberdade e prisão de sentimentos contraditórios. É mescla de angústias e espontâneas euforias. É confluência e rejeição. É orgulho e acanhamento. É todos e ninguém. É nome e chamamento. É hoje um dar e amanhã um rogar. É promoção e igualdade. É mérito e inveja. É jogo e trabalho. É esforço, suor e emancipação. É convicção e espontaneidade. É responsabilidade e comprometimento com todos os futuros. É passado e é presente. É a chave que abre todas as portas das oportunidades perdidas. É acolhimento, aconchego, colo e terapia. É a estrada do êxito, mas também um percurso inacabado, que nos obriga a voltar lá sempre, num fluxo de eterno retorno.

Porém, também acontece muitas vezes ser o pião das nicas, o bombo da festa, o bode expiatório, sempre e quando aos governos dá o jeito, ou lhes apetece.

Sobre a Escola, há governantes que aprenderam a mentir: sabem que ainda não foi inventada qualquer instituição que a possa substituir. Sabem ainda que os professores são os grandes construtores de todos os amanhãs. E, por isso, têm medo. Medo, porque a Escola é das poucas organizações que todos os governantes conhecem bem.

Habituaram-se a observá-la por dentro, desde a mais tenra idade. E, por essa razão, sabem-lhe o poder e a fatalidade de não ser dispensável, silenciável, transferível, aposentável, exonerável ou extinguível. Então, dizíamos, têm medo e, sobre ela, mentem.

Mentem sobre a Escola e sobre os professores. Todos os dias lhes exigem mais e dizem que fazem menos. E não é verdade.

Em relação à Escola e aos professores, a toda a hora o Estado, a sociedade e as famílias se descartam e para aí passam cada vez mais responsabilidades que não são capazes (ou por comodismo não querem…) assumir. Hoje, a Escola obriga-se a prevenir a toxicodependência, a educar para a cidadania, a formar para o empreendedorismo, a promover uma cultura ecológica e de defesa do meio ambiente, a motivar para a prevenção rodoviária, a transmitir princípios de educação sexual, a desenvolver hábitos alimentares saudáveis, a prevenir a Sida e outras doenças sexualmente transmissíveis, a utilizar as novas tecnologias da comunicação e da informação, a combater a violência, o racismo e o belicismo, a reconhecer as vantagens do multiculturalismo, a impregnar os jovens de valores socialmente relevantes, a prepará-los para enfrentarem com sucesso a globalização e a sociedade do conhecimento, e sabe-se lá mais o quê…

Acham pouco? Então tentem fazer mais e melhor… E, sobretudo, não coloquem a auto estima dos professores abaixo dos tornozelos com a divulgação pública de suspeitas infundadas e eticamente inadmissíveis.

É que não há Escola contra a Escola. Não há progresso que se trilhe contra os profissionais da educação. Não há políticas educativas sérias a gosto de birras e conjunturas que alimentam os egos pessoais de alguns governantes. Não há medidas que tenham futuro se não galvanizarem na sua aplicação os principais agentes das mudanças educativas: os educadores e os professores.

O futuro da Escola está para lá das pequenas mediocridades e dos tiques de arrogância que algumas circunstâncias sustentam.

A Escola não é um bem descartável, a gosto de modas e de pseudo conveniências financeiras e orçamentais. A Escola vale muito mais que tudo isso. Vale bem mais do que aqueles que a atacam. Vale por mérito próprio, por serviço ininterruptamente prestado, socialmente avaliado e geracionalmente validado. Por tudo isso, a Escola tem muito e indiscutível futuro.

João Ruivo
ruivo@rvj.pt

“Não há nenhuma escola no mundo sem bullying

E quantas vezes ele é perversamente dissimulado, insidioso, desgastante, cruel.

… o artigo do director executivo da AEEP, desculpem, do docente universitário Rodrigo Queiroz e Mello sobre a liberdade de escolha num novo naipe de países-farol, agora que se esgotaram os habituais.

(o caso do Chile chega a ser caricato, para quem conhece os últimos balanços da experiência desreguladora…)

Colar citações de gente “de esquerda” (até o pobre Gramsci é desenterrado da forma mais descontextualizada possível) não chega para encobrir que o que está em causa não é uma oposição direita/esquerda mas uma disputa em torno do que se pretende transformar em mero negócio.

Factos? Zero, porque a fundamentação empírica nunca existiu ou ruiu. Juízos de valor? O habitual em quem quer colocar-se numa posição de vantagem “filosófica” com pés de barro.

Fraquinho, muito fraquinho para um docente universitário.

Mas natural para o director executivo da AEEP (associação de Estabelecimento de Ensino Particular E Cooperativo).

Exp8Mar14

Expresso, 8 de Março de 2014

As praxes e a liberdade individual

O argumento mais forte que tem sido: a pessoa, num acto de liberdade, decide ser praxada, podia ter dito que não queria e não disse; a pessoa num acto de liberdade decide praxar, integrar uma organização, submeter-se a um código, cumprir ordens de um “ditador”, andar com sapatos rotos até ao indescritível, remendados com fita adesiva preta (a cena dos sapatos que uma jovem da Lusófona mostrou na televisão, e a justificação dada para esta e outras coisas: “são parte de mim, da minha história…”, mostra, à evidência, não apenas o absurdo, mas também a perigosidade do que aqui está em causa). Que valores são estes? Em nome de quê?

Também, o reitor dessa universidade usou o argumento da liberdade: “vamos lá proibir! É lá isso possível! A liberdade é um valor intocável, no tempo do fascismo e das ditaduras é que se proibia a expressão da liberdade…”

Então, em nenhum momento, cai o argumento da liberdade individual? Não cai, quando estes jovens estão submetidos à mais pura das hierarquias? Não cai, quando se expõem fragilidades, lavam mentes, exploram sentimentos, humilham pessoas, violam direitos…?

Claro que cai, claro que se violam direitos. Aliás, a praxe é em si mesma a violação de uma liberdade. Ao colocar-se o praxado numa situação de absoluta incapacidade de fazer ou de dizer o quer que seja, a não ser o que o lhe é exigido, quebra-se a reciprocidade eu-tu, há, desde o início, uma liberdade anulada, por isso, a humilhação pode estar a uma curta distância, não apenas nas praxes violentas, mas nas coisas mais inócuas, do ponto de vista dos danos físicos.

Relacionado com isto, discute-se a dificuldade em saber onde está a fronteira entre o aceitável e o não aceitável, pois o que para uns é humilhante e susceptível de ferir a sua dignidade, para outros é uma brincadeira, e portanto ninguém está em condições de determinar o que é ou não uma prática indigna.

Isto é certo. Ninguém pode falar sobre a dignidade de ninguém, por ser um valor intrínseco à própria pessoa, mas cada um sabe onde está o limite que, uma vez ultrapassado, deixa marcas, no mais profundo de si; portanto, ninguém pode pôr em causa a sua dignidade ou deixar que outros a ponham.

Acabamos de assistir a isto: pensaram (podiam) os jovens que morreram no Meco recusar-se a ir à praia nessa noite de temporal no mar? O que os impossibilitava de tomar uma atitude? Por que perderam a autonomia, por que perderam a vontade própria? É por isso que as praxes são uma indignidade e não apenas nas situações limite, como esta; são-no sempre, porque se trata de algo que é da sua própria natureza.

Maria Rosa Afonso

… desde que se abandonem os acantonamentos. Seja os ideológicos, seja os dos interesses. Porque se todos afirmam defender quem mais precisa, nem todos estão de acordo com o facto de isso se tornar um negócio.

Liberdade

Mais liberdade na saúde, menos na educação, defende António Barreto

(…)

Barreto entende que é necessário “anular todas as cláusulas que dizem como o Governo deve fazer” e tornar a Constituição mais simples para, depois, no plano político, ser possível ter mais liberdade de opção. E é no plano político e não constitucional que defende a manutenção de um sistema de saúde público, mas com maior liberdade de recurso ao privado, de contratualização com o privado.

Ainda no campo da política de saúde, o sociólogo defende o fim da acumulação entre medicina pública e privada, para acabar com a promiscuidade.

Pelo contrário, na educação, o presidente da fundação Francisco Manuel dos Santos admite a liberdade de escolha, mas sem que o Estado pague a privados. “Quem quer fazer educação privada que a pague. O Estado não deve pagar cheques ensino não deve estar a subvencionar as escolas privadas, como faz actualmente. O Estado gasta milhões e milhões nisso, nas escolas privadas e acho que não o deve fazer”, afirma António Barreto.

Agora com o texto completo disponível de que destacarei três nacos.

O primeiro não me choca especialmente e penso mesmo ser uma forma correcta de abordar a questão da opção pelo ensino privado:

DJ26fev14

Quanto à prova de ingresso, não aceito a teoria do mal menor.  Aceito a validade do período probatório, embora não para gente com 15 anos de exercício da carreira.

DJ26fev14b

Por fim… o essencial… querendo os melhores há que tornar a profissão atractiva e não repulsiva. Neste momento, tornou-se repulsiva para muitos dos melhores. E esse é o grande problema.

DJ26fev14c

Diário Económico, 26 de Fevereiro de 2014

Inclusão: um Direito Humano Emergente

Antigo ministro David Justino considera que se deve apostar nos cursos profissionais, mas tendo em conta estudos prévios de viabilidade.

… segundo Marçal Grilo. Embora ao longo da entrevista, feita pela tia Avillez que apesar de pouco perceber de Educação não se coíbe de revelar alguns dos seus preconceitos pessoais nas perguntas, surjam algumas coisas com que discordo claramente (desde logo, a fixação com o sistema de colocação de professores, que eu acho um problema acessório, e com a “autonomia”, que me parece encarada de uma forma difusa e desatenta), há outras muito interessantes, desde logo as que o separam daqueles que dão menos importância ao pré-escolar e a uma visão integrada da Educação.

PubRev16Fev14

Público – 2 (Revista), 16 de Fevereiro de 2014

As rifas do fisco e a governação rasca

Os grandes evasores fiscais são as grandes empresas e não os pequenos comerciantes.

Suspeitas sobre os colégios do grupo de ensino GPS

“No limite da dor” 40 anos depois

 

Sábado, 1 de Fevereiro, 9h30. Em trânsito, ligo a Antena 1 e sou surpreendida pelo programa “No limite da dor” de Ana Aranha tendo como interlocutor o padre Luís Moita, que recorda os seus tempos de preso político, sujeito a intermináveis torturas físicas e psicológicas e a meses de isolamento em terríveis circunstâncias, em que nem direito havia a ter papel e caneta, um jornal, fosse o que fosse.

As suas palavras atingem-me como um murro no estômago. De repente, a mente faz a ponte para os últimos acontecimentos relacionados com os fenómenos de bulling  e de praxe universitária em Portugal. A violência parece ter-se instalado na Escola, com contornos perversos, e quase com um perfil de inevitabilidade, agora também entre jovens adultos.

A palavra tortura ganha todo o seu sentido nas palavras graves de Luís Moita: ”O prazer em fazer mal ao nosso semelhante é dos maiores enigmas da condição humana”.

Promover a indignidade humana a tradição que (aparentemente) não se pode abandonar ou proibir, parece-me um péssimo sinal de futuro.

A tortura não é um jogo, não é um ritual de passagem ou de crescimento, não pode converter-se em estratégia para qualquer pretensa subida hierárquica num edifício repleto de vazio e de inconsistência. É assustador constatar a existência de fenómenos vindos de uma geração que não só se dispõe a aceitar, como a procurar, experiências de subserviência cega e acrítica ao ponto de se deixar morrer… por nada!

O que terá falhado na passagem do testemunho da geração da revolução para os seus afortunados filhos nascidos em liberdade? O que parece ter ficado esquecido foi, afinal, o fundamental: noções básicas de direitos humanos, capacidade crítica, o dever/direito de recusar a injustiça.

Que desilusão devem sentir todos aqueles que, como Luís Moita, lutaram por valores que os jovens de hoje, de ânimo leve, desprezam!

De súbito, surge-me a ideia desconfortável de que esta geração aguarda apenas que um líder mais carismático e persuasivo nos atire a todos de novo para uma ditadura. E quem sabe se, nesta imagem de ficção (?), não serão os mesmos lutadores de Abril que se levantarão para dizer: NÃO!

Helena Martinho

Educadora de Infância

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