Identidade e pertenças

“Eu sou Charlie, judia, muçulmana, cristã, hindu…”, ouvimos, por estes dias, reclamando, simbolicamente, pertenças comuns. Percebemos bem o que está em causa, mas convém ter presente a complexidade do que significa partilhar valores e construir identidades.

Pode acontecer que, amanhã, tudo continue como até aqui, quem não cumprimentava o vizinho da frente ou fechava a porta à diferença, continue a fazer mesmo; e os que acreditavam na abertura e no diálogo entre as diferentes comunidades e culturas continuem a construir passagens e a promover encontros.

Somos quem? O que nos identifica como seres humanos? O que partilhamos com outras pessoas? O que preservamos em redutos privados, inacessíveis para os outros, mas decisivos para nós?

Somos seres humanos, livres e iguais. Temos uma identidade legal que nos confere direitos e deveres de cidadania, na sociedade a que pertencemos, mas que não esgota o que somos. Temos outras pertenças, de natureza cultural, religiosa, ideológica, profissional, desportiva…, com influência distinta naquilo que cada um é e escolhe ser, onde aspetos de sentimento e de emoção ganham relevo.

Pertenças que configuram uma identidade pessoal múltipla, umas vezes, em equilíbrio e harmonia, outras vezes, em desequilíbrio e desarmonia, podendo levar a relativismos ou a radicalismos vários, com desintegrações, desfiliações, novas filiações…Ou seja, parece existir, naquilo que somos, uma instabilidade permanente, entre o individuo e o cidadão, entre o espaço público e o privado, entre as diferentes escolhas de realização pessoal e as leis dos Estados.

Assim, o ponto não é saber como anular as tensões individuais e coletivas, elas são da ordem do facto; o ponto é saber como tornar possível a convivência, entre os indivíduos e os diferentes grupos de pertença, em sociedades organizadas, livres e democráticas, onde há valores que não podemos alienar. A questão continua a ser de abertura e diálogo, mas requer compromissos políticos sérios, a diferentes níveis e instâncias, para que todos se sintam parte e participantes.

Maria Rosa Afonso