Olá Paulo!
Desculpa dirigir-me a ti, mas estou a ser alvo de perseguição por parte da direcção da escola onde lecciono há 23 anos.
A maldade desta direcção e de alguns professores não conhece limites.
Tenho um documento escrito onde conto tudo, mas tenho medo. Depois de me dares uma resposta eu mando-te o documento e tu lês e se vires que podes publicar, óptimo, porque de certeza que há mais colegas na mesma situação.
(…)

Depois de leres toda a informação em anexo peço-te o seguinte:

1º retira todos os nomes que possam de alguma forma identificar a situação, muda o nome da escola e até a localização.

2º de estar tudo mudado e antes de publicares gostaria que me mandasses para ver como fica.

3º Gostaria que me desses a tua opinião pessoal sobre este assunto e já agora alguns conselho.

Obrigada e um grande abraço.

PARTICIPAÇÃO DISCIPLINAR

No dia 26 de Outubro de 2012, as alunas nºs 1 e 12, A e J, respectivamente, da turma 7º 3, tiveram um comportamento muito indisciplinado na aula de (…)  como a seguir se descreve:

A aluna nº 1, A. estava à porta da sala de aula, isto é, não entrava nem deixava entrar ninguém, nem deixava fechar a porta. Disse-lhe com toda a calma para a aluna entrar na sala de aula. A aluna em tom de gozo respondeu-me “calma…. Tenha calma…“ e continuava na mesma… Passado este incidente (o primeiro), a aluna sentou-se e como de costume não estava na disposição de trabalhar, mas isso era o menos, desde que não perturbasse. A aluna foi repreendida quando estava com os telemóveis e recusou-se a entrega-los quando lhos pedi. Como medida preventiva pedi que fosse para o GPS com o trabalho para realizar. A aluna recusou ir para o GPS e disse “ não vou, tu não mandas em mim”. Mais uma vez lhe disse que não permitia que me tratasse desse modo. No entanto a aluna continuou perturbando a aula já de si conturbada pelo barulho insuportável dos alunos. Estávamos quase no final do primeiro tempo quando entrou a J., nº 12. Disse-lhe que tinha falta ao primeiro tempo e foi sentar-se ao lado da A.

A J. poucos minutos depois de estar na aula levantou-se e foi bater com uma régua, no aluno nº 5, A.M. A aluna, nº 14, L., foi separá-los e eu dirigi-me aos alunos e também os separei, retirei a régua da mão da .J. e disse-lhe para se sentar. A aluna J. virou-se para mim com ar ameaçador e de dedo em riste dizendo “ tu não me bates ouviste, olha que eu dou-te…” Defendi-me como pude, até que a A. também me ameaçou dizendo que me batia. Mandei as duas alunas sair da aula e disse-lhes que tinham falta disciplinar. A A. mais uma vez recusou sair da aula, eu fui até à porta da sala de aula e chamei a Auxiliar de Acção Educativa,  já fora da sala pegaram-se as duas a mim, A. e J. É claro que me defendi. Quando já estavam a sair da sala de aula as alunas proferiram várias ameaças, incluindo a outros alunos, a A. proferiu vários palavrões. Assistiram a este triste acontecimento as professoras R., S. e A.

As alunas da professora R. vieram ter comigo e ofereceram ajuda e disseram que podia contar com elas. Não sei quem, são, não as conheço, mas ainda assim apreciei a colaboração destas alunas…

Não foi a primeira vez que estas alunas desobedeceram. Para agravar nunca trazem material e destabilizam a aula. Não é a primeira vez que estes alunos fazem isto. Já na semana anterior tiveram um comportamento semelhante.

Entendo que estes alunos devem levar um valente correctivo, pois para além de me faltarem ao respeito também prejudicaram os alunos que queriam trabalhar.

[...], 26 de Outubro de 2012

AS CONSEQUÊNCIAS…

Passavam alguns minutos de eu ter feito a participação, quando o vice-director me mandou chamar e disse que estes acontecimentos e na sequência da participação disciplinar, davam como penalização suspensão imediata para as alunas. De seguida dirigi-me para a sala de estudo e passados alguns minutos, uma funcionária chamou-me dizendo que a diretora queria falar comigo.

Dirigi-me ao conselho diretivo e a directora dirigiu-se a mim com ar insultuoso como se eu tivesse cometido um crime.

- Tu viste os que fizeste às alunas dentro da sala de aula!? Tu bateste nas alunas e não podias fazer isso! Sim, já li a participação que fizeste mas todos os alunos negam o que lá escreveste e dizem que tu bateste nas alunas, que lhes deste com a régua. Tenho que te mover um processo disciplinar.

Fiquei boquiaberta e disse-lhe que era falso o que os alunos afirmavam pois tal não se passou como eles dizem, mas como eu descrevi na participação que fiz. Então tu achas (disse a directora) que todos os alunos iriam mentir? Não, o melhor é admitires que bateste nas alunas. Mais uma vez, disse à sra.  Directora que não podia admitir uma coisa que não fiz. Sabes, continuou, as alunas vão fazer queixa de ti à polícia e eu tenho que te mover um processo disciplinar e mandar para a inspecção. Então eu disse, eu também vou à polícia pois fui agredida e isso constitui um crime público.

Sai da direcção e fui direita ao meu carro e de lá telefonei para o sindicato para me aconselhar. Do sindicato responderam-me que infelizmente o MEC dá razão aos directores da escola, mas que podia ir à polícia e ao médico como acabei por fazer.

Depois de marcar consulta para a clínica Cuf Alvalade, dirigi-me à directora e disse-lhe que não dava a aula à última turma porque não me sentia bem e portanto ia ao médico. Ela até me disse que eu devia meter atestado, ao que eu respondi que apenas ia à consulta, mas se o médico entendesse que eu devia meter atestado, então eu talvez considerasse essa hipótese.

Quando vim do médico fui à polícia do [...] e fiz queixa das alunas, porém eu não levava elementos suficientes e a queixa ficou pendente, para eu na 3ª feira seguinte levar o resto dos elementos. Mesmo assim fiquei a saber que tais alunas já eram conhecidas da polícia…

Na segunda feira seguinte dia 29 de Outubro, estava eu na sala de estudo quando fui chamada à direcção. Desta vez fui apertada pelos três elementos do conselho directivo. Primeiro a directora dizendo que eu devia pensar melhor no que tinha feito senão iria enfrentar consequências muito graves, pois ela (directora) estava muito incomodada com o sucedido e não queria elaborar um processo disciplinar contra mim e que era melhor eu admitir a agressão às alunas, etc ….

Depois foi a vez da professora que está com o pelouro dos alunos, dizer que eu com certeza me passei e não reparei e devo ter batido nas alunas e não me lembro e que era melhor eu admitir pois ninguém da direcção me quer prejudicar e que a directora está numa posição difícil, etc….

Por fim foi a vez do vice-director que se dirigiu a mim e disse. “Sabes, eu fui falar com a turma e todos eles afirmam que tu bateste nas alunas, portanto todos os alunos foram chamados um por um, não tiveram tempo de confirmar nada. Era melhor admitires que bateste nos alunos”. Mais uma vez lhe disse que não podia admitir uma coisa que não fiz. Então o vice-director disse-me que eu devia repensar o modo como dava aulas (dou aulas há 30 anos). Então a estratégia dele era a seguinte: eu criava uma ficha de auto avaliação e em todas as aulas distribuía aos alunos para eles dizem o que tinham feito e também analisarem o seu comportamento. Perguntei ao ilustre vice-director qual era a didáctica da disciplina dele, uma vez que é de Filosofia. Então eu disse-lhe a minha disciplina é bem diferente e a didáctica é o saber fazer, mas para o fazer também é preciso pensar. Além disso tenho o registo de todas as actividades que os alunos realizam, bem como a análise do comportamento de cada um. Aqui o que está em causa é o comportamento indisciplinado da turma e não a minha estratégia de dar aulas.

Posto isto, eu disse que tinha uma consulta marcada para o psicólogo e sai para ir à consulta. Quando cheguei ao consultório de contei ao psicólogo o motivo da consulta ele nem queria acreditar, não fazia ideia que estas coisas se passavam nas escolas. Depois disse-me que estava a fazer o doutoramento em Ciências da Educação, na área das NEE, (…).

Na terça feira seguinte, dia 30 de Outubro, fui novamente chamada à direcção e mais uma  vez, os três elementos da direção me apertaram para eu confessar o crime de ter espancado as alunas dentro da sala de aula. Mais uma vez lhes disse que não podia admitir o que não fiz. Então a senhora directora disse: foste à polícia e não me disseste nada. Eu respondi que na primeira reunião que tive com ela (dia 26 de Outubro) lhe disse que ia à polícia. Então ela disse que a polícia tinha lá estado no dia anterior (2ª feira dia 29) e tinha falado com as alunas. Sinceramente fiquei surpreendida pois não contava que a polícia lá fosse. A directora aconselhou-me a retirar a queixa pois se eu continuasse com a queixa eu ia ter muitos problemas. Não me amedrontei e perguntei: problemas para quem? Para mim ou para vocês? Para ti claro! Tu nem imaginas as consequências que podes ter.

O vice-director disse então. Nós temos que matar este assunto e é já, temos que engolir um elefante com tromba e tudo. É que eu fui de novo à turma e disse para eles escreverem o que presenciaram na aula e a maior parte disse que tu bateste nas alunas. Alguns disseram que já não se lembravam, portanto se tu não admites temos que matar o assunto por aqui.

Mais uma vez a directora disse : “tu devias estar enervada e com a régua empurraste a aluna e ela diz que tu lhe bateste, olha eu se calhar fazia isso”. Pois, disse eu, mas eu não fiz isso, não toquei na aluna dentro da aula. Cá fora foi diferente, conforme já descrevi na participação, porque eu não sou nenhum saco de pancada.

A professora com o pelouro dos alunos disse. –  É melhor tu admitires que te passaste e estavas alterada e nem deste conta que bateste na aluna.

- Isso não se passou assim, disse eu. Tudo se passou conforme a participação que fiz, agora se preferem acreditar numa turma inteira que está a mentir e porem em causa a minha palavra, não posso fazer nada, mas a minha consciência está tranquila.

Passados alguns instantes de reflexão por parte dos elementos da direcção, estes acordaram que era melhor retirar-me a turma, mas eu não concordei. Então disse a diretora é melhor meteres atestado do que ires já enfrentar a turma, e eu vou ver quem está na sala de estudo a essa hora para teres um professor sempre que tens essa turma. Eu disse que não temia a turma, e que sim podia arranjar um colega de preferência de EV. Havia ainda um problema, que explicação dar aos professores que faziam perguntas sobre o que sucedeu às alunas? E que explicação dar às alunas sobre o que sucedeu à professora?. A direcção encontrou a resposta e sempre que alguém perguntar sobre este assunto, a resposta é “ a direcção está a resolver”. Outra recomendação que a direcção me deu foi “estás proibida de falar neste assunto a quem quer que seja, dentro da escola”- Nos dias seguintes fui abordada por vários colegas que estão solidários comigo nesta causa e eu só pude responder “estou proibida de falar neste assunto”.

Não querendo prejudicar as outras turmas e por ser cedo demais, eu, (dia 2 de Novembro) iria a uma consulta que por acaso já estava marcada, mas só na hora da referida turma pois não podia prejudicar as restantes turmas. Assim, fui à consulta, depois regressei à escola para dar a última aula.

Não falei com ninguém sobre este assunto dentro da escola. No dia 13 de Novembro, estava na sala de professores, quando uma colega de matemática abordou o director de turma e disse-lhe que eu ia ter coadjuvância. Eu disse que coadjuvância era da mesma disciplina. Ora eu sendo de ET e a colega que ia para a aula comigo era de português, isto é coadjuvância onde? É sim, disse a colega, eu também já fiz coadjuvância. Não me contive e respondi.- Mas fez à sua disciplina que é de matemática não foi? Ora aqui o que está em causa sou eu e a minha palavra e a presença da colega é apenas a de observar o que se passa e confirmar se o que eu digo é ou não verdade, é a confrontação da minha pessoa. Não me faz diferença que a colega lá esteja, mas sim o motivo porque lá está.

Estas palavras foram trocadas por mim e pela colega de matemática e pelo director de turma (na sala de professores), no dia 13 de Novembro. No dia 14 foi a greve e no dia 15 de Novembro, enfrento pela primeira vez (após o incidente) a dita turma. É claro que tive a presença da colega de português.

Adoptei uma nova estratégia e comecei por mudar os lugares dos alunos de acordo com o comportamento e aproveitamento. E obviamente as alunas que foram responsáveis por toda esta situação estavam lá na aula, na maior, como se nada se tivesse passado.

Engoli um sapo e dei a aula, pensando apenas que aquele era o meu trabalho e único meio de subsistência que tenho.

Não tardaram 15 minutos depois de ter terminado a aula, a directora dirigiu-se a mim e disse-me que já sabia que a aula tinha corrido bem, mas também tinha algo para me dizer. O recado foi: “não andes a alimentar confusões pois houve muito mais coisas e graves  na aula”, portanto fica calada porque foste dizer que coadujvância era da mesma disciplina e não é. E quanto à colega ser mais nova não tem nada a ver.

Bom, eu sou professora na escola há 23 anos, esta colega entrou lá pela 1ª vez este ano. Não tenho nada contra a professora, mas é estranho ser observada por alguém que não é da mesma área, tem muito menos tempo de serviço e está naquela escola pela 1ª vez. Se isto não é achincalhar é o quê?

S.

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