privatização d’«As Três Primaveras»

nunca mais é amanhã

Realidade

Os factos
são o espelho as coisas mostram-
-se atravessadas pelos rios
do som A poesia
quebra o vidro do dia como duma
cratera a voz do fogo lança
os jactos

[Gastão Cruz]

Fim de semana

O tempo se faz…
Se fizer é falta…
Sufoca até que mata…
Mata até que sua falta me refaz…

Um dia é melhor…
Melhor quem se importa…
Quem se importa, o meu caminho é uma vida torta…
Torta uma vida não é o pior…
Pior é quem me julga…
Julga quem tem o fardo pesado…
Fardo pesado jamais vive sossegado…
Sossegado eu, minha vida torta, sossego eu com muita folga…

Folga hoje para amanha animar…
Animar para o fim de semana…
Fim de semana não é o fim, mas o inicio de outra semana…
Outra semana cheia para desanimar…
Desanimar para que, vida torta, semana toda…
Toda semana quem se importa no fim…
Fim é tudo circulo vicioso no fim…
O fim de uma semana, para ficar murmurando uma outra semana…

 [David Slobodticov Júnior]

medo pasmado que respira dolências enfeitadas por esta esperança de ser uno estarmos vivos nesta casa sossegada leva-nos adiante destas paredes agora insisto nos todos olhos distraídos subtis presenças que só atrapalham a forma de ser neste inútil tempo quase esgotado paira a câmara da voz por achar é surpreendente a cor dos dias começados alista-se ao vento que não conhece nada como se se soubesse das horas sem motivo levadas dentro de uma infusa rara se recordares o medo que existe dos poetas

estas palavras dizem tudo quase tudo
chocalham com as palavras que nada dizem
e dizem tudo

todos os poetas mortos dizem tudo
analisados irão sem as palavras está provado
ó cambada de imbecis que nem as palavras são mudas
mesmo as da gramática

donzela fica
leda e depravada

um dia eu virei rapinar as sementes

passei sempre por esta rua por acaso regressando a casa
esta rua de pó de papel envolta em fio de assar
uma duas muitas vezes sempre a passar por esta rua
um cais afundado

um dia eu virei pelas sementes para as misturar neste lodo
com outra terra

Às quatro e dez, vá…

vi uma nova janela semelhante a um círculo
que era um arquivo do sol claramente extremo
um metal encontrado sem sal dentro da sua diferença
girará ou deambulará por aberturas trementes
ou ilustra o seu tamanho várias vezes
consolo-me com isto branco e tosco às vezes
outras olho os recuos de fechar o movimento
da arte de edificar uma figura radiante

não há o bálsamo dispersado nas perturbadoras vigílias
que fosse pousado na infinidade surda do lugar
da noite decorrida impura apenas muito longe
 
eu sei
 
ouvir o som do retinir de qualquer cristal fracturado
onde se elevam os dormires dos mundos difíceis
nas visões que não haveremos de beber ou observar
 
os púrpuras incisivos e as outras cores que circulam lentamente
referem-se só à origem do poema desde o seu único início

esta contorção da realidade nos corpos da manhã indivisa
nas ruas sem casas e nas casas também sem portas vulgares
pelo excesso de ventre entre as brumas ácidas ou eu sei lá
e o avesso do sol deambulando e proferindo espécies de sombras

estudar uma nova forma de densidade pouco localizada
talvez ouvir o fumo desmaiado pela cidade em vias sequiosas
arrastam-se ainda as elásticas e misteriosas sirenes ambidextras
por nas bibliotecas se soprar a indústria chamada tempo deslocado

inventar esta causalidade de vidro parece ser uma boa vontade
como um autor de poemas documentados em álcool canforado
rir destes objectos que nos cercam irados e convenientes
é uma única mosca que reflui para este resultado suplementar

resume a dança autónoma do último juízo perfeito que aqui jaz
a história do texto atenuado ou uma paisagem feita teatro
no caos de olhar a instalação do calor semelhante a mim
no virtual humor do computador do meu amor agora desligado

Os mortos ficam mortos porque assim se concebem.
E há muito trocaram os porta-retratos
por outras formas, mais refinadas, de desprezo.

 

Indisciplina,
dê-me agora
que seu verbo absinto em mim
arrepia
e me desnorteia.

[aqui]