hoje és o meu pai e vais nos gestos que virão
imperfeitos como a vida e que serão só os meus

pai dá-me a tua mão e guia-me de novo
por entre os caminhos desta floresta sombria
de árvores decepadas

 

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O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

[Alexandre O'Neill ], Poema pouco original do medo

luar

 

Qual o papel daquele gajo no funeral panteónico de uma Professora?

 

Final de férias, entro amanhã oficialmente no desemprego; lá estará, logo pela matina, a Yellow Truck em frente ao Centro de (Des)Emprego de Águeda.

 

nc

o raciocínio da desumidificação da bosta, segundo a própria: é que, ao contrário da parelha da majestade que se espoja, para ser utilizável numa poeira sem piolhos, a humidade beata não ajuda a que seja inócua!

Enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
E a amazona seguia…
e deixava a boca no sumo das laranjas.
Os olhos verdes no mar.
O corpo em a nuvem das alturas
– a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!
 
[Edmundo Bettencourt]

… para a naite, não me encontrem.

Lamento ter-me abstraído de mim, tenho ido pela facilidade – como quem vai ao supermercado e faz pontos.

Descurei, ficaria mais selecto destruir.

A vanguarda dos varredores de ruas
chega após o despontar do sol:
um bando ligeiro de criminosos
– com um passado negro de asfalto
e a aurora de papel diante da vassoura.

Um amante da ordem, coxeando,
dirige a lucrativa acção:
um monte de lixo, pensativo e rebelde,
segue atrás
e conversa com o cavalo sobre cultura.

[Ragnar Thoursie]

porque fui a um jantar breve de despedidas e de estórias desconhecidas.

Foi como se fosse eu me despedisse do Conhecimento, acabámos de perder um Professor de professores, reformou-se quando sabia demais.

Digo, tendo aprendido apenas parte: pouca e nenhuma paz às almas, muitas, que ressuscitou!

AD MVLTOS ANNOS!

Kanimambo © Olinga Gil

Hysteria

As she laughed I was aware of becoming involved in her laughter and being part of it, until her teeth were only accidental stars with a talent for squad-drill. I was  drawn in by short gasps, inhaled at each momentary recovery, lost finally in the dark caverns of her throat, bruised by the ripple of unseen muscles.  An elderly  waiter with trembling hands was hurriedly spreading a pink and white checked cloth over the rusty green iron table, saying: “If the lady and gentleman wish to take their tea in the garden, if the lady and gentleman wish to take their tea in the garden…” I decided that if the shaking of her breasts could be stopped, some of the fragments of the afternoon might be collected, and I concentrated my attention with careful subtlety to this end.

[T. S. Eliot]

parabéns!

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© Olinda Gil

e

AMIGOS