Nas montanhas onde moram as estrelas

bosques que existem há mil anos

de cabelos negros como o luar e a brisa da tarde

quando entra branda entre as pétalas das flores

que se inclinam sobre o morto que dorme

e misteriosamente repete:

 

«Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles

Un chant mystérieux tombe des astres d’or»

semi-saído da terra com um olho infinito aberto

morto há um ano ao nascer da lua

morto há um dia ao nascer da rosa

morto há um sonho, morto há um gesto

frente ao sopro das árvores da noite

tocou o seio infante numa primavera

e misteriosamente repete:

 

«Ô pâle Ophélia! belle como la neige!

Ciel! Amour! Liberté! Quel rêve, ô pauvre Folle!»

transparente sobre a terra mole de lava de estrela

sobre cabelos idênticos aos dos mortos desolados

morto há mil anos repete:

 

«La blanche Ophélia flotte comme un grand lys»

 

o morto misteriosamente diz:

 

«Il y a une horloge qui ne sonne pas»

 

[Anónio Maria Lisboa] O amor de Arthur Rimbaud o mestre do silêncio

O mundo, tal como é descrito, é incompreensível.