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O pisco é meu amigo.

Despe-te de verdades

das grandes primeiro que das pequenas

das tuas antes que de quaisquer outras

abre uma cova e enterra-as

a teu lado

primeiro as que te impuseram eras ainda imbele

e não possuías mácula senão a de um nome estranho

depois as que crescendo penosamente vestiste

a verdade do pão      a verdade das lágrimas

pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela

depois as que ganhaste com o teu sémen

onde a manhã ergue um espelho vazio

e uma criança chora entre nuvens e abismos

depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato

quando lhes forneceres a grande recordação

que todos esperam tanto porque a esperam de ti

Nada depois, só tu e o teu silêncio

e veias de coral rasgando-nos os pulsos

Então, meu senhor, poderemos passar

pela planície nua

o teu corpo com nuvens pelos ombros

as minhas mãos cheias de barbas brancas

Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada

mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças

e uma estrada de pedra até ao fim das luzes

e um silêncio de morte à nossa passagem

 

[Mário Cesariny] Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro

É preciso acreditar!
É preciso acreditar
que o sorriso de quem passa
é um bem p’ra se guardar;
que é luar ou sol de graça
que nos vem alumiar,
com amor alumiar.

É preciso acreditar!
É preciso acreditar
que a canção de quem trabalha
é um bem p’ra se guardar;
que não há nada que valha
a vontade de cantar,
a qualquer hora cantar.

É preciso acreditar!
É preciso acreditar
que uma vela ao longe solta
é um bem p’ra se guardar;
que, se um barco parte ou volta,
passará no alto mar
e que é livre o alto mar.

É preciso acreditar!
É preciso acreditar
que esta chuva que nos molha
é um bem p’ra se guardar;
que sempre há terra que colha
um ribeiro a despertar
para um pão por despertar.

[Leonel Neves]

Pandeiros rôtos e côxas táças de crystal aos pés da muralha.

Heras como Romeus, Julietas as ameias. E o vento toca, em bandolins distantes, surdinas finas de princezas mortas.  

Poeiras adormecidas, netas fidalgas de minuetes de mãos esguias e de cabelleiras embranquecidas.  

Aquellas ameias cingiram uma noite peccados sem fim; e ainda guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. E a lua velhinha todas as noites réza a chorar: Era uma vez em tempo antigo um castello de nobres naquelle lugar… E a lua, a contar, pára um instante – tem mêdo do frio dos subterraneos.  

Ouvem-se na sala que já nem existe, compassos de danças e rizinhos de sêdas.

Aquellas ruinas são o tumulo sagrado de um beijo adormecido – cartas lacradas com ligas azues de fechos de oiro e armas reais e lizes.  

Pobres velhinhas da côr do luar, sem terço nem nada, e sempre a rezar…

Noites de insonia com as galés no mar e a alma nas galés.

Archeiros amordaçados na noite em que o côche era de volta ao palacio pela tapada d’El-rei. Grande caçada na floresta–galgos brancos e Amazonas negras. Cavalleiros vermêlhos e trombêtas de oiro no cimo dos outeiros em busca de dois que faltam.  

Uma gondola, ao largo, e um pagem nas areias de lanterna erguida dizendo pela briza o aviso da noite.  

O sapato d’Ella desatou-se nas areias, e fôram calça-lo nas furnas onde ninguem vê. Nas areias ficaram as pègadas de um par que se beija.  

Noticias da guerra – choros lá dentro, e crépes no brazão. Ardem cirios, serpentinas. Ha mãos postas entre as flôres.  

E a torre morêna canta, molenga, dôze vezes a mesma dôr.

[Almada Negreiros] – Ruínas in Frisos – Revista Orpheu nº1

Juiz de Viana proíbe utilização da nova grafia

 

Chamar-lhe grafia…

Como dizer o silêncio?

Se em folhagem de poema
me catais anacolutos
é vossa a fraude. A gema
não desce a sons prostitutos.

O saltério, diletante,
fere a Musa com um jasmim?
Só daí para diante
da busca estará o fim.

Aberta a porta selada,
sou pensada já não penso.
Se a Musa fica calada
como dizer o silêncio?

Atirar pérola a porco?
Não me queimo na parábola.
Em mãos que brincam com o fogo
é que eu não ponho a espada.

Dos confins, o peristilo
calo com pontas de fogo,
e desse casto sigilo
versos são só desafogo.

E também para que me lembrem
deixo-os no mercado negro,
que neles glórias se vendem
e eu não sou só desapego.

Raiz de Deus entre os dentes,
aí, pára a transmissão.
Ultra-sons dessas nascentes
só aves entenderão.

[Natália Correia]