Vamos Contar?


(é impressão minha ou também já anda de voz aflautada e nasalada como o engenheiro…)

Carlos Abreu Amorim insiste que Passos Coelho teve razão ao anunciar a criação de 120 mil empregos este ano. O vice-presidente da bancada do PSD desvalozia assim a manchete do jornal i, que diz que o primeiro-ministro fez mal as contas.

 

Ciao, Isaltino, o único!

 

 

 

A greve fica cara?

No entanto, como já li algures neste blogue, no ano passado fizemos 60 dias de greve. A maioria dos professores contratados ainda fizeram mais. Muitos ainda estão em greve.

Adenda: … e os sindicalistas, especialmente os vinculados (haverá d’outros?), puff!

 

 

estamos divididos.

Como sempre foi e será. Porquê?

Atrevo-me a apontar uma hipótese que considero lúcida, acaso seja permitida pelos nãos-impragmáticos.

Atrevo-me a escrever aqui que a velhice não pode continuar a ser um posto dogmático. Ainda me atrevo a escrever que a juventude não será nem um posto – menos poderá ser a tomada de um posto.

Não me alongando em demasia, digo que observo tricas ideológicas do século passado, mais do anterior, e, especialmente, a mesma forma de invejar o par.

Se eu fosse doido, e há poucos que o professam, embora veementemente – como se fossem demasiados, ou alienado, aí há menos, ou como quem não fará – da mesma forma lúcida de quem fará – a tal percepção das coisas de amanhã, ria-me.

Não rio, consequente do facto de estar a ser confrontado com a tristeza impotente dos outros; rio por terem decidido ser galhofa. Rio de mim, que sou tão outro louco como os imbecis.

A comissão parlamentar de Educação aprovou uma iniciativa do PSD para que o Tribunal de Contas elabore um estudo técnico sobre o custo que representa para o Estado cada aluno a estudar no ensino público.

Vai abranger a Parque Escolar?…

Número de portugueses a formar professores em Angola devia aumentar dez vezes, defende Cavaco Silva

O Presidente da República defendeu hoje que o número de professores portugueses em Angola no âmbito do programa Saber Mais devia aumentar dez vezes, considerando que o seu trabalho “é da maior importância” para os dois países.
Actualmente, o projecto Saber Mais, de formação de professores angolanos, envolve 20 docentes portugueses – oito em Benguela, 12 no Namibe – mas tem-se deparado com problemas de alojamento que dificultam a sua expansão.

20 x 10 = a…… alguém me chama um guterrinho?

Não é de Saramago, mas fez-me sorrir com gosto:

Holisticamente

A Sheila era tão mais exuberante, falante e inteligente do que o marido que os amigos se apiedavam dele. Reclamavam quando a Sheila o interrompia, sempre que ele começava a dizer alguma coisa, com um ríspido “Quer fazer o favor, Flávio Augusto?”

– Deixa ele falar, Sheila!

– Mas esse aí não diz nada que preste!

O pior era que o Flávio Augusto não dizia, mesmo, nada que prestasse. Nas poucas vezes em que conseguia falar, dizia bobagem. E aí a Sheila olhava em volta com uma expressão de “Pode?” no rosto. Podia alguém ser tão bobo quanto o Flávio Augusto?

E ela era inteligentíssima. Falava sobre tudo, entendia de tudo. Até que os amigos prepararam uma. Um pouco para vingar o coitado do Flávio Augusto, um pouco porque também não agüentavam mais a prepotência intelectual da Sheila. Prepararam uma.

Chamaram o Flávio Augusto para lhe dar instruções. Sem a Sheila saber, treinaram o Flávio Augusto. Fizeram várias reuniões com ele, ensaiando o que ele iria dizer. Na hora certa, quando a Sheila menos esperasse. Para arrasar.

A hora certa chegou. Um jantar na casa dos Pedroso, toda a turma reunida e mais um professor visitante, um cenário perfeito para a Sheila brilhar. E a Sheila brilhou. Sentada ao lado do professor, dominou a conversa desde o começo do jantar. Desde a entrada fria. Até que, depois da sobremesa e antes do café, com a Sheila expondo com entusiasmo uma teoria para o professor, apenas para o professor, pois era claro que os outros da mesa não tinham a menor capacidade para entendê-la e estavam ali só como ouvintes e figurantes, o Oscar fez um sinal para o Flávio Augusto e o Flávio Augusto levantou um dedo. E disse:

– Meu bem…

Sheila parou no meio de uma frase. Ficou de boca aberta. Era inacreditável. Alguém a interrompera. Alguém tivera a ousadia de interrompê-la. Menos do que alguém: o Flávio Augusto. O Flávio Augusto! E ele estava a ponto de continuar.

– Eu…

– Quer fazer o favor, Flávio Augusto?!

Desta vez os protestos foram de todos. E os pedidos para que ela deixasse o Flávio Augusto falar foram veementes. Estavam todos bem ensaiados. E Sheila teve que ceder, resignada a mais um vexame do marido.

– Está bem, fala.

– Eu acho que você está enganada.

Sabe aquela pintura do Munch? A mulher gritando na ponte? O grito silencioso da Sheila foi parecido. O Flávio Augusto – o Flávio Augusto! – dizendo que…

– Eu estou enganada, Flávio Augusto?!

E então Flávio Augusto deu a estocada, conforme o combinado.

– Você não está vendo a coisa holisticamente.

É difícil descrever a expressão no rosto de Sheila, então. Não era só choque. Era como se ela tivesse caído por um alçapão e estivesse solta no ar, sem reconhecer nada à sua volta. Falta aguda de coordenadas. E ainda por cima… Sim, tinha um ainda por cima.
Oscar virou-se para o professor e perguntou:

– O que o senhor acha?

E o professor, sorrindo, para Sheila:

– Acho que vou ter que concordar com seu marido.

Sheila despencando. Sheila solta no espaço. E todos na mesa se congratulando com o olhar. “Holisticamente” era demais. “Holisticamente” era genial. Na saída, no elevador, pela primeira vez em muitos anos a Sheila pegou no braço do marido. Mais tarde, Flávio Augusto contou que o “holisticamente” tinha melhorado até a vida sexual dos dois.

Luís Fernando Veríssimo – O Globo
19/08/2001
Incluído em O Melhor das Comédias da Vida Privada (Lisboa, D. Quixote, 2005, pp. 128-130)