Todos Têm Opinião Sobre Tudo


Sinceramente… nem sou dado a estas coisas e garanto que não estava especialmente mal-disposto até ler, quase que por acidente, mais um disparate de um economista, facção isctiana, adivinha-se que auto-intitulado liberal e mais qualquer coisa da moda.

Já não me interessa se, como o xiita, me processa ou não. Só que deveria existir limites para o disparate em declarações de ocasião para os jornais. Vejamos o que pensa Emanuel Leão sobre a forma de superar a crise financeira e orçamental, tudo com base neste saber acumulado:

Emanuel Leão, economista do ISCTE, destaca outra medida semelhante que pode ter impacto no curto prazo: um novo corte de salários. “Provavelmente vai ser necessário recorrer novamente à medida com mais impacto – novos cortes nos salários dos funcionários públicos”.
Para o professor de Economia, “novos cortes nos salários de todos os funcionários públicos são preferíveis a uma solução que passe por despedimentos na função pública, como a Grécia se prepara para fazer”.

Emanuel Leão lembra que, em termos de despesas correntes, os sectores mais pesados para o Estado são a Educação e a Saúde, sugerindo, no caso da Educação a introdução de taxas moderadoras em função dos rendimentos do agregado familiar, e no Ensino Superior aumentos de propinas para estudantes com maiores rendimentos, permitindo dessa forma reduzir as transferências do Estado para as universidades.

Vejamos: o Estado declara obrigatória a escolaridade de doze anos e depois aplica taxas moderadoras?

Ó homem, uma coisa é a Saúde, onde ainda se pode argumentar que a hipocondria ou o mero excesso de zelo podem conduzir a gastos excessivos ou desnecessários, ou mesmo a um afluxo despropositado a alguns serviços de urgênicas ou centros de saúde. Pelo que as taxas moderadoras podem ser encaradas como um mecanismo dissuasor, embora com limitações.

Agora no caso da Educação não-superior, tal ideia só faria sentido se a matrícula fosse em regime livre, voluntário, sem escolaridade obrigatória.

Dá para perceber, ou realmente não vale mesmo a pena?

É sempre interessante alguém resolver um problema complicado com um simples artigo de jornal e uma ideia genial. pena que para a aplicar fosse necessário ter exames anuais em todas as disciplinas – o que não há – e perceber-se exactamente o que o autor escreve a certo ponto da sua douta dissertação.

Uma solução liberal para (preservar) a escola pública

Proponho a avaliação anual do desempenho profissional dos docentes firmada nas prestações (notas) que os seus alunos alcançaram nos exames nacionais

1) A evolução ou trajectória na carreira docente deve abolir a impossibilidade de retrocesso. Sem excepção, os docentes, mais e menos experientes, melhor, pior ou não classificados (caso dos docentes em início de carreira) devem estar todos os anos sujeitos às consequências da avaliação universal a que, por meio do rendimento escolar dos seus alunos, se prestarão. As consequências podem ser positivas, catapultando para um escalão superior, mas também negativas, implicando recuo para um escalão inferior. Aceito que, neste modelo aberto a subidas e descidas, estas se façam sempre para o escalão mais próximo, imediatamente superior ou inferior consoante os casos. Trata-se de uma medida que visa não só evitar penalizar brutal e na verdade injustamente docentes que experimentaram fortuitamente um “ano mau”, mas ainda sujeitar a progressão na carreira a uma regra de consistência – só resultados escolares reiteradamente positivos dos seus alunos permitirão a qualquer professor galgar os patamares (escalões) consecutivos da profissão.

(…)

Para encetar a resolução do problema conceptual insisto na ideia de que temos de definir os saberes que, como comunidade, exigimos que cada ciclo escolar transmita; e junto-lhe outra: devemos subir a fasquia do limiar mínimo para um nível situado bem acima daquele em que hoje está – patamar que corresponda a prova irrefutável de aptidão consolidada em todas e cada uma das disciplinas leccionadas, da matemática ao português passando pelas ciências da natureza, pela física e química, história, economia, línguas estrangeiras, todas.

Feita esta depuração das competências ancorar-se-á a máxima valorização do mérito docente no diferencial para o limiar mínimo marginado inferiormente por nota(s) negativa(s). A esse diferencial aplicar-se-á o coeficiente máximo de valorização da prestação docente. A partir daí, isto é, ao entrar no arco positivo dos resultados processar-se-á uma valorização marginal decrescente. Tal não significa que não se deseje – seria aliás um absurdo – que os alunos obtenham as mais altas classificações que a escala de resultados compreende. Significa apenas que, reconhecendo o efeito do capital cultural de origem, estipulamos que o efeito pedagógico atinge o zénite para os desvios de notas positivos observados até se alcançar o limiar mínimo convencionado. Este modelo carece de ser transformado numa matriz de pontos em que enraizará a ordenação hierárquica dos professores.

Em complemento, instaurar-se-á um sistema de pontuação suplementar. Aos professores será facultada a integração opcional em bolsa de docentes/tutores que apoiará alunos que reincidem em resultados escolares medíocres. A superação do impasse escolar que esses alunos provam também lhes será creditada.

O apelido é altamente estimável, o resto é… sei lá… ou de alguém que não conhece com funciona o ensinozeco não-superior ou de quem não percebe que para construir um modelo assim (e discordo em parte dele, porque vocacionado apenas para uma dimensão do ensino e das aprendizagens) precisamos de alguns anos para estabelecer uma base de dados que permita depois determinar as progressões e fazer as devidas comparações.

O autor parece esquecer ainda que, neste modelo, haverá sempre necessariamente retrocessos e que a aplicação anual do modelo tem implicações metodológicas que não se resolvem com a simples enunciação. Mas essa parte – a prática – o autor do artigo ultrapassa de forma lapidar, dando a entender que o que interessa é a Ideia:

Ignorarei aqui o problema da operacionalização – até porque não faz sentido equacionar soluções de operacionalização, que serão no essencial de cariz técnico, sem primeiro definir os critérios que a informarão. Centro-me assim no problema conceptual, sem, digo-o já, apontar a resolvê-lo em definitivo.

Uma ideia minha: como o universo de alunos e docentes é menor porque não o testamos no Ensino Superior que, como sabemos, funciona sem qualquer aferição universal do desempenho seja de quem for…

E, ainda, um pensamento final: considerar que isto é uma ideia liberal é ofender o liberalismo sem necessidade. Só falta descobrirmos que este interessante pensador liberal pertence a algum tanque de pensamento mais-qualquer-coisa.

Quanto a isso, nem googlando sabemos… talvez seja apenas um cometa…