Testemunhos


O depoimento de Carlos Fiolhais sobre Nuno Crato é muito interessante e ainda não o tinha lido. Recordo como, ainda em finais de 2012, discordávamos sobre o que estava a acontecer, a propósito deste artigo, pois o que se passava então no Básico e Secundário iria alastrar para outros níveis e áreas da Educação e Ciência…

Meu depoimento ao Público sobre Nuno Crato

How breast cancer gave me the courage to start a master’s

The threat of death makes you realise the pointlessness of self-imposed obstacles, writes a breast cancer survivor.

Recebi mais um desabafo, assinado por Rute Moreira, em tudo similar a este, que também foi enviado por email para a DGEstE, DGEsTE Delegação Norte, DGAE, ANVPC, Blog DeArlindo e César Israel Paulo. Diz a autira que enviou toda a documentação para as entidades do MEC por correio registado com AR a fim de obter resposta.

É também por esta via, de luta individual, que se conseguem construir resistências ao arbítrio.

Exposição feita por uma colega e dirigida à DGAE e DGEstE::

Maria ******************************, candidata n.º **********, docente do grupo de recrutamento 910, residente na Rua ******************************* no Porto, BI ******* e NIF *********, com os seguintes contactos telefónicos: ********* / *********, **************@gmail.com, vem expor o seguinte:
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Após a publicitação das listas de Contratação Inicial, no dia 8/09/2014 fui surpreendida pelo facto do meu nome não constar na lista de renovações do grupo 910, mas sim na lista de não colocados.
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No ano letivo anterior desempenhei funções docentes no grupo 910 no Agrupamento de Escolas Garcia de Orta, no Porto, com colocação de 1/09/2013 até 31/08/2014. Durante o procedimento do concurso assinalei a pretensão de renovação de colocação. Este Agrupamento também manifestou intenção de renovação da colocação (documentos comprovativos em anexo: verbete da docente e comprovativo da Escola).
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Importa referir que, para que tal seja possível, a docente tem de reunir, e reúne, todas as condições necessárias para a renovação da colocação previstas no n.º 3 do art.º 42º do DL n.º 132/2012, de 27/06, na redação conferida pelo DL n.º 83-A/2014, de 23/05.
Este Agrupamento tem 3100 alunos, sendo cerca de 100 de Educação Especial e 12 alunos CEI, do Ensino Pré-Escolar até ao Secundário. Desta forma, está posta em causa a continuidade pedagógica e todo o trabalho articulado com as famílias.
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Por não ter sido reconduzida, interpus recurso hierárquico em 11/09/2014, a que foi atribuído o n.º *****.
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Curiosamente, no dia 26/09/2014, aquando a publicitação de listas de colocação da Reserva de Recrutamento 2 (RR2) verifiquei que foram ocupados três horários incompletos anuais no Agrupamento de Escolas Garcia de Orta, isto é, dois horários de 18h e um horário de 16h. Tal nunca tinha acontecido nos anos anteriores! No seu conjunto, estes 3 horários perfazem 52h letivas, o que corresponde a dois horários completos de 22h cada e um horário incompleto de 8h.
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Atendendo a que o Agrupamento de Escolas Garcia de Orta, no Porto, tem 3100 alunos dos quais cerca de 100 manifestam Necessidades Educativas Especiais (NEE) de caráter permanente e 12 alunos com Currículo Específico Individual (CEI), não é de todo correto e humano que seja aplicado um rácio de forma cega. Pretende-se cegamente com este rácio que o número de professores que exercem funções tão nobres, como é o caso da inclusão de crianças e jovens numa sociedade que ainda tem muito que aprender, seja significativamente inferior ao desejado e tido como essencial para o cumprimento do art.º 1º do DL n.º 3/2008, de 7 de janeiro, onde se lê “Objectivo e Grupo-Alvo” – “A educação especial tem por objectivo a inclusão educativa e social, o acesso e o sucesso educativo, a autonomia, a estabilidade emocional, …”. Ora, com a não renovação do contrato, foi posta em causa a continuidade pedagógica e todo o contacto estabelecido com e entre alunos e suas famílias. Um ano de trabalho concertado com os vários intervenientes na vida académica e particular dos alunos foi praticamente desperdiçado. Enfim, de forma simplória, radical e cruel foi eliminada toda a dedicação, empatia e respeito que professora, famílias, médicos e demais intervenientes educativos depositaram em prol do bem-estar e qualidade de vida dos alunos com NEE. É inadmissível!
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Não esqueçamos que, atualmente, todos os alunos e Encarregados de Educação têm o direito de escolher a escola que pretendem frequentar, de acordo com o art.º 19º do DL n.º 3/2008, de 7 de janeiro, correspondente a “Adequações no processo de matrícula”, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 21/2008, de 12 de maio e capítulo II, art.º 10º e art.º 11º do Despacho n.º 5048-B/2013, de 12 de abril correspondente a “Prioridades na matrícula ou renovação de matrícula no ensino básico e no ensino secundário”, respetivamente.
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Anualmente, é solicitado aos Agrupamentos de Escolas o preenchimento online de vários dados correspondentes aos alunos com NEE de caráter permanente aí matriculados e respetiva problemática. Por aí, facilmente se constata que o número real de alunos abrangidos pelo DL n.º 3/2008, de 7 de janeiro é muito superior aos dados que a DGEstE pretende como ideais e reais. Os alunos existem! As limitações e deficiências devidamente comprovadas por médicos de várias especialidades e técnicos, também! Não é admissível usar um rácio teórico e abstracto para aferir uma situação real e concreta que, como se disse, comporta cerca de 100 alunos com NEE e 12 alunos CEI, do Ensino Pré-Escolar até ao Secundário.
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Não podemos ignorar estas crianças e jovens. Basta o que sofrem pelo estigma resultante de serem considerados diferentes com que, infelizmente, ainda convivem diariamente. Felizmente, na Escola, já não são diferentes. São seres humanos como os demais.
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Tal como refere Luís de Miranda Correia “Atualmente em Portugal a educação está a atravessar um período de mudança, pretendendo-se que ela venha a tornar-se num dos pilares essenciais da formação das crianças e adolescentes portugueses. Esta mudança, como todas as mudanças, com certeza que trará benefícios para essas crianças e adolescentes, mas também, e ainda como todas as mudanças, poderá estar eivada de um certo número de perigos que direcionem algumas práticas educativas para labirintos de onde será difícil sair-se. No que diz respeito às crianças e adolescentes com necessidades educativas individuais (NEE), esta mudança deve ser abordada com cautela, devendo dar-se uma atenção muito especial e fazer-se uma análise aprofundada ao processo como a Educação Especial tem sido orientada e implementada no nosso país, bem como aos problemas que têm afetado uma boa prestação de serviços para os alunos com NEE.”
Perante tal realidade questiono:
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– Quais os benefícios de tais mudanças na Educação Especial?
– Onde está o respeito pelas crianças e adolescentes com NEE?
– Qual a razão da diminuição drástica de prestadores de serviços a alunos com NEE, nomeadamente docentes de Educação Especial?
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São apenas três questões, apesar de muitas mais carecerem de resposta.
Todo o trabalho desenvolvido pelos docentes de Educação Especial tem como principal objetivo promover aprendizagens efetivas e significativas nas escolas regulares para todos os alunos com NEE de caráter permanente, tal como consignado no DL n.º 3/2008, de 7 de janeiro. Com as mudanças em curso, as respostas educativas ficam comprometidas, impedindo uma resposta mais eficaz às aprendizagens dos alunos com NEE, que requerem uma atenção muito particular, bem como intervenções específicas e recursos especializados, nomeadamente docentes de Educação Especial, que lhes criem condições que permitam melhorar a sua qualidade de vida.
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Face ao exposto, solicito encarecidamente a V. Ex.ª que analise de forma a situação exposta

Londres ficou inacessível para o talentoso filho de um desempregado

Ex-trabalhador dos Estaleiros de Viana, o pai de Fábio Fernandes não tem possibilidade de pagar os custos da licenciatura em Guitarra Clássica que o filho conquistou na Guildhall School of Music & Drama.

Gostaria apenas de lhe deixar um “breve” testemunho do que se passou hoje na escola básica de Canidelo, sede do AE D.João I de V.N. de Gaia, onde nenhum professor inscrito realizou a prova.
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Chegado à escola às 9:20 sou recebido pela visão de uma carrinha das forças policiais. Um pouco mais adiante outra viatura estacionada. Deve ser para a entrega das provas, penso eu inocentemente. Mas uma carrinha de 9 lugares?
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Os colegas apresentam-se em fila na entrada para serem confirmados nas pautas por um membro da direcção. Até parece que mais ninguém se quer ali.
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Vamos para o velhinho bloco A onde se situa a Direcção para ser-mos informados do nosso destino. Adiante, no igualmente velhinho bloco C, ao lado do qual se encontram dois contentores/salas de aula, esperamos até serem 9:50 para descobrirmos que só há professores vigilantes para duas salas. Abençoados aqueles que possuem decência.
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Os infelizes colegas cujos pais decidiram dar-lhes nomes iniciados pelas letras A, B e C são chamados para as salas. Eu e os restantes ficamos de fora a curtir uma breve chuvada que se lembrou de cair naquele momento.
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Por algum motivo cinco polícias entram no bloco. Não levavam as provas com eles.
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Pelas 10:15 o Sr. Director da escola vem ter connosco anunciar que não realizaremos a prova pois não existem vigilantes para tal. Pede para assinarmos a pauta indicando a nossa presença. A mesma da fiscalização aquando da entrada.
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Por sugestão repetida, para não dizer forçada de dois colegas, o Sr. Director acede a que todos os professores se dirijam à secretaria de modo a obter uma declaração de presença e não realização da prova.
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Começo a ver pares de polícias a andar em nossa volta. Malta simpática, conheço alguns de vista pois vivo na freguesia a que pertencem.
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As salas designadas para a prova encontram-se no rés-do-chão, pelo que nos concentramos junto às suas janelas. Bendito o mau planeamento. Seguem-se cantorias, cânticos, assobios e apupos que se prolongam uma hora depois do suposto início da prova.
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Os polícias surgem e desaparecem e tornam a surgir.
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Alguns dos colegas, poucos devo salientar, manifestam-se exageradamente  batendo nalgumas persianas fechadas das salas. A polícia entra agora sim em acção, movida por ordens superiores, e formando um cordão afasta-nos do bloco.
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Falando com um policial que me afastava pacificamente, pude perceber que nenhum deles o fazia por querer. Aparentemente foram convocados às cinco da manhã por email para ali estarem, sei-o de uma colega casada com um que só ali não estava devido a uma mudança de turno.
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Continuamos a ser afastados, curiosamente estar a dez metros ainda é pouco. Mais cantorias, cânticos, assobios e apupos. Os polícias continuam a ser simpáticos apesar de gostarem de empurrar.
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Pelas 11:30 as colegas na sala abrem as janelas e dizem que devido às condições a prova não será realizada, surgem palmas de lado a lado e lágrimas também.
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Dos 180 professores inscritos na escola nenhum realizou a prova. Estou imensamente agradecido àqueles que fizerem greve. Um obrigado não será suficiente.
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Quando fui aluno desta escola no 5.º e 6.º ano nunca imaginei que isto poderia acontecer no meu futuro. Enfim. O dia podia ter sido bem pior. Felizmente não foi.
Cumprimentos, 
Ricardo Lopes

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Boa tarde
Exmº Sr. Presidente do Conselho de Escolas

Venho Por este meio pronunciar-me relativamente  a Noticia lida sobre a Falta de Docentes em EDUCAÇÃO ESPECIAL . Ora venho por este meio informar que não existe falta de docentes Especializados e Devidamente Formados em Educação Especial mas sim uma falta de vontade do Ministério da Educação em colocar os Docentes dos Quadros neste Grupo.

Ora passo a expor:
Sou Docentes do QZP1 e desde o ano 2005 que tenho a Pos-Graduação e Mestrado em Educação Especial com 18 valores. Sempre tive vontade de lecionar neste grupo e por isso todas as vezes em que me foi permitido concorri para mudança de grupo , mas infelizmente nunca fui colocada devido as poucas vagas que o ministério atribui para professores do quadro e devido ao facto de apenas permitir aos docentes do quadro concorrer uma vez de 4 em 4 anos para mudança de grupo.

Se o Ministério permitisse estes docentes concorrer mais do que uma vez para mudança de grupo e caso não ficassem colocados concorreriam uma segunda vez para entrada , existiriam imensos professores de educação especial formados, especializados e com bastante experiencia a lecionar neste grupo.

Neste momento existem milhares de professores do quadro que tem a devida formação e estão impedidos de concorrer a educação especial porque o sistema não permite…Assim ano apos ano estes lugares são ocupados por docentes contratados e tal como se tem visto ainda existem lugares sem docentes…

Peco a sua Ex.ª que interceda para que o ministério autorize os docentes dos quadros a concorrerem anualmente a estas vagas ou a serem destacados para a ed.especial pois assim muitos agrupamentos ficariam com a situação resolvida da falta de docentes em ed. especial !

Infelizmente sou docente do quadro com Mestrado em Ed. Especial e não me e permitido estar na educação especial porque sou docente do quadro , se hoje fosse contratada já estaria neste grupo que tanto gosto e investi em formação há vários anos .

Atentamente ,

Com os cordiais cumprimentos
docente Liliana Soares
Põs-Graduada e Mestre em Educação Especial desde 2005
mas sem colocação neste grupo (por ser professora do Quadro)

Enviado para:

Ex.mo Senhor Inspetor Geral da Educação

Eu, Paula Manuela Teixeira da Rocha, candidata aos horários nº15, nº 16 e nº 17, de Oferta de Escola [Epamac- Escola Profissional de agricultura e desenvolvimento Rural do Marco de Nanaveses], no vosso estabelecimento de ensino, com o número 5491248312 e com o número de ordem 748, na lista de graduação nacional do concurso de professores, venho por este meio reclamar da decisão do júri e solicitar cópia da ata da reunião de seleção dos candidatos.

A minha reclamação tem por base os seguintes fundamentos:

1º – A escola decidiu colocar horários com a Disciplina de Área de Integração, Desenvolvimento de Vocação e Comunicação e Empreendedorismo como horários de Técnicos Especializados. A disciplina de Área de Integração, por exemplo, é uma disciplina da componente sociocultural e não da componente técnica, a mesma disciplina é lecionada nas escolas pelo Departamento de Ciências Sociais e Humanas, ao qual pertenço. Questiono o interesse da escola em colocar horários que sempre enviou para concurso nacional através da DGAE, como Técnicos Especializados, quando o que se vai fazer é dar aulas.

2º – sou a candidata nº 748 no meu grupo de recrutamento, 410 – Filosofia – e foram colocadas as candidatas com os números 3523076722, Ana Mónica Oliveira Dias, com o número de ordem no grupo 1204 e a candidata nº 5746480894, Filipa Cristina Telo Alves, com o número de ordem 925. As duas candidatas têm tempo de serviço muito inferior ao meu e foram selecionadas.

3º – A escola chamou aleatoriamente todos os candidatos para entrevista, não fazendo uma graduação prévia com base no tempo de serviço, como ocorre em todas as escolas, em tranches de cinco, de forma a conseguir chegar à candidata 1204 do grupo de recrutamento 410 – Filosofia.

4º – A escola não publicou uma lista ordenada com base no tempo de serviço dos docentes.

5º – A escola tinha como sub-critério de seleção a experiência profissional na área (35%), ora a área é o ensino, logo o tempo de serviço teria que ser o critério utilizado e não foi, foi utilizado como critério subjetivo atividades paralelas ao ensino. Ser cabeleireira, trabalhar numa clínica, ser manicure, são atividades profissionais dignas, mas que em nada têm a ver com a prática letiva destas disciplinas, por exemplo. Será de averiguar que tipo de experiência profissional têm as outras candidatas, uma vez que experiência em ensino, eu sou a detentora de maior graduação.

6º – Cumpri todos os requisitos exigidos nos critérios de seleção, respondi a todas as exigências feitas na entrevista, entreguei todos os documentos solicitados, passo a citar: a) Critério 1: Entrevista (35%)

Subcritério 1.1.: Experiência profissional na área, garantia de implicação com o projeto educativo e identificação com a cultura de escola profissional (15%) – sou professora desde 1997, já trabalhei nesta escola e desenvolvi projetos no âmbito do projeto educativo; identifico-me com a cultura de escola profissional, leciono aos cursos profissionais há vários anos. A minha avaliação de desempenho atesta classificações máximas nestes itens.

Subcritério 1.2.: Disponibilidade e flexibilidade horária (5%) – Garanti total disponibilidade e flexibilidade horária.

Subcritério 1.3.: Disponibilidade para participar em projetos/atividades e experiência na sua concretização (10%) – garanti total disponibilidade e atestei com certificações de projetos por mim desenvolvidos nas várias escolas onde lecionei.

Subcritério 1.4.: Motivação e conhecimento/contactos no tecido empresarial na área de formação (5%) – Motivação total e conhecimentos atestados pelas certificações apresentadas no portefólio.

Critério 2: Portfólio (30%)

Subcritério 2.1.: Experiência na lecionação de módulos, disciplina e Curso Profissional em causa (10%) – Experiência comprovada pelo currículo.

Subcritério 2.2.: Experiência profissional no tecido empresarial, na área de formação (10%) – critério pouco objetivo, no entanto, atestei experiência de lecionação e profissional no tecido empresarial, nomeadamente criação de microempresas em parceria com a Junior Achievement Portugal, lecionei a disciplina de Psicologia (Desenvolvimento Vocacional); Área de Projeto e Área de Integração (Comunicação e Empreendedorismo).

Subcritério 2.3.: Experiência/participação na organização de atividades e projetos inter e transdisciplinares ligados à área de formação a ministrar (10%) – Experiência comprovada pelo meu currículo e várias certificações apresentadas.

Critério 3: Anos de experiência 35% – Como se pode verificar pelas listas de ordenação de professores, eu sou a candidata com maior graduação e com mais tempo de serviço do que as candidatas escolhidas em 2º e 3º lugar.

7º – A candidata Filipa Cristina Telo Alves foi ou é casada com o Diretor da Escola em questão. Parece-me uma questão a investigar e que levanta problemas éticos na colocação da referida candidata.

8º – Os horários foram atribuídos de forma arbitrária, com interpretações dos sub-critérios tendenciosas e abusivas.

9º – Tenho longos anos de experiência de ensino profissional, as disciplinas enquadram-se na minha área de formação e são lecionadas por mim há vários anos, sendo que as duas candidatas também são do meu grupo, pelo que a graduação tinha que ser respeitada.

10º – As escolas aproveitam-se do poder que têm para fazer ofertas de escola para escolherem os professores que querem e isso deve ser investigado, até porque esta escola tem sido contestada pela falta de transparência com que faz as colocações.

11º – Questiono o facto do Diretor empossado no final do ano letivo, decidir alterar a forma como enviava a disciplina de Área de Integração a concurso e colocá-la estrategicamente nos horários de Técnicos Especializados, para escolher as candidatas que lhe interessavam, sendo isto agravado pelo facto já exposto, das ligações familiares com uma das candidatas. Eu própria já tinha sido colocada em concurso nacional nessa escola, para o horário da disciplina em questão. Até ao ano anterior e ao Diretor tomar posse, os horários foram sempre a concurso nacional. Essa alteração deve ser investigada porque revela intenções pouco éticas.

12º – Concorri a três horários e foi feita uma entrevista única aos candidatos. Como se explica o facto de as candidatas oscilarem nas pontuações nos três horários, se o currículo é o mesmo? Conforme o horário que iria ser atribuído, a candidata obtinha mais pontos. Neste aspeto, solicito investigação ao horário nº 17, uma vez que a única disciplina é Área de Integração e o único critério objetivo é ter lecionado a disciplina e o tempo de serviço.

Solicito que se impugne este concurso, uma vez que assenta numa situação que é pouco transparente, abusiva e que só vem aumentar as injustiças feitas nestes concursos de contratação de escola. A graduação dos candidatos tem que ser respeitada e é a única garantia de imparcialidade nos concursos.

Com os melhores cumprimentos

Paula Rocha

Até ao ano letivo 2012-2013, inclusive, o Agrupamento Vertical de Lamaçães e a Escola Secundária Carlos Amarante foram classificadas como as Escolas de Referência para o Ensino Bilingue de Alunos Surdos em Braga.

Em 2013 ficaram estabelecidas novas agregações em Braga, de que resultaram, de entre outras: Escola Secundária D. Maria II com o Agrupamento de Escolas de Lamaçães; Escola Secundária Carlos Amarante com o Agrupamento de Escolas de Gualtar.

O Despacho n.º 5634-F/2012 refere no seu nº 1.1

“O agrupamento de escolas …/… é uma unidade organizacional, dotada de órgãos próprios de administração e gestão, constituída pela integração de estabelecimentos de educação pré-escolar e escolas de diferentes níveis e ciclos de ensino, com vista à  concretização dos seguintes princípios:
b) Garantir e reforçar a coerência do projeto educativo e a qualidade pedagógica das escolas e estabelecimentos de educação pré-escolar que o integram, numa lógica de articulação vertical dos diferentes níveis e ciclos de  escolaridade;
c) Proporcionar um percurso sequencial e articulado dos alunos abrangidos numa dada área geográfica e favorecer a transição adequada entre níveis e ciclos de ensino;
e) Racionalizar a gestão dos recursos humanos e materiais das escolas e estabelecimentos de educação pré-escolar que o integram”.

O mesmo Despacho refere no nº 1.2  “A constituição de agrupamentos de escolas obedece, designadamente, aos seguintes critérios:

a) Construção de percursos escolares coerentes e integrados;
b) Articulação curricular entre níveis e ciclos educativos;
c) Eficácia e eficiência da gestão dos recursos humanos, pedagógicos e materiais”.

Em Educação Bilingue de Alunos Surdos – Manual de Apoio à Prática, editado em 2009 pela Direcção Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular e pela Direcção de Serviços da Educação Especial e do Apoio Sócio-Educativo, recomenda-se na página 18, sob o título Orientações para a organização e funcionamento das escolas de referência: “Constituição de uma bolsa de professores e de directores de turma que permita acompanhar os alunos ao longo do seu percurso educativo”.

Na página 19 do referido manual , sob o título A comunidade educativa, recomenda-se: “Organização e apoio aos processos de transição entre os diferentes níveis de educação e ensino, planificando atempadamente e operacionalizando actvidades facilitadoras da integração dos alunos surdos noutro nível de ensino ou noutra escola. Estas actividades exigem um trabalho colaborativo e articulado entre as escolas, devendo constar do plano de actividades de ambas.”

A docente que foi responsável pelos alunos surdos da Escola Secundária Carlos Amarante até ao final do ano letivo 2012-2013 pertencia ao quadro de professores do Agrupamento Vertical de Lamaçães. Em 2013-2014 integra o quadro docente do atual Agrupamento de Escolas de Lamaçães, a que pertence a Escola Secundária D. Maria II e, consequentemente, já não lecionará na Escola Secundária Carlos Amarante. Esta docente, no final do ano letivo 2012-2013, viu-lhe ser instaurado um processo disciplinar pela Diretora desta última, de contornos kafkianos, insinuando que a professora tinha instigado os alunos a sair da Escola Carlos Amarante e, supostamente, teria sugerido que a «acompanhassem» para a D. Maria II. Depois da docente ter participado óbvias irregularidades processuais à Inspeção Geral de Educação, foi-lhe instaurado novo processo disciplinar, com acusações de teor distinto.

A DGEstE/DSRN continua a atribuir, no ano letivo 2013-2014, o estatuto de Escolas de Referência para o Ensino Bilingue de Alunos Surdos em Braga ao Agrupamento de Escolas de Lamaçães e à Escola Secundária Carlos Amarante.

Pergunta-se:

Como concilia a DGEstE/DSRN o espírito e a letra dos normativos legais e as orientações antes referidas para o ensino dos alunos surdos – emanadas por organismos do próprio Ministério da Educação e que é suposto aquela cumprir e fazer cumprir – com a decisão de atribuir estatuto de Escolas de Referência para o Ensino Bilingue de Alunos Surdos a escolas que agora fazem parte de agrupamentos de escolas distintos?

Em nome da promoção e defesa dos interesses dos alunos surdos, esta decisão não lhes será antes obviamente prejudicial e apenas justificada por permitir perpetuar interesses adquiridos que, naturalmente, não são os seus, mas da escola?

Quão perverso um Diretor deverá ser para com um docente seu subordinado e quantas normas do Estatuto Disciplinar dos Trabalhadores Que Exercem Funções Públicas terá aquele que violar, para que a Inspeção Geral de Educação atue, como lhe compete, instaurando um processo disciplinar ao Diretor?


António Matos Marques
Cidadão, não professor

Testemunho chegado por mail:

Boa tarde

Acabei de tomar conhecimento da minha classificação da avaliação de desempenho. 

Não tenho qualquer reclamação a fazer a quem diretamente me avaliou que, julgo eu, ficou tão chocado como eu quando se apercebeu dos resultados. Tive uma classificação de 9,6 que se traduziu numa menção de BOM!

Na anterior avaliação obtive a menção Excelente, com uma classificação (quantitativa) até um pouco abaixo desta. 

O que é que se alterou? 

Eu até admitia esta menção de BOM se existissem muitos colegas com classificações superiores. Não foi esse o caso! 

A causa foram os percentis! 

O que se passou é que na avaliação anterior eu era apenas uma professora empenhada. Nesta avaliação continuei a ser uma professora ainda mais empenhada… Tão empenhada que fui nomeada coordenadora de departamento e, azar dos azares, se por milagre fossemos descongelados para o próximo ano, eu mudaria de escalão, logo fui obrigatoriamente avaliada.

Assim, além de todo o trabalho que sempre fiz como professora (apenas e só professora) e que me valeu a anterior menção de EXCELENTE:

– tive todo o trabalho extra como coordenadora de um grande departamento, função que tentei desempenhar com empenho total, conforme ficou traduzido na avaliação quantitativa;

– foi-me imposta a tarefa acrescida de avaliar três colegas.

– vou entrar oficialmente de férias e continuo a trabalhar, porque nunca fui de deixar tarefas por acabar e ainda há muito que fazer na escola.

 

Qual o resultado de tanto empenho e esforço?

 

Como no meu universo (coordenadores avaliados) somos apenas 2 professoras (igualmente competentes), não tenho acesso ao Excelente e ao Muito Bom! 

Nem sequer faço questão de obter estas menções! Faço o meu trabalho como sempre fiz, mesmo quando esta avaliação não existia.

O que me revolta as entranhas é ser permitido tornar legal tamanha injustiça. 

Como é possível?

– De que serviram as aulas assistidas (e que fui obrigada a ter, pois vou para o 3º escalão)? 

Tenho a mesma menção que aqueles que as não tiveram.

– De que serviu ser empenhada e competente?

Fui nomeada coordenadora  e tive mais do dobro do trabalho, do desgaste ao longo do ano e das responsabilidades, para além de ter que avaliar colegas usando um modelo com o qual sempre discordei.

Pior ainda… fui esta semana novamente eleita pelos colegas de departamento para continuar a desempenhar o cargo de coordenadora. Já viram o azar?

Por este andar nunca mais terei uma menção superior a Bom!

Tenho que ser sincera: apesar do trabalho extra que implica, não deixei de sentir satisfação pelo reconhecimento de que até tinha feito um bom trabalho quando os colegas me escolheram novamente.

Mas agora, chego à conclusão que fiz tudo errado.

No próximo ciclo avaliativo:

– Não vale a pena ter aulas assistidas;

– Dou as minhas aulas e chega; dedico mais tempo à família.

– Ser coordenadora de departamento nem pensar – há que mostrar uma boa dose de incompetência para não me elegerem novamente.

Não estou, de modo algum, a querer dizer que sou melhor do que muitos dos outros colegas. Não é disso que se trata. Como disse atrás, não é a menção em si que me revolta, é a injustiça dum processo, que todos reconhecem. 

Volto a frisar que não tenho qualquer reclamação a fazer relativamente a quem me avaliou nem queixar-me de falta de reconhecimento pelo meu trabalho, pelo contrário. Simplesmente foi obrigado a aplicar a lei.

Mesmo na minha escola, não sou o único caso. E quantos mais haverá…

Além da outra colega coordenadora que também foi avaliada, e que está no mesmo pacote que eu, dou outro exemplo:

– uma “simples professora” avaliada este ano, uma única, teve a pouca sorte de nomeada avaliadora e… o seu universo mudou por completo! Ao ser nomeada deixou de estar num universo de 26 professores (com a possibilidade de vários Muito Bom e Excelente) para passar a um universo solitário donde só ela faz parte e… puff! Muito Bom e Excelente não são mais que uma miragem!

Não sei qual foi a classificação que obteve, nem interessa, pois nunca passará do Bom, embora possa merece-lo muito mais do que outros.

Já viram como os azares acontecem? 

Podia ter sido outra professora nomeada… mas foi ela (será por ser competente?)

Podiam existir várias avaliadoras a ser também avaliadas este ano… e as possibilidades de uma menção melhor era possível.

E até havia várias, éramos 3… mas duas tivemos o azar de ser nomeadas coordenadoras (será que também tem qualquer relação com competência?)

Podia precisar de ser avaliada noutro ano, em que maior número de professores avaliadores fosse avaliado… até porque vamos continuar congelados!

 

É esta a avaliação de professores que queremos? Ao sabor da sorte e do azar e não do verdadeiro valor que cada um tem?

Não sou sindicalizada nem nunca o fui, mas disse sempre NÃO a este modelo de avaliação e tentei combatê-lo até onde foi possível. Fiz as greves, fui às manifestações…

E vi, incrédula, professores e sindicatos a ceder! Ainda me custa acreditar como é que uma atrocidade destas se tornou real…legal!

Isto é igualdade de direitos? Onde que não a vejo?

Desculpem este texto tão extenso, talvez confuso, eu sei! É um desabafo que não consigo conter e tão turbulento que as ideias se confundem e as palavras se atropelam.

Escrevo para os autores dos blogs que mais consultámos (ao minuto) durante o período da greve às avaliações e que muito nos ajudaram a manter uma coesão que, pela primeira vez, me deixou um pouco orgulhosa da classe dos professores. Foram um permanente veículo de informação atualizada e foram a voz de muitos de nós, dando-nos a força necessária para continuar.

Assim, e porque não sei a quem mais me dirigir que o faça melhor que vós, peço-vos: tentem divulgar e alertar para estas injustiças que diariamente se praticam em nome da lei, contrariamente à consciência daqueles que nas escolas as têm que aplicar. 

Para que muitos questionem: Como é isto possível? Como nos deixámos chegar a este ponto? 

Creio que qualquer um que pare um pouco para refletir só poderá chegar a uma conclusão:

Isto tem que mudar!

  

Desabafo de uma professora num universo “com muito azar”

Recolhido no FBook com autorização da autora:

Ontem vi um grupo morto…

Na apresentação dos manuais da Porto Editora, onde estavam cerca de 200 professores de EVT, respirava-se desespero, desânimo e pessimismo. Eu, nos meus 41 anos, deveria ser das mais novas, mas todos tínhamos o mesmo cheiro: a depressão, a stress psicológico, a Burnout (palavra tão na moda…). Colegas com cerca de 20 anos de serviço, que efectivaram logo a seguir a acabarem o curso, já vão para a 4ª (sim, quarta!) substituição! Porque tiveram o azar de ser DACLs.

Colegas que, sendo DACLs, não trabalharam ainda este ano.

Colegas que, sendo DACLs, concorreram a quase tudo e com isso ficaram a mais de 50 km de casa e da escola onde estão efectivos. Colegas que já foram várias vezes às urgências dos hospitais porque estavam com graves problemas, provocados pelo sistema nervoso. Colegas que fazem das tripas coração para continuarem a fazer o que sempre fizeram: serem excelentes profissionais e darem o seu máximo.

Porquê, pergunto eu, porquê?? Todos estávamos perdidos, sem saber que porra são estas metas, sem saber que porra andamos nós a ensinar aos alunos.

vi um grupo morto, dizimado por meia dúzia de tipos atrás de uma secretária comandada por mentirosos, egoístas, gananciosos e pelas costas largas, justificadas ou não, da Troika.

Ontem tive a certeza que tínhamos morrido!

Venha outro governo ou não venha, o espírito que fazia EVT estar vivo está agora enterrado. O amor à camisola que fazia ir mais longe teve as pernas cortadas.

O que somos nós, no meio disto tudo?? Quem somos? Para que existimos??

Ontem doeu-me a alma, ao ver que tantos, como eu, sobrevivem à custa de ansiolíticos e antidepressivos. Tantos que, como eu, já respiraram felicidade, são agora uma sombra de si mesmos…

EVT morreu, e com ela a felicidade de amar aquilo porque se dá tanto de nós, o ensino, os alunos. Pode, como Fénix, ainda vir a levantar-se, até ainda poderemos sonhar com isso, mas os danos, as feridas, as cicatrizes ainda vivas estão todas lá, na nossa alma, no nosso corpo, no nosso ser.

Ontem vi a tristeza nos olhares que já conheci apaixonados… A mágoa, o sofrimento, a dor, estampados na cara de quem deu uma vida por algo em que acreditou.

A todos os que, como eu, lutaram com quanta garra tinham no corpo, um BEM-HAJA! Tenho orgulho de ter estado ao vosso lado!!! Tenho orgulho de dizer: SOU PROFESSORA DE EVT!!

Maria João Serpa

Testemunho de uma colega para a peça de há dias do DN sobre o burnout docente. As respostas seguem a sequência do questionário enviado à colega, o qual não tenho.

1-Professora de Educação Visual e Educação Tecnológica, 59 anos de idade, divorciada, com um filho.

2-Exerci a profissão durante 39 anos, percorri o país durante 14 anos, atualmente faço parte do quadro de nomeação definitiva

3-Encontro-me de atestado há sensivelmente um mês.

4-Honestamente, não posso precisar nem a data nem a razão. Comecei a sentir-me cansada e incapaz de dar resposta a todas as solicitações da profissão. Escolhi a profissão por paixão e exerci-a com empenho e dedicação. Sinto saudade da professora que fui e da alegria que sentia ao chegar a escola.

5-A escola não é imune aos problemas sociais e sempre que eles se agravam a escola reflecte-os, como se fosse um espelho.

Todos os dias somos confrontados com abusos sobre os mais frágeis, pelo que os professores cansados são alvos a abater. Isto é gravíssimo em termos educacionais, as faltas de respeito para com professores têm reflexo não apenas na saúde dos visados mas também nos outros alunos.

Os alunos vítimas de abuso por parte de colegas mais agressivos tendem a sofrer em silêncio,  conscientes da impunidade dos agressores e perdem a confiança nos professores.

Nos últimos anos, as escolas estão em contínua reorganização, o trabalho que se fez ontem hoje está desatualizado. Estas mudanças contínuas geram instabilidade, insegurança e desmotivam qualquer trabalhador.

A diversidade de tarefas, um professor não se limita a preparar e dar aulas.

O aumento do número de alunos por turma, que ao contrário do que os economistas possam dizer não se traduzirá no decréscimo da despesa, mas sim num maior desgaste do professor e insucesso dos alunos.

A avaliação de colegas também foi muito desgastante e toda essa polémica acabou ferindo a imagem do professor que é hoje muito diferente daquela que existia quando comecei a trabalhar.

6-Sempre tive boa relação com os colegas e a direção da escola, inclusivamente telefonam a saber como estou; pessoalmente evito o contato social porque me sinto mal comigo própria, insatisfeita por não conseguir cumprir a minha função

No que se refere ao Ministério da Educação, todos sabemos que existem doenças profissionais, mas se for um professor desgastado com 39 anos de serviço, não tem direito a esse reconhecimento, ainda que tenha o tempo de serviço e descontos para uma reforma sem penalização. Tem problemas? A culpa é dele. Ou foi sempre muito frágil e deprimido, ou incompetente, ou não planificou corretamente as aulas, ou…Qualquer treta serve para atribuir a culpa à vitima.

8-Inicialmente consultei o médico e continuei a trabalhar, estava preocupada com os alunos e as notas de final de período, devia ter ficado de baixa, como ele me aconselhou. Posteriormente a situação agravou-se, sentia-me muito cansada, comecei a esconder-me para chorar, a evitar os amigos, estava mesmo doente.

Tenho tido a compreensão dos médicos que consultei e acho que estou a ser bem assistida.

9-  Pedi a reforma antecipada, com uma forte penalização. Tenho tempo de serviço e descontos para ter uma reforma completa mas não tenho idade. Estou doente, incapaz de voltar. Quero ficar com as lembranças dos tempos em que fui feliz, trabalhei muito, com gosto, amei os meus alunos e sei que me retribuíram o afeto.

Quando soube da notícia do ocorrido na escola Óscar Lopes de Matosinhos e pelo que conheço dessa comunidade, fiquei em silêncio…. Meu cérebro conversava comigo próprio imaginando o panorama de terror e a mais uma ocorrência que a todo o custo a “escola” tentou mais uma vez resolver.

Imagino o segurança, no exercício das suas funções transportar um tresloucado para um lugar onde pudesse ficar mais calmo, onde pudesse ser novamente chamado à razão, e mais uma vez se incutissem os pensamentos mais sadios à convivência humana, mais do que por vezes cumprirem as normas escolares. Destaco “normas” pois que não são leis e mesmos os decretos caem por terra quando: … coitado do aluno, tem problemas, vive numa comunidade com problemas… o professor exaltou-se e vai ter um processo. Desta vez o único exaltado foi o aluno e a contenção do segurança, perante o cenário vivido e conseguir manter a calma e acima de tudo a segurança geral, terão levado a este fatídico desfecho.

Lembro e registo o tempo que passei nesta escola. Professores a viver a sua profissão de “educadores” a 500%, funcionários que nunca viraram a cara e comparticipavam no controlo geral, e, acima de tudo, uma direção sempre e constantemente pronta para interromper qualquer assunto e de imediato tomar conta das ocorrências diárias, digo diárias e numerosas, ou melhor, diárias, numerosas e constantes. Tive a sorte de conviver com uma comunidade sempre preocupada com a sua profissão, como muitos outros, dirão, mas muito diferentes com a preocupação constante de acima de tudo darem testemunho, darem opiniões, prestarem-se para serviços disciplinares e de apoio, com uma entrega considerada mais do que de “família”. Quantas vezes comentamos a nossa entrega e capacidade para resolver tudo pela calma, gastando e abusando do nosso tempo escolar, sentindo que algo melhor poderia um dia acontecer. E aconteceu. Houve alunos que mudaram, que melhoraram, que passaram a ser nossos grandes amigos, e que nos deram grande alegria, mais do que com o seu eventual sucesso escolar. Para o resto, fica apenas o nosso modo de sentir a profissão, onde o verdadeiro “ensino” assenta, que não é pago, contabilizado sequer, nem conta para os rankings. Perdoem-me insistir, mas guardo na memória o interesse, a luta e a busca constante de soluções para a indisciplina, o abandono, a rebeldia, a arrogância, e a pior de todas: a violência. Uns estatutos novos e os problemas reais são sempre os mesmos.

Quanto aos seguranças da escola também quero registar, do tempo que com eles convivi, o seu assumido e perfeito cumprimento das obrigações. Sem eles alguns problemas teriam sido piores, sempre atentos, e que acima de tudo comparticipavam para o bom ambiente escolar, mais do que com a catalogação de “seguranças”. Amigos dos que o mereciam, conselheiros e avisadores aos alunos algo preocupantes, prontos e presentes nas situações mais complicadas.

Sinto que a morte trouxe algum desmoronar àquilo porque sempre se quis lutar e melhorar.

Endereço o meu sentido apoio e pesar. O que poderá mais um dia vir a acontecer…?

Custódio Ferreira

 

Reportagem na Antena 1.

JOAQUIM BENITE

 

Desculpem. Não pude estar presente para lhe fazer a minha última homenagem. Sei que milhares o fizeram, felizmente. Muito merecidamente. Mas mesmo assim gostaria de apresentar o meu profundo sentimento cheio de memórias espetaculares de que preciso agradecer-lhe. Um contributo inestimável e contagiante no teatro português. E em particular na dádiva do teatro às escolas, que foi como o conheci, aquele diretor que falava connosco e nos pedia opiniões depois dos ensaios gerais. E nos proporcionava o convívio despretensioso e espontâneo, preenchido de tópicos atuais e recreativos. Como aprendi. E continuarei a aprender, naturalmente…

Às vezes não precisamos de conversar muito para nos conhecermos pessoalmente. Vemo-nos e comunicamos em grupo. Assim foi com o Joaquim Benite. Com a discreta saudação. E às vezes a conversa breve e casuística. Os seus assessores ofereciam-me, em seu nome, o resto da disponibilidade necessária. A Sónia e a sua menina encantadora. O Miguel e os outros. Em equipa, dando a conhecer a arte teatral a muitos meninos e jovens de estratos socioeconómicos problemáticos e a revisitá-la. Antes a preço zero. Numa altura em que as Câmaras podiam apoiar mais iniciativas como as do Teatro Municipal de Almada. O António Assunção a fazer o Monólogo do Vaqueiro numa sala dos barracões da Moinho de Maré. Ator convidado da Companhia. E tantos outros, nas instalações junto à escola primária em Almada. Que os maravilharam. O Dom Quixote. Os Dias Inteiros nas Árvores. Os Dias Felizes. A Mãe Coragem. O Valente Soldado Schweik. O Carteiro de Pablo Neruda. Guerras do Alecrim e da Manjerona. O Memorial do Convento. A Purga do Bebé…eram abertas inscrições para todos os que quisessem alinhar. Batava estar à hora marcada junto ao autocarro cedido. À noite, sobretudo.

Somos um país de atores, escritores, poetas e lenhadores. Aquele escritor que vai talhando nas suas tábuas o esforço e a comoção. Assim é o muito trabalho do sonhador que quer reerguer uma Companhia na periferia de Lisboa, sem se retrair com distâncias e com os “desertos” do sul. O teatro do oprimido. A voz do camponês e de operário. A minoria na maioria. A multiculturalidade. Sempre avante. Sem constrangimentos. E assim nasceu um festival cheio de Teatro que fez de Almada o lado certo instituído e irrevogável. A capital do mundo do Teatro português, ibérico e ibérico-americano. Mas não só.

O nosso Quim que nasceu homem e se imortalizou. Cá continuará.

O meu obrigado.

                                                      Laranjeiro, 7 de dezembro de 2012

                                                               Rosa Duarte

Mas é infelizmente o país desejado por muitos dos governantes e daqueles que orbitam o poder, reclamando dos outros aquilo que não dão.

O país do Pedro, do Miguel e do Vítor que, em especial nos dois primeiros casos, parecem demasiado confortáveis num papel que os parece deslumbrar pelo poder assim à mão. No caso do segundo, o ar divertido dos primeiros tempos tem dado espaço a um olhar fizo, que sinceramente me preocupa em termos humanos.

Mais um Dia de Desemprego

Mais um dia de desemprego, mais uma apresentação quinzenal. Procuro lugar de estacionamento nas ruas envolventes à Câmara Municipal, malditas máquinas automáticas, introduzo-lhe uma moeda das castanhas e já vão com sorte. Reparo na maior parte dos carros um cartão de funcionário da Câmara, estes não pagam, “ok eu sou cidadã de 2ª”. Entro no edifício, dirijo um bom dia à funcionária de atendimento geral, no meio de mais um bocejo, lá sai um bom dia arrastado. Átrio vazio, tiro senha, espero, espero porquê se já conheço este filme? O meu número aparece. A visão do costume, entro numa sala com 10 senhoras para atendimento. Estranho, hoje não me olham de cima a baixo. Penso: “não me preparei o suficiente para a ocasião”… Uma come um biscoitinho enquanto faz um like; outra mostra à colega as novas unhas de gel que o maldito teclado teima em roubar; três estão em pé em altas gargalhadas, em frente ao monitor da engraçadinha lá do sítio; vá lá escondem os dentes…Invejo o ar condicionado. Aquele momento é interminável, é só mandar imprimir novo papelinho (penso) não custa nada, faça um esforço mulher!… “Dia 5” diz ela. Eu sei ler, escusa de se esforçar, cada palavra e gesto desta gente dá-me vómitos. Bato a porta. Caminho pelas ruas, a moeda aguenta-se… Lembro-me daquelas caras da escola secundária, as maiores totós lá do sítio. Uso as recordações para me vingar da humilhação que sinto.  Filha de peixe sabe nadar. Cada uma delas tem o emprego que merece. Câmara, hospital, escolas, tudo controlado. Os empregos dos pais, avós, trisavós, seriam delas, quem diria?

Tenho direito ou não ao subsídio de desemprego? Descontei… Acho piada a quem sabe contornar estas leis medonhas. Conheci um pai de uma aluna minha que trabalhava em Espanha e vinha cá de 15 em 15 dias para a apresentação quinzenal… Ladrão por ladrão.

Ainda me lembrei daqueles funcionários que se encostam uns aos outros. Na minha escola do ano passado havia um cavalinho estragado. Comuniquei à Câmara. Foram rápidos na atuação. Chegou uma carrinha cheia de homens, alegria das crianças. Um tirou os parafusos, outro segurou-os, outro tirou a tábua, outro levou tudo para a carrinha, o encarregado dava ordens, o motorista levou-os de volta para a oficina. As crianças observaram como se trabalha quando se é grande, grande equipa, digo eu… O cavalinho ainda hoje está com os ferros ao alto. Não há dinheiro nem para uma tábua, constava-se por ali. Mas há dinheiro para pagar a 5 homens parados na oficina. Os professores são descartáveis, os funcionários das câmaras são intocáveis. O mal dos outros não me concerta mas a justiça sim.

Sigo para o carro, ligo o rádio, nem de propósito os “Deolinda”, hoje é sem dúvida um dia especial… Um dia em que toda uma vida se concentra numa apresentação quinzenal.

M.

A realidade surreal do pré-escolar

Sou Educadora de Infância há 30 anos na rede pública do Ministério da Educação. Iniciei o meu percurso profissional nos anos dourados do pré-escolar em Portugal. Esse era o tempo dos pequenos Jardins de Infância de aldeia, bem integrados nas suas comunidades, interpelando-as culturalmente e em franco diálogo com as famílias. Esse era o tempo em que a bandeira agitada defendia que este tipo de estrutura se destinava a responder às necessidades pedagógicas das crianças e não das famílias. Não havia almoços nem prolongamentos de horário com nomes pomposos como “Actividades socioeducativas”. As crianças não permaneciam no Jardim tempo demais, eram serenas e viviam mais felizes.

Que longe estamos desses anos. Assistimos nos últimos tempos à caça aos chamados Jardins de Infância isolados. Qual será a razão? Com o argumento de centralizar e rentabilizar recursos que, supostamente, melhorariam a qualidade do ensino, os mega-agrupamentos escolares crescem como cogumelos, esvaziando as aldeias de crianças, que agora se amontoam em Escolas com vários ciclos de Ensino. O presente das Escolas Novas, com cores belas, bibliotecas, pavilhões multiusos, etc… revelou-se no entanto um presente envenenado. Em Educação, o formato mega não traz mais qualidade, e a massificação acarretou, claramente, menos qualidade no ambiente escolar, no atendimento pessoal e na actividade educativa.

Rentabilizar recursos significou desde logo que deixasse de existir 1 (uma) Assistente Operacional (auxiliar de educação) por cada grupo de Jardim. O rácio agora é de 1 (uma) Assistente para cada 2 (duas) salas. O panorama real pode ser, por exemplo, que, para uma Escola com 3 (três) salas de Jardim e 5 (cinco) de 1.º ciclo, existam apenas 4 (quatro) Assistentes Operacionais. O significado disto é o seguinte: uma Educadora que tem um grupo heterogéneo de 25 crianças, com 2, 3, 4 e 5 anos, passa pelo menos duas horas e meia por dia a braços com todo o grupo, sem qualquer apoio.

Oiço colegas jovens a fazerem-me relatos desesperados. Conta-me a Vera que, durante os primeiros dias deste ano, teve 30 crianças (por atraso na colocação de uma colega, uma turma havia sido dividida pelas demais Educadoras). Entre choros de início de ano lectivo, conflitos a gerir entre as crianças, crianças que faziam xixi e precisavam de ser mudadas, com uma casa de banho fora do alcance visual da Educadora e sem uma Assistente para lhe dar apoio a tempo inteiro… imagine-se o caos! Não é de estranhar que, num desses momentos, uma criança tenha escorregado e aberto o sobrolho numa ida ao WC. Quando a Educadora chegou ao local constatou o facto e, além de ter que dar a ajuda necessária a esta criança, e localizar a auxiliar que se encontrava em parte incerta, ao chegar à sala já tinha outra criança a precisar de ser mudada e mais 28 que precisavam da sua supervisão. Ao fim do primeiro mês de trabalho desabafa: “Ainda não consegui começar a trabalhar… Já me pergunto que sentido tem esta profissão neste contexto”.

A Isabel e a Manuela relatam-me outras situações caóticas nos seus pólos escolares decorrentes de rácios de 1 (um) adulto por 25 crianças na hora de almoço, havendo situações piores. Se uma criança precisar de ir ao WC nesta hora, pode ter que percorrer corredores fora do alcance da supervisão do adulto até ao WC mais próximo. A alternativa será o adulto acompanhá-la e deixar sem supervisão os outros 24! Lembremos que nos grupos de pré-escolar existem crianças com apenas 2 anos!

Se falarmos das horas de recreio após almoço, a situação ainda se agrava: é possível estarem 150 (cento e cinquenta!) crianças de pré-escolar e 1.º ciclo, e até mais, no mesmo espaço, durante hora e meia, sob a supervisão de apenas 2 (duas) Assistentes Operacionais. É evidente que o objectivo inglório e desesperado deste pessoal auxiliar acaba por ser evitar que alguém vá parar ao hospital. Mas é impossível evitar “galos”, mazelas várias, arranhões e nódoas negras sobre as quais os pais vêm pedir explicações (em mau tom) às Educadoras, que nem sequer estavam presentes por se encontrarem na sua hora de almoço.

Para piorar o panorama, o que qualquer Educador com duas ou três dezenas de anos de serviço pode confirmar, é que os grupos são cada vez mais caóticos. Agitação, desconcentração, comportamentos disruptivos, desafio da autoridade do adulto, brincadeiras violentas claramente influenciadas pelo consumo desregrado de televisão, desenhos animados e jogos violentos, são a realidade quase generalizada hoje em dia.

Para completar o cocktail explosivo, surgiu a famosa ideia da Escola inclusiva, para a qual não faltariam todos os apoios e mais uns quantos… nas palavras dos políticos que “venderam” esta ideia poética aos professores e ao País. É por isso que Isabel, a trabalhar num Jardim de Infância de um bairro problemático de Lisboa, com uma sala que nem tem as dimensões regulamentares, tem duas crianças com Necessidades Educativas Especiais integradas num grupo que não usufruiu de redução de número, como devia, e está a funcionar nestas condições partilhando a Assistente Operacional com outro grupo. Também ela tem que esperar à porta da sua sala, seguindo com o olhar o percurso que as crianças fazem pelo corredor até ao WC, deixando de estar com o grupo para assegurar que o trajecto é feito em segurança e que a criança não se perde pelos labirintos de uma escola com uma dimensão desumanizada e desajustada para a sua idade.

Junto-me com as colegas e partilhamos desabafos. Temos idades diferentes, mas há algo em comum. Estamos no início do ano lectivo e já quase à beira de um ataque de nervos. Trabalho de qualidade passa a ser uma miragem e a frustração e o cansaço instalam-se, cada vez mais depressa, a cada ano que passa. Como desenvolver projectos bem estruturados, se nem a questão da segurança física e emocional das crianças está assegurada?

E sou tentada a fazer comparações com uma realidade que conheço. A Experiência Pré-Escolar de Reggio Emilia (Itália) é considerada pioneira em qualidade de Educação de Infância a nível mundial. Cada grupo tem 1 (um) Educador e 2 (duas) Auxiliares! Cada Instituição tem ainda 1 (um) atelierista que trabalha em Artes com as crianças, e o município conta com 1 (uma) pessoa formada em Teatro que trabalha com todos os Jardins.

Sou Educadora há 30 anos. Tenho paixão pelo meu trabalho e não poderia fazer outra coisa na vida. Felizmente, tenho a sorte de estar num Jardim de Infância de aldeia e com pessoal suficiente para exercer a minha missão com qualidade e dignidade, mas sinto um desgosto profundo ao assistir à forma como se trata a Infância e os profissionais de Educação em Portugal. Os erros são muitos e crassos e estão generalizados. Não há visão de futuro e o abismo está perigosamente perto. O sistema suga toda a energia de Educadores e Professores, que só sobrevivem ao caos se tiverem uma saúde mental de ferro. Ao fim de um mês de trabalho, muitos dizem, desalentados, que não sabem se vão aguentar até ao fim do ano lectivo.

PS – Os nomes das minhas colegas são fictícios. Vivemos numa era de incertezas e, infelizmente, o receio não aconselha a “dar a cara”.

Helena Martinho

Educadora no Jardim de Infância do Vimeiro

Pequeno texto, muito sintomático, recolhido no mural do FB de uma participante na manifestação de ontem, antiga comentadora aqui no blogue, que agora só aparece de forma bissexta.

A manifestação dos professores, ontem, foi, para mim, das mais difíceis em que participei, e quem me conhece bem sabe que não foram poucas. Ver nos rostos dos colegas o medo e a coragem abraçados contra um futuro suspenso agora – a certeza do desemprego.
Debaixo do sol quente da tarde a parecer verão senti-me triste.

R.

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