Sociedade


O beijo da morte

José Augusto Lopes Ribeiro
Escola Sá de Miranda – Braga, Maio de 2014

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Vivemos hoje num mundo globalizado e numa sociedade individualizada, onde o terror económico deixa, à sua passagem, um rasto de desemprego, precariedade e fragmentação. A crise económica, a desigualdade e as injustiças sociais constituem uma nova barbárie. As pessoas tornaram-se mercadorias à mercê da ganância e do lucro, amedrontadas e submissas.

Por seu lado, a ideologia do politicamente correto apregoa o valor da privatização e do empreendedorismo, contribuindo para apaziguar as consciências e responsabilizando as pessoas pelo seu fracasso e pela sua penúria. Assistimos à erosão dos valores, à destruição dos laços sociais, ao declínio das instituições e das comunidades e acabamos por ser os construtores da nossa passividade e do egoísmo crescente.

As mutações vertiginosas atropelam princípios, normas e pessoas, abalando profundamente a educação e tornando a escola disfuncional e obsoleta. A escola está paralisada e impotente perante as contradições e a complexidade dos problemas que a sociedade trouxe para o seu interior.

Também aqui o pensamento único é um obstáculo, os verdadeiros problemas acabam por se dissolverem em nome de uma escola abstrata: estatísticas, burocracias e modelo empresarial. Trata-se de mascarar a realidade e iludir as questões, retirando espaço para o debate e aumentando o fosso entre as coisas como estão e como deveriam estar.

De repente vivemos num mundo invertido, o ambiente torna-se tóxico e o ar irrespirável.

Mobilidade geográfica, imobilismo social

Não tenho ilusões quanto à capacidade da Educação contrariar uma série de handicaps sociais e servir de alavanca para a promoção social, económica, política ou outra.

Basta vermos como as nossas alegadas elites se formam. As parlamentares e executivas raramente se notabilizaram por feitos académicos ou por um exemplar percurso escolar. Aliás, fazem gala do contrário e em muitos casos apenas buscaram certificação. No meio deste deserto, Santana Lopes faz o papel de excelente aluno com o seu registo académico. Basta ler os debates parlamentares de final de Oitocentos e início de Novecentos para identificarmos a maior parte dos apelidos que agora se conhecem, mesmo numa segunda linha de sombra da governação e legislação. Uns com mais pergaminhos no tradicionalismo monárquico, outros mais na base do republicanismo maçónico, não esquecendo ainda a parcela razoável de adesivos de última (ou primeira?) hora.

O mesmo para os apelidos dos grandes empresários, em particular dos santos & ulricos. Todos vêm de longe.

Dos dois lados se acha que Portugal é deles. Num caso por razões de linhagem distante e entretecida com os braganças ou mesmo afonsinos, no outro porque sentem ter sido eles que salvaram a Pátria quando estava moribunda, mesmo se moribunda vai continuando.

Raramente chegaram onde chegaram com base no trampolim social da Educação. Vale muito mais uma carreirinha de jota que um ajoujado currículo académico, assim como é muito mais relevante o contacto entre apelidos do que uma descoberta científica sem paralelo. A esses marrões e armados em génios recomendam os governantes de ocasião que emigrem, porque este não é um país para eles.

Por inovadores e empreendedores entende-se outra coisa: filhos de algo com ideias para sacar dinheiro ao Estrado ou à Europa em nome do liberalismo. Mas chamam privilegiados a desempregados, utentes do SNS e aposentados da função pública.

Não vale a pena iludir-mo-nos, porque a Educação não tem força para compensar nada disso. Apenas em casos singulares e não generalizáveis, permite mais do que subir um pouco acima da geração anterior ou da dos avós.

Mas… ainda pode servir para isso. Só que a ocasional aliança entre herdeiros e chicos-espertos está a fazer tudo o que pode para mesmo essa pequena esperança ser cortada, desde piquininos.

Volto a dizer que erram todos aqueles que encontram no Pedro muitos traços do António. O Pedro foi elevado aos ombros da tal aliança da chico-espertice com os pergaminhos dinásticos e não sobreviveria sem o miguel ou o ricardo do seu lado. O António soube aproveitar-se deles todos e manteve-os sob apertado controle. Mas antes disso tinha um percurso académico, prestígio intelectual, mesmo que discordemos das suas ideias.

Talvez o que os una seja apenas uma forma de promoção do imobilismo social. Um em nome de uma desejada Ordem, o outro em nome de… de… saberá ele mesmo?

1- Os professores perderam importância na sociedade atual? É preciso criar iniciativas que ajudem a promover a importância dos docentes? É preciso dar mais valor à figura do professor?

Há diferentes planos na resposta a essa questão. No plano simbólico, o professore perdeu alguma importância, devido à democratização do ensino, à maior vulgarização da função e a quebra da distância formal que há décadas atrás separava os alunos e as famílias dos professores. No plano concreto, a importância permanece, talvez acrescida de novos papéis, complementares ao da simples docência, que nem sempre são reconhecidos.

Neste contexto, é importante a valorização do professor a partir da sociedade, como forma de recolocar a sua função num plano em que ele volte a ser encarado não apenas como um executor das políticas do ministério, mas como um profissional altamente qualificado, que desempenha múltiplas tarefas de interesse para o bem comum.

2- Em que medida os professores foram importantes na sua vida?

Os professores foram importantes na minha vida como transmissores de conhecimentos, mas também como (bons, maus, medianos) exemplos de formas de estar na vida, em especial na profissional. Tendo feito a minha escolaridade básica e secundária num período agitado, de grande volatilidade do corpo docente, raramente tive o mesmo professor dois anos numa disciplina (ou mesmo na velha Primária), o que acabou por funcionar como uma espécie de caleidoscópio de experiências onde colhi exemplos de todo o tipo que acabaram por servir para balizar a minha própria prática profissional, quando me tornei professor.

3- Recorda algum que tenha sido especialmente marcante?

Tenho algumas memórias muito marcantes. Um par delas pela negativa, pela injustiça das atitudes, uma outra, muito especial, pela admiração suscitada. O que já descrevi aqui.

Portugal à luta com as classes sociais

Não é só por cá…

Harder for Americans to Rise From Lower Rungs

What Is Rick Santorum’s Problem with the Term ‘Middle Class’?

No Público de hoje surge um ranking interessante: o dos gastos autárquicos com as famílias e instituições sem fins lucrativos.

A média nacional é de 4,8% dos orçamentos municipais. São valores relativos e não gastos absolutos, o que permite comparar melhor as prioridades.

Os concelhos que gastam mais neste particular, pelo menos o dobro da média nacional, são os seguintes:

  • Cascais (15,5%)
  • Via Praia da Vitória (14,3%)
  • Alcoutim (13,9%)
  • Madalena (13,4%)
  • Vagos (13,2%)
  • Espinho (12,9%)
  • São Roque do Pico (12,2%)
  • Vizela (11,9%)
  • Alter do Chão (11,3%)
  • Barcelos (10,9%)
  • Chamusca (10,4%)
  • Pombal (10,4%)
  • Arraiolos (10,2%)
  • S. Cruz da Graciosa (10,1%)
  • Trofa (9,8%)
  • Porto Moniz (9,7%)
  • Vila Real S. António (9,6%)

É verdade que há outros gastos sociais não contabilizados, mas a lista disponível nas pp. 5, 6 e 8 é muito instrutiva e um estudo sobre as cores partidárias era capaz de ser curioso porque nos alteraria certas percepções entre discurso e prática. Não é por acaso que a zona onde vivo e lecciono está tão mal colocada (ou ausente mesmo) desta lista. Muita conversa, poucos actos.

CNIPE: Ministério garante que não haverá fome nas escolas

Social mobility: We must invest in parents as well as babies

A new focus on the under-fives, though welcome, will not reduce inequality unless we deal with parents’ problems too.

UM DIA MAU PARA A GANDULAGEM

Hoje e por uma vez que espero, sirva de exemplo, é um dia mau para a gandulagem. Um Tribunal decretou a prisão preventiva para uma das agressoras de uma jovem de 13 anos, há dias na zona de Benfica e do marmanjo que filmou aquilo e pôs no “Face”, a outra agressora escapou por ter menos de 16 anos que é em Portugal a idade até à qual se pode impunemente provocar, injuriar, assaltar, agredir e até matar.

Por uma vez e dada a publicidade que o tal marmanjo deu ao assunto, foi possível fazer aquilo que o Senhor Procurador-geral da República tinha dito “não ter meios informáticos para mandar investigar”, o que prova que o Senhor Procurador, tal como antes o Senhor Presidente da República atribuem à “Informática” poderes que está longe de ter, bastando para isso a PSP.

A miséria moral, mais do que material e em associação com ela e a complacência de uma “esquerda pastoril” e de uma direita em que “são mais as vozes do que as nozes”, trouxe-nos até ao lamentável estado de coisas em que temos vivido, tudo servindo de alibi para justificar o injustificável numa e-versão dos “Feios, Porcos e Maus”.

O quotidiano da maioria dos jovens, dos idosos e das pessoas decentes em geral, é frequentemente sequestrado por energúmenos perante a total indiferença e inoperância de todo o tipo de autoridades, sem que nada o justifique a não ser os fracos subterfúgios de uma espécie esfarrapada de “sociologia de trazer por casa”.

É preciso que aconteçam coisas graves e sobretudo que, devido à burrice vaidosa de alguns desses díscolos, se tornem universalmente testemunhadas para “depois de casa roubada, trancas à porta”.

Ao contrário do que disse o venerando Padre Américo num outro contexto, há mesmo rapazes beras e raparigas más e mais vale tarde que nunca, desde que não seja só para “salvar a honra do convento”.

António José Carvalho Ferreira

PSP já identificou “todos os intervenientes” no vídeo de agressão a jovem

Todos os intervenientes no vídeo colocado no Facebook com imagens de uma jovem a ser espancada por outras duas perante a passividade e até regozijo de outros adolescentes já foram identificados, assegurou o Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, em comunicado. O rapaz que terá colocado o vídeo na Internet tem antecedentes criminais pela prática de crimes violentos.

Diário do Minho, 20 de Maio de 2011

25% das crianças que entram na escola vem de famílias onde a pobreza é extrema

Restrições orçamentais vão contribuir para agravar as formas mais agudas de pobreza e a privação entre as crianças e jovens.

Realmente a fé na escola e nos poderes taumatúrgicos dos professores deve ser enorme, pois só assim se explica que esperem que sejam eles a curar todas as chagas da sociedade, em particular aquelas que todos os outros poderes, profissões e instituições falharam em resolver, mas têm vergonha de admitir, preferindo lançar as culpas para trás das costas e para cima dos outros.

Falam em ciúme social e práticas de selecção e exclusão, quando são eles os primeiros a protagonizá-las, ao ficarem com a nata toda do leite acabadinho de sair da teta europeia ou orçamental e deixando o leite magro, quantas vezes coalhado e azedo, para os outros beberem.

Aumentam adolescentes condenados por crime violento

Há cada vez mais jovens condenados por crimes violentos. Juristas defendem  alargamento da Lei Tutelar Educativa em vez de misturar miúdos com adultos nas cadeias.

Já não são crianças, mas ainda não são adultos. Mataram, violaram, agrediram, roubaram ou traficaram droga. No final do ano passado, eram 153 os reclusos dos 16 aos 21 anos que cumpriam penas por crimes graves nas cadeias portuguesas.

Os polícias que os detêm dizem que estes jovens são maioritariamente reincidentes. Praticaram pequenos crimes, como o furto, e libertados pela tenra idade consideram-se inimputáveis. “Pensam que o sistema não funciona”, diz uma fonte policial ao DN.

Talvez o artigo mais estruturado que surgiu, nos últimos dias, na imprensa com o pretexto do desaparecimento do Leandro:

Vigiar, educar e responsabilizar crianças é preciso

O que fazer com os nossos filhos quando estes evidenciam, com a tortura reiterada dos seus pares, o lado mais negro do ser humano?
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Não transcrevo mais porque merece ser lido todo. Está lá muito do que é importante entender, desde logo que nada é possível alterar numa sociedade que elevou o culto da desresponsabilização a modo de vida para o sucesso. As desculpas dos ruispedros no Parlamento não surgem do nada. São apenas um dos sinais mais evidentes da actual cultura dominante.

Gangue sequestrava e torturava rapazes com fogo e facadas

Atacavam alunos no percurso entre a escola e as suas casas, levavam-nos para um ferro-velho abandonado e ali os submetiam a várias sevícias. Eram esfaqueados em várias partes do corpo e queimados com cigarros

Jovens estudantes e seus familiares andam aterrorizados desde há mais de dois meses, na freguesia de Agualva (Sintra), com a sucessão de casos em que alunos vão desaparecendo e, quando regressam à escola, apresentam uma série de ferimentos, como golpes de navalhas e queimaduras de cigarros. Sete elementos de um gangue que os atacava, sequestrava e torturava, foram interceptados pela Polícia Judiciária, que presume haver mais seis ou sete suspeitos de pertencerem ao mesmo grupo.

Vários alunos deixavam repentinamente de ir às aulas. Faltavam, porque estavam a recuperar dos ferimentos sofridos. Segundo a PJ, das 12 vítimas já detectadas, todas tiveram de receber tratamento hospitalar e depois passaram alguns dias em casa a recuperar até se sentirem em condições de voltar à escola. Os alunos torturados são todos do sexo masculino, têm entre 15 e 18 anos e frequentam escolas de Agualva, como a Secundária Matias Aires.

Um dos viveiros é mesmo ali do outro lado da estrada. Se eu espreitar bem da janela da sala de aula, ainda os vejo. Estou a exagerar, mais é só um pouquinho. Claro que eu ainda estou do lado de cá da estrada. Há quem trabalhe lá dentro todos os dias. Seria um bom estágio para os teóricos, enteados de Rousseau.

“Caixa Baixa” forma jovens criminosos

Gangues de assaltantes recrutam adolescentes em bairros de risco de Lisboa e da Margem Sul do Tejo para os lançar no mundo do crime violento-

Dá pelo nome de “Caixa Baixa” e constitui uma verdadeira escola de jovens criminosos em Lisboa e na Margem Sul do Tejo. Dos seus elementos vieram o ataque aos polícias na Amadora e um homicídio na Moita. Autoridades estão atentas.
(…)
Algueirão-Mem Martins e Cacém, na Linha de Sintra, foram as zonas e bairros onde, pela primeira vez, surgiu a expressão, mas ainda no ano passado a “comunidade” começou também a ganhar força nos complicados bairros de Santa Filomena e da Cova da Moura, na Amadora, e já este ano no Vale da Amoreira, na Moita, na Margem Sul do Tejo.

Agrupando jovens entre os 13 e os 18 anos, “são um primeiro patamar nos gangues que praticam os roubos”, apontou ao JN uma fonte policial.

Ninguém sabe exactamente quantos são, mas é certo que a sua preponderância ganhou força face à repressão policial que, em finais do ano passado e já este ano, tem feito estragos e mantido mais recatados os gangues de especialistas em “carjacking” e assaltos a caixas multibanco.

“Os mais velhos travavam os mais novos, para evitar que lhes estragassem os esquemas, mas agora têm que recorrer a eles se querem fazer alguma coisa e para isso têm que os ensinar”, foi-nos adiantado.

Crónica inédita em qualquer publicação que  Rui Sardinha me enviou e o autor teve a simpatia de permitir a divulgação:

NÃO HÁ TALENTOS GRÁTIS: UMA CRÓNICA SOCIAL

Há que procurar o talento em nós e o talento nos outros que estão e que não estão connosco. Há que aproveitar os talentos. Há que criar líderes fortes.
Esta é a questão de base. Como cuidar do futuro das nossas Instituições e do nosso País sem cuidar do sistema que gera mais‐valias?
Não temos cuidado, por isso temos sobrevivido. Nem nós sabemos como!
João César das Neves, numa análise sócio económica propôs a criação para Portugal de uma nova categoria de Países. Havia até agora no mundo, países desenvolvidos, subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Acabou de ser criada uma nova categoria: os países que não deveriam ser desenvolvidos. Isto porque, de acordo com o autor, a Fundação Richard Zwentzerg, efectuou um estudo sobre a estratégia económica de longo prazo usando como referência a evolução global da segunda metade do século XX. Para grande surpresa dos investigadores, os mais altos índices de aselhice económica foram detectados em Portugal, um dos países que tinha também uma das mais elevadas dinâmicas de progresso!

Continua, na sua versão completa, no ficheiro seguinte: crónica social_setembro 2009

LivA

A ameaça de hoje não é a passividade, mas a pseudo-actividade, a premência de «sermos activos», de «participarmos», de mascararmos o nada do que se move. As pessoas intervêm a todo o momento, estão sempre a «fazer alguma coisa»; os universitários participam em debates sem sentido, e assim por diante. O que é verdadeiramente difícil é darmos um passo atrás, abstermo-nos. Os que estão no poder preferem até mesmo uma participação «crítica», um diálogo, ao silêncio: implicar-nos no «diálogo», de modo a assegurarem-se de que a nossa ameaçadora passividade foi quebrada. A abstenção dos votantes é assim um verdadeiro acto político: obriga a que nos confrontemos com o vazio das democracias actuais. (p. 188)

Polémico.

Chato por ser logo numa altura em que eu desatei a votar de novo, após anos e anos de adesão a esta tese.

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