Rigor


Mas por acaso fazem-se novas turmas por causa de mais uns repetentes? Com turmas a 30 cabe de lá tudo um pouco, nem sequer as lâmpadas consomem mais.

A unidade de custo, como nos contratos com os privados, é a turma e essa tem o mesmo valor com 27 ou 29 alunos. Aquilo de multiplicar os 4.000 euros é aritmética preguiçosa para espantar os tios patinhas.

Engana-se quem quer ser enganado.

João Grancho terá copiado com assinalável rigor passagens de outros autores num colóquio em Múrcia (ao qual, caraças, estive quase para ir por sugestão do professor Rogério Fernandes, que na altura tinha sido meu orientador de tese).

A defesa que agora faz do acto é um bocadinho patética, porque afirmar que num documento de trabalho não se citam as fontes ou se incluem referências é tão ou mais grave do que o plágio. E um “seminário académico” é um seminário académico, não uma conversa de boteco em que se cita a crónica d’A Bola ou uma mexeriquice da CarasNovaGenteVipLux como sendo sua.

Num dos casos, o autor copiado decidiu “não se alongar”. Não me admira, pois foi autor que a ANP contratou (e terá pago) para fazer uma obra sobre a deontologia na docência (declaração de interesses: tenho o livro em causa, enviado pelo actual SE, que desconheço em pessoa). O outro reage de forma menos simpática.

Eu colocaria as coisas assim, que escrevinho que me farto e procuro atribuir sempre o seu ao seu dono ou dona, embora nem sempre seja recompensado do mesmo modo, encontrando nacos de prosa, ideias e outras coisas em prosas públicas alheias com um alegre despudor: o plágio ou cópia sem referenciação é a manifestação maior de um complexo de inferioridade e incapacidade, típico de quem não consegue escrever por si ou revelar onde colheu a transpiração, mesmo quando a pose é pavoneante. Pelo que acaba por ser uma homenagem ao que foi feito por terceiros.

Em tempos assisti a uma comunicação de uma docente universitária de nomeada mediana e trajectória em parte horizontal na fase de arranque, que plagiava descaradamente a conclusão da minha tese de mestrado (era daquelas coisas que dificilmente se poderia atribuir à coincidência, pois tenho a certeza de não sermos almas gémeas e até frequentámos o mesmo mestrado, embora em anos diferentes). Ao que percebi era daquelas comunicações automáticas, apresentadas sempre da mesma forma, seja o colóquio sobre o feminismo no início do século XX ou acerca das guelras dos carapaus manteiga fritos com arrozinho de tomate.

A pessoa em causa não estava mesmo à espera que eu ali estivesse, pelo que, no final, quando eu lhe dirigi o mais cínico dos sorrisos, baixou a cabeça e seguiu para bingo.

Acabei por usar, salvo casos excepcionais de falta de vergonha no corpinho todo, esta estratégia de “deixa-andar que hádes ir na mesma com os pés para a frente”, até porque, se insistisse em apontar o dedo, quinzena sim, quinzena não, lá teria de me meter em trabalhos e ser profusamente adjectivado como tendo uma noção de posse animalesca em relação ao que escrevo.

Mas lá que é feio andar-se a pilhar a escrita alheia, acreditando-se que se escapa, seja por desconhecimento, seja por intimidação, é feio.

 

 

Caro Paulo Guinote

Depois de medições rigorosas posso adiantar alguma informação sobre o tamanho da famosa Salsicha Educativa. Segundo o meu estudo, a Salsicha Educativa medirá entre 70 cm a 80 cm. Infelizmente sobre o diâmetro, curvatura, cor e textura a informação é demasiado vaga. Apresento-lhe também aquilo que me parece ser uma simulação bastante exacta.

salsicha educativa

Acho que agora já estamos em situação de comparar nossa Salsicha Educativa com a dos outros países.

Sempre ao seu dispor

Calimero Sousa

 

… que o desgoverno actual procure justificar medidas com dados aldrabados. Sim, eu sei o que escrevi… aldrabados. Não é uma questão de incompetência, é mesmo de desonestidade política e não só.

Já quando se tratou da Educação, naquela coisa do Palácio Foz, usaram uma apresentação que já lhes tinha sido dito e demonstrado estar errada e insistiram. E, embora prometessem corrigi-la, nunca o fizeram publicamente, limitando-se a esquecer o assunto durante uns tempos para voltar algum tempo mais tarde a atacar com dados semelhantes.

Este desgoverno manipula conscientemente os dados para enganar a opinião pública e alimentar alguns opinadores mediáticos ainda fiéis. O problema, neste caso, é que na área da Ciência entre em choque frontal com gente muito conhecida e não apenas com zecos que foi muito mais fácil apresentar como corporativos.

Governo legitima mudança na política científica com dados descontextualizados

O que Carlos Fiolhais afirma para a Ciência era já válido para a Educação, mas não foi nada simples conseguir uma tão ampla demonstração…

Se olharmos para todos os profissionais que completaram o ensino superior nas áreas de ciência e tecnologia, e que estão a trabalhar nestas actividades, Portugal está na cauda da Europa: apenas 13,7% da população activa estava, em 2012, integrada em actividades de ciência e tecnologia, enquanto a média europeia era de 18,9%.

“O número médio de novos doutores na União Europeia em 2011 por 100.000 habitantes foi de 22,9”, diz-nos por sua vez Carlos Fiolhais. “Portanto, se queremos continuar o caminho de aproximação à média europeia, a convergência tem de continuar, o que só se consegue continuando a investir ao mesmo ritmo e não quebrando o investimento que se estava a fazer.”

… dão títulos alarmistas como este:

Alunos portugueses mal informados sobre saídas profissionais no fim do secundário, revela relatório

Não é que isto seja propriamente mentira mas, tirando o caso dos alemães, a situação dos alunos portugueses é perfeitamente compatível ou mesmo melhor do que a dos alunos dos outros países analisados:

McKenzie6

A verdade é que quem ler a notícia e ouvir a peça fica ainda pior informado sobre o assunto do que os alunos portugueses.

O MEC forneceu à imprensa os dados sobre o contexto sócio-económico e académico das famílias dos alunos. Porque não o fizeram as escolas privadas, para que se pudessem estabelecer comparações?

Os dados não seriam nominais, não existiria qualquer problema de privacidade…

Ou será que… isso revelaria que, provavelmente, até deveriam ter melhores resultados do que já têm e que andar a catar o cheque-ensino ao Estado é de uma enorme falta de… valores… (fiquemo-nos assim).

Que moralidade têm os defensores da liberdade de escolha ao exigirem transparência e informação ao Estado quando são eles os primeiros a não fazer o que exigem a terceiros?

Se o sector público deve prestar contas quanto ao uso do dinheiro dos contribuintes, o que dizer daqueles que o querem usar sem sequer se dignarem fazer o mesmo?

Querem subsídios, directos ou encapotados? Apresentem os vossos dados para comparar… mas os reais, nada de ficções fiscais.

… visto que as escolas os facultam ao longo de todo o ano para aquela coisa que dá pelo nome de MISI@.

  • Quantos foram verdadeiramente os professores contratados nos últimos anos, fazendo-se a distinção entre número de contratos e número de professores, pois há contratados com 2, 3 e 4 contratos por ano.
  • Qual a distribuição, por intervalos de horas lectivas e duração do contrato, da duração dos contratos desses professores, porque é diferente um contrato para 6 horas para 2 meses e um contrato anual com horário completo.
  • Quais os grupos disciplinares em que foi necessário recorrer a mais contratos/contratados (e respectivo peso relativo) e quais as razões para isso (doença dos professores do quadro, destacamentos em outros serviços, gravidez, alteração do número de turmas inicialmente previstas) e em que escolas/agrupamentos.
  • Qual é o número actual de professores nos quadros, qual a sua evolução nos últimos 5-10 anos, e qual a sua distribuição pelos escalões da carreira e qual a incidência das reduções ao abrigo do artigo 79º.
  • Qual é o número verdadeiro de pedidos de aposentação durante o ano de 2012 ou mesmo até Julho de 2013.

Estes números, por estranho que pareça, não são conhecidos publicamente e os que surgem, com algum atraso temporal, raramente batem certo de acordo com as diversas publicações, mesmo se a fonte oficial é a mesma. Não é fenómeno de agora, mas tentem usar os dados de diferentes publicações do MEC, do INE e da actual DGAEP e perceberão do que falo. Nada bate certo seja com o que for e nem é preciso entrarmos pelo território pantanoso das coisas tipo-FMI.

Mas estes números são essenciais para, cruzando-se com os dos alunos, fazer uma rigorosa prospectiva das verdadeiras necessidades – num quadro de estabilidade curricular e de organização dos horários dos professores – em termos de pessoal docente.

Enquanto o que existe são sarrafadas para o ar, conforme as conveniências, toda a gente se sente no direito de opinar sobre estes assuntos, usando os dados que lhe dão mais jeito, de governantes a assessores encapotados, passando por editoriais da imprensa do dia.

 

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