Revoluções


Golpe militar no Egipto: Morsi deposto e Constituição suspensa

General Sissi explicou, numa declaração ao país, que a Lei Fundamental, de teor islamista, vai ser mudada e que haverá novas eleições presidenciais.

Insurreição individual, algo esquecido por quem gosta do conforto protector do colectivo.

Will Egypt’s Arab Spring Turn Into an Arab Nightmare?

Clicar na imagem.

Por cá, convém que o líder do acampamento não seja o Boaventura Sousa Santos, a menos que renegue os avultados subsídios estatais que recebe o seu observatório.

As comparações com a primavera árabe a praça de Tahrir também deixam muito, muitíssimo, a desejar. Apesar do desejo de confrontos com a polícia, por mínimos que sejam.

Kadhafi: ‘Salvem Tripoli!’

É a batalha final pela Líbia. Os rebeldes já dominam largas partes da capital e a população celebra nas ruas da cidade. A casa de Kadhafi foi tomada mas o seu paradeiro é desconhecido.
Está em curso o último acto da guerra civil líbia iniciada em Fevereiro. Depois de um primeiro ataque frustrado na noite de sábado, grupos de homens armados combatem neste domingo já no interior de Tripoli, a capital da Líbia, controlando a Praça Verde e outras posições estratégicas na cidade. Centenas de presos foram libertados e pelo menos duas base militares foram tomadas.

First we take Tripoli, then we take Damasco?

Mas não tinha sido a democracia ali a ser ganha nas praças?

Egypt’s protest calls continue

CAIRO – Young revolutionaries and some political groups have been calling on Egyptians to take to the streets on Friday in a rally dubbed ‘Unity and Public Will Friday’, urging the Supreme Council of the Armed Forces to achieve the revolution’s remaining demands.

What next for Egypt revolution and transition to democracy?

CAIRO – The protestors are back in Tahrir Square, and as this city swelters in an Egyptian summer, tempers are short.

For three days running that we have gone into the cradle of this country’s democracy movement, and we have witnessed fights. On one occasion our cameraman came briefly under attack.

Na The Economist de 25 de Junho (imagem graças ao Livresco, link aqui):

 

A História é escrita pelos vencedores ou pelos sobreviventes? Depende.

O sucesso da revolução de 25 de Abril pode atribuir-se a uma personalidade acima de outras? Alguém fez o 25 de Abril?

Otelo acha que foi ele. Eu acho que foi tanto ele quanto Salgueiro Maia. Sem Salgueiro Maia avançar quando tudo parecia estar a correr mal (um pouco como Machado Santos em 1910), dificilmente os planos de Otelo teriam servido para alguma coisa.

Otelo fala como se fosse uma espécie de dono do 25 de Abril. Percebe-se esta forma de exaltação própria num processo que teve muito mais gente decisiva, embora não se possa falar em massas, que essas chegaram depois.

Aliás, de tudo aquilo que nas últimas semanas tem sido atribuído a Otelo Saraiva de Carvalho ou que o próprio disse, eu encontro especial lucidez nesta passagem:

“O povo está sempre à espera que alguém faça alguma coisa”. E continua pouco preocupado em ser politicamente correcto, explica: “O povo está sempre nas encolhas, e dizem: ‘É preciso que vocês façam, que nós apoiamos.'”

Porque isto é verdade. Para o presente, com base no próprio passado. Só quem tem da História uma visão muito parcial, enviesada ou lacunar é que não é obrigado a reconhecer que entre nós não há, há mais de 150 anos, qualquer movimento revolucionário de sucesso que tenha sido empurrado pelas massas.

Aliás, até a própria revolução liberal de 1820 parte de um pronunciamento militar. Se é verdade que a primeira metade do século XIX assiste a movimentos populares de revolta, nenhum deles foi capaz de fazer inflectir o regime existente de forma duradoura. E em alguns casos, as massas foram manifestamente contra-revolucionárias (na Maria da Fonte, por exemplo).

No século XX, a regra é mesmo essa: as mudanças de regime de tipo revolucionário só aconteceram quando as forças armadas – ou parte delas – aderiram ou promoveram um movimento insurreccional planeado a partir de um grupo restrito. Em 1910, 1926 e 1974, a revolução foi resultante de um golpe (militar) de Estado. As massas ou apareceram a apoiar (1910, 1974) de forma mais ou menos entusiasmada ou primaram pela ausência (1926).

Otelo tem razão no que diz sobre as massas nacionais, sempre demasiado prudentes para avançarem sem uma vanguarda que faça o trabalho mais pesado.

Por isso é interessante, mas apenas isso, ler certos apelos à revolta das massas como motor de uma espécie de mudança de regime.

Não tenhamos ilusões: não é por aí que se passará seja o que for.

Mas também não passa por nenhum homem providencial, por muito que o busquemos (e o não encontremos).

A regeneração disto só pode passar por outra via e não é um qualquer Otelo que o conseguirá fazer, mesmo se ajudado por um determinado Salgueiro Maia.

Entre algumas vanguardas iluminadas, quantas vezes em busca de cooptação, e as massas que se satisfazem com a Avenida da Liberdade, pensando que basta mostrarem-se e desfilar, terá que existir uma terceira via.

Dificilmente se terá ouvido e lido tanto sobre revolução como nestes últimos tempos. Enquanto os revolucionários de outrora retomam, a medo, o termo, encarando com cepticismo manifestações revolucionárias (cf. posições de alguma esquerda sobre o que se vai passando no norte de África), os conservadores anti-revolucionários de antanho (empresários, analistas financeiros, comentadores políticos)  agarram na palavra revolução e despejam-na em tudo.

Querem uma revolução no Estado, uma revolução nas mentalidades, uma revolução na economia, uma revolução na vida política, caramba, parecem mesmo uns robespierres do século XXI, pelo menos na conversa (fiada). Não sei se é por hipérbole da palavra mudança que, de súbito, a revolução passou a seduzi-los, eles que são ou descendem de um consolidado pensamento contra-revolucionário.

Como sobre quase tudo, eu tenho uma teoria parva sobre isto e um conceito à medida para estas revoluções enunciadas.

Acho que estes revolucionários neófitos não pretendem uma revolução à velha escala macro, em que tudo vai à frente e não fica pedra sobre pedra (porque isso abalaria os fundamentos que os mantêm em posição de destaque), nem à escala micro, em que teriam de alterar as suas próprias práticas (pois acham que são as suas que estão certas e não padecem de alteração).

Eles defendem aquilo a que eu chamarei a meso-revolução, uma revolução mediana, ali ao lado, naqueles sectores que lhes convêm mais, normalmente atingindo apenas os outros. Querem uma revolução à sua medida. Ora, por definição e pela prática conhecida, uma revolução a sério não é isso. O que eles querem é um simulacro de revolução. Uma revolução no que lhes dá jeito. De certo modo, também é o que penso de alguns à rasca. Querem a revolução, mas só até certo ponto, pois não é preciso exagerar…

Em tempos isto chamava-se reformismo… e do selectivo.

Leitura sugerida pelo António Ferrão:

Predicting Global Revolutions, Civil Wars and Riots

Um texto que gostei imenso de escrever, a pedido do Pedro Correia, que foi postado ontem, pelo meio do foguetório do dia, mas que deixo aqui agora recordado:

A Revolução já não é o que era!

The Political Power of Social Media

From Innovation to Revolution

O ideal de toda e qualquer sociedade que se pretenda justa. Os ideais que, de uma forma ou de outra, se inscrevem em todas as declarações de intenção das democracias ou mesmo de regimes que, o não sendo, gostam de o simular.

No norte de África, de Marrocos ao Egipto, para os próprios e para a Europa, está em jogo muita coisa nos movimentos revolucionários que se vivem ou antecipam.

O que se vai sabendo, desde o (vamos crer que excepcional) episódio Lara Logan até aos êxodos populacionais (de tunisinos para Lampedusa, de líbios para a Tunísia, mesmo de egípcios), aconselha-nos a ler com muita atenção o que se passa, as suas implicações e natureza.

Até que ponto a falta de prosperidade (interna) despoletou a insurreição, até que ponto a conquista da liberdade é o motor de tudo, até que ponto a segurança entra em jogo na (in)equação.

E até que ponto a liberdade destes povos colide com os interesses da Europa que pode ver nela uma ameaça à sua segurança e prosperidade.

Prognósticos, só no fim da revolução…

O maior problema, por cá, é o entusiasmo epidérmico com as ruas em polvorosa, não havendo grande ideia sobre o que está sob o borbulhar da revolta. Se o poder nas ruas passar para a Irmandade Muçulmana (ou se ela vier a ter um peso importante no rescaldo de uma eleições democráticas) quero ver o que dirão muitos entusiastas de agora:

Egypt protests – live updates

Scholar of Revolution In Berlin

‘I’m Not Fomenting Revolution, I’m Studying It’

The Bolshevik Revolution of 1917 in Russia remains rich soil for today’s left-wing revolutionaries. Hundreds flocked to hear acclaimed US historian Alexander Rabinowitch discuss his latest work in Berlin recently. But the scholar is anxious not to be mistaken for a political figure.