Representações


gosta-se.

Recuperado de uma pasta antiga com materiais da minha segunda passagem pelos Casquilhos.

Há um evidente desconforto e incómodo na forma como alguns recordam a manifestação de 8 de Março de 2008. Se exceptuarmos o Paulo, que mantém daquele dia o entusiasmo, quem pela blogosfera evoca a data (e são poucos, muito poucos e alguns nota-se mesmo que o fazem empurrados) parece querer reescrever a história para a adaptar aos interesses do momento.

E há quem se pareça ter esquecido ou nem ache assunto que mereça tempo e atenção.

Mas o mais triste é mesmo ver alguns a reescreverem a história de acordo com a sua escola ideológica, fazendo piruetas cronológicas, arrasando factos e destruindo nexos causais. Mentindo.

Há quem salte de 8 de Março de 2008 para a entrega dos OI – culpando os professores que o fizeram – em Janeiro de 2009, apagando do percurso o memorando do entendimento e a total ausência de uma posição sindical clara sobre os OI no final de 2008, mesmo no rescaldo das manifestações de Novembro.

Para lavarem a consciência apontam o próximo fim de semana como se fosse a marca de um novo arranque da luta e, à moda dos bons crentes, apagam o passado com umas rezas. Apontam para 10% do outrora foi, quando mesmo eu espero mais. Apostam na mistura com os outros protestos do mesmo dia, para encobrirem o que foi perdido ao longo de três anos e a desconfiança que geraram.  Acusam os colegas de terem sido apenas anti-MLR e de não terem o seu profundo substrato ideológico que os mantém firmes a relatar colegas, entre a espada e a parede, como confessam, pensando que os não ouvem. São tão incoerentes na sua postura que nem vale a pena nomeá-los.

Já o Miguel teoriza no balanço entre a micro e a macropolítica, parecendo não perceber o essencial: há quem não queira a queda deste Governo e de oposição às suas políticas faz apenas a coreografia indispensável para manter as aparências e erguer pergaminhos. Muitos lutadores receiam o FMI e a ascensão da “Direita”, não percebendo eu muito bem – sou curto de ideias – se todas as portas para os atropelos não foram já abertas e se realmente ainda há pior por aí do que aquilo que nos desgoverna.

Sempre que a frente comum amaina e aqui se fazem algumas críticas, mesmo que ao leve, ao movimento sindical, saltam logo reacções do tipo se não és da casa não podes falar sobre a forma como se divide o pão. Isto quando não se passa imediatamente a achar que a crítica a alguns comportamentos, atitudes e posições específicas significa um ataque frontal à liberdade sindical (extrapolação mais curiosa quando parte de quem propôs a exclusão de outras organizações sindicais da mesa de negociações…).

Já tentei várias vezes explicar as coisas de modo directo e claro. Parece que não funciona.

Então vou colocá-las de outro modo, que também não é original, mas sempre serve para suscitar discussão:

  • Cavaco Silva foi eleito Presidente de todos os portugueses e representa o país quando no exercício das suas funções, por exemplo, fora do país. Eu não votei em Cavaco Silva, nem penso vir a votar se ele se recandidatar. Isso impede-me de formular opiniões sobre os seus actos, posições e declarações?
  • O Partido Socialista foi o partido mais votado nas anteriores eleições e desse facto resultou que tivesse formado Governo, chefiado por José Sócrates, e representa o Estado Português na União Europeia. Eu não votei no Partido Socialista, nem quis que José Sócrates fosse primeiro-ministro. Isso impede-me de formular opiniões sobre os seus actos, posições e declarações?
  • O Partido Social Democrata é o maior partido da oposição em Portugal. Para diversos efeitos lidera essa mesma oposição no Parlamento, em termos práticos é a alternativa de Governo e o seu líder, Pedro Passos Coelho, o potencial futuro primeiro-ministro. Eu não pertenço ao PSD, não tive nada a ver com a escolha de PPC para líder da oposição. Isso impede-me de formular opiniões sobre os seus actos, posições e declarações?

Querem que eu continue por aí abaixo ou ficou percebido o ponto? Desde logo recomendo a quem me critica que opine sobre organizações a que não pertenço que, para ser coerente, deixe de opinar sobre aquelas a que não pertence. Não é essa a minha posição. Mas se querem ser coerentes com o que afirmam, pratiquem e então poderemos conversar. Até lá…