Psicologia Caseira


Não é que eu ache que se devam criar milícias populares, restaurar a pena de morte e regredir uns séculos valentes para recuperar os castigos da lei sálica.

Mas há a atitudes que, por mais estimáveis que sejam, despertam assim como que uma reacção imediata de… de… de….

Ou então esta gente anda a ver demasiadas séries televisivas.

Vejamos:

Em declarações recolhidas por Margarida Davim, no Sol de ontem, junto da psicóloga Helena Sampaio da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) pode ler-se:

Os agressores têm problemas de saúde mental [concordo!], maior probabilidade de se sentirem deprimidos e infelizes [pois, será por isso que tentam que os outros fiquem pior do que eles?], em risco de cometer suicídio [o quê???].

Ahhhhh…. está tudo explicado. Afinal os potenciais suicidas são os agressores, não os suicidas mesmo.

Está percebido. Com coisas destas fico com a mesma atitude da personagem da série Ossos, Temperance Brennan (a interessante Emily Deschanel), em relação à Psicologia.

Já no I de hoje, em relação ao caso do chamado violador de Telheiras, o seu advogado afirma que «ele sofre de uma psicopatia mental» [existirá outra?], sendo um desses sinais o facto de ter procurado ajuda psiquiátrica e continuar «a tomar comprimidos». Não está afastado o cenário de ser usada em Tribunal uma estratégia baseada na inimputabilidade de alguém que violou dezenas de mulheres, planeando obviamente os ataques, já que conseguiu escapar durante imenso sem ser detido.

Mas pelos vistos – e mesmo depois de confessar as 40 violações e se afirmar consciente do que fez – haverá quem se preste a declará-lo inimputável.

E ainda dizem que as séries de tlevisão são fantasiosas. Cá para mim, cada episódio do Boston Legal, mesmo com o William Shatner/Denny Crane aos tiros em boxers, é mais credível do que isto.

“Magalhães” causa ansiedade nas crianças

A demora da chegada do Magalhães às escolas está a criar ansiedade, angústia e alguma “cobiça” nas crianças, que não compreendem por que é que o colega do lado recebeu antes o famoso computador portátil, alertam pais e professores.

Para evitar este “ciúme” muitas escolas optaram por não trabalhar com os computadores até todos os meninos terem o Magalhães, enquanto outras optaram por trabalhos de grupo para os alunos irem aprendendo informática.

“Há uma grande insensibilidade da parte das operadores na percepção do que são crianças a receber um bem como o Magalhães, que lhes aguçou o apetite e é gerador de ansiedade”, disse à Lusa o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Albino Almeida.

Repare-se na simpatia do Pai da Nação que iliba completamente o ME e o Governo de quaisquer responsabilidades pelo não cumprimento das suas promessas e não das «operadoras».

O que vale é que Valter Lemos e José Pacheco são almas sempre jovens.

Professores mais velhos resistem às novas regras da avaliação

Os professores com mais anos de carreira têm menos disponibilidade e podem não estar mentalmente preparados para responder às exigências que a escola pública hoje lhes coloca, defende um especialista em ciências da educação.

“Foram introduzidas novas regras na avaliação docente, novas exigências e uma nova diversidade no trabalho docente. Hoje é muito mais fácil os professores jovens aderirem a estas exigências do que aqueles que tiveram de fazer a transição entre um sistema e o outro”, afirmou à Lusa o director do Centro de Investigação em Educação da Universidade do Minho.

Segundo José Pacheco, os professores com mais anos de carreira “nem sempre estão mentalmente preparados” para responder às novas exigências do sistema de ensino, como o trabalho burocrático e o tempo extra lectivo passado na escola, pelo que há um certo “desencanto” em relação à profissão.
(…)
O secretário de Estado da Educação reconhece que o corpo docente “está bastante envelhecido” e que em 2005 mais de metade dos professores estavam nos últimos três escalões. Mas garante que tem havido renovação. “Este ano daremos um grande impulso a essa renovação, com um concurso válido para quatro anos para recrutar novos docentes”, afirmou Valter Lemos.

Talvez agora se percebam aqueles ímpetos por parte do ME que em várias alturas fez os possíveis por empurrar os docentes mais experientes para fora do ensino. É por estamos todos «envelhecidos» e não estamos «mentalmente preparados».

Eu, por exemplo, aos 43 anos, sou um caso perdido de envelhecimento e impreparação mental para os disparates do guru-mor dos afectos, que de tanto querer impor a tolerância demonstra até que ponto é intolerante, e para secretários de estado que têm uma certa e determinada sobranceria sempre que falam dos professores sendo que o seu trajecto pessoal e profissional isso não recomendaria, muito menos a sucessão de atropelos jurídicos e equívocos na apresentação dos factos.

Mas há sempre solução: fazem-se contratos com os professores apenas para 20 anos de carreira. Aí por volta dos 45 (idade média que se atingiria o antigo 8º escalão, o primeiro dos três escalões fatídicos)  mandam-se embora e contrata-se nova fornada.

Dos mais velhos, para condução do rebanho, deixam-se ficar só os pachecos.

Excelente livro, com uma variedade de passagens que, se alguém duvidasse do que lá vem escrito, bastaria olhar em seu redorou ver um noticiário televisivo.

As que se seguem são extraídas do capítulo «A negação da realidade em nome da realidade».

Enquanto a cisão ainda não se efectuou, reagimos ao que fazemos e ao que nos acontece com sensações de dor, desamparo, ou felicidade e curiosidade. Como fazem parte da nossa experiência de vida, essas reacções são continuamente integradas na nossa psique e aí continuam a fazer o seu efeito. São elas que nos fornecem as energias criativas, uma vez que determinam a nossa receptividade em tudo o que interfere connosco vindo de fora. Mas a criatividade diminui na medida em que menosprezamos tais sensações. Uma vez separados do nosso interior, reagimos apenas com ideias e conceitos obrigatórios e pré-fabricados. Daqui até à transformação em robot já não falta muito.

Há portanto, dois estados mentais diametralmente opostos. Onde o mundo interior é acessível, uma pessoa será capaz de reagir de uma forma criativa aos estímulos externos. Pode mesmo existir como um mundo interior inconsciente, desde que seja recuperável. A vida interior é uma entidade muito flexível que tem uma grande capacidade de reacção.

No tipo contrário, é diferente. Se o mundo sensível estiver bloqueado, os contactos do indivíduo como o mundo exterior deixá-lo-ão inalterado. Ou melhor: nem existirá um verdadeiro contacto com o exterior. (p. 23)

Ocorreu-me isto quando ontem na Sic Noticias, no Eixo do Mal, alguém (Daniel Oliveira? Pedro Lopes?) subkinhava a incapacidade de José Sócrates para manter uma discussão de ideias com alguém, ou mesmo de responder a qualquer questão num debate, sem imediatamente se refugiar em fórmulas ou partir para o achincalhamento pessoal do interlocutor.

Surviving the post-vacation blues

After Vacation: Tips to Bounce Back Fast

A ressaca pós-férias existe

Sinais de depressão nos primeiros dias de trabalho são habituais. Descanso já não está na moda: procura-se a emoção da aventura, para ter o que contar aos amigos no regresso.
Se já começou a sentir uma ansiedade miudinha com a perspectiva de amanhã voltar ao trabalho, sinais de irritação e cansaço, é provável que esteja a experimentar a síndrome pós-férias.
Estima-se que cerca de 40% dos trabalhadores evidenciem dificuldades no regresso à vida real, dos horários, das obrigações, das contas para pagar. No entanto, para alguns, as férias são uma fonte de rendimentos simbólicos e sociais. Vai-se de férias para ter o que contar e impressionar os amigos.
Estudos realizados em países como Espanha e Brasil revelam que quatro em dez pessoas registam, nos primeiros tempos de trabalho, sintomas como irritabilidade, cansaço, tristeza, mau humor ou alteração dos padrões de sono e de apetite. “Não se trata de uma verdadeira depressão”, explica Telmo Baptista, psicoterapeuta e presidente da Associação Portuguesa de Terapias Comportamental e Cognitiva. O que se verifica é a existência de uma reacção adaptativa – por vezes difícil – ao trabalho, marcado por um registo de dever, depois de um período de lazer e sem obrigações.
Se o estudo fosse feito por cá acho que eram 5-6 pessoas em cada 10.

A tal da depressão pós-férias

Ela dá as caras logo nos primeiros dias de trabalho e vem acompanhada de desânimo, dores de cabeça e cansaço profundo.

O cansaço profundo eu sei explicar e já o sinto há uns dias…

Estou cansado de ouvir o mote «Errar é humano».

Cansadíssimo. Sei disso por experiência na primeira pessoa. Parece que sou humano, pois já errei a minha conta de vezes. Mas também vou acertando algumas. Felizmente para a minha vida e dos que me cercam, vou acertando mais do que falho nas coisas que fazem parte das minhas obrigações e funções (pessoais, familiares, profissionais, sociais).

Quando erro, passada a infância mais ingénua em que pensamos que toda a má desculpa é válida e convincente, aprendi a conviver com a necessidade de não me justificar com o relvado molhado ou o numeroso público. Mesmo quando culpo o árbitro, tento demonstrar porquê. Por isso não gosto de críticas vagas e perco algum tempo a aborrecer quem me queira ouvir (e agora ler) a explicar porque me queixo disto ou daquilo.

Talvez seja algo que se aprende com a vida, com a idade, com a experiência.

Só assim compreendo que ainda exista quem aceite como válidas certas justificações dadas para legitimar maus resultados nos Jogos Olímpicos. Note-se que não são os maus resultados que me aborrecem, mas sim as desculpas dadas.

E é aqui que acho que o Desporto e a Educação estão muito relacionados e se revela até que ponto se entranhou a estratégia da desresponsabilização individual pelos maus desempenhos.

Basta ler as declarações de Nuno Fernandes, ao que parece Presidente de uma Comissão de Atletas Olímpicos de que desconhecia a existência, na última página do Diário de Notícias de hoje. Certamente um defensor da pedagogia da auto-desculpabilização e da palmadinha nas costas, Nuno Fernandes afirma que mandar Marco Fortes para Portugal após as suas infelizes declarações – é o tal da caminha «é muito injusto e, em termos pedagógicos, é completamente desajustado».

Talvez seja numa perspectiva da «pedagogia desportiva dos afectos». O que parece esquecido é que Marco Fortes depois de dizer que à hora da prova «as pernas queriam era estar esticadas na cama», acrescentou – que eu bem vi na televisão – que apesar de tudo era muito bom ir aos Jogos Olímpicos, espectacular e tal e que todos se deviam esforçar por ir. E até disse «gostei de cá estar», assim mesmo no pretérito perfeito. Como que percebendo que a sua missão estava cumprida.

Perante isso, mandá-lo na volta do avião foi uma medida eventualmente politicamente incorrecta, mas justíssima. O que ficava lá ele a fazer? A dormir?

Mas, como na Educação, há sempre quem ache que há desculpa para tudo e não faltaram logo os que o defenderam que ele é um brincalhão, sempre bem disposto – pois, bem dormido, deve ser o máximo – e que tudo deve ser desculpado com a inexperiência do rapaz, vejam lá.

Só que ele precisa de aprender que não é assim que se vai lá. Passar impune tal dislate é validar a estratégia da graçola, tomar como boa a teoria do coitadinho.

No fundo nada de muito diverso do que agora se usa como regra – errada – na Educação, na Política, na Economia, etc, etc. O «errar é humano» como regra e não como excepção.

Por isso, tem razão Santana Castilho quando escreve hoje no Público que:

Um país que cultiva na escola e na polis a falta de rigor e de exigência, tem autoridade para sancionar quem o envergonha no estádio olímpico?

Claro que não e por isso mesmo é que o nosso Primeiro Ministro elogiou o desempenho de todos os nossos atletas realçando que todos eles representaram bem Portugal. Para a próxima, em 2012, só falta que os atletas mandem os resultados das suas provas por fax para Londres, enquanto dormem o soninho dos justos, não vá aparecer muita gente no estádio ou a égua ficar histérica.

É interessante como se definem fenómenos como «transições traumáticas» de acordo com as suas circunstâncias. Nota-se que existem um evidente refinamento da análise quando:

  • Se considera uma «transição traumática», a passagem de crianças com 10 anos do 1º para o 2º CEB, porque se rompe a relação afectiva estabelecida com o espaço único da sala de aula e um professor, passando para um espaço mais plural e para uma relação pedagógica mais diversificada. Mesmo quando isso acontece no âmbito de um mesmo agrupamento, entre escolas com algumas centenas de metros de distância e mantendo-se globalmente o mesmo grupo-turma.
  • Não se considera uma «transição traumática» a passagem de crianças de 6 anos da escola da sua pequena aldeia para uma escola maior, quantas vezes a dezenas de quilómetros de distância, implicando uma deslocação do seu espaço de vivência quotidiana durante um período que pode chegar a 10 horas, levando-a para um espaço desconhecido e forçando-a a integrar-se num grupo mais amplo e desconhecido, quantas vezes com costumes e rotinas divergentes.

Claro que muito se poderia dizer sobre esta forma de demonstrar preocupação pelo bem-estar das crianças/alunos e sobre a coerência que lhes está subjacente e que existe (a existência de um trauma e a ausência de outro têm implicações orçamentais concordantes). Assim como se poderiam repescar declarações de alguns protagonistas muito preocupados com uma das transições, mas manifestamente menos activos na prevenção da outra.

Mas isso seria pedir muito, certo?

Eduardo Lourenço foi quem mais habilmente demonstrou esta dissociação, nos portugueses, entre a auto-imagem e as efectivas capacidades. Por isso não espanta que:

Os alunos portugueses de 15 anos são dos que mais valorizam a importância do conhecimento científico. Em toda a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), são mesmo os que mais desejam seguir uma carreira nesta área, apesar de apenas dominarem as competências mais simples.

A maioria acredita que o seu desempenho é bom e que aprendem rapidamente o que é ensinado nas aulas, demonstrando uma atitude bem mais confiante do que os seus colegas finlandeses, que lideram o ranking. Mas na hora de mostrar as suas competências, só três países se saem pior – Grécia, Turquia e México.

E depois ainda há quem diga (a parceria ME/Confap) que temos pouca auto-estima e que os professores são terríveis a desmoralizar os alunos. Se mesmo assim são os que têm melhor auto-imagem, nem quero ver como seria de outra forma!

Agora mais a sério: isto mais não é que a demonstração prática de que os alunos estão já perfeitamente convencidos de que tudo é fácil e que eles são os melhores do mundo. E que o que fazem chega, mesmo não chegando. Um pouco como no futebol durante muito tempo.

Depois falta é a concretização. E quando aparece alguém que exige mais do que prosápia é que é pior. É porque é muito exigente. Provavelmente é porque é ruim. Ou mesmo disfuncional.

 

O rosto humano é o palco da nossa identidade e é a parte que mais mostramos aos outros durante toda a vida. O indivíduo procura ser congruente na sua expressão facial. Mas nem sempre tal conduta é possível, por razões que se prendem com as variáveis moderadoras como o género, a idade e o contexto social. A expressão das emoções reais  passa pela intensidade e a duração. Se a expressão se coaduna com o meu estado psicológico, isto é, quando não se pretende, à priori, disfarçar aquele estado, a expressão facial será real, uma vez que se verifica a harmonia no processamento da informação. Se o indivíduo está feliz, o rosto vai traduzir-se em movimentos musculares e ósseos espontâneos e simétricos. (A. Freitas Magalhães, A Psicologia das Emoções – O Fascínio do Rosto Humano, Porto: Univ. Fernando pessoa, 2007, pp. 33-34.)

Não há que enganar, é um investigador português. E dos bons. Quanto ao outro artista, também é português. Ponto final. Parágrafo.

Ao contrário do que alguém que se assina PJ quer dar a entender em comentário mais ressabiado do que insultuoso deixado em post anterior, a minha fixação na equipa ministerial, nos seus tiques e falhas discursivas, não me tira horas de sono nem aumenta especialmente a minha despesa com jornais. Nem tem motivações estranhas ou do foro da patologia. Digo eu…

Pelo contrário, muito do material é-me enviado simpaticamente por colegas, ou recolhido na imprensa que eu compro regularmente há uns bons 25 anos e que se acumula em barda em mais espaço do que o razoável. Não terá o comentador PJ que insinuar sequer que sou financiado por qualquer editora ou interesse oculto, logo eu que recebo bastantes mails de divulgação de novidades editoriais, mas por acaso nenhum da Asa com a qual colaboro mensalmente no Correio da Educação, sem qualquer remuneração pecuniária ou contrato que não seja a palavra de quem a cumpre.

Mas como me divirto bastante com tudo isto, decidi que parte do tempo que antes dedicava a outros hobbys passaria a ser usado a cuidar do meu umbigo.

Vai daí e dei-me ao trabalho de ver a parte do debate de ontem que gravei por ser exactamente já muito tarde para assistir em directo em busca das tais expressões de body language que tão sintomáticas são daquilo que pensam as pessoas.

Como o professor Freitas Magalhães tão bem demonstra, a psicologia do sorriso é riquíssima e revela-nos muito sobre os mecanismos mentais de quem sorri e em que circunstâncias sorri.

No caso de ontem, atentei a dois casos quase opostos: o de Maria de Lurdes Rodrigues que raramente sorri e o de Valter Lemos que sorri demais e a despropósito, atendendo à sua posição e funções.

MLR sorriu quase só por uma vez, já com o debate muito avançado. E quando sorriu? Quando Fátima Campos Ferreira a inquiriu sobre o desemprego dos docentes e ela ensaiou a sua resposta pré-estudada.

 

Desculpem-me lá, mas não é natural que uma Ministra da Educação leve três horas de cara fechada e só sorria quando lhe falam em desemprego de candidatos à docência. Para mais porque foi sorriso não forçado ou nervoso, mas espontâneo.

Já quanto a Valter Lemos, que levou grande parte do debate em atitude chacota e a fazer algo que antigamente se definia por chasquear, em particular quando intervinham os representantes dos docentes, demonstrou todo o seu respeito pelo tema, quando reagiu da forma que a seguir se pode observar (em ameno convívio com o seu acompanhante da direita, já que com Pedreira comunicou bem menos) à intervenção de António Grancho sobre a violência escolar, em particular quando Fátima Campos Ferreira lhe cortou a palavra.

A quem achar que estou a faltar ao rigor dos factos, posso facultar a gravação do programa. Ou a quem não resistiu a ver tudo e acha que não pode ser. Como ainda mantenho um par de gravadores VHS em funcionamento por casa registei este acontecimento (como já fiz com muitas outras centenas de programas deste e outro tipo) para a posteridade e é só isolar as frames em causa.

Que  dois governantes se comportem deste modo quando se lhes fala de desemprego de dezenas de milhar de candidatos à docência e de situações de violência escolar e de agressão física e verbal a docentes é algo que – repito – não acho natural.

Pior. É algo que acho doentio e um sinal dos tempos infelizes que vivemos e da humanidade pequena que habita em quem tem o poder de mando.

 

Quando os debates se organizam em torno de discursos narrativos fechados, debitados como se não houvesse necessidade de articular o contraditório – e nesse aspecto a Ministra foi quem esteve mais fechada repetindo quase passo por passo o mesmo que disse na entrevista dada ao Jornal de Letras, com frases quase exactamente iguais – um tipo começa a ocupar-se na observação dos detalhes, sendo um dos mais interessantes tentar reparar, com as limitações do ecrã televisivo, como se manifesta a linguagem corporal dos protagonistas.

Quem dá aulas há algum tempo, está habituado (ou deveria, para seu próprio bem) a “ler” a forma de se mover dos alunos e muitas vezes é possível detectar situações, antecipar comportamento, adivinhar pensamentos, pela forma como funciona a sua inguagem corporal.

No debate de ontem tivemos vários tipos de posturas, desde as naturalmente contidas (Joaquim Azevedo, José Manuel Canavarro) até às contidas pela necessidade de suportar uma posição de subalternidade interventiva (Mário Nogueira, Dias da Silva um pouco menos), passando pelos que mais naturalmente parecem assumir uma presença pública (António Grancho) ou os que aproveitam a ocasião para, na rectaguarda, apresentarem uma postura de gozo com os adversários (Valter Lemos, sempre com ar de gozo quando intervinham os sindicalistas ou quando se expressavam opiniões desfavoráveis ao ME).

No meio de tudo isto, Maria de Lurdes Rodrigues voltou a mostrar como resiste mal à passagem do tempo de um debate e à necessidade de responder a situações ou questões imprevistas e/ou vagamente incómodas. Começando menos mal, MLR vai progressivamente perdendo qualquer tipo de naturalidade e toda a sua linguagem corporal começa a manifestar tensão e desconforto. Desde o tique pessoal das mãos postas, por vezes sobre o rosto ou apenas a boca, até aos olhares fulminantes lançados sobre alguns interlocutores, nos raros momentos em que parece conseguir encará-los.

A tensão vai-se acumulando ao longo do tempo e com o avançar do programa percebe-se que MLR não quer estar ali, não quer justificar-se ou explicar-se, que a aborrece ter de ouvir os outros a contrariá-la. Quem seguisse com alguma atenção o seu desempenho nas horas do debate notaria que só quando lhe era lançada uma questão para a qual tinha o guião da resposta, ela se descontraia um pouco. Sempre que esperava por intervir após um interlocutor menos cordato, demonstrava impaciência, não tanto por começar a contraditar, mas mais em relação àquilo tudo e ao acto de ouvir o que não queria.

Sendo que é da natureza das coisas um responsável político saber os rudimentos da comunicação em público, ou em alternativa ser alguém com bons conhecimentos técnicos na área ou demonstrar capacidade de liderança política na obilização das vontades, MLR falha completamente em todos estes aspectos.

Voluntariamente ou não exibe um leque restrito de indicadores, alguns deles adulterados (caso da evolução do nº de alunos e docentes no 1º CEB), manifesta incapacidade em comunicar de forma atractiva as suas ideias e é incapaz de desmontar uma argumentação adversa, por simples que seja, sem ser através da repetição daquilo a que se convencionou chamar umaa cassete.

Repetitiva, monocórdica, rígida. Sob tensão.

Então em termos físicos e emocionais sob uma imensa tensão.

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