Preconceitos


Estudo diz que 44 por cento dos professores não escolheriam a sua profissão novamente

Quase 44 por cento dos professores não escolheriam a sua profissão hoje em dia, revela um estudo realizado pelo Instituto Politécnico de Castelo Branco (IPCB) a pedido da Associação Nacional de Professores (ANP) e apresentado ontem no Porto.
“O facto de os professores estarem insatisfeitos com a sua condição tem um grave reflexo na aprendizagem dos alunos”, disse João Ruivo, responsável pelo estudo realizado pelo Centro de Estudos e de Desenvolvimento Regional (CEDER), à margem do V Encontro Luso-Espanhol sobre a profissão docente.
João Grancho, presidente da ANP, disse que, segundo o estudo, “quase 80 por cento dos professores querem um sistema de auto-regulação, uma Ordem dos Professores”.
“Como ponto de partida para este sistema, enfatizamos (ANP) a criação de um código deontológico para a profissão de docente, que é a única que trata da formação das pessoas que não tem um código”.

Não posso avaliar a qualidade e profundidade deste estudo, pois faltam-me os elementos técnicos – ou «científicos» na expressão do seu autor – da recolha das informações, pelo que me resta, por agora, apontar um par de detalhes:

  • Não percebo bem porque a opção por outra via profissional, caso estivessem agora em início de carreira, afectará necessariamente o desempenho dos professores e muito menos as aprendizagens dos alunos, a menos que o estudioso em causa considere que estes 44% de professores são maus profissionais e que transportam para a sala de aula a sua insatisfação com a evolução da sua profissão. É uma conclusão simplista e simplória. Nesse caso, em momentos de fricção entre enfermeiros e médicos e o Ministério da Saúde será melhor deixar de ir ao Hospital? E se os juízes estiverem em ebulição será melhor adiar a entrada de um processo judicial?
  • Por outro lado, e mesmo concordando com a ideia de um código deontológico e de uma possível Ordem dos Professores, acho sempre uma coincidência muito «científica» quando um estudo encomendado comprova largamente as posições prévias de um dos seus activos promotores.

Pelos vistos, os sindicatos andaram mesmo aos papéis durante muito tempo – já o sabíamos, mas é bom confirmá-lo – e perderam completamente o comboio da contestação ao ME até conseguirem um balão de oxigénio com a manifestação de 8 de Março e depois com o entendimento com o ME.

No fundo, e eu até achei que o entendimento não foi necessariamente negativo e dei-lhe o meu apoio sob reserva, ME e sindicatos queriam era normalizar a situação.

  • O ME condescendeu e reconheceu aos sindicatos um papel que lhe negara durante três anos, com o objectivo que eles passassem a enquadrar a acção contestatária multipolar dos professores. Reconhecendo aos sindicatos o direito a estarem presentes em organismos de que antes estariam arredados – substituídos por um Conselho de Escolas que se mostrou meio indócil – o ME precisou dos sindicatos para acalmar os docentes e neutralizar a parte tradicional da contestação.
  • Os sindicatos precisaram de ter uma espécie de vitória simbólica para exibir, assim como de recuperar o protagonismo que estavam a sentir ter perdido desde 2005. Incapazes de reagir em seu tempo, os sindicatos uniram-se no sentido de mostrar uma frente única ao ME mas também aos docentes, globalmente fartos do modo de agir de um sindicalismo acomodado, sem imaginação e em risco de ser thatcherizado pela equipa do ME.

Aquilo a que se assiste agora é a uma tentativa dos sindicatos esvaziarem as formas alternativas de organização dos docentes e, nesse sentido, as declarações de João Dias da Silva são bem elucidativas:

Muitos sócios nossos podem ter-se sentido motivados pelos blogues, pelos SMS, pelas mensagens desses movimentos que aliás, durante a contestação, deram um contributo para o reforço do debate entre as pessoas.
(…)
Mas é preciso referir que há diferenças radicais entre o funcionamento dos movimentos informais de cidadãos e os sindicatos. E que, em democracia, a legitimidade da representação dos trabalhadores pertence aos sindicatos e a mais ninguém.
(…)
Não devemos criar confusões com entidades amorfas, que não têm dirigentes eleitos. Prestam contas perante quem? E de quê? Nos sindicatos as opções não resultam de conversas de café ou de encontros na sala de professores, são o resultados de do funcionamento de órgãos constituídos democraticamente.

Vamos lá começar por dar uma pequena dose de anestesia: todos temos direito às nossas opiniões e a defender os nossos interesses, sendo que João Dias da Silva é pessoa que não conheço para além da exposição pública e até me parece ser alguém simpático, afável e com quem se pode tomar um café, desde que não discutamos questões de política educativa e sindicalismo (não é por mim, ele é que diz que isso não interessa). Nada me move contra ele ou a FNE, tirando as opiniões que ele veiculou nos últimos dias.

Por isso vamos lá à marretada mesmo em força, para ver se Dias da Silva e a FNE (mas não só eles) aprendem e/ou percebem alguma coisa do que se passou nos últimos meses, antes de pensarem que o casulo se recompôs e que a carneirada está de volta ao redil:

  1. Aqui eu mesmo só pertenço ao MIM – Movimento Individual Minimal – e a mais nada. E assim deverei continuar por muitos e bons anos, salvo colaborações pontuais com quem eu me sinta «confortável» em colaborar e vice-versa. De forma voluntária, nenhum sindicato ou organização me representa individualmente, porque a nenhuma organização eu acrescentei o meu nome como associado. E como eu, acho umas boas dezenas de milhar de outros docentes tresmalhados, independentes e não-alinhados.
  2. João Dias da Silva, com alguma candura e manifesta falta de jeito, afirma que sócios da FNE (e de outros sindicatos) reagiram «durante a contestação» a estímulos vindos de fora do movimento sindical. Ora bem, sem os blogues, os SMS e os movimentos informais as coisas nunca teriam sido o que foram, porque os sindicatos estavam com o traseiro pregado às cadeiras tamanha era a tareia que estavam a levar do ME. Pronto, está dito. Para além disso JDS coloca as coisas como se a «contestação» já não estivesse na fase do «durante». E é aqui que existe um divórcio radical entre a sua atitude e a larga maioria dos docentes. A contestação ainda está no «durante», mesmo se os sindicatos parecem ter ficado cansaditos com a jornada de 8 de Março e agora já estejam mais «confortáveis» novamente nas reuniões em gabinetes do CNE ou ME.
  3. Em democracia a representação dos trabalhadores não «pertence» a ninguém que não sejam os próprios trabalhadores. JDS parece ter conhecimentos algo simplistas do conceito e funcionamento da «representação» em democracia. Em especial com os sindicatos e outras organizações de inscrição voluntária, a representação não é totalitária. Os sindicatos têm a representação formal dos trabalhadores mas não a esgotam, em especial se os trabalhadores não se sentirem devidamente representados e optarem por outras formas de se manifestar e fazer representar. Lamento muito, mas a FNE representa os seus associados (quantos são, já agora?) de forma directa e mais ninguém. Ponto final. Posso estar enganado mas na FNE andarão, o quê?, 10% de todos os docentes? Corrijam-me se estiver enganado. E o mecanismo da representação «legítima» dos «trabalhadores» não se esgota nos sindicatos, mesmo falando estritamente em termos laborais. Ficamos esclarecidos, ou é preciso elaborar e desenvolver mais?
  4. Agora a questão de considerar «amorfas» as entidades que JDS associa aos movimentos (in)formais de docentes. Em primeiro lugar, há entidades formais de professores, de que a mais antiga é a ANP. JDS já informou João Grancho de que não pode falar em nome dos professores? Ou a recente APEDE? Eles também têm «órgãos democraticamente eleitos». JDS não sabe disso? Em segundo lugar, «amorfos» andaram os sindicatos durante muito tempo e só sob pressão das «bases» se mexeram para além do estritamente necessário. Julgará JDS que os docentes não sabem da absoluta desorientação que se apossara dos «órgãos democraticamente eleitos» da generalidade dos 163 sindicatos existentes, incluindo os que têm menos sócios inscritos e pagantes que os alunos da minha Escola? E já agora, será que os sindicatos, em vez de se fecharem em conversas internas, não fariam mesmo melhor em descer ás «conversas de salas de professores»? É que a razão do vosso descrédito é acharem-se detentores de uma sapiência extra só porque foram eleitos por uns quantos milhares de docentes e a partir daí podem funcionar sem os consultar. É como os governos que acham que só ao fim de 4 anos os eleitores podem reclamar de alguma coisa. Nesse aspecto a lógica da nomenklatura impera e é transversal a quase todas as organizações «não-amorfas».

Enfim.

Vamos crer que João Dias da Silva disse o que disse porque teve pouco tempo para preparar as suas declarações, estava com pressa e muitos afazeres sindicais e confundiu as coisas. Porque se o que ele disse corresponde efectivamente ao seu pensamento, estamos de volta à estaca zero em matéria de renovação do movimento sindical e a uma enorme confusão quanto ao conceito de «representação» que é imanente dos representados e não posse dos representantes.

Seria bom que não apenas João Dias da Silva mas todos os outros líderes sindicais, incluindo aqueles que 99% dos docentes não conhecem, percebessem o seu papel enquanto «representantes», necessariamente transitórios, de uma parte de um grupo profissional.

E que entendessem que esse seu papel desaparece quando perdem a confiança daqueles que afirmam representar.

Explicar isto de forma mais clara, só se o Antero fizer um desenho.

The New Yorker, 14 de Abril de 2008

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