Preconceitos


… não conseguem ver o preconceito em si. E dos que, de tanto quererem defender os descamisados, revelam encará-los como incapazes de superar as suas dificuldades, condenados por uma aliança genético-cultural à pobreza e ao insucesso e à necessidade de muletas permanentes.

Embora com boas intenções, embora com base em alguns argumentos válidos, esta postura tende quase sempre a prescindir de ensinar o pescador a usar a rede e a traineira, preferindo o encosto ao subsídio comunitário.

Foi asim que fracassámos como país, nas últimas décadas.

Tudo isto a propósito da entrevista de Paulo Santiago da OCDE à Clara Viana, no Público de hoje (sem link).

Nada como um preconceituoso ideológico, favorável a obras públicas a qualquer preço e para quem derrapagens de quase 100% não parecem defeito, para detectar preconceitos ideológicos nos outros.

É verdade que Nuno Crato hiperbolizou a derrapagem das obras da Parque Escolar de forma desnecessária e absolutamente reprovável em alguém que defende o rigor dos números, não contextualizando as condições em que isso aconteceu.

É mais do que óbvio que aquela afirmação sobre um desvio superior a 400% é política no seu pior estado de aproveitamento de números sem a necessária explicação.

Mas Daniel Oliveira vai pouco melhor quando escreve:

Para além dos efeitos económicos e descentralizados deste tipo de obra (mais de 9.000 postos de trabalho, mais de 2.700 empresas envolvidas), a boa qualidade das instalações trava a degradação do ambiente nas escolas, melhora o desempenho de docentes e alunos, devolve a autoestima a toda a comunidade escolar e, mais importante, segura a classe média no ensino público, condição fundamental para garantir a qualidade de ensino e impedir a criação guetos sociais nas escolas.

A parte destacada parece um relatório encomendado pelo governo de Sócrates sobre as Novas Oportunidades. Terá sido feito estudo científico ou é apenas a expressão de um preconceito ideológico?

Não sei de que classe média ele fala (a que Elísio Estanque afirma estar em desaparecimento? ou uma entidade mítica de algum escrito neo-marxista do século passado?), nem me parece que o maior problema das escolas públicas para atrair alunos sejam as instalações… mas a indisciplina é algo que DO considera uma ficção ou então um fenómeno causado pela incompetência dos docentes, como se sabe desde as suas interveções sobre o episódio Carolina Michaelis.

Afinal, os erros e preconceitos alheios não justificam os nossos.

E Daniel Oliveira tem, desde o primeiro dia, um problema enorme em relação a Nuno Crato. Por puro preconceito ideológico. Se Nuno Crato dissesse que Daniel Oliveira é a quinta essência da coerência política, ele negaria.

(quanto a mim, confesso, se Daniel Oliveira me elogiasse ficaria apenas preocupado e acharia que ele se teria enganado no distinatário…)

Parlamento chumba adopção por casais do mesmo sexo

(…)
No momento das intervenções, apenas as bancadas do PCP e do CDS anunciaram que votariam contra os diplomas.
(…)
O PCP argumentou que esta questão ainda não foi “suficientemente debatida e sedimentada na sociedade”, pelo que a bancada comunista optou por uma posição de “prudência construtiva”, explicou o líder parlamentar Bernardino Soares. “O nosso voto nesta matéria (…) não significa uma posição de rejeição”, sublinhou o deputado comunista, “mas expressa apenas a necessidade de prosseguir o debate, o esclarecimento sobre a questão”.

Telmo Correia, deputado do CDS, explicou que o sentido de voto da sua bancada revela que os centristas não enveredam por “experimentalismos sociais”, notando que a adopção por casais do mesmo sexo “contraria o criador” e criticando as bancadas, especificamente o BE, que tem patrocinado projectos “de fractura em fractura”.

Depois da abstenção violenta temos a prudência construtiva. Ok, abelhinhas…

Talvez depois da sesta…

Ainda no Expresso, numa das páginas de opinião, temos direito a numa espécie de confronto semanal esquerda/direita entre as colunas ao alto de Daniel Oliveira e Henrique Raposo.

Não vou esconder que, de há muito, acho que Daniel Oliveira está para estes tempos como Louçã esteve para os anos 90. O rebelde de serviço com lugar cativo na imprensa mainstream. Uma espécie de sucessor da rebeldia, quando ela serve para dividir alguma coisa incómoda. Em tempos, Louçã ajudou a enfraquecer o PCP, agora Daniel Oliveira ajuda a enfraquecer (mesmo que grite que não) o Bloco.

Já a Henrique Raposo acho alguma graça pois tem um pensamento suficientemente heterodoxo e iconoclasta para o situar simplesmente à Direita. Escreve de forma muito mais certeira quando critica a Direita do que quando tenta caricaturar a Esquerda menos caricaturável.

Esta semana, os dois denunciam os seus preconceitos mais enraizados, as distorções do olhar que tendem a misturar e aglomerar aquilo que encaram como estando do outro lado.

Daniel Oliveira segue pela senda habitual da desculpabilização quase explícita da violência e do vandalismo, quando o acha ao serviço de causas justas. Pior… tem sempre aquele olhar que considera que quem protesta é pobre e, portanto, tem razão, mesmo quando agride outros pobres:

E como os pobres não são nem melhores nem piores do que os outros a raiva descamba com facilidade para o motim e a pilhagem, escolhendo como primeiras vítimas os vizinhos. E aí a coisa já só se resolve à força.

Mais à frente atribui quase directamente as culpas dos motins em Londres a David Cameron, como se os meses em que ele está no Governo fossem tão ou mais responsáveis pela situação do que a década de Novo Trabalhismo.

Henrique Raposo parece encarar a margem sul como um imenso território indistinto onde existirão apenas dois ou três pontos de referência, sendo um deles o Barreiro. Na sua crónica, Londres & Barreiro, Henrique Raposo baralha-se com a geografia da margem sul e atribui ao Barreiro a localização do bairro (Vale da Amoreira) onde se praticam excisões genitais femininas num contexto cultural ligado a uma comunidade guineense com forte componente islâmica. Por acaso, o bairro em causa fica do outro lado (sul) da estrada que sobe a colina para as Fontaínhas, estando a escola onde lecciono no lado norte. O concelho é da Moita, mas isso agora não interessa nada. O que interessa é a denúncia. De algo que, até com contornos mais dramáticos (as meninas e jovens enviadas para a Guiné quando atingem cerca de 14 anos para participarem em rituais dos quais nem sempre sabemos como saem e dos quais por vezes nem regressam). Relembro este post com quatro anos e meio sobre o assunto.

Tanto em Daniel Oliveira como em Henrique Raposo são óbvios os enviesamentos do olhar por preconceitos ideológicos de base. Um justifica a violência indiscriminada (foi contra David Cameron que o condutor lançou o carro que matou três pessoas?) quando feita por razões que considera justificáveis, o outro olha para este lado do Tejo como um faroeste indistinto onde a geografia é intermutável. Mas aposto que, se escrevesse sobre Londres, não trocaria os bairros, quanto mais os concelhos.

Esquerda/Direita, tão diferentes, tão iguais.

Falta a vontade ou a coragem política para assumir soluções alternativas.

Quotas vão manter-se na avaliação dos professores

As quotas para as classificações de mérito vão manter-no no próximo modelo de avaliação docente, confirmou hoje Nuno Crato, ministro da Educação e Ciência.

A 8 de Janeiro de 2010 foi assinado um acordo que manteve as quotas no ECD e na ADD. Eram os tempos do idílio de Isabel & Mário. Desta vez, tenha a absoluta certeza que não haverá acordo, porque as afinidades e cores são outras.

Com base no que vi e li desde a tarde de ontem, a partir de 12 de Agosto não existirá qualquer tipo de negociação. Vai-se inverter o que se passou nos tempos de MLR, quando uma das partes fazia o que entendia usando a negociação como mero pretexto.

De certa forma, será um regresso às origens.

Mas o MEC colocou-se a jeito ao, depois de ser omisso nos princípios quanto às quotas, ter na conferência de imprensa optado por se resguardar no SIADAP. Mas o pior foi ter dito que, sem quotas, provavelmente seríamos todos excelentes. Nessa declaração há algo de desnecessária desconfiança em relação à honestidade alheia. Nuno Crato sabe que há métodos para substituir as quotas. Podem não ser fáceis, poderiam despertar alguma hostilidade. Mas nunca tanta como as quotas.

Nuno Crato apresentou aos sindicatos o documento com os sete princípios gerais para avaliação dos professores.

Volto depois de descansar, que é trabalhar noutras coisas.

Página seguinte »