Portuguesismos


Vasco Pulido Valente hoje no Público, a propósito das críticas de pessimismo, a propósito de um inquérito internacional que coloca os portugueses entre os menos confiantes no futuro (andará por aqui mas não o achei):

Segundo o inquérito, os portugueses preferem a honestidade ao poder. Por outras palavras, não querem mudar o mundo, porque desconfiam da mudança. Já lhes basta que não os roubem, iludam ou enganem. É o ponto de vista da vítima. Da vítima da pobreza e da vigarice. Ao próximo (e, sobretudo, ao Estado) só pedem “tolerância social”. No fundo, que não se metam com eles, que os deixem pacificamente no seu campo. Gostam da tradição (embora não se perceba qual; suspeito que a do mito salazarista). Não gostam da “modernidade” nem da mania de os “modernizar”.

Eu acho que por “mito salazarista” VPV quererá dizer não o salazarismo mas a imagem mítica do passado criada pelo salazarismo.

De certa forma tudo isto é o sinal claro do desânimo perante as sucessivas falsas promessas de falsos salvadores da Pátria.

Acho que Sócrates e o seu furor tecnológico apenas agravaram este “atavismo” (para utilizar um termo tão caro ao intelectual vital do momento) nacional e nos forçou ainda mais a desconfiar de tudo o que anuncia a mudança como um bem em si e não como um meio para atingir um objectivo compreensível por todos.

Eduardo Lourenço foi quem mais habilmente demonstrou esta dissociação, nos portugueses, entre a auto-imagem e as efectivas capacidades. Por isso não espanta que:

Os alunos portugueses de 15 anos são dos que mais valorizam a importância do conhecimento científico. Em toda a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), são mesmo os que mais desejam seguir uma carreira nesta área, apesar de apenas dominarem as competências mais simples.

A maioria acredita que o seu desempenho é bom e que aprendem rapidamente o que é ensinado nas aulas, demonstrando uma atitude bem mais confiante do que os seus colegas finlandeses, que lideram o ranking. Mas na hora de mostrar as suas competências, só três países se saem pior – Grécia, Turquia e México.

E depois ainda há quem diga (a parceria ME/Confap) que temos pouca auto-estima e que os professores são terríveis a desmoralizar os alunos. Se mesmo assim são os que têm melhor auto-imagem, nem quero ver como seria de outra forma!

Agora mais a sério: isto mais não é que a demonstração prática de que os alunos estão já perfeitamente convencidos de que tudo é fácil e que eles são os melhores do mundo. E que o que fazem chega, mesmo não chegando. Um pouco como no futebol durante muito tempo.

Depois falta é a concretização. E quando aparece alguém que exige mais do que prosápia é que é pior. É porque é muito exigente. Provavelmente é porque é ruim. Ou mesmo disfuncional.

Já está em DVD e recomenda-se a série documental de António Barreto sobre o Portugal que mudou nos últimos 30-40 anos.

No entanto, se Portugal mudou muito, não é menos verdade que mudou por vezes de forma superficial e localizada. Mas principalmente de forma pouco solidária e integrada.

Antes era Lisboa e o resto era paisagem, um pouco mais animada no Porto, em Coimbra e num ou outro centro industrial de maior dimensão.

Agora continuamos a ter Lisboa, algumas  auto-estradas, IP’s e IC’s que vão dar a algumas rotundas que permitem aceder a umas quantas capitais de distrito quase sempre suburbanizadas no pior sentido, enquanto a paisagem vai minguando.

Mas por sob a superfície do país que tem a cidade com mais lojas da Fnac da Europa (se excluirmos Paris), onde a maior fatia do negócio começa a ir para os gadgets dos portugueses modernos (os GPS, os IPod, o portátel da Apél, o elecêdê nem sempre com o soundsystem certo desde que seja espalhafatoso), continua a existir o Portugal de outrora, do interior rural cada vez mais deserto – eucaliptado – ou cada vez mais esquecido, mesmo que nos cafés exista SporTV.

Se é verdade que o delírio homicida daquele jovem finlandês não me impressionou sobremaneira, pois já sabemos que as taxas de suicídio e homicídio em série são tanto maiores quanto mais desenvolvidas e anestesiantes são as sociedades (Japão, Escandinávia, EUA), isso já não aconteceu com o homicídio por crueldade arbitrária que aconteceu no lugar da Borralheira, freguesia de Teixoso, nas imediações da Covilhã, e o qual vitimou na madrugada de 28 de Outubro um português das minhas idades, João Inácio de seu nome bem tradicional, prisioneiro das suas fraquezas, do seu mundo fechado e da maldade daquele quarteto de adolescentes e jovens adultos que procuram alegrar o seu tédio com o mal alheio.

A reportagem que leio na Visão desta semana devolve-me o Portugal de sempre, dos septuagenários de boina na mão ou lenço na cabeça, de traje negro ou pardacento, das terreolas sem perspectivas de emprego, das bebedeiras de todos os dias, da condescendência para com os pecados alheios a que se fecham os olhos e as janelas, agora também sem a velha escola primária, sem futuro que caiba num powerpoint governamental.

Esse Portugal continua a existir por muito que o tentem abafar, destruir ou esconder em nome da modernidade e racionalidade económico-tecnológica. As pessoas continuam lá com as suas frustrações, os seus bloqueios e os seus demónios.

Tão maus como o de qualquer letrado finlandês, armado em filósofo e rebelde de pacotilha. Por cá a maldade e a violência ainda não foram racionalizadas, ritualizadas ou mecanizadas a esse ponto. Por cá ainda temos a boa e velha violência visceral, mesquinha e cobarde, de quem bate nos indefesos ou em aqueles que estão em desvantagem, para exorcizar as suas próprias insuficiências. Digam que é preconceito socio-cultural meu, mas os latinos ainda não chegaram ao ponto de racionalidade homicida de outras paragens. O que não significa grande coisa. Apenas que, até aí, estamos mais atrasados e iletrados. Aposto que nenhum dos assassinos da Borralheira saberia citar qualquer filósofo ou dissertar sobre o vazio existencial que os levou a ser apenas cobardemente cruéis.

Há quem justificadamente se preocupe com a perda de identidade, a descaracterização e o anonimato da vida nas grandes áreas (sub)urbanas. Mas essa é apenas uma das facetas de um Portugal falhado, que progrediu não a duas, mas apenas a uma velocidade, pois o resto ficou parado, paradinho no tempo e preso, esse sim, dos atavismos de sempre.

crime.jpg

O estranho em muita da retórica ministerial – e de alguns opinadores laterais – sobre o abandono escolar é que raramente converge com as constatações de quem estudou efectivamente a matéria. É o caso de Joaquim Azevedo e de uma obra que já por aqui citei, onde se pode ler na respectiva conslusão:

Quanto ao universo empresarial, o estudo vinca, mais ou menos directamente, que existe uma forte agressividade local na oferta de empregos mal remunerados e desqualificados; que se mantém um grande número de actividades que recorrem a um modo de produção artesanal e tradicional, como a confecção, o vestuário, o calçado, o mobiliário e a construção civil; que o recurso à contratação de ciranças e jovens em idade escolar se processa por convergência de actuações e expectativas entre os empresários locais e os pais desses menores.
(…)
Seria importante observar mais aprofundadamente que, ao mesmo tempo que ocorre um processo de socialização por via das instituições esciolares de ensino básico, se verifica haver também um processo de subjectivação, na medida em que o adolescente, por via de uma leitura distanciada face às próprias debilidades do modelo escolar que o rodeia, recusa a relevância escolar e elege a actividade profissional como fazendo mais sentido para a vida.
Ora como referimos acima, estas características e estas atitudes entrecruzam-se e, em vários casos, emaranharam-se de modo por vezes insondável: são expectativas de melhoria do rendimento familiar que não incluem um prévio investimento prolongado na escolarização dos filhos; são pais pouco escolarizados e que ocupam empregos pouco qualificados, que encontram lugares disponíveis [para os filhos] no mercado de emprego; são empresários que desprezam a escolarização básica dos cidadãos (…); são empresários que expandem um modelo industrial altamente capaz de criar novos empregos, o que é atractivo para os pais destes grupos socioprofissionais e, em geral, para os seus filhos, apesar dos empregos serem indevidamente remunerados, serem desqualificados, precários e, em alguns casos, ilegais; são pais e empresários que, por vias e com propósitos diversos, convergem no apoio à contratação de crianças e jovens, retirando-os do ambiente escolar (…). (Joaquim Azevedo, Inserção precoce de jovens no mercado de trabalho, Ministério do Trabalho e da Solidariedade, 1999, pp. 78-79)

Passou perto de uma década mas a realidade não se alterou muito, apenas se tendo terciarizado mais as ofertas de trabalho para jovens com escassa escolarização, empregos desqualificados, precários e mal remunerados. O resto, um país economicamente subdesenvolvido sem capacidade de absorver uma mão-de-obra qualificada e cara, mas ansioso por part-times “flexíveis” é o mesmo e chega a ser apresentado pelo Ministro da Economia como uma vantagem competitiva.

Cravinho descreve o “choque” que sofreu com a complacência do PS perante a corrupção do Estado. Sofreria com certeza um “choque” igual, e talvez pior, no PSD. A verdade é que o “bloco central” se fundiu com o Estado. Não existe um Estado independente do “bloco central” e muito menos dos “negócios”, que o apoiam e sustentam: da banca e da energia a quatro ou cinco escritórios de advogados. Cravinho, como Cavaco, não percebeu, ou preferiu omitir, que hoje não se trata de reformar uma parte inaceitável do regime, mas pura e simplesmente de mudar o regime. Se por acaso caísse do céu a “transparência” que o dr. Cavaco deseja, metade da primorosa elite do nosso país marchava para a cadeia como um fuso. (Vasco Pulido Valente, Público, 7 de Outubro de 2007, p. 48, sem link e sem digitalização por falta de tempo)

Renovo aqui as minhas profundas reservas quanto ao choque de Cravinho, pois para acreditar em tal teria de achar que o homem andou 20 ou 30 anos na política de olhos e ouvidos tapados.

Quanto a VPV, bem ao seu estilo, quando acorda bem e olha para o sítio certo, a prosa sai-lhe, e sai-nos, saborosa.

Como já disse, faço questão quase todos os anos de fazer parte das minhas férias em périplo pelo país, ficando um par de noites (e dias) aqui e outro par acolá. Dá para ir notando, em especial quando se volta aos mesmos locais uma década depois, o que mudou e o que se manteve.

Se é verdade que alguma coisa mudou, em especial com o milagre da multiplicação das rotundas e das superfícies comerciais, muita coisa se tem mantido, a começar por alguns nossos hábitos ancestrais, aqueles que estão mais profundamente radicados na alma lusitana ou tuga (conforme os gostos) e que, ao contrário do que alguns nos querem fazer crer, não são apenas uma representação auto-depreciativa nacional (que Eduardo Lourenço e José Gil são os melhores a analisar, assim como Miguel Esteves Cardoso e Vasco Pulido Valente em dias bons) ou uma construção xenófoba dos visitantes britânicos dos séculos XVIII e XIX (os Beckfords, Byrons), mas algo que qualquer visitante atento consegue discernir sem especial esforço.

Para além disso coincidiu com esta nova voltinha, o facto de nos fins de semana de Agosto estar a passar na RTP2 uma pequena série de programas em que se entrevistam escritores estrangeiros que se radicaram em Portugal (Robert Wilson, Gerrit Komrij, Richard Zimmler)  e que, gostando dos portugueses ao ponto de cá ficarem, não deixam de encontrar esses traços muito especiais desse ser português que acaba por encravar isto tudo, mesmo quando se afirma que é tudo em nome do progresso. Como neste sábado foi a vez do programa com o holandês Komrij, aqui fica uma passagem escrita há menos de uma década, apenas uma entre as muitas deliciosas pela ironia contida que as atravessa, pois o mero relato dos factos quase chega como efeito literário.

O presidente da junta da aldeia onde moro – sucessor de Fernando e explorador de um  tractor – meteu os pedidos de orçamento para o próximo ano.
«Presidente» dá impressão de grande coisa. A aldeia onde moro conta noventa almas e pertence a uma cadeia de lugarejos que, juntos, formam então o mucicípio.
Cada lugarejo tem um «presidente» assim, escolhido por um período de quatro anos, para que ele, em contrapartida, dê junto da municipalidade o alarme para as car~encias em que vive o seu ranchinho de eleitores.
Como as probabilidades de apoio financeiro são diminutas – dada a concorrência entre tantos lugarejos e a esmagadora modéstia do orçamento a repartir -, ele terá evidentemente de arranjar uma carência aflitiva. E não mais do que uma de cada vez.
A aldeia onde moro é muito carente.
Há uma estrada perigosa a atravessá-la. Os condutores mal abrandam a velocidade, e os camiões, carregados até mais não de toros de árvores, passam a rasar as casas. Só por milagre não morre regularmente algum miudito. O presidente da junta poderia pedir um desvio, um semáforo, um passeio.
à menor lufada de vento, falta a electricidade. Dez, doze vezes, por uns minutos ou por umas horas. O presidente da junta poderia pedir um reforço ao distribuidor local.
O barracão comunitário – cada lugarejo tem a sua casa do povo – está por acabar, os miúdos fazem récitas debaixo de um alpendre de papelão empenado e, durante o período pluvial, há danças de salão numa poça de água.
É um número suficiente de carências aflitivas, a justificarem um pedido de apoio financeiro a que nenhuma autarquia haveria de ficar insensível.
A única coisa, todavia, para que o presidente da junta da aldeia onde moro voltou este ano a meter um pedido foi o alargamento do cemitério.
Existem já, neste lugarejo de noventa almas, dois cemitérios. Um data do século dezanove, o outro juntou-se-lhe nos anos sessenta. Dá espaço para que chegue para mais dois séculos.
(…)
Disseram-me esta manhã que o terreno junto ao cemitério já está à venda há anos, sem resultado. Ninguém aí quer construir, por causa do panorama pouco animador. Ninguém quer aquilo para quintal, devido à humidade e à sombra do muro do cemitério. E parece não ser já segredo que o dono do dito terreno é o presidente da junta da aldeia onde moro. (Gerrit Komrij, Um almoço de negócios em Sintra, pp. 31-33)

 

Parecendo que não, isto tem tudo a ver com a nossa Política, com a Educação e tudo o resto, incluindo os planos tecnológicos.

 

Não sou um fundamentalista de tudo o que tenha relação com a História, apesar da deformação académica, resultante de gosto pessoal e mesmo de alguma prática.

Não posso dizer que sou o maior frequentador de museus e exposições, ou visitante e estudioso atento de tudo o que é vestígio arqueológico ou fortificação mais ou menos coeva. Tenho mesmo uma relação com a Arqueologia muito atípica, pois reconhecendo-lhe interesse, nunca me interessou pessoalmente a prática, mesmo como finalista convidado para escavar algures nesta ou aquela campanha.

Só que, apesar desse relacionamento pouco afável com a poeira, os cacos e as pedras (com o devido respeito, por quem gosta claro, e ressalvando que até fui co-autor de estudos que afloram o tema), fico sempre um pouco mais espantado com o estado em que encontro alguns locais que deveriam ser emblemáticos da nossa História, da nossa Memória Colectiva, de um Património cuja preservação acarreta muito menos dispêndio que alguns estádios de futebol, sendo que até existem fundos comunitários também para este efeito.

De passagem por Aljezur, espreitei o antigo castelo, actualmente bastante arruinado, resultado do pouco cuidado que mereceu desde o final da Idade Média, facto agravado com os efeitos do terramoto de 1755 e as fraquíssimas intervenções de restauro no século XX, quase todas provocadas pelo afã comemorativo do Estado Novo.

A edificação tem uma história remota e até algo sui generis, tanto pelas origens como pela localização e habituais lendas associadas. A sua originalidade merecia um outro cuidado mas, apesar de algumas promessas e de estar classificado há décadas como Imóvel de Interesse Público, a verdade é que está ao completo abandono.

No acesso encontra-se uma placa daquelas que a CEE/UE manda colocar em todas as obras que co-financia, que afirma que foram feitas obras de conservação num valor próximo dos 100.000 euros, o que é uma quantia irrisória para qualquer tipo de intervenção digna desse nome numa construção deste tipo. Intervenção essa cujos sinais são claramente invisíveis.

Num momento em que este Governo anuncia investimentos de milhões sobre milhões no turismo algarvio, com destaque para Lagos, ali mesmo ao lado, fico sempre espantado com a total e completa ausência de cuidado em garantir que parte desses rios de dinheiros possam ser canalizados para a recuperação do património, pois 1% que fosse das quantias miliardárias que se anunciam dariam para imensa coisa que não se faz.

Mas claro, agora estamos no tempo do Homem Novo, do Homem Moderno, do Homem Tecnológico, esse homem sem memória e sem interesse por pedrarias milenares, amontoadas sem nexo e provavelmente até atrapalhado a instalação de umas novas antenas para as operadoras de telemóveis, quiçá mesmo interferindo na boa recepção da net wireless nas imediações.

Tutela não decide fechos no pré-escolar

Se fecharem jardins-de -infância é por opção das autarquias, diz ministério.
(…)
Porém, contactado pelo DN, o assessor de imprensa do Ministério, Rui Nunes, lembra que as escolas a abrir ou fechar “estão inscritas nas Cartas Educativas dos municípios”. E que, no caso do pré-escolar, a gestão da rede não depende da tutela: “O ministério não sinaliza jardins-de-infância para encerrar”, afirma. “Só tem de ser ouvido sobre a criação de novos estabelecimentos.”
(…)
“Podem fechar jardins-de-infância, por falta de alunos, ou porque são deslocados, quando a escola do 1.º ciclo da localidade encerrou”, admite. “Mas isso não é decidido pela tutela.” De resto, conta, “a directora regional de educação do Centro até sugeriu, nas reuniões com as autarquias, a manutenção de alguns espaços que estas previam encerrar”.
Em declarações à Lusa, António José Ganhão, da Associação Nacional de Municípios, defendeu que é o ministério que “toma a decisão”, porque lhe “cabe a colocação das educadoras”. Porém, Rui Nunes assegura que essa colocação “é feita a pedido das autarquias”, e que até agora não foi rejeitado “qualquer pedido”.

Porque vivemos no nosso santo país e não em qualquer modelo de civismo escandinavo, já se sabe que sempre que há duas instituições envolvidas seja no que for, há hipóteses sérias de descarregarem as culpas uma na outra, num círculo vicioso em que são os cidadãos sempre a perder.

O ME não fecha infantários, as autarquias não nomeiam educadoras, patati, patatá, e daqui não saímos.

É uma questão de mentalidade e é necessário mudá-la. Concordo, mas acho que isso pode fazer-se sem ser com a carroça a puxar os bois, com o condutor aos empurrões.

Se mesmo com responsabilidades claras, o Estado nas suas múltiplas variantes se exime sempre a responsabilidades, pior é quando existe tutela ou guarda partilhada.

Claro que é sempre possível saber quem, de facto, tem a culpa de algo. Mas daí a conseguir provar-se, de jure, quem praticou a asneira decisiva é entre nós um processo moroso e absolutamente kafkiano.

Eu em relação a um Estado que se afirma de Direito exijo poucas coisas, mas aparentemente muito difíceis.

Com base em convenções que resultam da cultura civilizacional em que dizem que nos inserimos (judaico cristã, greco-romana, ocidental, atlântica, o que quiserem…), espero que:

  • O Estado funcione como regulador da vivência em comum da população que habita o território sobre o qual o seu aparato político-administrativo exerce uma jurisdição reconhecida.
  • Que esse Estado elabore leis para esse efeito e que essas leis respeitem os princípios básicos reconhecidos como essenciais para que uma ordem jurídica seja digna de confiança pelos cidadãos a que ela se aplica (não retroactividade, universalidade, equidade, e várias outras coisas acabadas em “ade”).
  • Que aprovadas essas leis – e independentemente do direito de as contestarmos no plano político ou jurídico – o Estado, através da sua burocracia específica, deve ser a primeira e última garantia de que são cumpridas de acordo com os tais principios fundamentais da universalidade, imparcialidade, etc, etc.
  • Que em situações de abuso do poder na aplicação das leis, ou em casos notórios de deficiente ou parcial leitura da legislação, prejudicando os cidadãos envolvidos, a correcção dos erros, objecto de reclamação pelos cidadãos, se encare como uma prática normal pelos organismos do Estado, seja pelo próprio agente da má aplicação, seja pelo organismo hierarquicamente superior, evitando o recurso aos Tribunais.
  • Que as situações acima descritas não sejam solucionadas de forma casuística, com base em estratagemas para-regulares e informais, sem normas estabelecidas para além do vai falar com fulano de tal e diz que vais da minha parte ou logo que possas escreve ao senhor doutor director sicrano de tal e expõe a tua situação, mas não te esqueças de lhe telefonar primeiro a dizer que vais escrever.

Tudo isto porque estou cansado de ver abusos burocráticos serem mantidos por mera teimosia de egos individuais de funcionários incapazes de reconhecer os seus erros, mais papistas do que o papa na aplicação mais rigorosa das leis em vigor ou já revogadas, assim como de assistir a filas mais ou menos longas de despojados à porta de gabinetes ou em corredores direcções gerais ou regionais disto ou daquilo à espera que seja feita justiça por meios do choradinho e da recomendação, em vez de decorrer da natural aplicação das leis em vigor.

Porque se há algo típico do terceiro-mundismo é este tipo de pequenez que faz do Estado de Direito uma anedota e da relação do cidadão com a burocracia do Estado um intrincado labirinto de conhecimentos, amizades e cunhas.

Eu, por mim, recuso-me a participar nesse joguinho medíocre que só amesquinha todos os envolvidos, tanto quem estende a mão submissa para receber aquilo a que tem direito como quem, sabendo isso, outorga como favor o que é apenas um direito.

“É disto que o país precisa”, disse Sócrates ao anunciar mais 5400 camas no Algarve

(Público, p. 12, sem link permanente)

Há há alguns anos, desde o período pré-Expo, que acho que Portugal parece só ser encarado como viável pela nossa classe política como um destino turístico de 2ª classe, onde se organizam eventos espalhafatosos (basta ver a publicidade paga pelo Ministério da “Economia e Inovação” que todas as semanas inunda a imprensa), onde por vezes aparece uma ou outra celebridade para jogar golfe e onde os indígenas devem sobreviver de guardanapo no braço, esperando que o seu domínio de Inglês Técnico para a Hotelaria e Restauração permita angariar umas gorjetas que fujam à atenção do fisco, assim conseguindo que a remuneração precária  e sazonal chegue para, nos intervalos, comprar um telemóvel vistoso e tomar a bica da ordem no café da esquina.

Nunca fiz verdadeira tenção de sair de Portugal e os defeitos que encontro na nossa classe política e em quem anda por aí protestando contra o Governo apenas  quando não há futebol nunca foram suficientes para procurar abrigo em outras paragens.

Agora não sei se estou pouco novo para isso, mas confesso que o enjoo com a situação da secular choldra começa a atingir máximos históricos, só aflorados ali entre 93-95, quando o cavaquismo apodrecia à vista de todos.

Este tipo de politiquinho, entusiasmadinho, saltitantezinho, satisfeitinho consigo mesminho já começa, até pelo facto da idade não ser factor de distanciação mais respeitosa, a irritar-me e a fazer-me mal à saúde.

Isto que não passa de uma espécie de projecto de país, entre campos de golfe e aparthoteis que nascem como cogumelos numa zona que já todos sabemos estar sobrelotada ou em outras que deveriam ser preservadas, em que os únicos sectores de sucesso garantido são, no topo da escala, a banca e os hipermercados, e no fundo, os snack-bars, as lojas de telemóveis, as agências de intermediação imobiliária e as lojas dos 300, com os stands de carros em segunda-mão a passar por inovação e os Berardos a serem tomados como exemplos do sucesso, enquanto os Valentins se riem da Justiça, começa a ter um aroma terrível a ranço, a um ranço que não há fatinhos de bom recorte, apresentações em powerpoint com fanfarra pré-gravada, figurantes pagos à peça e povinho mantido à distãncia ou quadros interactivos que consigam esconder.

Confesso que, pela primeira vez na vida, se um dia me dá mesmo para ir embora, vou de vez e fico sem sódade nenhuma de regressar.

Imagem de A Choldra nº 1, 1926

As vagas do ensino superior particular e cooperativo, divulgadas ontem pela tutela, deixam de fora um total de 43 universidades e institutos politécnicos (incluindo diferentes pólos), de um total de 114. O Ministério do Ensino Superior e as entidades do sector responsabilizam-se mutuamente pelo atraso, que poderá trazer consequências graves para o sector. (Diário de Notícias)

Portugal não será o país com maior ratio de universidades, politécnicos e pólos disto e daquilo por aluno disponível ou mesmo por habitante imaginável?

Aflige-me sempre aquela ladaínha acerca de eleições com muitos partidos, muitos candidatos, muita dificuldade em agendar debates com todos e mais as mil e uma desculpas esfarrapadas que cá se usam para fugir a dar a voz às tendências minoritárias, a menos que tenham âncoras seguras no mundo da comunicação social. O status quo existente procura, por definição, preservar-se e só abre pela força ou por dissensões internas. Por vontade dos que mandam, as opiniões minoritárias só têm direito a expressar-se desde que não aborreçam muito ou se não puder deixar de ser. E esta é uma prática usada pelos diversos protagonistas, de diversos alinhamentos partidários, conforme as circunstãncias. O que é mau na Madeira, já é bom no Continente, enquanto que o que é mau no Poder Central já pode ser bom no Poder Local, dependendo das posições relativas.

No entanto, numa democracia a sério estas não são questões vagamente aceitáveis. Apesar de todos os defeitos, o sistema democrático americano tem uma capacidade de gerar soluções funcionais para problemas que para os outros parecem ser montanhas inultrapassáveis.

Comparemos o que se passou com a campanha para a Câmara de Lisboa e as primárias para as eleições presidenciais nos Estados Unidos.

Cá existiam 12 candidatos, sendo que a imprensa e os interessados, decidiram que só 7 eram candidatos a sério, sendo os outros 5 meros figurantes incómodos.

Lá, só nas bandas do Partido Democrático, existem 8 pré-candidatos à Presidência. Todos sabem que só 3 têm verdadeiras hipóteses (Hillary Clinton, Barack Obama e John Edwards), e que cinco estão lá para marcar uma posição. A proporção de candidatos a “irrelevantes” lá é bem maior.

Cá a organização dos debates entre candidatos a Presidente de Câmara ou a vereadores da Oposição parecia uma coisa titânica para os meios de comunicação social e a agenda dos candidatos. E os debates que ocorreram foram sempre – e apesar de alguma moderação maior do que o habitual – exercícios de falta de educação cívica, com interrupções constantes e respostas fora do contexto.

Lá, um canal privado, por cabo (CNN), e um site da internet (Youtube) conseguiram organizar um debate de 2 horas, em que os 8 candidatos estiveram presentes, de pé atrás de um púlpito, perante uma audiência alargada, respondendo a questões de internautas de forma disciplinada e não contestando sempre que se ouvia subtilmente o aviso de “time“, para eles terminarem a sua intervenção.

Daqui por uns tempos existirá debate semelhante com os candidatos republicanos, onde estarão os conhecidos John McCain, Rudolph Giuliani ou Mitt Romney ao lado de outros perfeitamente desconhecidos na maior parte da América.

Não digo que o modelo não tem defeitos, que os tem obviamente. Mas mesmo parte desses defeitos – como o respeito por uma prévia definição dos moldes do debate, que o pode tornar mais espartilhado – resulta de uma forma de cultura cívica muito diversa da nossa. Hillary Clinton tinha o mesmo tempo para responder que Chris Dodd ou Dennis Kucinich e respeitou isso.

Mesmo a relação dos candidatos com o moderador – um excelente Anderson Cooper – nunca foi de aparente paternalismo, cumplicidade ou confrontação como aconteceu entre nós, até porque ele é incisivo e objectivo, também respeitando as regras. E porque é uma estrela por direito próprio, alguém tão informado como os candidatos e por eles respeitado, que não precisa de exibicionismos. Muito longe, pois, da generalidade dos nossos moderadores, sempre à procura de se evidenciarem, primos do cunhado de alguém ou em permanente engasganço.

Só que, mesmo com todos os truques conhecidos na manga e a limitação óbvia das candidaturas a dois aparelhos partidários formatadores, a democracia americana funciona de um modo que a nossa tem dificuldade em compreender. Que antes das eleições ninguém é ou deve ser, por definição, considerado mais importante do que outrém e merecedor de direitos especiais.

Mais importante ainda , que enquanto nos mantivermos com este modelo de comportamento, o alheamento do eleitorado – em especial de boa parte do eleitorado informado e crítico – irá agravar-se cada vez mais.

O ME divulgou ontem as suas instruções para a organização do próximo anoe escolar, praticamente esvaziando parte do que eu iria escrever sobre o que se entende por autonomia dos estabelecimentos de ensino e agrupamentos.

O despacho que aguarda publicação é mais outro daqueles monumentos à nacionais à regulamentação da pesca com minhoca. Nada parece querer deixar-se ao acaso, sendo que por vezes tanta regulamentação acaba por pisar-se a si mesma.

Quanto às instruções propriamente ditas assiste-se a uma ânsia imensa por preencher o mais recôndito dos cantos dos horários de docentes e alunos, numa evidente tentativa de saturar toda a gente no mais curto espaço de tempo possível, assumindo-se a tal lógica do mais é melhor.

Um  ponto positivo das instruções – que o há, ninguém diga que eu só gosto de fazer críticas negativas – passa pela proposta, sugestão ou ordem para se constituírem equipas pedagógicas responsáveis pelo acompanhamento das turmas em cada ciclo de escolaridade.

Estas equipas pedagógicas, integradas pelos professores das diferentes disciplinas do ano de escolaridade e pelos docentes de educação especial, iniciam funções após o período de matrículas, envolvendo-se nas tarefas de constituição da turma e de análise do percurso escolar dos alunos.

O único probleminha, assim pequeninino, quase insignificantes, coisa pouca, nem quase valeria a pena falar nisso, é que esta sugestão, instrução ou ordem, surge quase um mês depois de se terem feitos as matrículas, uns bons quinze dias depois da constituição de maior parte das turmas, mas, em contrapartida, antes de se ter a possibilidade de saber exactamente como é que os horários dos docentes poderão ser definitivamente elaboradaos, pois o concurso para professores-titulares só termina na próxima semana, em muitas EB 2/3 ou EB 3/S ainda não está completamente definida a carga horária disponível a distribuir por cada grupo e departamento e, em suma, se alguns dos professores que estão, vão mesmo estar (QZP’s).

Este modo de actuar é extremamente interessante, instrutivo mesmo, quanto à forma como o ME desconhece o funcionamento quotidiano das escolas, pois este tipo de instruções – e já agora a certeza de que as colocações dos professores de QZP são mesmo trianuais, ou se os destacamentos dos docentes foram aceites – deveria ter chegado em seu devido tempo: por exemplo, antes das matrículas e do período de constituição de turmas, para que as tais equipas pedagógicas pudessem ter começado a funcionar desde logo e não apenas em Setembro.

Porque não me parece que a publicação deste despacho no período de férias obrigatório dos docentes seja o melhor exemplo de calendarização, a menos que se ache que  já nem em Agosto possamos gozar os diazinhos de férias a que ainda temos direito. Obviamente que as “equipas pedagógicas” que agora se sugerem/ordenam que funcionem desde as matrículas não podem dar um salto no tempo e começlar a funcionar desde o in´cio deste mês.

Porque esse início de mês já passou e dizem os menos crédulos na teoria do eterno retorno e na ficção científica que já não voltará mais.

Publicar isto em Maio já teria sido uma excelente ideia. Mas talvez ninguém tenha dado por isso. Ou deram e isto é mesmo só para chatear quem já anda suficientemente desanimado?

Algo que me convence no discurso que visa defender a necessidade de reforçar os mecanismos que levam à estabilidade política, em nome de uma governabilidade essencial para o desenvolvimento.

Não me convence porque, se retirarmos a espuma abundante que camufla os factos e os analisarmos e não à espuma, percebemos que Portugal só não é estável ou governável por culpa daqueles que nos governam e dominam o poder e não por causa dos que estão de fora.

Explico rapidamente porquê:

  • Em matéria de factos temos que entre 1975 e 1985 – os primeiros dez anos de regime democrático pós-eleitoral e é batota estarem sempre a evocar o PREC como causa dos males e desculparem 40 anos de Estado Novo – tivemos apenas 3 primeiros-ministros, um deles em dose tripla (Soares, Soares de novo, Sá Carneiro, Balsemão e novamente Soares). Os governos existentes foram quase todos de maioria baseada em coligações pré ou pós-eleitorais (PS/CDS, PSD/CDS, PS/PSD) que caíram por entropia e não por assalto externo. O problema da governabilidade e estabilidade não parece ter sido considerado grave ao ponto de eliminar as dissensões internas de partidos então no poder (no CDS de Freitas, no PSD de Balsemão e depois de Mota Pinto) que causaram as crises. Nunca foram as “movimentações de massas” ou os artaques da oposição que levaram à queda dos governos.
  • Entre 1985 e 2002, os primeiros 17 anos da integração europeia e da chuva de fundos comunitários, tivemos apenas dois primeiros-ministros, um deles governando 8 anos em maioria absoluta (Cavaco) e outro 6,5 anos em situação de maioria relativa muito favorável perante a oposição, por muito que agora se elabore no contrário. Sempre houve quem se disponibilizasse a apoiar o PS nesses tempo. O 2º governo de Guterres demitiu-se novamente porque o homem estava cansado. De novo, a culpa não foi propriamente da oposição. Durante o cavaquismo, a oposição foi uma desgraça – a partir de 92-93 existia a partir de Belém e não do Parlamento – com líderes fracos e durante o guterrismo o PSD andou sempre em bolandas. Crises? As nascidas na própria área do Poder.
  • Entre 2002 e 2007, vamos em três Primeiros-Ministros, se contabilizarmos Santana para efeitos estatísticos mas, de novo, a pseudo-crise do final de 2004 só se pode assacar a um político que governando em maioria foi tratar da vidinha lá para fora, provocando a confusão seguinte. A oposição nesse momento estava num ponto crítico de vulnerabilidade. Santana caiu, porque nunca deveria ter subido ao poder da maneira que foi. A História acabará por absolvê-lo de quaisquer responsabilidades, quase que aposto. Se não for ainda em vida, porque ele anda por aí.
  • Desde 1976 que os Presidentes da República cumpriram sempre os dois mandatos sem sobressalto. Primeiros mandatos à moda da Rainha de Inglaterra (estou cá, mas só para enfeitar) e segundos mais intervencionistas ou menos, mas quase sempre acabando em asneira (Eanes e o PRD, Soares e a ascensão do guterrismo, Sampaio e o receio de intervir a sério na sucessão de Barroso).

Instabilidade? Onde? Devido a quem?

Não no eleitorado que até, contra tudo o que se afirma como sendo um dado adquirido, nas últimas seis elições legislativas – sem truques para fabricar maiorias – deu três maiorias absolutas e uma mesmo na margem.

Existe instabilidade sim na classe política e no âmbito dos próprios partidos que se encontram no poder, porque são federações de interesses, aglomerados de grupos de pressão que perderam uma identidade ideológica específica (excepção ao PCP depois das renovações), sem laços de solidariedade interna fortes, com pretensos barões e caudilhos que debandam e fazem oposição interna logo que se sentem lesados nas suas aspirações, ou que se mantém nas suas posições quando sentem que ainda podem ganhar algo com isso.

Portanto, se Portugal é ingovernável, em especial nos últimos 20 anos é porque os Governos maioritários que o eleitorado permitiu não souberam governar, ou porque as coligações estabelecidas colocaram sempre, em momentos críticos,  interesses particulares acima dos interesses comuns.

A razão é óbvia na minha opinião: uma classe política de baixa qualidade, sem uma formação política e cívica sólida, antes tendo crescido no âmbito dos aparelhismos partidários, onde a luta corpo a corpo pelos lugares não tem tréguas e cria inimizades e clivagens maiores do que nas margens entre partidos diferents. E, principalmente, uma classe política que, no seu conjunto tem uma imensa falta de dedicação à causa pública (que não se deve confundir com apego a cargos públicos), que sacrifica rapidamente aos seus interesses pessoais de carreira, em particular quando essa carreira permite auferir réditos mais avantajados ou um maior prestígio e visibilidade.

Tudo o resto sobre a instabilidade ou ingovernabilidade de Portugal, em especial tudo o que passa pela desresponsabilização da classe política e pela transferência do odioso para a arraia-miúda não passa de cobardia política dos protagonistas ou de miopia ou cosmética analítica de quem alinha nesse discurso.

abs.jpg 

Nem sempre a Ciência Social confirma as minhas ideias, que resultam de observações empíricas, sobre um determinado assunto, em especial quando essas ideias são pouco mainstream e parecem ir contra o bom-senso reinante.

Quando essa confluência acontece fico naturalmente feliz porque: a) as minhas ideias foram confirmadas “cientificamente”; b) a Ciência Social está de parabéns porque fez um bom trabalho.

Amtes que algum leitor se irrite a sério comigo, ressalvo desde já que estou a brincar. Pelo menos um bocadinho.

Mas vamos lá ao que interessa e neste caso o que interessa é um livro que infelizmente não li, coordenado por Marina Costa Lobo, André Freire e Pedro Magalhães, sendo que este último é o analista dos comportamentos eleitoriais que prefiro, a longa distãncia de qualquer outro, porque antes e depois das eleições reflecte com seriedade e rigor sobre o que se pode vir a passar ou sobre o que se passou, não transparecendo em momento nenhum um enviesamento das leituras. Para uma demonstração prática nada como passar pelo Margens de Erro, um dos melhores blogues nacionais em matéria de conteúdo,. que me esqueci de nomear para uma das 7 maravilhas da blogosfera.

Mas os seus outros dois colegas também são bastante bons, assim como me parece que o resto da equipa que trabalhou para este volume, em especial os que tiveram a missão de analisar as características da abstenção em Portugal, nomeadamente o perfil do abstencionista e as suas razões.

Como por vezes me canso de repetir, as análises mainstream do fenómeno da abstenção deixam muito a desejar (no offense intended, MFaces), pelo que assim remeto para a transcrição de parte da notícia do Expresso de hoje sobre as conclusões do livro:

Em contraste com a abstenção sociológica, característica das camadas sem recursos e distanciadas do sistema, a abstenção portuguesa é “sofisticada”, tendencialmente proveniente de camadas mais altas e informadas. “É um eleitorado alerta, que decide se vota ou não, e reflecte sobre se vale a pena votar”, diz Marina Costa Lobo. Ou, como se diz no texto, “ditada pelas avaliações conjunturais do funcionamento do sistema político”. No centro e norte da Europa, ao contrário, a propensão para o voto está mais ligada ao envolvimento cívico e político do indivíduo.

Claro que me podem contraditar, afirmando que a nossa abstenção, apesar de melhor informada, é sinal do atraso (eu prefiro desânimo) desses grupos sociais mais esclarecidos, só que isso acaba por ser contraditório nos seus próprios termos.

Provavelmente, no centro ou norte da Europa eu votaria sempre. Por cá é que muitas vezes considero irrelevante a escolha que querem que façamos. E essa consideração, como estes ilustres investigadores têm a simpatia de demonstrar, resulta de uma reflexão sobre o sistema e não de uma desmobilização comodista.

Muito pelo contrário.

E já agora, eu continuo a achar quie nós somos o que somos e que, por diversas razões para mim óbvias, não somos outra coisa. Noruegueses, suecos, dinamarqueses, holandeses, alemães, etc, podem ter muito em comum entre si. Britânicos e americanos, talvez.

Nós, para além das afinidades temperamentais com as culturas mediterrânicas, não somos muito parecidos em termos cívicos e políticos com a Europa que nos apresentam como modelar.

Vinte e quatro milhões de euros eram capazes de chegar para resolver o problema de um ano e nem sei quantas aposentações pagariam mais de 1000 milhões e quantos pontos não fariam descer o défice.

Sei que o assunto não é novo, que é uma herança deixada por esse homem de Estado chamado Paulo Portas, mas não me parece que este Governo ande a fazer o suficiente para tapar tamanho buraco, enquanto parece muito preocupado em ir tapando pequenos buraquinhos.

É que fiquei um bocado demagógico com a acumulação de recusas de baixas e aposentações, enquanto se investem milhões em barda num par de submarinos que, ao que parece, são um daqueles negócios cheios de rigor e mérito que só o Estado português parece ser capaz de fazer. Descontando os governos de países africanos ou árabes, claro.

Na madrugada de ontem escreveu-se mais uma página costumeira na história do futebol português, daquelas habituais, escritas a carvão negro, que fazem com que os árbitros internacionais sejam especificamente instruídos cada vez que arbitram jogos de Portugal.

Mais grave desta vez, pois passou-se num escalão de jovens, quase ainda de formação, os sub-20, porque agora há campeonatos de sub-tudo.

O episódio conta-se com rapidez: depois de um apuramento para os oitavos de final penoso e algo miraculoso, com sucessivas más exibições péssima qualidade futebolística, a selecção nacional de sub-20 estava a perder a poucos minutos do fim com o Chile, em Edmonton, no Canadá, onde decorre o Campeonato do Mundo daquele escalão.

Desorientados os jogadores nacionais, precoces estrelas no seu próprio imaginário, decidiu um deles agredir um adversário. Na confusão já habitual nestas situações com futebolistas portugueses e árbitros, um tal “Zéquinha” decidiu arrancar o cartão vermelho das mãos do árbitro, como se tal acto apagasse o desvario do colega e o consequente castigo. Como desfecho acabou também ele expulso, podendo acrescentar-se mais uma página ao já longo livro de vergonhas passadas com selecções nacionais em eventos deste tipo, desde o surto grevista de Saltillo em 86, passando pelo sururu subsequente à mão de Abel Xavier no Europeu de 2000, na meia-final contra a França e desaguando na agressão de João Pinto em 2002 ao árbitro argentino Ángel Sanchez, não esquecendo uma miríade de outrosa acontecimentos similares. Excepções mesmo só os consulados de Carlos Queirós nos escalões jovens e actualmente de Scolari nos crescidos, por serem personalidades fortes e pouco condescendentes com vedetismos de pacotilha.

Durante a manhã, na TSF, o treinador do rabino menino Zéquinha numa simpática equipa com o nome de Tourizense, um tal Tó Margarido, esforçava-se por explicar que o Zéquinha era um “génio”, que era um jogador que “dava tudo” e que por isso mesmo tinha perdido as estribeiras.

O nexo lógico entre genialidade, empenho e estupidez escapou-me, mas acredito que esteja lá.

Só que nós somos um país de imensa tolerância para com estes génios-Zéquinhas. Na sua terra tornam-se heróis por cuspirem em árbitros, por agredirem adversários e por instalarem a maior das confusões num campo de futebol, apenas porque são profundamente mal-educados, mal-formados e extremamente mimados por quem deveria ter a obrigação de os saber conduzir á idade adulta como homenzinhos.

Em Portugal, nos últimos 25 anos o futebol foi um viveiro dos piores vícios que existem no ser português. Sendo que esses vícios são encarados com bonomia e extrema complacência, resultado de uma imensa falta de auto-controle e auto-disciplina, aliada a uma desresponsabilização imediata pelos actos cometidos com justificações anedóticas.

Exactamente aquilo que caracteriza muitos dos nossos alunos e também muitos professores, admito-o, que preferem a solução fácil – a cábula, o copianço, o adivinhanço, por um lado, ou a atribuição de positivas a esmo para evitar chatices, por outro – do que o rigor e a persistência na tentativa de superar as dificuldades.

Somos um país de Zéquinhas, na Educação como no futebol e na vida quotidiana, que é afinal a chave de tudo. Basta vermos como ficam embevecidos muitos papás e mamãs quando os seus zéquinhas minúsculos, ainda em idade de serem introduzidos em hábitos mínimos de civismo, fazem as maiores alarvidades em público, tomando isso como sinal de manifesta esperteza e porque “são crianças” e “é natural”. Depois crescem e acabam em Zéquinhas para toda a vida.

Curso de Direito já não é condição para ser juiz

Acho bem, porque um conhecimento mais alongado das leis só atrapalha no momento de decidir. E pode ser que assim os Tribunais sejam mais céleres e tudo, com decisões “a olho”. E nada como uns mestrados bolonheses muito teóricos e curtinhos para habilitar um magistrado.

Para quando a Medicina exercida por um licenciado em Artes Plásticas com um mestrado de 6 meses em Ortodontia? Ou a Arquitectura por um sociólogo com um doutoramento em construções palustres da Polinésia?

Três quartos dos municípios sem dinheiro para pagar dividas

Três quartos das autarquias não têm dinheiro para pagar as dívidas, segundo um anuário financeiro de 2005, que aponta as câmaras de Lisboa, Gondomar e Sines como as mais devedoras. O documento adianta que os municípios continuam a depender muito do Estado.

Três em cada quatro câmaras municipais não dispõem de verbas para pagar as dívidas, segundo o anuário financeiro dos municípios portugueses relativo a 2005, que é apresentado, esta quarta-feira, nas Jornadas de Finanças e Contabilidade Locais em Lisboa. (TSF Online)

Quando me falam na territorialização das políticas educativas, significando com isso a entrega de maiores responsabilidades em matéria de Educação aos municípios, fico logo com a mostarda a subir-me ao nariz, porque me parece que quem tal defende ignora o passado e faz por não ver o presente.

O presente é o que sabemos: 2005 foi ano de eleições autárquicas e portanto foi um fartar vilanagem de contrair dívidas para obras de fachada. O passado, se o conhecessem, ajudaria a perceber que o Estado Central foi em Portugal obrigado, contra vontade e apesar de muita relutância, a assumir a centralização da gestão do sistema educativo no final do século XIX perante o descalabro que era a manta de retalhos resultante do que tentou ser a entrega dessas responsabilidades aos ditos municípios.

Já sei que foi há muito tempo, que o peso do passado não nos pode inibir de avançar (de preferência para a frente…), mas a verdade é que tudo continua muito igual. Reler Eça e Ramalho, entre outros, ou rever Bordallo apenas nos faz reencontrar com o mesmo Portugal de sempre. Na altura com os caminhos de ferro e as estradas fontistas a fingirem de Progresso, agora com os IC’s cavaquistas e as SCUT’s guterristas, mail’o TGV e a Ota a fazerem as mesmas vezes

cm.jpg

Há muito que acho que em Portugal qualquer tipo de regeneração do sistema político ou de muitas práticas correntes na sociedade é praticamente inviável por causa das teias e emaranhados diversos em que quase todos os protagonistas com direito a chegar ao palco se enleiam.

Agora é desfiar das estorietas de Marques Mendes (ler também este post da Câmara Corporativa) enquanto professor da Independente e qualquer coisa na Universidade Atlântica, uma instituição criada – a meu ver, que é de longe – de forma curiosa quando o foi e com os fundadores, accionistas e outras personalidades que por lá então passaram.

É que nos anos 90 o mundo das universidades privadas é um manancial de histórias destas e de outras muito piores. Faz lembrar o bom e velho rotativismo oitocentista; quando não estão no governo estão nos cadeirões dourados à espera de vez e vai rodando, com todos a cruzarem-se aqui e ali numa promiscuidade que então se julgava passar sem escrutínio público. Se um dia forem passar a pente fino os pagamentos destas instituições muito se perceberia sobre as coincidências do mundo político.

É que quando se zangam as comadres e os compadres…

« Página anteriorPágina seguinte »