Portuguesismos


Não é de agora… vem de trás e com jeitinho e memória é  tradição que os governantes se queixem do povo que governam, do país que dirigem.

Que está errado, que tem traços anacrónicos, que não acompanhou os tempos, que não é o que devia ser.

Não consigo encontrar ofensa maior para a inépcia desses mesmos governantes, queixarem-se por terem querido ser os pastores de um rebanho que desprezam, num campo que acham estar todo mal amanhado.

Em coerência, deveriam ser eles a emigrar para um povo melhor, um país mais adequado à sua grandeza imaginada.

… deixa-nos com vontade não apenas de os ver pelas costas, mas quase de igual forma ao país que os gera, alimenta e permite que prosperem.

A mansa desesperança instala-se.

No outro dia, num Daily Show de algumas semanas atrás, via um convidado de Jon Stewart (o autor deste livro) explicar como os irlandeses, sendo naturalmente pessimistas e estando tão habituados a viver desgraças, mal reagiram perante o descalabro financeiro e a intervenção externa.

Já no caso dos portugueses acho que é mais a habitual forma de tentarem acreditar que nada se passa verdadeiramente de anormal. Recorrendo a Eduardo Lourenço, é como se vivessem num estado de representação que perdura até aos limites da (ir)racionalidade, na tentativa de acreditarem que a realidade é outra e não a que temos.

Como se isso permitisse a não-inscrição (usando aqui o conceito de José Gil) da crise no seu quotidiano. E assim os ilibasse da anomia ou da situação de permanente crítica sem produção de alternativas.

E, como de costume, lançando sempre a culpa para os outros.

Os que governam e os que governaram. Os que foram eleitos e os que os elegeram.

A culpa é sempre dos outros. Dos que não votaram. Dos que votaram mal. Dos que, votando bem, não se revoltam. Dos que, revoltando-se, não se revoltam da forma certa. Dos que, revoltando-se da forma certa, não o fazem pelo tempo adequado. Dos que… Dos outros, pronto!

Sempre se vai enchendo o tempo e se dão palmadinhas nas próprias costas. Uma forma estranha de auto-estima que funciona como uma peculiar carapaça que impede o verdadeiro desespero.

Fica a mansidão. Mesmo dos que clamam e gritam.

Escrito originalmente em 1950:

O Português gosta de fazer projectos vagos, castelo no ar que não pensa realizar. Mas no seu íntimo alberga uma certa esperança de que as coisas aconteçam milagrosamente.

O divertido é que – e esta acrescento eu – o Português que concorda com isto tem tendência a achar que são apenas os outros que são Portugueses e ele a excepção. Tanto maior excepção quanto nada faz, por vezes nem os castelos no ar, espera que até isso façam por si.

E sim, tenho espelhos em casa.

A pedido de várias famílias, em particular de uma, abro aqui espaço para uma discussão antropo-sociológica acerca do aparente retorno do Portugalinho dos Milagres Futebolísticos: a Dinamarca ganhou à Suécia e até somos capazes de ir ao playoff de apuramento para o Mundial sem perceber como. A menos que a Hungria nos meta ainda um golo como já ameaçou.

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Lei das Armas já não obriga caçadores a teste de álcool

No plano político, poder-se-ia dizer, mesmo, que boa parte da política do executivo se caracteriza pelo chico-espertismo (taxa moderadora na Saúde, certas cláusulas do Estatuto do Aluno e muitas outras medidas na Educação, como certas iniciativas da reforma fiscal que retiram pequenos privilégios aos contribuintes, cêntimo a cêntimo) com que o governo aparentemente facilita a vida dos portugueses sem lhes dar a substãncia correspondente, tornando-os oficial e legalmente verdadeiros chicos-espertos. Assim, a governação de Sócrates institucionalizou práticas e um espírito geral que se caracteriza pelo desvio á lei, pelo «desenrasque» mais ou menos clandestino. Mais: toda a máquina de propaganda do Governo, vital para o regime, se funda no chico-espertismo. Apresentam-se estatísticas que nada dizem sobre a substância a que se referem, ou modificando as suas fontes (por exemplo, um relatório sobre o Ensino Básico em Portugal feito por uma agência privada, segundo as regras da OCDE, como se tivesse sido realizado pela OCDE), manipulam-se os números não os contextualizando, etc. Neste sentido, não é exagerado afirmar que o chico-espertismo está genuinamente a infectar a execução das reformas, retirando-lhes visão, alcance e coragem. (José Gil, Em Busca da Identidade – O desnorte, 2009, pp. 31-32)

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… de cada país na construção do sucesso educativo e da própria alfabetização. A comparação é muito simples quando se constata que nós somos pioneiros em matéria legislativa e bem tardios na concretização dos factos, enquanto que aqueles cuja «sociedade civil» vislumbrou as vantagens da Educação não precisaram de empurrões por decreto.

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Expresso, 1 de Maio de 2009 (com o devido agradecimento ao Maurício)

Provavelmente isto fará imenso sentido de diversos pontos de vista, incluindo daquele que fala na racionalização da rede escolar, mas a mim causa-me alguma aflição: decretar a obrigatoriedade de um nível de escolarização quando 15% dos concelhos não dispõem das respectivas infraestruturas básicas.

Fora a estranheza que me causa ver demolir pavilhões em estado de conservação mediano para construir novos, enquanto existem escolas secundárias sem pavilhão nenhum.

São certamente visões bem mais avançadas do que a minha, tradicionalmente anacrónica.

Este Portugal que vamos vivendo é o natural prolongamento do Portugal do cavaquismo que Maria Filomena Mónica e Vasco Pulido Valente, tal como António Barreto e o Miguel Sousa Tavares pré super-star, tão bem escalpelizaram.

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Se bem repararem, os escândalos que ora parecem surgir do nada, desde universidades privadas que serviram para tudo e desaparecem como fogos-fátuos até instituições bancárias que serviram a poucos e se despenham agora em sucessão, não esquecendo os licenciamentos a preceito (e muito se falará mais tarde dos PIN), tiveram origem nesses períodos pantanosos de maiorias ou quasi-maiorias que fomentaram o aparecimento de pequenas estrelas políticas que, ao cair do pano da sua cor, se transferiram de armas e bagagens para o lado daqueles que antes tutelavam, regulavam ou licenciavam.

O interessante ao ler muitas destas crónicas é perceber, embora a específica  formação historiográfica dos autores também ajude a explicar tal, que Portugal, por muito que se diga modernizado, tem uma identidade muito própria desde antanho e que nenhuma chuva de empréstimos (fontismo) ou subsídios (cavaquismo, guterrismo e a seu tempo veremos o socratismo) consegue alterar.

É o mesmo pais que hoje Carlos Fiolhas evoca na sua crónica no Público, o país da cunha, do jeitinho, dos cordelinhos, das fugas para a frente perante adversidades e da evocação de campanhas orquestradas por parte dos ainda há pouco orquestradores.

Esse Portugal permanece, mesmo que 71 super e hipermercados venham a abrir em cima dos 2 triliões já existentes ou que sejam construídos mais quilómetros de autoestradas naquele desvario que Medina Carreira tão bem caricatura.

E em matéria de Educação tudo parece na mesma, bastando reler um pouco de Pulido Valente em 97 sobre as ideias em vigor no período de vigência da dupla Marçal Grilo-Ana Benavente no ME.

Os socialistas recolheram do radicalismo democrático a reivindicação do ensino primário obrigatório e gratuito (que se destinava a preparar o povo para a cidadania) e de um certo liberalismo a preocupação com o ensino «científico» e «profissionalizante» (que se julgava útil ao progresso económico. A mistura não surpreende. os pioneiros da «igualdade de oportunidades» descobriram imediatamente que a escola «burguesa» (com a sua orientação enciclopédica e «clássica») tendia a premiar os «filhos dos ricos» e a rejeitar os «filhos dos pobres». porque «transmitia» o «saber» dos «ricos» e não o dos «pobres». A solução estava assim em criar uma escola compreensiva (no sentido abrangente) que valorizasse igualmente o «saber (abstracto) dos ricos» e o «saber (concreto) dos pobres». Por outras palavras, que valorizasse igualmente o conhecimento «livresco» (histórico, por exemplo) e o conhecimento «prático» (de serralharia, por exemplo). (V. P. Valente, Esta Ditosa Pátria, pp. 218-219)

Perante isto, sou obrigado a rever os meus conceitos e a reavaliar aquilo que cheguei a considerar ser uma descontinuidade entre o guterrismo e o período actual em matéria de Educação.

Portugal poderá perder direitos de pesca ao carapau

E então como é que depois arranjamos os nossos tão característicos carapaus de corrida?

Há os hiperactivos…

Hiperactividade atinge cerca de 250 mil adultos

… e os outros:

Deputados faltam quase o dobro à sexta-feira

Mas qual é o espanto? Afinal o orçamento de Estado é algo assim tão importante que se tenha de saber quem lá mexe no quê?

Qualquer dia ainda pensam em avaliar este tipo de desempenho…

João Miguel Tavares no DN:

A cunha tem muito que se lhe diga. Toda a gente está disposta a condená-la e a apontá-la como uma das causas do atraso de Portugal, mas poucos, na prática, passam sem ela. Se Jesus, em vez de frequentar as terras de Israel, tivesse pregado nas margens do Tejo, teria dito à multidão em fúria: “Quem nunca meteu uma cunha que atire a primeira pedra.” E aí todos baixariam a cabeça, começando pelos mais velhos, e iriam apedrejar para outra freguesia.

E isto tem tantas aplicações…

Por exemplo: quem nunca pediu um despacho ou uma portaria a preceito que atire a primeira pedra. E aí baixariam a cabeça e iriam apedrejar outro sistema de ensino.

A verdade é que na sociedade portuguesa a noção da sua personalidade colectiva, o sentimento de vida nacional, o sentimento de pátria se quiserem, não existe sobrepondo-se a todos os outros sentimentos de interesse individual. Existe apenas o sentimento e o espírito intolerante de seita, existe apenas o sentimento de quadrilha, mascarados por um messianismo avariado, de ínfima qualidade.
Um dos aspectos mais típicos da vida portuguesa e um dos seus males mais funestos é a sua prodigiosa fertilidade messiânica. A cada passo surge um homem que se sente com envergadura e ventre de messias. Por cada messias que aborta, pululam inesgotavelmente centos de messias, toda uma falperra de messias. E, enquanto a nação rola à aventura de messianismo em messianismo, a sociedade portuguesa, lentamente, infatigavelmente, vai-se dissolvendo e desagregando.

Manuel Laranjeira, 1908
(que certamente alguns/mas apelidariam de pessimista de serviço)

No Público (sem link permanente), em nota do enviado a Pequim já se escreve que:

Da desilusão quase total ao melhor resultado de sempre

Em apenas um dia, a missão portuguesa aos Jogos Olímpicos deste ano passou de uma enorme desilusão em quase toda a linha para um resultado que, embora abaixo dos objectivos definidos, formalmente é o melhor de sempre, atendendo à forma como o Comité Olímpico Internacional (COI) ordena os países no medalheiro, dando prioridade a quem tem mais medalhas de ouro, seguidas, em caso de empate, pelas medalhas de prata.

Já estão quase todos prontos para passar a esfregona por cima de tudo o mais graças ao salto de Nelson Évora. Ditosa pátria esta que, que assim fica salva.

Estou cansado de ouvir o mote «Errar é humano».

Cansadíssimo. Sei disso por experiência na primeira pessoa. Parece que sou humano, pois já errei a minha conta de vezes. Mas também vou acertando algumas. Felizmente para a minha vida e dos que me cercam, vou acertando mais do que falho nas coisas que fazem parte das minhas obrigações e funções (pessoais, familiares, profissionais, sociais).

Quando erro, passada a infância mais ingénua em que pensamos que toda a má desculpa é válida e convincente, aprendi a conviver com a necessidade de não me justificar com o relvado molhado ou o numeroso público. Mesmo quando culpo o árbitro, tento demonstrar porquê. Por isso não gosto de críticas vagas e perco algum tempo a aborrecer quem me queira ouvir (e agora ler) a explicar porque me queixo disto ou daquilo.

Talvez seja algo que se aprende com a vida, com a idade, com a experiência.

Só assim compreendo que ainda exista quem aceite como válidas certas justificações dadas para legitimar maus resultados nos Jogos Olímpicos. Note-se que não são os maus resultados que me aborrecem, mas sim as desculpas dadas.

E é aqui que acho que o Desporto e a Educação estão muito relacionados e se revela até que ponto se entranhou a estratégia da desresponsabilização individual pelos maus desempenhos.

Basta ler as declarações de Nuno Fernandes, ao que parece Presidente de uma Comissão de Atletas Olímpicos de que desconhecia a existência, na última página do Diário de Notícias de hoje. Certamente um defensor da pedagogia da auto-desculpabilização e da palmadinha nas costas, Nuno Fernandes afirma que mandar Marco Fortes para Portugal após as suas infelizes declarações – é o tal da caminha «é muito injusto e, em termos pedagógicos, é completamente desajustado».

Talvez seja numa perspectiva da «pedagogia desportiva dos afectos». O que parece esquecido é que Marco Fortes depois de dizer que à hora da prova «as pernas queriam era estar esticadas na cama», acrescentou – que eu bem vi na televisão – que apesar de tudo era muito bom ir aos Jogos Olímpicos, espectacular e tal e que todos se deviam esforçar por ir. E até disse «gostei de cá estar», assim mesmo no pretérito perfeito. Como que percebendo que a sua missão estava cumprida.

Perante isso, mandá-lo na volta do avião foi uma medida eventualmente politicamente incorrecta, mas justíssima. O que ficava lá ele a fazer? A dormir?

Mas, como na Educação, há sempre quem ache que há desculpa para tudo e não faltaram logo os que o defenderam que ele é um brincalhão, sempre bem disposto – pois, bem dormido, deve ser o máximo – e que tudo deve ser desculpado com a inexperiência do rapaz, vejam lá.

Só que ele precisa de aprender que não é assim que se vai lá. Passar impune tal dislate é validar a estratégia da graçola, tomar como boa a teoria do coitadinho.

No fundo nada de muito diverso do que agora se usa como regra – errada – na Educação, na Política, na Economia, etc, etc. O «errar é humano» como regra e não como excepção.

Por isso, tem razão Santana Castilho quando escreve hoje no Público que:

Um país que cultiva na escola e na polis a falta de rigor e de exigência, tem autoridade para sancionar quem o envergonha no estádio olímpico?

Claro que não e por isso mesmo é que o nosso Primeiro Ministro elogiou o desempenho de todos os nossos atletas realçando que todos eles representaram bem Portugal. Para a próxima, em 2012, só falta que os atletas mandem os resultados das suas provas por fax para Londres, enquanto dormem o soninho dos justos, não vá aparecer muita gente no estádio ou a égua ficar histérica.

A avaliar pelas justificações (o árbitro, o horário, os jantares e a melhor de todas uma égua histérica) estamos a voltar ao tempo dos desgraçadinhos e do choradinho da falta de condições.

Ao menos o Obikwelu tem a dignidade de não se justificar com o chão torto e pede desculpas por não cumprir os objectivos. Assim é que é!

Agora falta-nos ver o que fazem a Naíde, o Nelson e a Vanessa.

De Baptista Bastos:

Esboço do português médio

(…)
Sabe pouco de si próprio, o português médio. O português médio deixou de ser povo; transformou-se em população. Assim como o conceito de comunidade se converteu na noção de sociedade, mais consentânea com a ligeireza dos tempos e a futilidade de quem estatui estas coisas.

Não é, somente, um problema de se conhecer o idioma: sim uma espécie de oligofrenia que, devastadora, está a fazer do português médio um ser abúlico. De vez em vez, quando lhe tocam no ordenado ou ameaçam tripudiar sobre os seus direitos mais elementares, o português médio rebela-se. É sol de pouca dura, porque os seus protestos não possuem substância “política”, são meras irritações “sociais.” O português médio está “portugalizado”; quer-se dizer: faz que anda mas não anda. Perdeu alguma coisa daquela energia vital que, em tempos, fez de um território uma nação e de uma nação um testemunho moral e uma evidência medular.

Mas depois nenhum de nós se sente médio…

Foi o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa mesmo a finalizar o programa de hoje, ao referir-se à forma jurídica encontrada pelo ME para sair do imbróglio evidente de ser incapaz de dar cumprimento ao DR 2/2008.

Disse aquele que por acaso é professor de Direito Constitucional que tinha dificuldade em explicar aos seus alunos esta forma de legislar em que, perante uma lei promulgada e que não se vai cumprir, em vez de a revogar ou substituir, se faz uma outra lei para explicar que aquela não vai ser cumprida nos termos  em que foi redigida.

Pois. Afinal sempre há mais gente a achar que o DR 2/2008 deveria ter sido alterado e não ser-lhe aposto apenas um outro DR com normas transitórias que ele não continha.

Mas eles é que sabem, eles é que têm os cadeirões…

Já aqui referi há uns dias o fenómeno do adesivismo, assim crismado na transição da Monarquia para a República mas prática ancestral neste velho torrão nacional.

O adesivismo é uma variante do vira-casaquismo, nem sempre sendo fácil de distingui-los. Eu considero o adesivismo mais insinuante e sibilini e o vira-casaquismo mais trôpego e desajeitado.

No contexto actual o adesivismo na área da Educação ainda está incipiente, mas tem adubo e terreno fértil para se multiplicar como cogumelos inúteis em terreno bafiento.

As notícias que me vão chegando de viva voz ou por interposto testemunho teriam o seu quê de caricato caso não revelassem a propensão para práticas que podem prejudicar – e muito – o pouco que nos resta para tentar manter a Educação Pública neste país acima da linha de água.

Eu explico.

  • O adesivo passou nas últimas semanas a estar muito preocupado com o sucesso e, argumentando em nome do interesse de todos, apela a que façamos o que o ME quer que se faça, «para evitar problemas». Esta preocupação é diferente da daqueles que tentam encontrar vias para moldar a tenaz ministerial e torná-la menos asfixiante. No caso do adesivo a preocupação é em conseguir mesmo que a tenaz se instale e atinja os objectivos desejados: o sucesso expresso nos resultados estatísticos.
  • Para isso, o adesivo até ultrapassou o timing do ME e começou, de cenho preocupado, a lavrar umas «grelhas» de sua própria iniciativa para ir «ganhando tempo» e fez questão de divulgar esta sua iniciativa em todo o redor de si.
  • Ao mesmo tempo, o adesivo mudou quase imperceptivelmente a sua forma de andar e circular pelo espaço escolar: se repararmos bem, o olhar está mais distante e foca-se menos nos seus pares, visando um pouco mais além. O adesivo passou mesmo a levantar o queixo em média um par de centímetros, corrigindo a sua postura ao andar. O adesivo-macho trocou o blusão informal pelo blazer. O adesivo-fêmea adicionou uns acessórios brilhantes aos paramentos quotidianos. Quiçá mesmo um toque mais ousado na maquilhagem.
  • O adesivo fez questão de demonstrar que está a par da legislação, que leu o articulado e fixou as instruções. Declarando-se contrariado por aplicá-las, o adesivo, contudo, considera que pode acrescentar algo mais às propostas ministeriais e adianta leituras pessoais de algumas passagens e já propõe estratégias próprias para alcançar o sucesso.
  • O adesivo acha que devemos definir objectivos de progresso e sucesso por turma e aluno. O adesivo acha que devemos planificar aula a aula de forma diferenciada e usar mesmo instrumentos de avaliação diferenciados em todas as turmas, visando «obter os melhores resultados», enquanto eles ainda se lembram «das coisas». É algo omisso quanto às aprendizagens. O adesivo sugere que os «colegas se envolvam» em actividades extra-curriculares, «porque é isso que agora é valorizado».
  • O adesivo parece esquecer que os colegas já faziam tudo isso, valorizado ou não. O adesivo partilha experiências pedagógicas pessoais passadas que conduziram a um sucesso que todos desconhecíamos.
  • O adesivo observa com ar reprovador e condescendente as vozes que ousam discordar. Aconselha que os contestatários «tenham cuidado», que «repensem a sua atitude», que «considerem que é o futuro profissional que está em risco».
  • O adesivo é, no fundo, uma boa pessoa, um pináculo do bom-senso e das boas maneiras, só que facilmente impressionável às vozes de comando que soam fortes do alto. O adesivo contesta até que. O adesivo critica enquanto. O adesivo transmuta-se logo que.
  • O adesivo é o camaleão do sistema educativo. Já praticou a pedagogia por objectivos quando iniciou a carreira sem pensar duas vezes; quando nasceu a ideologia das competências achou um disparate, mas dois meses depois já estava convencido. Agora que se inflecte de novo para a exigência dos resultados por sobre as práticas, acha que «realmente isto está sempre a mudar», mas muda sempre de acordo com a mudança. O adesivo é disciplinado e conhece o seu lugar na hierarquia de comando.
  • O adesivo até é um bom professor, quiçá muito bom. Mas mais importante, quer ser melhor do que. Ou passar por isso.
  • O adesivo é o melhor amigo do ME. Logo a seguir àquele senhor bem-falante e de barba aparada daquela associação que não sei quê.

Mas, apesar de todo esse esforço de bem-parecer, o adesivo é uma das razões porque lá de cima nos consideram «professorzecos». Porque o respeito se perde, quando nós o perdemos por nós próprios e abdicamos das nossas convicções e de lutar por elas.

No matter what.

Vasco Pulido Valente escreve hoje com razoável equilíbrio e a perspicácia que se lhe reconhece nos bons dias, sobre a relação paradoxal entre o desagrado aparente dos portugueses perante a situação e governação existentes e a permanência de sondagens favoráveis ao partido no Governo e directa ou indirectamente ao Primeiro-Ministro.

VPV baseia a sua análise numa acertada perspectiva histórico-cultural que, como Eduardo Lourenço ou José Gil, nos obriga enquanto colectivo ou “povo” a enfrentar os nossos demónios mal escondidos, os mesmos que em alguns séculos, nos quiseram fazer encontrar sempre um “pai político”, que nos salvaguardasse da má-sorte e que nos abrigasse do imprevisto, mesmo que à custa da muito glosada apagada e vil tristeza.

Escreve ele:

Entretanto, o país cai, o pessimismo dos portugueses cresce e a economia está praticamente em coma. O ano de 2008 vai ser mau e, provavelmente, péssimo. O cidadão comum sabe que depende do preço do petróleo e do que suceder na América e em Espanha. A insegurança é grande. O que, em princípio, prejudicaria Sócrates. Mas não. Sócrates vive da insegurança. Cada vez que lhe chamam autoritário, cada vez que (justamente) o acusam de pôr em perigo a democracia e a liberdade, os portugueses, como de costume, agradecem a existência providencial de um polícia. Um polícia que manda e que proíbe; e que fala pouco. Não querem a barafunda por cima da miséria; e preferem a miséria à barafunda. Num mundo instável e confuso, Sócrates sossega. O resto à acessório.

VPV escreve em 2008 sobre as circunstâncias que ocorrem em 2008. Mas poderia estar a escrever em 1988, como já escreveu sobre 1988 e o homem providencial era outro S de Silva, Cavaco; ou em 1938 ou 1928 acerca de outro S de Salazar, António; ou em 1918 sobre outro S de Sidónio. E poderíamos esticar a memória em busca de outros senhores S, com ou sem S.

E o problema não passa por questões – essas sim atávicas – de reavivar fantasmas de «fascismo» no actual modo de governo como de repente se lembrou de fazer António Barreto há duas semanas, sendo pronta e certeiramente satirizado por Baptista-Bastos.

O problema da busca do senhor S, que pode ser do Sebastião quinhentista, ou de qualquer Salvador ocasional, é a busca do S de Segurança, sendo que a essa segurança os portugueses – na sua globalidade – estão por vezes dispostos ao Sacrifício de muita outra coisa, seja de algumas liberdades que parecem não fazer assim muita falta, seja de algumas décadas da sua vida.

O problema não está no «fascismo», termo a que agora se achou por bem voltar a recorrer com manifesta falta de rigor e propriedade, à falta de melhor. O problema está mesmo dentro de nós porque, por bonita que seja a festa, a maior parte do pessoal gosta mesmo é de Sossego. Se aparece alguém que o garanta em troca de um pedacinho da nossa alma, não se pensa duas vezes.

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