Politicamente Incorrecto


O que vale o conteúdo de uma acta negocial em que uma das partes não assina um acordo propriamente dito, mas apenas considera válida uma parte das negociações?

Terá um não-acordo desse tipo algum tipo de validade jurídica, mesmo que o processo do seu desrespeito revele óbvia má-fé da outra parte?

Porque uma coisa é a acta da FNE e restantes, que fizeram mesmo um acordo com Governo e parecem ter sido granadeirados e ter-nos levado todos atrás, outra coisa uma acta de um acordo não inalado até ao fim, como o da Fenprof.

Pelo que, em boa verdade, gostava MUITO de saber se a FNE está a gostar da sodomização pública (desculpem, não há forma delicada de colocar as coisas…) de que está a ser objecto e, através dela, os milhares de professores que acreditaram que os representantes profissionais mereciam sê-lo, quando lançaram foguetes acerca de um acordo que teria tantas vantagens que agora não conseguimos ver quase nenhuma.

Pessoalmente, penso que quem é sindicalizado deveria fazer uma avaliação do desempenho dos seus representantes, sem medo dos aparelhos.

Repito do post anterior: o balanço da greve começa a assemelhar-se a uma mão cheia de nada e outra de DACL.

… faltas evidentes de profissionalismo e desculpas da treta por parte de quem pensa que nunca será responsabilizad@ pelo seu próprio mau desempenho profissional.

Porque a culpa não é apenas das provas, dos ministério, dos alunos, das famílias e dos cosmos em geral e particular.

Porque há quem não admita nem um milionésimo de responsabilidade…

Dizia-me um aluno – bléque uide praide – há uns dias numa daquelas aulas alargadas de apoio em que aparece quem lhe apetece, num momento não-arménio.

Que não substitui nem se sobrepõe a(o) que está a ser decidido em comum.

É apenas um post pessoal sobre o que envolveu a reunião dos autores de seis blogues sobre a Educação e as reacções que suscitou.

É daqueles posts que me dá imenso gozo escrever, em especial porque sei que vai desagradar a quem eu pretendo que desagrade. Porque é do tipo míssil teleguiado.

O contexto é simples… pessoas habituadas a ler-se e que, em muitos casos, não se conheciam, decidiram reunir-se, conviver e discutir alguns assuntos. Deram disso conhecimento público nos respectivos blogues de uma forma concertada. Não fui o promotor da ideia, mas partilhei de forma activa o que em seguida foi feito e confesso que me tenho divertido sobremaneira.

Isto provocou reacções de curiosidade, esperança, paranóia e parvoíce.

Comecemos pelas reacções sãs e normais:

  • A curiosidade foi óbvia em tentar perceber que tipo de objectivos teria a reunião, se dela sairia um qualquer tipo de documento ou agenda de acção comum. A seu tempo será satisfeita a curiosidade porque ninguém levava conclusões a priori e é chato escrever em guardanapos de tecido.
  • A esperança é natural perante a situação existente de desorientação no sector da Educação, seja por parte da tutela, seja por parte de uma atomizada representação, dividida entre quem quase não diz nada e quem grita com tudo, as plataformas que duram até não serem recebidas, não esquecendo os 726 movimentos que surgiram nas últimas semanas no FBook em defesa da Educação. perante a confusão é natural que se espere que alguém apareça com alguma nova forma de encarar a situação, em especial quando se trata de um núcleo de pessoas que nos últimos anos têm mostrado trabalho em prol do esclarecimento e apoio aos colegas. Em meu entender, a esperança é desmedida, mas a ela também será dada a devida resposta, pois respeitamos muito os nossos colegas de profissão, e não só, que diariamente visitam os nossos blogues e depositam em nós a esperança em algo honesto.

Passemos agora às reacções mais ou menos patológicas, embora normais:

  • A paranóia daqueles que sentiram no ar uma qualquer ameaça ao establishment mais do que instalado no terreno. O medo do reavivar de ameaças sentidas em 2008 e mesmo 2009 fez tocar a rebate, muito em especial, as brigadas de arménios e berloques, os donos e senhores da contestação ao MEC (desde que seja de Direita!) desde tempos imemoriais. Esta foi a parte mais divertida, saber dos questionamentos e das perguntas, feitas aqui e ali, em busca de pistas. Fossem um bocadinho inteligentes e não medissem os outros por si e pelas suas limitações, perceberiam que as pessoas envolvidas não querem, nem com pinças, substituir ninguém na missão de representação que tão bem é desempenhada pelos actores consagrados em cartaz há muitos anos. Bastava olhar para cada um de nós e perceber que se há coisa que não queremos é fazer a figura que outros fazem ou fizeram. Falo por mim, mas julgo ser extensivo a todos os presentes no almoço de ontem.
  • A parvoíce de alguns (felizmente poucos) que, não tendo sido convidados para estar presentes ou não tendo sido informados sobre o que se ia exactamente passar, decidiram aparecer aqui e em outros blogues, especialmente em comentários, a atirar bojardas, graçolas, desafios e demais coisas muito inteligentes que nunca colocariam em prática, caso um dia lhes fosse dada a oportunidade de dar a cara como alguns dos presentes ontem têm dado. Muito menos de terem o trabalho que alguns têm, preferindo apenas ir descarregar ou copiar o que os outros fazem.

Dito isto, amanhã haverá uma declaração comum, ainda em discussão, assim como algo mais. Quem quiser, espera com calma. Quem não quiser, azar, terá de esperar na mesma, com ou sem calma. Mais ou menos parvoíce, mais ou menos paranóia.

E pronto, ó arménio nogueira, larga lá o tm e recolhe os varguitas que ninguém te quer tirar o lugar. Vai dormir a sesta descansado.

Se o spin laranja optou por salientar a sinceridade do PM, afirmando que efectivamente há professores a mais e que devem escoar-se antes que exista perigo de maior entupimento dos centros de (des)emprego, eu proponho que, em conformidade, se fechem de vez os cursos de formação de professores, em especial naquelas instituições que só vivem disso e mais nada.

E quanto aos poli e superiores professores que assim fiquem no desemprego, nomeadamente os que se acham acima dos zecos, estou-me a marimbar. Olhem… emigrem…

Se nos 23 titulares a custo se encontra uma boa equipa de futebol de 5, com os suplentes atinge-se um quinto dos deputados em exercício e chora-se.

Aqui (destaque para o Doutoramento em Doutoramento de uma das vices…).

… a praticam quando dá jeito. Quando os que se encrespam com ataques ad hominem os fazem sem nenhum problema quando lhes dá jeito.

Eu sei que é mais simples assim, dizer uma coisa quando lhes arde e outra quando querem que arda a outrem.

Mal por mal, aqui pratica-se a crítica a ideias e pessoas, conforme essas merecem crítica. Não se pratica e depois diz-se que não. Se é para ir ao osso, vai-se ao osso. Se é para elogiar, elogia-se. Não se pratica o calculismo como modo de vida. Até porque, como todos os anos escrevi e disse, sei o que estarei a fazer a 1 de Setembro seguinte e faço-o por gosto, não por imposição ou frustração.

Isto vem a propósito do novo ME, de reacções blogosféricas, mediáticas e circulações por mail no sentido da multiplicação de efeitos.

Eu concretizo: o novo ME anunciou até agora uma medida (suspensão para reavaliação do processo de encerramento de escolas) e duas orientações (revisão da ADD sem suspensão imediata e necessidade de concentrar o currículo dos 2º e 3º CEB).

Mais nada foi anunciado ou feito nesta semana ou duas de Governo.

A medida anunciada é positiva. Das duas orientações uma é igualmente positiva e outra é muito ambígua em relação a uma promessa eleitoral do PM, pois não explica se esta ADD é mesmo para levar (pouco) a sério até 31 de Dezembro.

Perante isto notam-se reacções muito personalizadas, contra (Crato e Passos Coelho) e a favor (de Santana Castilho, putativo ME que o não foi).

Em alguns sectores (sindicais, principalmente, mas também da esquerda pedagógica) fofinha concentram-se as críticas em Nuno Crato ainda antes de ele ter feito alguma coisa (bastaria recuar a 2005 para perceber como a pressa em intimidar ia acabando com corte de orelhas e rabo aos experimentados lutadores). Em alguns sectores próximos do PSD, evitando-se a afronta a Crato (afinal, ainda há esperança de alguma coisa), para se concentrarem as críticas em Passos Coelho, por ter alegadamente frustrado as esperanças de uma pessoa conduzir os destinos da Educação Nacional.

Sobre as medidas concretas – ainda quase inexistentes – pouco se diz e acena-se com as imposições da troika (mas, afinal, não existiam antes, quando alguém elaborou um não-programa?) que, afinal, não se confirmam, por exemplo, na aceleração da concentração da rede escolar.

Não me cumpre aqui fazer o papel de carteiro de ninguém – e já devolvi ontem o que tinha a devolver ao emérito autor da alcunha, a quem decidi crismar de bigodim do Norte como contrapartida (sim, Luís, esta é para ti) -, mas é impossível não reparar até que ponto a fulanização substituiu qualquer debate em torno das medidas concretas. Logo em quem, no passado, se fez muito purista nessas matérias.

Para finalizar, um pensamento abstracto ou nem tanto (sim, Octávio, esta é para ti mesmo que digas, com a habitual dose de arrogância, que não passas por aqui): se há quem esteja mesmo muito visceralmente contra a ADD e queira apontar-se como exemplo de contestação, por favor, esclareça o público se até ao momento aceitou cumprir as regulamentações destinadas a relatar colegas e se as continua a cumprir, apenas com reserva mental. Se conseguiu livrar-se disso, tanto melhor.

Eu esclareço desde já que entreguei o meu RAA e nem sequer estou para pensar muito nisso. Mas não ando a fazer declarações pópovo divulgar.

Não falo de relatores sem grande poder de embate contra nomeações impostas por direcções mais ou menos abusivas, falo de relatores ilustres e muito cheios de si mesmos, antes e depois. Mas que o fazem durante. Válido também para chicos-guerreiros, que se acham melhores relatores do que os outros.

Disclaimer final: se eu podia não ter escrito este texto? Claro que sim, mas não era a mesma coisa. Era fingir que não via, lia ou ouvia. Era fingir que existe unidade onde ela não há. Era fingir que as clivagens e fracturas não se aprofundaram mais e mais ao longo do tempo. Como não acho que seja ao esconder os podres da família que se consegue alguma concórdia ou unidade funcional consistente, prefiro desde já deixá-las à vista.

Fenprof promove encontro de dois dias para ‘enfrentar tempos difíceis’

A Federação Nacional de Professores (Fenprof) inicia hoje um encontro de dois dias na procura de soluções para «enfrentar tempos difíceis que se aproximam».

«Vêem aí tempos difíceis. Milhares de professores vão ficar desempregados», disse à Lusa o secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira, frisando que a federação não quer nem vai ser espectadora «desta situação».

A «situação», diz, são várias, que vão fazer de Julho um mês «quentíssimo». Porque na sequência das eleições está para tomar posse um novo governo, porque as imposições externas decorrentes do empréstimo internacional «vão provocar maior desemprego e menos protecção» na função pública e isso atingirá os professores.

A reforma curricular do Básico, portantosssssss, não foi legislada ainda pelo governo do PS? Antes de ser suspensa no Parlamento?

É impressão minha ou estamos prontos para fingir que o que aí vem até é capaz de não ser tão mau como aquilo que foi aprovado em tempos do Governo do PS?

Relembremos: fim da AP, fim dos dois docentes em EVT, reformulação do EA, também com fim dos dois docentes do 2º CEB.

Esta é a situação herdada do anterior Governo e suspensa no Parlamento.

Sim, Julho vai ser quentíssimo.

Também por causa da ADD, herdada do magnífico acordo de Janeiro de 2010, ADD essa com efeitos nas classificações para concurso, contra tudo o prometido.

Querem luta?

Porreirinho.

Arranjem parceiros.

Agora, para mim, é corpo a corpo. Tanto mais que alguns puros se armaram em relatores, porque acham que assim são melhores do que outros e se sentem entre a espada-e-a-parede.

Quanto a Mário Nogueira, em termos individuais, apenas um conselho: apareça numa sala de aula, peça para viver o quotidiano dos docentes um periodozinho.

O sindicalismo, não deve ser martírio, nem profissão. Nem missão divina.

Nada como experimentar a vidinha dos representados. Antes do discurso guerreiro.

Só assim, como ligeiro regresso a um passado distante. Ou como experiência científica. Nada de trabalho de secretaria. Aulinhas mesmo. Com petizada.

Em caso de processo por difamação, é favor mandar a denúncia para o meu domicílio. Vem na lista e há quem a tenha bem memorizada.

Para tretas de chit, chega-me o outro. Ou outros.

(Não se esqueçam de fazer uma surprise-party combinada de despedida ao parceiro preferencial. Há bons bares em Aveiro, dizem-me.)

Mas olhem que o António tem um belo tronco… pelo menos é o que o elemento feminino do staff do Umbigo para a apreciação de masculinidades me enviou em briefing… quanto à elecção dispensei a análise.

Congressista americano admite ter enviado foto obscena a uma mulher

(…)

Numa conferência de imprensa com centenas de pessoas, Weiner reconheceu – em lágrimas – que enviou a fotografia em questão (uma imagem de si próprio com uma erecção por debaixo da roupa interior) a uma jovem de Seattle e que mentiu quando declarou anteriormente aos media que tinha sido vítima do ataque de um hacker.

“Assumo a plena responsabilidade pelas minhas acções”, declarou o congressista democrata, que reconheceu ter mantido “várias relações inapropriadas” através do Facebook e de outras redes sociais com um total de seis mulheres. “Nunca as conheci pessoalmente, não tivemos sexo. Apenas enviámos fotografias uns aos outros”, afirmou.

Tudo depende.

Eu confesso, de modo muito heterodoxo para quem pensa ser de Esquerda, que não a temo por aí além.

Isto pode levar muito tempo e palavras a explicar ou nem tanto assim. Quase dá vontade de pedir, apenas, para comparar o desempenho da anterior nmaioria PSD/CDS com a maioria do PSócrates. Isto excluindo o período em que o Barroso foi tratar da vida e3 o que se seguiu.

Embora seja tema que pede para ser desenvolvido com algum cuidado, eu vou tentar explicar uma tese central que é a seguinte: uma maioria monopartidária deste PS conseguiu fazer mais danos à Esquerda – tal como alguns a entendem, não amiguista, não nepótica, não aquilo que tem sido durante anos e anos a fio –  do que uma maioria de Direita, mono ou bipartidária, conseguirá fazer.

Ideia polémica? Nem por isso, se atendermos aos factos com um pouco de atenção e o necessário desprendimento afectivo (falo dos fiéis da Esquerda-muito-Esquerda).

As maiorias do PS (absolutas ou quase) têm muito maior facilidade em fazer passar políticas que não são de Esquerda do que as maiorias de Direita.

E porquê?

Porque o pessoal da Direita – excepto aqueles que escrevem em colectivos bloguísticos ou algumas heranças de um passado mais traumatizado pelo PREC – tem imensos complexos por ser de Direita e quando apresenta certas medidas – veja-se Passos Coelho – que suscitam mais polémica social, ficam logo meio atrapalhados e tentam cobrir aquilo com um véu de qualquer outra coisa. E também porque sabem que, na rua, fica depois toda a Esquerda em peso.

Já o pessoal do PS Central faz o que bem entende, com o beneplácito dos partidos à sua direita, sem grandes complexos e consegue reduzir muito a contestação nas ruas, algo a que o eleitorado do PSD e CDS não adere com facilidade, excepto nas manifestações de professores ou em acções contra a redução do financiamento privado e algum encerramento de centro de saúde. Mas desistem ao fim de pouco tempo. A Direita não gosta da rua e, nesse caso, um PS à Sócrates com maioria governa com razoável descanso.

Pelo que uma maioria de direita, não muito larga, não é coisa para se temer muito, pelo menos deve ser tão temida como uma eventual maioria do Partido de Sócrates.

Acusem-me de anti-socratista primário e eu aceito.

À Esquerda, acho que a estratégia eleitoral deveria passar sempre por reduzir o eleitorado do partido que mais fez contra um Estado efectivamente Social e não meramente Assistencialista e que agora aparece como paladino dessa Esquerda.

É indispensável, em qualquer estratégia que não olhe apenas para o dia seguinte, perceber que com Sócrates não há qualquer hipótese de uma maioria de Esquerda. E mesmo com este PS, em que desapareceu praticamente qualquer reserva moral contra o que se tem passado (por caridade, não falem em Carrilho, Cravinho, Ferro ou Assis… e mesmo Seguro é demasiado… seguro), isso é muito complicado e só seria possível com uma fronda interna no PS. O que é impensável com uma (inesperada) vitória ou uma derrota tangencial.

Pelo que uma governação à Esquerda terá de ser pensada para além do curto prazo. Paradoxalmente, pode mesmo ter de ser pensada como  consequência de uma governação à Direita nesse mesmo curto prazo. Com toda a certeza, passa pela necessidade de uma derrota clara do Partido de Sócrates.

Se no Bloco e no PCP não perceberam ainda isso é pena. Se perceberam, mas agem como se não fosse assim, é pena na mesma. O bicho-papão da Direita não é assim tão bicho-papão. Até porque a actual Direita (Passos Coelho/Portas) não é nada do agrado de Cavaco que os manteria com mais rédea curta do que manteve Sócrates.

Percebem onde quero chegar?

Ou estou demasiado out of the box?

Já por aqui, há algum tempo, várias vezes aqui evoquei Eduardo Lourenço e a forma como ele, no seu Labirinto da Saudade, descreve o estado de representação  de si mesmos em que os portugueses gostam de viver, em especial em alguns momentos mais traumáticos do próprio destino colectivo.

É um forma de fingimento pessoano em que cada um se refugia numa desresponsabilização pessoal pelo que está a acontecer e se lança nos braços de uma representação que descola progressivamente da realidade objectiva, social, económica, política.

Estamos a atravessar um desses momentos de solipsismo e desresponsabilização quase gerais.

O país está em crise económica e financeira por erros próprios, de muita gente. Certamente dos governantes, com o actual primeiro-ministro à cabeça com o seu discurso permanentemente irrealista, mas também de muitos outros, seja de grupos de interesses económicos que procuraram alimentar-se dos negócios que surgiam, sem grande sustentação, com o objectivo do ganho chorudo imediato, seja dos particulares que, em tempos de vacas menos magras, se lançaram em consumos desenfreados, esquecendo-se que as bolhas rebentam quando atingem um limite.

Nos tempos bons, quiseram embelezar a representação de si mesmos, enquanto agora, nos tempos maus, parecem querem fingir que não é bem assim e que a culpa é toda do Sócrates. Não é.

Desde logo porque se em 2005 a escolha estava muito limitada e contaminada pela deserção de Barroso e o desvario de Santana, já em 2009 as desculpas praticamente já não podiam existir.

Sócrates está lá porque prometeu, qual vendedor de banha-da-cobra, um futuro de optimismo desenrascado, muito português, mas que não tinha qualquer fundamento. E acreditaram nele ou quiseram acreditar. Foram menos do que em 2005, mas ainda foram os suficientes para o lá manterem a mandar.

E não finjam que o aproveitamento do crédito barato para aquisição de bens claramente acima das necessidades e possibilidades se deveu apenas ao entusiasmo voluntarista do chico-espertismo de Estado, que caracterizou boa parte do guterrismo e agora deste cretinismo que dura desde 2005.

Agora não finjam que a culpa é sempre dos outros e só dele, em especial se estiverem prontos para arranjar desculpas para não votar em outros.

Vejo milhares a anunciarem rumo a sul e para fora na Páscoa e espanto-me. Vejo muitos outros a continuarem fascinados por ecrãs planos e télélés cheios de botãozinhos e interrogo-me: o tempo está para isto?

  • E estará o tempo também para visões alternativas, mas igualmente solipsistas, da realidade em que se buscam exemplos de coragem numa Islândia com 320.000 habitantes que decidiu não pagar os depósitos que os estrangeiros (ingleses e holandeses) tinham nos seus bancos, como se isso equivalesse a não pagar a dívidas do país aos credores institucionais estrangeiros? E em que se fazem circular mails com umas ganas tais, como se isso salvasse seja o que for? Por vezes com informações ultrapassadas, erróneas e parcelares?
  • Estará o tempo para acreditar que os nossos credores estarão dispostos a aceitar exigências de quem deve e se endividou voluntariamente?
  • Estará o tempo para o regresso a discursos completamente anacrónicos sobre os malefícios do capitalismo financeiro, quando se conviveu com ele muito bem durante anos a fio, enquanto a bolha crescia?
  • Estará o tempo (à esquerda) para atitudes de nano-arrogância por parte de quem defende um modelo de desenvolvimento assente nos piores erros do passado recente?
  • Estará o tempo (à direita) para requentar fórmulas de liberalização de uma economia frágil e dependente, que se sabe terem dado maus resultados algures?

Mas será que estamos todos a viver no mesmo país, no mesmo tempo, perante as mesmas realidades?

Eric Stanton, Partners in Punishment

Do tipo… não, não, não vou evocar a relação entre cronologia e bondade

Alunos entrevistam Isabel Alçada

No passado dia 1 de Dezembro, à margem da inauguração da Biblioteca Municipal José Baptista Martins, dois alunos do Agrupamento de Escolas de Vila Velha de Ródão tiveram a oportunidade de realizar uma breve mas interessante entrevista a ministra da Educação, Isabel Alçada.

(…)

Alunos – “Acha que todos os professores a consideram uma boa ministra?”

Isabel Alçada – “Eu sei que todos os meus alunos me consideravam uma boa professora! (Risos) Eu acho que sei o que é ensinar, o que é educar, porque me envolvi sempre muito no trabalho. Procuro sempre dar o meu melhor, mas sobre o facto de ser boa ministra, as outras pessoas é que podem fazer esse juízo.” […]

…por transmutação vertebral em cartilagem e da cartilagem em papa mesmo.

Descobertas duas espécies de invertebrados no Algarve e em Montejunto

A crónica televisiva de Marcelo Rebelo de Sousa foi um monumento ao que agora se chama por cá responsabilidade e tem como epígonos, para além do Presidente em exercício, Manuela Ferreira Leite, Marques Mendes, Durão Barroso e até, pasmemos, Pedro Santana Lopes e Pacheco Pereira, todos irmanados no desejo de aconselhar Pedro Passos Coelho a viabilizar o Orçamento, esse mesmo, o tal que se desconhece e para o qual querem um cheque em branco.

Não há coveiro do PSD – faltou aqui Luís Filipe Menezes – que agora não seja uma pessoa responsável. Parecem quase os ex-ministros das Finanças do PS a darem a fórmula para combater o défice.

Ou seja, todos dizem que ou há Orçamento aprovado ou o Sócrates demite-se, vem aí o FMI e tudo será pior, porque os cortes vão ser maiores nos salários e a subida de impostos uma escalada que enfim.

E assustam-se com as sondagens que parecem fazer mirrar os partidos do centrão dos negócios e distender os desterrados das extremas. Ou seja, assustam-se porque o povoléu parece afastar-se de quem nos enfiou no buraco e aproximar-se de quem tem menos responsabilidades.

O que parece escapar a muitos destes analistas – e recordemos que a maior parte são políticos que falharam – é que, provavelmente, o povoléu até daria mesmo mais dinheiro desde que soubesse que na varridela que viesse de fora iam todos estes artistas que nos conduziram, debaixo de uma chuva de milhões de euros comunitários, para o descalabro.

Se o chumbo do  OE permitisse isso, acho que grande parte de Portugal agradeceria, encarecido, a Pedro Passos Coelho.

O problema é que, como se sabe, o grupo parlamentar do PSD é o escolhido por Manuela Ferreira Leite e consta que, se chamados ali para os lados dos pastéis para um puxão de orelhas, não seriam poucos os que desobedeceriam às ordens de quem está no momento.

E é essa dicotomia que também se reflecte nas sondagens que aqui se fizeram: há o desejo de que algo se refunde, mas a consciência de que o pântano ainda é mais forte.

Dizem os populares que só quem é burro é que não muda de opinião. Por isso mesmo, eu mudei de opinião logo aos três-quatro anos e deixei de pensar que era adepto do Benfica e Barreirense e passei-me para o Sporting e a CUF. Talvez fosse uma questão cromática porque era o período do Eusébio e do Benfica ganhar tudo, portanto não foi oportunismo.

Ao longo dos tempos fui mudando de opinião em vários assuntos. Mas confesso que – talvez por nunca ter optado por crenças ou fanatismos diversos que costumam afligir as pessoas na suas juventudes (longas, longas em muitos casos) – não me lembro de ter mudado radicalmente de posição em relação a um assunto daqueles mais marcantes e muito menos em idade adulta, com as ideias já no lugar. Quem me conhece nos últimos 20 ou 30 anos sabe bem que posso ter suavizado esta ou aquela atitude (sim, suavizado…), mas não tendo a ziguezaguear sobre os assuntos, até porque não opino com veemência sem me sentir devidamente informado.

O que não quer dizer que acerte sempre.

Mas o que a mim me aflige um pouco é ver e ler gente adulta a dizer uma coisa e o seu contrário, com escasso tempo de permeio – há casos de dias, outros de meses, os que apostam na falta de memória por vezes arriscam ao fim de anos – e com a postura altaneira de que a superioridade moral é deles mesmo.

Não falo aqui do muro de Berlim, de opções clubísticas, da importância da Monica Belluci para o aquecimento masculino global ou de outros assuntos de importância basilar como os que enumerei.

Falo de coisas práticas sobre a nossa vida social, económica, política, quiçá educativa.

Excluo desta minha perplexidade os economistas em geral e os ex-ministros das Finanças, em particular, porque no casos desses a oscilação opinativa faz parte do paradigma e da formação de base.

Mas inclui analistas de fenómenos diversos da nossa actualidade que conseguem, com a maior das caras de pau, dizerem exactamente o contrário do que já disseram, com base nos mesmos elementos, e passarem incólumes ao escrutínio público por razões que me escapam e sem que ninguém (ou quase) lhes aponte as incongruências.

Sei que a nossa vida pública tem mais casos destes do que de coerência – e nem sequer falo daquela que se confunde com a teimosia, fé ou é opção de vida.

E também sei que quando falo nisto, se individualizo casos, logo surgem os prosélitos anti-argumentos ad hominem.

Mas se escrever assim, em tese geral, se calhar aparecem os que dizem que sou cabalístico e não dou o nome às criaturas.

Que se lixe. Por hoje fica assim, com a questão final: porque será que se finge ignorar que quem hoje diz azul só o diz porque fica bem dizer azul, pois quando era giro dizer castanho, dizia castanho?

E por que maravilha das leis da lógica é que se faz carreira contestatária durante alguns anos a criticar aquilo que se postulava como o mais certo um par de anos antes?

Apareceu-lhes o arcanjo Gabriel no deserto ou um pedaço de toucinho ao pequeno-almoço na mesquita?

(imagem daqui)

Não será já tempo – e esta nem é uma crítica nova – para que quem está sempre contra tudo, seja quando chove, seja quando faz sol, dizer claramente ao que vem e o que propõe?

Com as minhas muitas limitações e sem grande preocupação até com a popularidade de algumas, fui fazendo ao longo do tempo propostas sobre a estrutura da carreira, modelo de avaliação, organização do currículo, etc. Podem ser lacunares, conterem equívocos e não servirem para nada, mas ainda as fiz.

Só que isso não acontece com muita gente que sabemos apenas estar, todos os dias ou todas as semanas, contra o que há, o que houve e o que haverá. Mas não sabemos uma linha sobre aquilo em que acreditam verdadeiramente, se é que acreditam em algo que possa ser escrutinado e debatido, sem ser em termos muito vagos. Ou então – se fizermos um pouco de arqueologia bibliográfica, quando isso não é quase impossível – percebemos que antes de estarem contra já estiveram a favor de boa parte daquilo que estão contra. Nestes últimos anos, num esforço interessante, alguns sindicatos (Fenprof, FNE, SINDEP, SPLIU, ANP) e alguns movimentos (em particular a APEDE e o MEP), assim como um ou outro analista da situação (o Nuno Crato, por exemplo) apresentarem propostas próprias, mais ou menos amplas, para alguns aspectos das políticas de que discordam. Podemos não concordar com as soluções, mas temos algo para analisar e discutir.

Mas há organizações e personalidades, uns mais próximos e outros mais distantes da insatifação global dos docentes, que se limitaram a cavalgar a onda e, apesar de imensa sabedoria e ainda mais informação, nada disseram sobre aquilo que defendem ou então fizeram proposições com tal amplitude qu tudo cabe dentro do cesto, menos aquilo que dizem estar mal. Ou então têm propostas do tempo de não-sei-quando, quando os horizontes eram outros.

E eu acho que, em altura de algum remanso estival, dedicarem-se um pouco a pensar, coisa ligeira que não canse muito, para depois, a partir de Setembro falarem ou escreverem (diaria ou semanalmente) sobre aquilo em que acreditam serem as soluções e não apenas dizerem mal porque isso é muito popular, ou então mudarem de opinião conforme a amizade pessoal que liga essas pessoas a outras pessoas.

Para que seja possível percebermos que modelos defende quem e não apenas contra o que estão.

Quando será que temos a coragem para assumir a adesão interna, quantas vezes entusiasmada, de muita gente, durante os anos 90, a diversas teorias que agora muitos dos mesmos consideram nefastas por terem agravado a erosão da qualidade do nosso ensino e da própria imagem dos professores? Quando será que admitimos que certos modismos pedagógicos, que parece ser quase consensual terem sido nefastos para a própria performance de professores e alunos, por privilegiarem uma enorme relativização do rigor e uma desresponsabilização pelo desempenho, foram adoptados e promovidos por organizações de docentes (sindicais e profissionais), que beneficiaram de todos os Prodeps possíveis e imaginários para alimentarem uma rede de formadores e acções de formação fofinhas que nos conduziram em grande parte ao ponto em que estamos.

Há que ser sincero e afirmar: fomos nós, ou pelo menos um grande número de nós, que se deixou enredar, quais moscas por vezes deslumbradas, outras vezes por ingenuidade, numa teia que alimentou muitas aranhas que por aí agora andam a assobiar para o lado, como se o problema fosse só do ME e dos outros?

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