Poesia


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

[Alexandre O'Neill ], Poema pouco original do medo

Hoje é dia de ser bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,

de falar e de ouvir com mavioso tom,

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

 

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,

de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

 

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,

como se de anjos fosse,

numa toada doce,

de violas e banjos,

Entoa gravemente um hino ao Criador.

E mal se extinguem os clamores plangentes,

a voz do locutor

anuncia o melhor dos detergentes.

 

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu

e as vozes crescem num fervor patético.

(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?

Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

 

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.

Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas

e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

 

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,

cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,

as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

 

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,

ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.

É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,

como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

 

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.

Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.

E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento

e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar.

 

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.

Naquela véspera santa

a sua comoção é tanta, tanta, tanta,

que nem dorme serena.

 

Cada menino

abre um olhinho

na noite incerta

para ver se a aurora

já está desperta.

De manhãzinha,

salta da cama,

corre à cozinha

mesmo em pijama.

 

Ah!!!!!!!!!!

 

Na branda macieza

da matutina luz

aguarda-o a surpresa

do Menino Jesus.

 

Jesus

o doce Jesus,

o mesmo que nasceu na manjedoura,

veio pôr no sapatinho

do Pedrinho

uma metralhadora.

 

Que alegria

reinou naquela casa em todo o santo dia!

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,

fuzilava tudo com devastadoras rajadas

e obrigava as criadas

a caírem no chão como se fossem mortas:

Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

 

Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.

E até mesmo a mamã e o sisudo papá

fingiam

que caíam

crivados de balas.

 

Dia de Confraternização Universal,

Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,

de Sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.

Glória a Deus nas Alturas.

 

[António Gedeão] Natal

para ser reconhecido cá dentro.

A minha mãe fará anos hoje, nasceu em 1937; a insónia é tramada, eu que durmo sempre justo!

 

 

Depois dos pré-avisos, que é aquela figura que avisa que vai avisar, inventaram-se agora os cautelares.

Du caraces, bleri fulo, sacraste, caldo de galinha com caldo de pizza!

 

 

[ aqui ]

 

 

De sob o cômoro quadrangular
Da terra fresca que me há-de inumar,

E depois de já muito ter chovido,
Quando a erva alastrar com o olvido,

Ainda, amigo, o mesmo meu olhar
Há-de ir humilde, atravessando o mar,

Envolver-te de preito enternecido,
Como o de um pobre cão agradecido.

[Camilo Pessanha] Em um retrato

Puf

Puf puf

Puf puf puf

Plec puf – plec puf – plec pif pif

Fium fiu, – fiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

Traque

[Fafe] Esgotos de Paris

Nas montanhas onde moram as estrelas

bosques que existem há mil anos

de cabelos negros como o luar e a brisa da tarde

quando entra branda entre as pétalas das flores

que se inclinam sobre o morto que dorme

e misteriosamente repete:

 

«Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles

Un chant mystérieux tombe des astres d’or»

semi-saído da terra com um olho infinito aberto

morto há um ano ao nascer da lua

morto há um dia ao nascer da rosa

morto há um sonho, morto há um gesto

frente ao sopro das árvores da noite

tocou o seio infante numa primavera

e misteriosamente repete:

 

«Ô pâle Ophélia! belle como la neige!

Ciel! Amour! Liberté! Quel rêve, ô pauvre Folle!»

transparente sobre a terra mole de lava de estrela

sobre cabelos idênticos aos dos mortos desolados

morto há mil anos repete:

 

«La blanche Ophélia flotte comme un grand lys»

 

o morto misteriosamente diz:

 

«Il y a une horloge qui ne sonne pas»

 

[Anónio Maria Lisboa] O amor de Arthur Rimbaud o mestre do silêncio

Não posso já com ervas nem com árvores;

Prefiro os lisos, frios mármores

     Onde nada está escrito.

 

Meu gosto da paisagem fez-se escuro;

Nenhures é o lugar que mais procuro

     Como homem proscrito.

 

Eu bem sei: A verdura! A flor! Os frutos!

Mas não posso passar de olhos enxutos,

     Meu campo verde aflito.

 

Porventura cegaram os meus olhos

Porque há nos silveirais flores aos molhos

     – Tanta flor me tem dito.

 

Mas eu bem sei que movediços lodos

Que são o chão, as lágrimas de todos,

     Meu coração contrito.

 

Eu não sei se amanhã será meu dia;

Recolho-me furtivo na poesia,

     Incerto o chão que habito.

 

Ai de mim! Ai de mim, nuvem medonha!

Os homens conheci, bebi peçonha,

     E é por isso que grito.

[Afonso Duarte]  Grito

Como o rio, ou como o vento,

vão passando os dias.

Há dois dias que me são indiferentes:

O que foi ontem, o que virá amanhã.

[Omar Khayyam]

A vanguarda dos varredores de ruas
chega após o despontar do sol:
um bando ligeiro de criminosos
– com um passado negro de asfalto
e a aurora de papel diante da vassoura.

Um amante da ordem, coxeando,
dirige a lucrativa acção:
um monte de lixo, pensativo e rebelde,
segue atrás
e conversa com o cavalo sobre cultura.

[Ragnar Thoursie]

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, – meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, – tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
– Da minha vinha o vinho acidulado e fresco…

Ó minha pobre mãe!… Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova…
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe… Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

[Camilo Pessanha]

Começa?

Está bem, acordem-me às nove, nove e meia, dez. Sem alardes, doucement. Se não o fizerem – ainda fico mais agradecido.

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