PISA 2006


… fica aqui em imagem.

PG Pub28Dez14

Público, 28 de Dezembro de 2014

Muitos e bons materiais. tenho pena de não ter assistido à apresentação no CNE, até porque sabia de alguns resultados preliminares de estudos muito, muito interessantes.

Vou agora colocar os quadros correspondentes para a amostra de 2006 e analisar, de modo muito simples, os diferenciais que se encontram.

Resumindo: tivemos um grande choque tecnológico, mas não só.

  • Em matéria de computadores em casa passámos de 30,9% com dois ou mais para 72,9%, enquanto na OCDE a média cresceu apenas de 53,6% para 59,7%. Sendo alunos com 15 anos, será que todos tiveram irmãos com Magalhães?
  • Quanto a telemóveis – a nossa especialidade – subimos de 84,1% com três ou mais no agregado para 91,8%, enquanto a a OCDE cresceu em média de 81,5% para 87,4%. Tínhamos já 2,7 pontos de avanço, passámos para 4,4.
  • Em relação aos carros, as famílias com dois ou mais cresceram de 54,2% para 58,7% em Portugal, enquanto na OCDE passaram de 52,8% para 53,8%.

Ou seja, parece que enriquecemos mais do que a OCDE nestes anos de teórica crise. Passámos a ser hiper-tecnológicos, babamo-nos por telemóveis e adoramos carros.

Já que apresento pistas que acho interessantes seguir, também apresento as que não dão em nada de relevante. O aumento de escolas privadas na amostra não produziu uma assimetria significativa nos resultados. A progressão verificada, com as escolas privadas com melhor desempenho, é uniforme.

Vídeo do Wall Street Journal que pretende explicar o sucesso dos alunos finlandeses nos testes PISA por comparação com os americanos. Ligação aqui, porque é um formato que o WordPress não permite facilmente incluir como os do Youtube.

A “carta ao director” da colega Idalina Jorge, hoje no Público, em reacção às declarações infelizes e despropositadas do secretário de Estado Jorge Pedreira sobre os resultados portugueses no PISA 2006. O texto completo está aqui

Em todo o processo kafkiano que caracteriza a evolução das nossas políticas educativas e da respectiva retórica parece estar ausente qualquer noção de coerência ou de análise minimamente séria dos fenómenos educacionais.

Os resultados nos testes do PISA são fracos. Pois são.

Mas essa é uma consequência directa das directrizes emanadas da legislação criada no início dos anos 90 – e muito sublinhadas durante o guterrismo-benaventismo – que mandava os professores avaliarem o processo e não necessariamente o produto do trabalho dos alunos.

Em muitos casos parecia considerar-se que o domínio da competência não incluía a fase correspondente a alcançar o objectivo.

Isso para mim sempre me fez alguma confusão, conservador, atávico e disfuncional que sou. Nunca percebi bem aquela do carpinteiro que sabe o como fazer a cadeira, mas depois não faz a cadeira ou a faz mal.

Assim como acho pouco útil o engenheiro que sabe como fazer uma ponte, mas a faz toda tortinha, coitadinha, acabando rapidamente por precisar de obras. A este propósito partilho um bocado o mau feitio do saudoso engenheiro Edgar Cardoso: as coisas ou sabem fazer-se, ou não se sabem.

Ora nós levámos mais de uma década preocupados em observar atentamente e avaliar o processo, tendo sido desincentivada de forma activa uma avaliação muito rigorosaa dos produtos. Posso alinhavar aqui a propósito umas belas citações do actual secretário de Estado Valter Lemos quando colaborava com o ME nos tempos cavaquistas ou de vários especialistas e responsáveis governativos da área socialista que vieram a seguir.

Agora estamos admirados porque os alunos criados nesse casulo de irresponsabilidade efectivamente se ficaram pelo processo e falham muitas vezes na qualidade dos produtos, vulgo, resultados?

E a culpa ainda é dos professores que criaram uma «sistema disfuncional» porque não perceberam a «mensagem» de não reter os alunos quando as aprendizagens se revelavam insuficientes?

A sério?

É isso mesmo que Jorge Pedreira quer dizer quando diz o que diz?

Para o governante, os resultados devem-se em larga medida às elevadas taxas de retenção de alunos. Até porque os jovens portugueses que conseguem ter “um percurso escolar normal” apresentam resultados “acima da média”.

Portanto: os alunos que passaram de ano sempre apresentam bons resultados. Os que foram sendo sujeitos a retenção apresentam maus resultados. Pois. Eu diria que isso é a definição de normalidade e lógica. Para Jorge Pedreira é uma questão de «ferramentas» e «utilidades». Deve ser uma perspectiva sociológica particularmente inovadora sobre o fenómeno educativo.

Mas, para além do paradoxo óbvio e do enxerto lógico, será que ele desconhece a acção dos seus predecessores? Desconhecerá ele que as «disfuncionalidades» não foram criadas pelos docentes que, em muitos casos, fizeram os possíveis e impossíveis por manter um mínimo de funcionalidade no dito sistema?

Não haverá memória pelos lados da 5 de Outubro?

Ou as consequências da herança são renegadas mesmo em vida por aqueles que a mandaram lavrar, acusando o notário das desavenças familiares?

A má nota de Portugal no relatório do Programme for International Student Assessment (PISA) 2006 – com um 37.º lugar entre 57 países e um desempenho abaixo da média nas ciências, conhecimento da língua e matemática-, é justificada pelo Ministério da Educação com uma “disfunção” do sistema educativo nacional, que leva as escolas a reterem muitos alunos, quando esta deveria ser uma solução de “último recurso”.

Já se esperava. A culpa é do “sistema” e, por inerência dos professores. Os alunos têm maus resultados no PISA porque chumbam demasiado. Tudo isto parece ser disfuncional.

Obviamente que se passassem, mesmo sabendo o que sabem, teriam melhores resultados. Parece ser essa a mensagem.

Claro que um aluno com 15 anos com o 9º ano concluído saberá menos do que um aluno ainda no 7º. Pelo menos o senso comum sugere-nos isso.

Mas o senso comum também nos ensina que um aluno que transita sem as aprendizagens realizadas, em especial em matérias onde elas encaixam entre si e são sequenciais, dificilmente perceberá novos conteúdos sem os necessários pré-requisitos (lá vai um palavrão eduquês agora em desuso por razões instrumentais).

Mas tudo bem, já percebemos, a ideia é afirmar que o insucesso se deve à falta de sucesso por causa do insucesso. A lógica é mais ou menos esta.

Claro que no meio disto tudo exigir efectivamente maior rigor em todo o processo de aprendizagem, responsabilizando mais os alunos e as famílias pelo desempenho escolar, criando uma imagem de rigor que a maioria dos discentes leve a sério é coisa que não passa pela cabeça dos responsáveis do ME.

Para o secretário de Estado adjunto da Educação, Jorge Pedreira, os dados “desfazem a ideia de que o sistema educativo português é facilitista: “Pelo contrário, é selectivo. Há muitos países onde não há retenção ou esta só existe em final de ciclo”, argumentou, considerando ter ficado provado que o chumbo “não funciona como mecanismo de recuperação” dos alunos. “Apesar das orientações, como os planos de recuperação [do básico], não foi possível passar a mensagem de que a retenção é uma solução extrema e de último recurso”, lamentou.”É preciso que as escolas assimilem a ideia de que a retenção não é normal”. (Diário de Notícias)

Pois, o problema é que a mensagem “não passou”. Ainda há uns posts atrás a Lalage se insurgia quanto a alunos passados sem condições mínimas, por Conselhos de Turma demasiado suaves, dizendo que não é o ME que os obriga a isso. Não? E que tal estas declarações como demonstração que se não obriga é mesmo porque não pode colocar um comissário/inspector em cada CT?

Portanto, cambada, vamos a passar o pessoal porque no próximo mandato, se estes senhores voltarem, a retenção mais do que algo “disfuncional” ou “anormal” será pecado com penitência grave, não para o aluno, mas para o professor.

E o plano de criar um primeiro ciclo de escolaridade de seis anos com um professor generalista mais facilmente responsabilizável e pressionável quanto aos resultados dos alunos, é apenas o passo final para a erradicação das repetências até aos 12 anos. Porque só no fim do ciclo será possível saber se…

Como já disse e escrevi: no PISA 2018 constataremos o erro. Mas será tarde e os culpados do costume estarão longe, com reformas douradas. E nós é que voltaremos a ser os culpados das disfuncionalidades anormais.

Disponível no site do GAVE, com alguma sofisticação no tratamento e apresentação, mas com uma conclusão simples: efectivamente entre 2000 e 2006 os resultados pouco variaram, o que parece traduzir a estabilidade das variáveis em presença e o aparente efeito nulo das alterações introduzidas pelo ME desde 2005. Mas já sei, é cedo…