Obediências


Acontece em muitas casas de família. É um problema nacional. Dificuldade na compreensão de textos escritos, em particular aqueles que estão em idiomas da estranja, mesmo que seja em inglês, a língua que o nosso primeiro decretou universal desde a mais tenra idade.

Só que as gerações mais antigas não beneficiaram de tal medida e depois é o que se vê. Frequentaram cursos acelerados de Inglês Técnico e a coisa fica difícil.

Vejamos o caso do editorialista de hoje do Diário de Notícias, ao tentar analisar as conclusões do relatório da OCDE. Quanto às opiniões dele(a) nem vale pena falar muito. Concentremo-nos na parte factual:

Em suma, a OCDE concorda com uma estratégia incremental de maior exigência e complexidade do modelo em vigor, passo a passo, à medida que se criarem as condições técnicas e a qualificação humana para o fazer.

Para já gosto do incremental, que é uma palavra gira. Mas o que me preocupa mesmo é a parte que avivei para maior destaque.

Vejamos o que diz efectivamente o relatório da OCDE na  versão original em Inglês, e não na súmula disponibilizada no site do ME, que por qualquer razão não coloca a ligação para o relatório completo.

Comecemos pela página 45:

Lighten the current model for use as predominantly career-progression teacher evaluation, mostly internal to the school but with an external element, based on common national-level criteria across schools, and with consequences for career advancement.

Pronto, pronto, o editorialista do DN não é obrigado a saber o que significa lighten. Pode pensar que é qualquer relacionada com luz e pode ter pensado que o modelo era iluminado. Acontece. O inglês é assim, uma linguagem malandra. Nunca se percebe bem o que estão a dizer, daí as subtilezas do humor britânico. Lighten the current model poderia querer dizer iluminem o actual modelo, na perspectiva de o tornar mais claro, quiçá mais incremental, exigente e complexo.

Mas infelizmente não é porque mais adiante, na página 48, se escreve acerca da aplicação do modelo que a equipa que fez o estudo:

(…) recommends pursuing its implementation with three main adjustments. First, it would seem sensible, given the time needed to develop expertise on teacher evaluation and the current burden placed on school actors, to proceed with some simplifications to the current model. These, in particular, could involve reducing the frequency of career-progression evaluation and simplifying evaluation criteria and instruments.

Aqui é que é o caraças. Então não é que aparece o proceed with some simplifications to the current model e o symplifying evaluation criteria and instruments.

Ó cum camandro, como é que um tipo consegue traduzir simplifications e simplifying por maior complexidade?

Só mesmo com muita falta de atenção ou na base daquela perspectiva pacheco-pereiriana de que os políticos (e por extensão os jornalistas) se expressam tão mal na sua língua materna (?) que aquilo que dizem não é bem o que querem dizer, mas outra coisa conforme as circunstâncias.

Portanto, a modos que é assim: o relatório da OCDE recomenda explicitamente a simplificação do modelo de avaliação e dos seus critérios e instrumentos mas o editorialista diz que recomenda uma maior complexidade.

Alguém mais desconfiado do que eu poderia acusar o escriba de má-fé, distorção objectiva dos factos, de escrever por encomenda ou para satisfazer desígnios mais altos do que os seus.

Eu apenas acho que é alguém que, ao não beneficiar da introdução do inglês desde o primeiro ciclo, ficou marcado para a vida por um défice na compreensão da língua do P. G. Woodehouse, John Cleese, Rowan Atkinson ou mesmo do Benny Hill.

E no fundo, tudo isto é uma enorme comédia. O editorialista de hoje do DN é apenas mais um figurante inocente.

liar

… ou talvez não.

Como é que Comissões Administrativas Provisórias nomeadas pelo ME, que tanto afirma que «a lei é para cumprir», e que vieram substituir órgãos de gestão com essa base teórica, agora aceitam a entrega de OI fora do prazo anteriormente definido a nível de escola/agrupamento?

Ou como é que alguns órgãos de gestão em rota de (re)colagem ao diktat situacionista já aceitam a entrega de OI uns segundos antes da entrega da ficha de auto-avaliação?

Já vale tudo, mesmo tirar olhos?

O homem da Educação Integrada, mas ainda vazia, surgiu em defesa dos 93% do orçamento, desculpem, da sua dama, desculpem, do seu Ministério:

O presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) pediu ontem “bom-senso” aos sindicatos no 2.º período de aulas, que hoje arranca. Mas a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) duvida que a paz regresse às escolas nos próximos três meses e aponta o dedo ao Ministério da Educação, que acusa de “deitar mais achas para a fogueira”, em vez de procurar soluções.

Em declarações ao DN, Albino Almeida disse “não esperar facilidades” nas questões que têm afectado o sector, até “por estarmos num ano com três eleições, em que as lutas políticas dificilmente passarão ao lado das questões da Educação”.

No entanto, defendeu que o Ministério da Educação tem “procurado responder” aos problemas do sector: “O decreto-lei que agora foi promulgado pelo senhor Presidente da República [simplificando a avaliação deste ano] veio responder à generalidade das questões que foram colocadas nas escolas”, considerou, defendendo ainda que a equipa ministerial “mostrou abertura” ao aceitar discutir, em negociações que serão calendarizadas hoje num encontro com a Plataforma Sindical, aspectos como a avaliação futura e a divisão da carreira em categorias.

“No primeiro período, o impacto [do conflito] nas aprendizagens não foi muito significativo, mas se continuarmos a ter greves e protestos, numa fase decisiva, o próprio ano lectivo pode ser afectado”, avisou.

Ainda gostava de saber como é que ele mediu o impacto nas aprendizagens. Deve ter sido com um impactómetro.

Só pode.

Ou isso ou há uma tranche por chegar…

Defino pastar como o resultado de se contratarem pessoas que foram educadas para serem obedientes e de se lhes darem trabalhos idiotas e incutir a dose de medo necessária para as manter na linha.
(…)
Mecanizámos o que podíamos mecanizar. O que sobra é para reduzir o custo do trabalho manual que tem de ser feito por humanos. por isso elaboramos manuais de instruções e vamos até ao fundo em busca da mão-de-obra mais barata possível. E não é de estranhar que quando contratamos mão-de-obra, procuremos pessoas que foram treinadas para não sair do rebanho. (Seth Godin, Tribos, pp. 90-91)

O que tem aborrecido algumas pessoas é que os professores decidiram não pastar como se esperava e optaram por sair do rebanho obediente em que os queriam transformar.

Atendendo a isso, porque nada fica ao acaso, já estão em formação novas fornadas de candidatos a professores que se espera sejam bem mais obedientes e baratos.

Pode ser encontrado aqui, com todas as iniciativas legislativas e demais informações úteis facultadas pelos serviços ministeriais. Se bem percebi, só 2 links não remetem para organismos centrais e regionais do ME ou outros organismos governamentais. Em boa verdade só uma ligação remete para informações próprias do movimento que publica o boletim. E outra é para a OCDE.

Pois…

Lendo apenas o título podemos ser enganados:

Escolas poderão atribuir máximo de 10% de “Excelente” e 25% de “Muito Bom” na avaliação desempenho

O resto é ligeiramente mais complicado. Atenção, em especial, ás partes destacadas:

As escolas vão poder atribuir um máximo de 10 por cento de classifições de “Excelente” e 25 por cento de “Muito Bom” no âmbito da avaliação de desempenho dos professores, mas só se tiverem nota máxima na avaliação externa.

De acordo com uma proposta de despacho conjunto do Ministério das Finanças e da Educação a que a Lusa teve hoje acesso, apenas os agrupamentos de escolas ou escolas não agrupadas que obtiveram “Muito Bom” nos cinco domínios que compõem a avaliação externa poderão atribuir aquelas percentagens.

Com quatro classificações de “Muito Bom” e uma de “Bom” os estabelecimentos de ensino poderão atribuir um máximo de nove por cento de “Excelente” e de 24 por cento de “Muito Bom”. Com três classificações de “Muito Bom” e duas de “Bom” ou quatro de “Muito Bom” e uma de “Suficiente” só poderão dar oito por cento de “Excelente” e 23 por cento de “Muito Bom”.

Na pior das hipóteses, com uma classificação de “Muito Bom” e quatro de “Bom” ou duas classificações de “Muito Bom”, duas de “Bom” e uma de “Suficiente”, as escolas poderão dar seis por cento de “Excelente” e 21 por cento de “Muito Bom” aos docentes avaliados.

Segundo a proposta, a classificação de “suficiente” na avaliação externa nunca se poderá referir aos domínios dos “Resultados” e da “Prestação do serviço educativo”.

As escolas cujos resultados na avaliação externa sejam diferentes dos previstos no despacho, bem como as que não foram objecto de avaliação, poderão aplicar um máximo de 5 por cento de “Excelente” e 20 por cento de “Muito Bom”, as percentagens mais baixas que estão previstas.

Estas percentagens aplicam-se nos establecimentos de ensino cujo relatório final de avaliação externa seja tornado público até à validação das propostas de avaliação de desempenho pela Comissão Coordenadora da Avaliação

As percentagens previstas neste despacho aplicam-se aos professores titulares que exercem funções de avaliação, com excepção dos coordenadores de departamento ou dos coordenadores dos conselhos de docentes, aos restantes professores titulares, aos professores e ao pessoal docente contratado.

Aos coordenadores de departamento curricular ou dos conselhos de docentes poderá ser atribuído um “Excelente” e um “Muito Bom”, se no agrupamento ou escola não agrupada o número de coordenadores for igual a quatro.

Quando este número foi igual a cinco podem ser atribuidos dois “Muito Bom” e um “Excelente”. Se o número de coordenadores for igual ou superior a seis podem ser atribuidas duas classificações de “Excelente” e duas de “Muito Bom”.

Este despacho será negociado ainda esta semana entre o Governo e os sindicatos de professores.

O Estatuto da Carreira já previa que “por despacho conjunto dos membros do Governo responsáveis pelas áreas da educação e da Administração Pública são fixadas as percentagens máximas para a atribuição das classificações de Muito Bom e Excelente, por escola não agrupada ou agrupamento de escolas, as quais terão por referência os resultados obtidos na avaliação externa da escola”.

E um agradecimento especial à Maria Ema pela rapidez no envio da notícia.

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