Números


Morreu um verme!

… eu garanto que eram menos no Palácio Foz e querem mamar muito mais na teta do Estado.

Faz lembrar o estudo tipo do FMI. Usar os dados pela metade, citar sem contexto, enunciar as coisas amputadas.

Ontem, ao fim do dia foram muitos os que citaram o Público e o seu título (disponível na página 7 da edição em papel de hoje):

O Terreiro do Paço, onde não cabem 180 mil pessoas, não chegou a encher

Na edição em papel há um destaque, em letra mais gordinha do que o texto da notícia onde se pode ler:

Por volta das 19h, já depois de cantada a Grândola, havia manifestantes a chegarem, mas outros saíam.

Não querendo entrar em guerras de números, este complemento tem sido desprezado pelos relativizadores da manifestação, parecendo ignorar que muita gente andou em trânsito, não estacionando no Terreiro do Paço à espera de uma contagem de cabeças…

Provavelmente a culpa foi minha e de outros como eu que, estando pela Avenida, optaram não ir até lá abaixo, pois o carro ficara muito acima e o metro estava longe de ser atractivo por aquelas, horas depois do encravanço do início da tarde e a caminho dos esmagamentos do final, pois parece que nem reforçaram as composições.

Sendo eu de volumetria avantajada, só a minha presença teria ocupado o metro quadrado que os olhos de lince dizem ser normalmente passível de albergar três pessoas… e quase por certo teria tapado uma mancha daquelas que os helicópteros captaram para alegria dos spin doctors governamentais que, pura e simplesmente, estão demasiado habituados ás manifestações disciplinadas e em filas ordenadas para contagem instantânea.

Que é tão desonesto dizer que a manifestação teve 50 mil como 500 mil é mais do que certo.

Uns a quererem inchar mais do que incharam (e foi muito), enquanto outros tentam, com excessiva pressa, fingir que o que se passou foi irrelevante.

Que uns se refugiem na desonestidade alheia para serem igualmente desonestos é… desonesto.

Não me parecem o principal. Seja os exageros da organização, seja agora o rigor milimétrico das medições que nunca foram feitas assim. Se esta só teve “x”, afinal quantos terão estado em outras manifs apresentadas como gigantescas? “X-1”?

Isso é perfeitamente lateral para o que mais interessa. Nem sequer as imagens com o Terreiro do Paço preenchido de diversas formas em diferentes momentos da tarde que já por aí circulam. E há quem tenha ido ao desfile e não até ao final do trajecto.

Basta reparar no que se passou no país, para qualquer pessoa (mesmo que apenas equivalente) entender que algo está radicalmente mal entre a governantes e governados.

Mandar opinadores para as televisões relativizar ou fugir à realidade com sorrisos amarelos nos lábios é apenas uma táctica como qualquer outra.

Vale o que vale. Pouco.

O país já quer que estes partam com tanta ou mais força como quiseram que partissem os outros.

Não entender isso, ou agir como se não entendesse, pode ser um erro demasiado caro. Para todos. Incluindo para aqueles que, mesmo esperando ter um refúgio tropical á espera, terão de partir mesmo para bem mais longe do que Paris.

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Acima da Média?

Os números são do Arlindo que me forneceu umas valiosíssimas tabelas em Excel para eu fazer uns cálculos. Que se vão afigurando algo inconclusivos quanto à lógica que presidiu ao estabelecimento das 603 vagas abertas para o concurso de vinculação extraordinária de contratados.

Vejamos… se foi feito um levantamento dos lugares com ocupação permanente ao longo dos anos por professores contratados, seria de esperar alguma relação com os números dos DACL de Agosto de 2012. eu sei que a distribuição geográfica pode baralhar as contas, mas… essa explicação não chega.

Vejamos as tabelas dos DACL originais (mais de 15.000, os que o MEC terá vontade de ver sair por aposentação ou empurrão mais violento), dos de 31 de Agosto e agora dos números da vinculação Extraordinária, por grupos de recrutamento:

Vincula2

Seria de esperar que os grupos com mais DACL fossem os que têm menos lugares para VE mas… essa relação ora acontece, ora não.Vejamos a distribuição, em termos absolutos e relativos, dos DACL e dos lugares para VE. A vermelho os grupos mais atingidos pelos primeiros e a verde os menos. E como alguns se mantiveram numa posição lógica e outros passaram a andar pela tabela de forma pouco lógica.

Vincula3Vincula4

E se formos procurar com base na distribuição geográfica também não, como se nota neste quadro do Arlindo em que se percebe que há umas coisas esquisitas como a abertura de vagas em grupos e zonas com professores com horários-zero:

VinculaEm circunstâncias normais não seria de esperar tantos pontos vermelhos, muito menos a concentração visível em termos geográficos e de grupos de recrutamento.

Explicações?

A análise fica para depois… a 6ª feira é dura.

DACL vs Vinculação Extraordinária

Fico sempre espantado quando observo aqueles quadros sobre os malfadados rácios alunos/professor em Portugal. Mesmo que um tipo tente apurar estatisticamente alguns números, a verdade é que o valor parece sempre demasiado baixo para o que é observável à vista desarmada nas escolas, nas salas de aula.

Simplesmente, é contra-intuitivo insistir-se naqueles rácios de 8 alunos por professor no secundário e 10-12 ou pouco mais no básico.

Alguma explicação é necessária para que aquilo que vemos seja tão diferente da sua representação estatística.

Ora vejamos a medida do desvario aparente: 7,7 alunos por professor no secundário e turmas com uma média de 8,8 alunos? Alguém conhece tal coisa? Mas é o que os números dizem. Estamos abaixo das médias…

OCDE2012aOCDE2012h

Isto continua estranho para quem está nas escolas… Tudo parece distorcido.

Avancemos lá um pouco.Na página 342, escreve-se no relatório:

The ratio of pupils to teaching staff is obtained by dividing the number of full-time equivalent pupils at a given level of education by the number of full-time equivalent teachers at that level and in similar types of institutions. However, this ratio does not take into account instruction time compared to the length of a teacher’s working day, nor how much time teachers spend teaching. Therefore, it cannot be interpreted in terms of class size.

Mas isto não parece chegar para explicar o desfasamento, mesmo se, afinal, no ensino “primário” e “secundário baixo” (2º e 3º ciclo?) a dimensão média das turmas nem sequer é muito diferente da média da OCDE:

OCDE2012d

Mas então o que poderá explicar os rácio tão baixos?

Não é a primeira vez que eu escrevo qual é a solução mais evidente do aparente enigma ou paradoxo. Ora espreitem lá este quadro:

OCDE2012g

Se repararem, Portugal é o país que apresenta o maior número de professores por 1000 estudantes mas… não aparecem mais estatísticas sobre outro pessoal.

Penso não ser muito arrojado dizer que isto se passa não porque tenhamos passado a fazer o trabalho dos auxiliares de acção educativa mas sim porque, tirando isso, nas escolas o teaching staff faz de tudo um pouco para além de leccionar.

Há muitos professores nas escolas porque eles se tornaram multifunções.

Não estou a afirmar se é bom ou mau.

Apenas estou a tentar explicar que o real que vejo precisa ter alguma correspondência, por vaga que seja, com a sua representação numérica. E esta parece-me ser a explicação que consegue fazer tal correspondência. Há efectivamente muitos professores nas escolas, a fazer muitas coisas. Muitas mesmo.

Eu sei que o h5n1 se vai atirar outra vez aos arames, mas… isto é como nos incêndios, quando se deixam pequenos focos a arder e depois as coisas podem correr mal.

Pelo que…

Vejamos o orçamento do MEC para 2012:

Passemos adiante o facto de ter existido uma redução superior a 20% no financiamento das escolas da rede pública e de pouco mais de 8% no das escolas com contrato…

Atentemos nos valores… algo a rondar os 200 milhões de euros…

Ora… o número de turmas apoiadas foi inferior a 2000… em 2011/12 foi de 1915 e este ano é de 1846 pelo que pessoa informada me disse…

A menos que eu seja muito bronco (que o sou, mas não em contas simples de dividir…) isto dá mais de 100.000 euros por turma… sem contar com o facto daquelas alíneas se referirem ao facto de as turmas de Ensino Profissional e CEF irem contempladas na rubrica de Educação e Formação de Jovens e a Acção Social Escolar também estar fora das contas…

Pelo que o tal valor oficial de 85.200 euros é… ficção?

Esta treta de conversa nunca mais acaba? Mas que raio de ano é que usaram para os cálculos? 2009? 2007?

Portugal é o país do Euro em que os custos com professores mais pesam no bolo da despesa com educação

Portugal é o país do euro em que os encargos com professores mais pesam no total de despesa com educação. Ao todo, 80% da despesa total com os ensinos primário, básico e secundário é canalizada para pagar salários do pessoal docente. Os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que a explicação não está nos salários altos, mas antes no número de docentes.
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Caramba, o próprio orçamento do MEC diz outra coisa:

Repito que as opções políticas são legítimas e que, tendo apoio eleitoral e da opinião pública, devem ser desenvolvidas.

Mas com informação clara sobre as consequências. Entre nós, a propaganda em decurso sobre o ensino profissional e/ou vocacional e/ou dual (está tudo muito confuso, pois não se percebe bem como se articulam as coisas… parecendo estarem à espera da chegada de consultores externos) dá a entender que a coisa vai permitir a criação de uma mão-de-obra especializada em profissões de potencial sucesso no futuro.

Pois… quiçá…

Só que os dados mais recentes para a própria Alemanha são ambíguos. Quanto às raparigas, o que impera são vocações terciarizadas, de profissões tradicionalmente mal pagas e precárias,implicando escassa formação especializada. No caso dos rapazes, saltam à vista ocupações ligadas a um tipo de indústria que os nossos governantes foram pacientemente deixando dizimar. Sim… temos a Autoreuropa, mas é só uma.

 

Eu aceito que cada um tenha as suas opções. Apenas acho que devem ser apresentadas de forma clara. Nem interessa se concordo ou discordo. Mas a realidade é que o sistema de ensino alemão, em particular no que ao Ensino Vocacional diz respeito, e mesmo com base em publicações oficiais alemãs, encaminha grande parte dos alunos que o frequentam para um ensino intermédio, com baixas expectativas de chegar à universidade.

Eu percebo que não adianta tirar cursos universitários sem saídas profissionais mas… é bom que se assuma que o modelo que se pretende copiar é o que se destina a encaminhar os jovens portugueses para vias profissionalizantes que, entre nós, têm um mercado de trabalho com oportunidades igualmente baixas.

No primeiro quadro verifica-se que as hipóteses dos jovens portugueses chegarem à Universidade são mais altas do que as dos alemães, embora abaixo da média da OCDE.

Quanto segundo demonstra como também estamos melhor posicionados do que a Alemanha no número de jovens entre os 24 e 29 anos, com Educação de nível pós-secundário, integrados numa profissão, em especial no que se refere às mulheres.

Claro que é legítima esta via de limitação das expectativas académicas dos jovens adultos, mas é bom que isso seja assumido com clareza.

Eu sei que é popular aquela coisa do aprender uma profissão. O problema é que entre nós gostaria de saber que profissões é que estão a dar.

NÚMEROS PERVERSOS

            As escolas e os professores sofrem cada vez mais pressões no sentido de atingirem objetivos e metas. Uma das pressões mais fortes prende-se com a redução das retenções. Ora, ao proceder desse modo por imposição do ministério ou das escolas, está-se a falsear os números, o que todos sabemos.

Devido às pressões, muitas das classificações são logo à partida inflacionadas. Comparam-se percentagens de negativas atribuídas e nenhum professor ou grupo disciplinar quer ser apontado como o mais “castigador” dos alunos. Como se não bastasse as notas saírem já empoladas dos conselhos de turma, a seguir o conselho pedagógico trata ainda de passar mais uns quantos alunos retidos, à partida, em conselho de turma. Os elementos dos conselhos pedagógicos também sentem (talvez eles mais do que ninguém) a tal pressão a ser exercida de vários quadrantes.

Por isso, num ano passa-se tudo e mais alguma coisa, mas no ano seguinte as direções das escolas admiram-se quando os professores propõem tantos alunos para apoio, e em tantas disciplinas.

A isto, além de só por si já ser demasiado perverso, acresce uma outra perversão, de que a maior parte dos professores não se apercebe. É que a redução de retenções, além de servir para fazer estatísticas bonitas, serve essencialmente para pôr professores no desemprego. Sem se aperceberem, ao alinharem com isto, os professores estão a trabalhar arduamente para o desemprego dos seus colegas e, ironia das ironias, de si mesmos em tantos casos.

Pois é, pois é!

António Galrinho

Professor

Nada como uma pequena dose de demagogia matinal feita de números à bruta.

É simples. O meu salário é o que se segue e tenho cerca de 100 alunos em 5 turmas (nada de excitações com a média, pois lecciono duas turmas PCA e uma com alunos NEE).

Isto significa, na aritmética básica de alguns estudos que eu custo nominalmente ao Estado 21,37 euros por aluno, 20, 45 em termos reais e 15 em termos líquidos. Isto em termos mensais.

Há professores nestes Conselhos de Turma com mais alunos do que eu e, em média, percepciono que a maioria tem mesmo mais alunos do que eu. Claro que há professores que estão em outros escalões, acima e abaixo de mim que estou ali no degrau do 5º escalão (índice 235), aquele que foi criado para fazer compasso. Há contratados (índice 126 ou 151) e professores do 9º escalão (índice 340).

Mas vamos acreditar que eu sou um professor médio, mediano, na moda (estatística, claro, que eu não gosto dos padrões desta estação). E que por ano (multiplicar por 12, por favor) eu custo ao Estado cerca de 250 euros (estou a arredondar para cima) em termos nominais ao Estado por aluno e cerca de 180 em termos líquidos.

Isso significa ainda que num Conselho de Turma do 2º ciclo com 8 professores nas mesmas condições, os encargos com pessoal são de 2000 euros nominais, e num do 3º com 10 professores serão de 2500. E, claro, no 1º ciclo, os encargos são bem menores…

Eu sei que as contas não se devem fazer assim. Há muito mais variáveis e subtilezas. Mas gosto de mostrar que, demagogia por demagogia, também a posso fazer com números claros e evidentes.

Mas estou plenamente convicto que andam a fazer pior do que isto, pois andam a somar todos os encargos, a dividi-los pelos alunos e depois aparecerão a dizer que é tudo muito caro e que os professores andam a ganhar muito, não questionando (só a título de exemplo) a EDP e outros encargos fixos. E aparecerão a dizer que é preciso fazerem-se co-pagamentos e tal. Quando já são feitos, pois o ensino obrigatório só é efectivamente gratuito para quem usufrui de ASE, escalão A.

Pensava que o tempo do recurso aos malabarismos estatísticos estava enterrado.

O argumento demográfico foi martelado. Aqui no blogue apareceu-me alguém a ofender e chamar mentiroso apenas porque eu demonstrei que a tese demográfica não podia explicar uma quebra de 14% dos alunos.

Acho que agora fica claro que o MEC recorreu aos alunos das NO para, de forma algo ardilosa, induzir em erro a opinião pública sobre o número de alunos em permanência nas aulas para as quais foi aberto concurso para docentes.

E esqueceu-se de acrescentar que no mesmo período se aposentaram mais de 10% dos professores dos quadros.

Resta saber se Nuno Crato o fez de forma consciente, se achou por bem acreditar nos números que lhe tenham fornecido. Em qualquer cos casos, deveria existir alguma responsabilização…

Redução de alunos à custa de adultos

O ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, reconheceu ontem que contabilizou os adultos das Novas Oportunidades (NO) quando, em entrevista à TVI, falou numa redução de “200 mil alunos nos últimos três anos”, argumento utilizado para justificar a redução de professores contratados em cerca de 5 mil.

“Contámos com os adultos. Houve um ‘boom’ nas NO e em seguida as pessoas terminaram a sua formação e saíram do sistema”, disse o ministro na Assembleia da República, admitindo que a quebra da natalidade “não explica tudo”, sendo porém “o pano de fundo”. A quebra nas NO levou a uma redução total de cerca de 120 mil alunos de 2010/11 para 2011/12, segundo números que a tutela forneceu recentemente ao CM, embora os valores do último ano sejam provisórios.

No Expresso (p. 21, sem link):

O mistério dos 120 mil alunos que desapareceram num ano

O MEC tem cada vez mais dificuldades em manter uma narrativa feita de uma evidente artificialidade estatística.

Nuno Crato decidiu enterrar-se em matéria de rigor ao insistir num argumento com escassa sustentação. è melhor que os ramirinhos lhe façam melhor os trabalhos de casa.

Não tendo havido uma quebra drástica e súbita dos nascimentos – nos anos 90 e princípios do século XXI a taxa de natalidade oscilou entre os 10 e os 11 bebés por mil habitantes – a demografia só poderá explicar em parte esse fenómeno.

De docentes dos quadros aposentados entre 2009 e 2011, a partir dos cálculos do colega Jorge Marques e usando os dados oficiais para os docentes dos quadros em 2008/09 (e note-se que nestes números se encontram todos, em exercício na docência ou em outras funções).

A diminuição relativa nos últimos anos é bem maior do que a de alunos… desde que o MEC não baralhe as contas…

Há quem lhes chame pseudo-alunos para uns efeitos, mas depois já contem quando é para dizer que são necessários menos professores.

Rigores!

Crato utilizou Novas Oportunidades para justificar diminuição de alunos

A notícia do Público já tem link e a leitura  é muito instrutiva. Assim como a teórica admissão de correcção dos equívocos.

… mas acredito que a culpa seja minha, por não ter inside information. Eis o que está disponível na Pordata para os alunos na rede pública (aqui, aqui e aqui). Sei que os dados para o Secundário só estão até 2010, mas não devem ter diminuído com o alargamento da escolaridade obrigatória, certo?


Secundário

Na entrevista que deu ao Sol, o MEC foi questionado e respondeu assim:

O meu primeiro problema com esta declaração é o seu carácter vago. A que “últimos anos” se refere? E refere-se a todos os alunos? Só aos alunos da rede pública? A todos os níveis de escolaridade?

Porque é da necessidade de professores na rede pública que se está a falar.

O valor de c. 200.000 correspondendo a 14% remete-nos para um valor inicial de 1.428.571 alunos ou algo próximo (é só aplicar uma regra de três simples…) mas não sabemos onde ir procurar o início da série…

O que nos complica a vida…

Na Pordata (o recurso agora mais usado em tudo o que mexe…) podemos encontrar números para o Ensino Básico e Secundário (público), em séries longas, assim para a Educação Pré-Escolar a partir de certo ponto.

O que encontramos? Vale a pena notar que o valor total inclui os Ensino Médio e Superior, pelo que é necessário somar as parcelas que nos interessam…

Os valores totais de alunos matriculados na rede pública para 2000, 2005 e 2010 são de 1.588.177, 1.477.233 e 1.581.049, respectivamente… O que significa uma diminuição inferior a 0,5% desde 2000 e mesmo um aumento desde 2005…

Com sinceridade, acredito que seja possível isolar um segmento com uma diminuição de 14% de alunos, mas agora não estou para ir em busca de agulhas…

Já em relação aos professores, com base na publicação Perfil do Docente 2010/11 temos os seguintes números (sendo lamentável que não exista série longa para o vínculo contratual sem ser em gráfico…):

Se fizerem a gentileza de confirmar as minhas contas… para o ensino público, em 200/01 tínhamos 153.836 docentes em exercício, em 2005/06 tínhamos 148.830 e em 2010/11 tínhamos 140.688.

O que significa uma redução de 8,5% em 10 anos, mais acelerada desde meio da década…

Ou seja, temos uma redução efectiva de docentes perante um número relativamente estável de alunos. Isto se consideramos por “últimos anos” a última década com dados consolidados (é o próprio Nuno Crato a, mais adiante na entrevista, confessar faltarem-lhe dados actualizados sobre o número de alunos que terá transitado do privado para o público o último ano).

Não vou dizer que Nuno Crato não tenha usado dados que lhe fundamentassem a afirmação que fez. O problema é que os dados de que eu disponho (e que são recolhidos nas fontes oficiais) não confirmam o que ele afirmou, apenas com base na frase generalista e atirada para a mesa que ele produziu.

Sei que gente mais certificada do que eu também já exibiu quadros e tal sobre isto. Resta saber a ficha técnica… se misturaram coisas que não deveriam, se eliminaram variáveis, se shitaram a coisa, mesmo que não voluntariamente.

Já sei que o argumento demográfico é muito habitual nestas discussões, assim como o lançamento de números tem muito sucesso em entrevistas, quando não se têm as fontes à mão.

No meu caso, que tenho coisa de meia hora para estas pesquisas feitas na primeira pessoa e não por interpostos assessores, limito-me a um esboço de fact-checking. E confesso que o fiz mesmo na meia hora referida, pelo que acredito que me tenha falhado qualquer coisa que ao gabinete do ministro chamou a atenção para a preparação da entrevista.

 Anexo: PORDATA_Pornveldeensino-Pblico-1

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