Motivação


Ou a fase da açorda de alho.

dagula

val

 

Vou caminhar até de manhã.

 

à caravana que passou.

 

 

 

 

 

 

 

Alunos de escolas com contratos de associação com o Estado vão, durante esta semana, boicotar a saída das aulas, dormindo dentro dos estabelecimentos de ensino, numa iniciativa que conta com o apoio do movimento SOS Educação.

Há escolas públicas que vão mais à frente, alguns alunos já lá dormem durante o dia…

Isto é o ranking da média após a noite das eleições. Ao menos não se perde em tudo. Mesmo se ficar atrás do Cocó na Fralda é a modos que coiso. Algo malcheiroso. Mas ganhar às Celebrity Girls e à Mulher feita por Deus é fracturante, pá! Os 31′s, os jugulares e os arrastados nem aparecem no horizonte. Os blasfemos ainda se aguentam.

Se isto é uma massagem ao ego? Dar um nó nos mega-blogues colectivos cheios de super-stars? Talvez… mas com óleo Johnson para bebé, consta que é melhor.

Muito pensei eu no título a dar a este post. Mas desde a manhã que fazê-lo é um imperativo categórico da minha consciência. Porque há sempre horizontes novos que se abrem perante nós ao constatarmos toda a riqueza de conhecimentos que transmitimos e competências que desenvolvemos ao longo de uma aula.

Eu sei que a turma é de PCA, mas o aluno em causa nem está sinalizado com problemas transcendentais. E até é bem comportando e está sozinho numa mesa. Eu sei que é um 5º ano e que só tiveram quatro anos de aulas (salvo uma ou outra repetência) para aprender a copiar coisas de um quadro, sendo essas coisas o sumário e umas linhas de apontamentos sobre a acentuação e a classificação das palavras de acordo com a sílaba tónica.

Como se percebe, coisas paredes-meias com a caça ao gato de Schrödinger em matéria de complexidade conceptual e prática.

E não vale a pena dizer que o profe não deu atenção ao aluno, porque o sacana do profe até andou sempre por ali a cirandar na esperança… E o raisparta do profe até tentou várias estratégias, a começar pela sensibilização para a necessidade do aluno perceber que se começa a escrever pela frente e não pelo (re)verso da folha. Se possível sobre as linhas traçadas no papel. Já agora, seguindo a ordem do que estava no quadro (não-interactivo, deve ter sido por isso!), da esquerda para a direita e de cima para baixo, a menos que invoque genealogia sino-nipónica ou convicção e confissão muçulmana, que eu respeito isso tudo e até muito mais.

Eu garanto que o energúmeno selectivo, conservador e tradicionalista do profe tentou todos os ângulos de abordagem para que este jovem de 10 (ou 11?) anos conseguisse registar qualquer coisa para seu próprio benefício no que deveria ser um caderno, antes de lhe ser distribuída uma ficha de trabalho para exercitar a motricidade fina ao sublinhar as sílabas tónicas de umas quantas palavras e a coordenação óculo-manual ao preencher com as ditas palavras um quadro já repartido em rectângulos para arrumar as agudas, graves e esdrúxulas.

Tudo coisa de exigência ao nível do salto encarpado com dupla pirueta atrás em direcção à pissina.

Mas a verdade, a ridente verdade, é que ao descair da aula para o toque, feita a ronda dos cadernos diários – esse anacronismo da escola dita napoleónica e não lúdica – o balanço era este, não sabendo eu o que destacar com maior fluorescência, se a grafia a lembrar o aramaico transversal, se a estética avant-garde do vazio contestatário em conflito com a disciplina autoritária do magister chato (je, of course!).

Enfim… é a vida, sendo que a vida nos próximos dias vai ser a do exercício da cópia e caligrafia, uma meta de aprendizagem que eu decidi definir para o primeiro período, na falta de conseguir algo mais.

[causas]

Rankings e xanax

Esta semana evite a companhia de professores. Falar com qualquer um deles pode deixá-lo em mau estado. Vivem, nos dias que correm, em depressão colectiva. A sucessão de reformas, contra-reformas e contra-contra-reformas, a destruição do que se foi fazendo de bom – do ensino especial ao ensino artístico -, a incompetência desta equipa ministerial e o linchamento público de uma classe inteira tem os resultados à vista: as aulas recomeçam com professores tão motivados como um vegetariano perante um bife na pedra.
Sabem que os espera apenas uma novidade: a avaliação do seu desempenho. E é, ao que parece, tudo o que interessa a toda a gente: a avaliação dos professores, a avaliação dos alunos, a avaliação das escolas, a avaliação do sistema educativo português.
Tenho uma coisa um pouco fora do comum para dizer sobre o assunto: a escola serve para ensinar e aprender. Se isto falha, os exames, as avaliações e os “rankings” são irrelevantes. Talvez não fosse má ideia, enquanto se avaliam os professores, dar-lhes tempo para eles fazerem aquilo para que lhes pagamos em vez de os soterrar em burocracia. Enquanto se exigem mais e mais exames, garantir que os miúdos aprendem com algum gosto qualquer coisa entre cada um deles.
Enquanto se fazem “rankings”, conseguir que a escola seja um lugar de onde não se quer fugir. E enquanto se culpam os professores pelo atraso cultural do país, perder um segundo a ouvir o que eles têm para dizer. Agora que já os deixámos agarrados ao Xanax, acham que é possível gastar algumas energias a dar-lhes razões para gostarem do que fazem? Se não for por melhor razão, só para desanuviar o ambiente nos edifícios onde os nossos filhos passam uma boa parte do dia.

Já me peguei com ele um par de vezes, mas desta parece que acertou na muge, como dizia o outro.

(Des)motivação do pessoal docente

É com pesar que vou constatando a fuga de bons professores para a reforma, com muito ainda para dar…
Se, no final do ano lectivo anterior, tivesse sido feito um estudo com o objectivo de avaliar o nível de motivação da classe docente, os resultados seriam assustadores. Mesmo sem fazer nenhum estudo, pelo facto de trabalhar em contexto escolar, há já vários anos, tenho a noção clara de que, do lado da desmotivação, se encontraria a maior parte dos professores. O mais preocupante é que entre os desmotivados, não se encontram apenas os que menos têm dado à escola, mas também e sobretudo excelentes profissionais, que sempre procuraram desempenhar com brio a sua actividade profissional. É com pesar que vou constatando a fuga de bons professores para a reforma, com muito ainda para dar. Os bons profissionais com quem trabalho, que felizmente são muitos, queixam-se essencialmente da burocratização do ensino, que lhe retira tempo para estar com os alunos, do sistema de avaliação que está a ser implementado, da falta de valorização e apoio ao seu trabalho e do excesso de tarefas a desempenhar.

Sendo a motivação o motor principal da evolução das organizações, confesso que há motivos sérios para todos nós nos preocuparmos, uma vez que sem motivação é difícil obter bons resultados, seja em que actividade for. Professores desmotivados terão mais dificuldade em oferecer estímulos e incentivos apropriados para tornar a aprendizagem mais eficaz.

Tenho de admitir que a escola precisava de um abanão e que havia injustiças que era necessário resolver urgentemente, uma delas, à vista de todos, era o facto de todos os docentes receberem “na mesma moeda”, independentemente do seu desempenho profissional. A diferenciação é importante e indispensável para a melhoria do desempenho. O grande problema é que o modelo de avaliação actualmente desenhado deixa muito a desejar e a margem para a injustiça é grande…

Admito ainda que grandes mudanças geram sempre grandes controvérsias, independentemente do alvo de mudança. A mudança e a crise andam sempre associadas, mas confesso que em todo este processo parecem faltar peças que ajudem os visados a reorganizarem-se. Anda tudo atarantado à espera de mais e mais medidas, que todos antecipam como penalizadoras… Não é possível que, vivendo os professores nesta ansiedade, os alunos não sejam atingidos, por muito bons profissionais que os primeiros sejam.

Confesso que ainda não tinha abordado este tema porque gostaria de trazer algo de novo para a discussão. No entanto, à falta de novidades, e porque um novo ano vai começar, pareceu-me importante sublinhar que HÁ EXCELENTES PROFISSIONAIS NAS ESCOLAS, cujo desempenho é indispensável valorizar. Mais ainda, é fundamental os responsáveis pela Educação estudarem a fundo os factores que influenciam a motivação, de forma a ficarem na posse da chave que poderá abrir, sem falsos resultados, o caminho para o sucesso da organização escolar.

Mais de 230 mil alunos efectuam amanhã e terça-feira exames de aferição

Fazem parte de uma turma de PCA de 6º ano e calcular o seu desempenho na prova de Língua Portuguesa não é o mesmo que jogar a sorte na roleta russa, mas quase.

O ano passado consegui prever praticamente ao pormenor o desempenho de cada um dos meus alunos de então, apenas sendo surpreendido e pela positiva num par de casos. Parte deles já eram alunos de PCA mas, para alguma surpresa, bateram a média nacional em termos de sucesso/insucesso.

Este ano a situação é bem diferente e quase me faz lembrar o meu Sporting naquela semana em que deu 5-3 ao Benfica em 20 minutos e depois levou 4-1 do pobre Leiria.

Já lá vão mais de 110 aulas e consigo imaginar um intervalo razoável para o desempenho da rapaziada, mas não sei se vou sair de lá com um par de D’s (um dos quais importado à última da hora, a quem mal dei aulas, mas que me vai aparecer na lista da turma) e um par de B’s, se me vão sair umas quatro negativas e nenhuma bondade para me alegrar.

E esta variação não tem origem propriamente na (in)capacidade dos alunos, mas sim na sua eventual (des)motivação.

Não é por causa da minha avaliação que estou vagamente preocupado. É apenas porque quando se passam mais de 200 horas com um grupo de alunos (são duas disciplinas a quatro tempos semanais), é difícil não querermos – por muitas dificuldades que tenham demonstrado no seu trajecto escolar até agora – que eles façam boa figura e possam sentir orgulho no seu trabalho.

Nestas alturas – já assim foi o ano passado – confesso que o meu trabalho deixa de ser especialmente relevante do ponto de vista técnico-pedagógico para ser mais de tipo motivacional e de preparação psicológica. Ontem dei-lhes a última aula antes da prova, após três semanas de realização e correcção de provas de aferição de anos anteriores. Já conhecem o modelo da prova, pois a maioria é repetente, pelo que resta explicar-lhes uns pequenos truques para lidar com a situação, chamar-lhes a atenção para a gramática que quase certamente sairá, pedir encarecidamente que não se baldem para a composição, já que vão ser obrigados a estar cinquenta minutos na sala.

Um dos alunos em causa já foi meu o ano passado e, apesar de ter levado um ano inteiro ali na linha de água, mas sempre numa de imersão, chegou à prova de aferição e safou-se com o C/Satisfaz (cumpri a minha palavra e teve classificação positiva no final do ano). Este ano pedi-lhe um B/Bom nem que seja para provar que a retenção dele não tinha sido em vão. Pedir um Bom a um aluno de PCA numa prova nacional não é temerário quando se sabe que o insucesso anterior foi mais ditado por falta de vontade do que por falta de capacidade.

A outros apenas pedi que fizessem os possíveis por não encolherem os ombros e acharem que aquilo não serve para nada.

Daqui por um mês logo ficaremos a saber do que fomos todos capazes, mas em especial se eles sentiram necessidade de ter orgulho em demonstrar o seu trabalho, se preferiram a solução mais fácil e tentadora.

Mas eu sinceramente acredito que vão escolher a opção certa.

Alguns leitores, de forma directa ou mais subtil, anotam o facto, que admito, do Umbigo ter vindo a endurecer o tom e de eu estar a radicalizar progressivamente o meu discurso.

Sou obrigado a admitir que sim e que, de início, a inflexão tenha sido quase imperceptível para mim.

Sendo este um exercício quotidiano, é natural que isso tenha acontecido do mesmo modo que ocorre com o o crescimento ou envelhecimento de alguém que vemos todos os dias. De um dia para o outro, mesmo de uma semana para a outra, nem sempre percebemos que o nosso filho está mais crescido. Mas se tentarmos focar a análise em pontos mais afastados no tempo percebe-se que, afinal, ele (ou ela) já consegue chegar onde antes não chegava e que é preciso mudar toda a colecção de BD antiga para a prateleira de cima para que não aconteçam os mesmos acidentes que ocorreram com as antigas revistas maternas, que agora até teria interesse não estarem destruídas.

É verdade que eu estou mais irritado, menos macio, eventualmente mais cáustico ou corrosivo (adjectivos com os quais já me habituei a conviver).

Só que essa é a evolução natural de quem, também quotidianamente, se sente massacrado por uma enxurrada quase ininterrupta de novos encargos, sem qualquer compensação material ou simbólica. De quem vê serem tomadas, com o maior desplante, sucessivas medidas perfeitamente ao arrepio de qualquer lógica ou de qualquer fundamentação empírica. De quem vê detentores de cargos públicos defenderem o desrespeito pelo sistema judicial. De quem vê o mais absoluto despudor nas declarações da tutela sobre o desempenho dos docentes, a organização das escolas e a qualidade do trabalho realizado, argumentando sistematicamente com distorções dos factos e falsidades.

De quem vê pessoas amigas irem desanimando cada vez mais, submersas num labirinto kafkiano do qual se sentem incapazes de se libertar.

Não me digam que a Educação e as Escolas estão melhores com as decisões desta equipa ministerial. Estão pior, em termos de ambiente e mesmo de capacidade de trabalho consequente em prol dos alunos.

Só os muito distraídos não percebem o que tudo isto pretende alcançar: quebrar o ânimo dos docentes, desrepeitando-os a todo o momento, e levá-los a aderir a um sistema laxista, academocamente facilitista e burocraticamente pesadão e desencorajador de qualquer rigor efectivo.

Tudo está construído para que as pessoas optem por trabalhar para o Sucesso Estatístico, para não terem problemas na sua vida profissional.

A primeira grande investida neste sentido ocorreu no segundo mandato maioritário de Cavaco Silva, quando a passagem de Couto dos Santos, Diamantino Durão, etc, pelo ME deixou um rasto de »Direito ao Sucesso», envolto em imensa papelada para quem discordasse. Só que éramos mais novos, até tinham sido melhoradas há pouco tempo as condições materiais do exercício da docência e houve uma capacidade surda de reacção. A segunda investida aconteceu, meia dúzia de anos depois, no período passional pela Educação do guterrismo-benaventismo, em que o Eduquês se tornou o idioma oficial do ME. Custou um pouco a aguentar, mas como tudo aquilo era conversa fiada sem qualquer base concreta, lá se resistiu com um pouco mais de custo.

Agora é a terceira investida, mais brutal, servida com rolo compressor, com uma completa ausência de respeito por quem tenta resguardar um resto de dignidade profissional e é vilipendiado por aqueles que nada têm para apresnetar, em termos de percurso pessoal , profissional ou político, como exemplo para a larguíssima maioria dos docentes.

Desculpem-me as almas mais pacientes e cordatas, mais conciliadoras, mas já começa a chatear mesmo a sério.

E um tipo radicaliza-se, claro que se radicaliza…

Chegaram por mail, via Francisco Trindade. Não os posso usar todos porque não lecciono Matemática. Bolas…

«—– De acordo com ponto 2 do Artigo 9.º do Decreto Regulamentar n.º 2/2008, (itens de referência para os objectivos individuais), passo a apresentar os meus objectivos e respectivas estratégias.

a) A melhoria dos resultados escolares dos alunos; Pretendo baixar o insucesso dos meus alunos, a matemática, de 25% para 20% . No ano anterior a turma tinha 20 alunos dos quais 5 tiveram insucesso (25 %); como este ano a turma aumentou para 25 alunos, se os mesmos 5 não obtiverem sucesso terei uma percentagem de insucesso de 20%. Estou de parabéns. (P.S: Não esquecer de pedir para voltarem a aumentar a turma para o próximo ano).
Estratégia II: não me aumentando a turma, e como o Ministério diz que não precisam de ter aproveitamento a matemática (podem transitar com nível 2 a duas ou três disciplinas), vou oferecer 2€ sempre que um aluno tenha
positiva num teste. (P.S: se 2 € não resultar terei de pensar em 5€ e já não vou de férias para a praia ).

b) A redução do abandono escolar;
Pretendo obter 4% de abandono escolar, que corresponde a 1 aluno cuja família é constituída por pais toxicodependentes;
Se durante o ano lectivo a avó materna que cuida de um dos alunos, por este ter sido abandonado pelos pais, vier a falecer (já tem 80 anos) ou ficar incapacitada de cuidar dele, comprometo-me a adoptá-lo para cumprir os
objectivos da minha avaliação;
Quanto aos que mudarem de residência sem efectuarem transferência, encarregar-me-ei de descobrir a nova morada e contactá-los pessoalmente para que assinem os papéis da transferência (P.S: espero que nenhum dos
ucranianos regressem ao seu país pois a 5€ por positiva, não vou poder ir à terra deles tratar dos papéis);

c) A prestação de apoio à aprendizagem dos alunos incluindo aqueles com dificuldades de aprendizagem;
Comprometo-me a prestar apoio a todos explicando individualmente a matéria que tinham que estudar e resolvendo os exercícios que tinham para TPC, mas que não fizeram pois como me disseram “tenho mais que fazer que ir para casa fazer TPC’s”; (P.S: 90 min de aula a dividir por 25 alunos dá 3,6 min a cada um; será que aquela programação de matemática que previa 8 aulas para uma unidade contou com este tempo?);

d) A participação nas estruturas de orientação educativa e dos órgãos de gestão do agrupamento ou escola não agrupada;
Como não sou titular só poderei ser director de turma, o que farei se me atribuírem o cargo (que remédio); (P.S: se não me derem o cargo de DT será que ficarei em falta? Se calhar é melhor pedir para, por favor!, por favor!,
me darem o cargo);

e) A relação com a comunidade
Proponho-me a estabelecer boas relações com a comunidade, não reagindo se for insultado ou agredido por alunos ou EE.
Não sei se é com a escolar se é com a local por isso pelo sim pelo não estou a pensar organizar uma recepção, com buffet claro, a todos os alunos e EE e convidar também os elementos da Junta de Freguesia (P.S.: se não me deixarem fazer a recepção na escola tenho de alugar um espaço;

NOTA: se alugar o espaço à Junta até estou a contribuir para as boas relações, pois uma rendazita é sempre bem vinda para a autarquia).

Agora não posso pensar em mais itens; a minha mulher está-me a chamar para atender um aluno que tem os pais desempregados e veio cá a casa buscar umas merceariazitas, enquanto não chega o subsídio de desemprego. É que a mãe já me disse que na situação em que se encontram, não tem dinheiro para mandar o miúdo à escola, mas eu não posso aumentar a taxa de abandono…

Na zona Centro parece estar em desenvolvimento outro movimento de professores visando discutir, de forma independente, as questões relativas à Educação, à Escola Pública e à Carreira Docente, do qual também parece que irá sair um documento para divulgação. Logo que seja útil, o documento será também aqui divulgado.

Ao contrário dos que acham que só existe um caminho para canalizar a acção dos professores, eu acredito que a refundação de um espírito/identidade profissional docente terá necessariamente de partir das bases, de forma positiva, contra ninguém, mas também sabendo os velhos caminhos que não se querem trilhar. E isso só se consegue reunindo as pessoas, congregando-as e abrindo canais de comunicação sem bloqueios ou estrangulamentos.

A petição que foi colocada online ontem a partir daqui, já anda perto das 300 assinaturas o que, atendendo à forma perfeitamente espontânea como surgiu e está ser dinamizada é algo para mim surpreendente (não estou nada habituado a estas coisas).

Pode valer pouco, a alguns pode parecer nada, uma simples gota a querer furar a barragem, mas eu acho que pode começar por aqui uma bela amizade (eu estou mais a reencontrar algumas na lista de assinaturas) e o reavivar do orgulho em ser professor, apesar das adversidades.

Quanto aos previsíveis anti-corpos e ao fogo de barragem, pode estar por aí quase a aparecer de vários lados (já apareceram uns borrifos desde o final da semana passada), mas são ossos do ofício.

Adenda: Por qualquer razão de calendário do site que aloja a petição, as datas das assinaturas estão adiantadas um dia. Vou ver se detecto a origem do erro ou se é porque o serviço tem um (muito) diferente fuso horário.

Já agora e para que não digam que os professore são atávicos, que não querem a mudança, que estão agarrados a fórmulas do passado e que não querem perder privilégios, nada como recorrer a bibliografia da área da gestão das organizações, nomeadamente a que se debruça sobre as metodologias da mudança nas organizações.

Existem muitas obras, nem todas concordantes em termos de estratégia, mas parece-me que serão minoritárias as obras que postulem a mudança de forma abrupta, sem uma comunicação eficaz com os visados pela mudança e simultanemente seus agentes, ou mesmo que defendem uma mudança contra parte desses agente.

Escolhi esta, de Timothy Galpin, porque o autor não é novato nisto e apresenta de forma clara e gráfica o modelo desejável de mudança no modelo de gestão das organizações. Destaque para a forma sequencial das diferentes fases do processo e o tempo exigido para que a mudança possa apresentar sucesso na sua implementação.

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 Claro que se este esquema é válido para uma organização empresarial de média ou grande dimensão, o que dizer de todo um sistema educativo?

Cada um que tire as suas conclusões acerca de um processo que é apresentado sem qualquer discussão prévia, com um mês para debate público e vamos embora que se faz tarde.

Como exemplo de gestão de um processo de mudança organizacional fica a deve muito exactamente ao conhecimento dos fundamentos teóricos da teoria das organizações. Falha logo no primeiro ponto.

As leis dão aos eleitos e às autoridades escolares o direito de aprovar uma reforma do sistema educativo, até mesmo contra a opinião contrária da maioria dos alunos, dos pais e dos docentes. O problema está em saber se a autoridade tem interesse em se escudar atrás o direito formal, desprezando as relações de força e a opinião dos actores a ela directamente ligados.
Para um poder que quer verdadeiramente a mudança, esta atitude, juridicamente fundada, não é sociologicamente suicidária? Nenhuma mudança importante será realizável apenas com a modificação das normas, por exemplo, das que definem os programas e as estruturas. A história recente da escola está marcada por reformas prometedoras no papel, que deram resultados decepcionantes por falta de adesão dos actores.
A falta de adesão explica-se por vezes pela falta de informação e de explicação, por uma formação tardia e insuficiente
, por meios que não acompanham as ambições. A raiz do problema encontra-se, no entanto, mais a montante: os actores de quem depende a reforma no terreno não se reconhecem nas decisões e sentem-se no direito de “pegar ou largar”, de aderir frouxamente, de resistir passivamente e, por vezes, de reprovar publicamente. (Philippe Perrenoud, Aprender a negociar a mudança em educação. Porto: Edições Asa, 2004, pp. 145-146)

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Eu tenho reprovado publicamente. Quanto ao resto só falo na presença do meu advogado.

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