Mediocridade


0439a(c) Antero Valério. E tem lá umas coisas giras sobre a Fafe-Connection.

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Alguns comentadores (Trabalhador da Silva, Maria Campos) têm repetido, com mais ou menos cordialidade e punhos de renda, até à exaustão o argumento estafado de os professores terem de se sacrificar porque os tempos são de crise, que os professores são uma malandragem que quer é ganhar 2000 euros no final da carreira sem mérito nenhum pelo caminho e que é melhor ter um empregozinho mal pago do que não ter nenhum e que se estão mal que mudem de vida.

É uma espécie de culto da mediocridade como regra que me aflige um pouco, pois não percebo bem qual é o modelo de desenvolvimento social e económico que defendem para o país. Se é o do abaixamento generalizado das condições de trabalho e de vida para a maioria, é algo que tenho dificuldade em aceitar perante o que vejo passar-se em outros sectores de actividade, quantos deles dependentes mais ou menos directamente do Estado.

Provavelmente acharão maus os protestos dos docentes quanto ao estrangulamento da carreira, mas acharão empreendedorismo de sucesso aquilo que outros fazem, aposentando-se por invalidez para depois entrarem em funções em instituições concorrentes daquela de onde saíram.

Posso estar a ser injusto nesta consideração, mas é um risco que corro depois de ler dezenas de comentários a bater sempre na tecla da mediocridade como horizonte de vida desejado para os docentes.

Já se percebe melhor parte da estratégia eleitoral do PS nestes meses que se aproximam, na tentativa de recuperar, pela via populista e demagógica, algum eleitorado descamisado.

A ideia é voltar à táctica de início de mandato, de atacar grupos profissionais apresentados como privilegiados.

A guerra com os professores vem dessa altura, assim como de modo mais surdo com militares e magistrados (grupos que têm beneficiado de uma explícita  protecção presidencial…). Agora retoma-se o conflito com os médicos.

A ideia é atrair o voto daqueles que, sofrendo mais com a crise e estando em situação de vulnerabilidade, suportam melhor essa situação se souberem que há mais gente nessa condição, em especial privilegiados. Não se fala de autores de estudos ou pareceres jurídicos para o Governo, que ninguém sabe bem quem são, nem de accionistas de bancos falidos, que têm nomes que ninguém reconhece. Fala-se de uma inveja de proximidade, daquela que é possível apontar na rua. Dos doutores ou stôres, para usar a terminologia câncio-juvenil.

Se o médico ou o professor também sofrerem, acredita-se que o desempregado de longa duração rejubilará (é a lógica usada pelos textos citados a esmo pelo nosso estimado comentador T. Silva) e depositará o seu voto no partido do 6º Armani.

É a opção pelo nivelamento pela mediocridade.

Compreende-se. Se já o fazemos ao nível das carreiras políticas…

Cavaco Silva fez hoje um interessante discurso nas cerimónias oficiais das comemorações do 25 de Abril no Parlamento.

Começou ele assim:

Não vou repetir o que aqui afirmei o ano passado. Apenas direi que me impressiona que muitos jovens não saibam sequer o que foi o 25 de Abril, nem o que significou para Portugal. Os mais novos, sobretudo, quando interrogados sobre o que sucedeu em 25 de Abril de 1974 produzem afirmações que surpreendem pela ignorância de quem foram os principais protagonistas, pelo total alheamento relativamente ao que era viver num regime autoritário.

Não poderia estar mais de acordo, sendo eu por deformação professor de História antes de qualquer outra coisa polivalente e generalista que me obriguem a fazer.

Continuando de forma algo incisiva, O PR interpelou os políticos presentes e responsabilizou-os pelo alheamento dos jovens em relação à política e evocou um estudo que encomendou para demonstrar como a juventude tem escassos conhecimentos sobre a vida política:

O estudo colocou aos inquiridos três perguntas muito simples: qual o número de Estados da União Europeia, quem foi o primeiro Presidente eleito após o 25 de Abril e se o Partido Socialista dispunha ou não de uma maioria absoluta no Parlamento. Pois, Senhores Deputados, metade dos jovens entre os 15 e os 19 anos e um terço dos jovens entre os 18 e os 29 anos não foi sequer capaz de responder correctamente a uma única das três perguntas colocadas. Repito: metade dos jovens entre os 15 e os 19 anos não foi capaz de responder a uma única de três perguntas simples que lhes foram colocadas. No dia em que comemoramos solenemente o 34º aniversário do 25 de Abril, numa cerimónia todos os anos repetida, somos obrigados a pensar se foi este o futuro que sonhámos.

Na transmissão televisiva a que assisti, houve um momento em que as declarações do PR foram intercaladas com um plano da nossa Ministra e do nosso ex-Ministro Santos Silva, numa insinuação visual longe de subtil.

Efectivamente, há falhas na Educação a este nível. A rapaziada realmente não tem muito interesse em saber se são 7, 27 ou 77 países na União Europeia e provavelmente pensa que o Ramalho Eanes nunca existiu ou então foi um qualquer descobridor quatrocentista. Se o PS tem maioria ou não? Who cares?

Não é possível negar o défice notório de conhecimentos a este nível.

Como não me apetece enveredar por considerações vagas, vou pelo caminho corporativista, directamente ao que acho ter sido uma opção errada na organização curricular do nosso sistema educativo básico (a qual parece que se pretende reforçar brevemente) e que passa pelo acréscimo de horas que os alunos passam na Escola, mas por uma diminuição do que eu consideraria ser a «carga útil» desse horário. Com o apoio dum grupo restrito de «pais» que falam em nome de todos e que querem os filhos horas a fio na escola, mas para serem entretidos.

Ou seja, os alunos têm mais horas de ocupação obrigatória, mas essa ocupação foi enviesada pela introdução das ACND nos 2º e 3º CEB, em detrimento das horas dedicadas ás disciplinas propriamente ditas. No 3º CEB istoi foi ainda agravado por uma atomização curricular que tornou perfeitamente irracional a carga horária de algumas dessas disciplinas.

Por interesse pessoal e relevância para o assunto abordado pelo PR, tomemos o exemplo da História, disciplina actualmente mal vista pelos responsáveis políticos e espremida no currículo do 3º CEB.

Como é possível, por vezes com um bloco semanal equivalente ao tempo concedido a Estudo Acompanhado ou a Área de Projecto, trabalhar com os alunos de forma produtiva uns belos milhares de anos de História? Aliás as ACND têm tanto crédito horário semanal como as Ciências Sociais e Humanas!

Ah e tal, podem sempre usar aquelas ACND para compensar isso.

Errado. A obsessão actual é com a Língua Portuguesa e especialmente a Matemática por causa do PISA. E, para além disso, não seria mais útil aos alunos aprenderem História nas aulas de História de forma coerente e articulada?

Mas não: temos muito interesse em desenvolver habilidades, mas pouco em dar-lhes substância. Algo em que se basear. Capacidade de – mais do que recolherem informação na Wikipedia e imprimi-la directamente – organizarem de forma selectiva e crítica o que recolhem.

Claro que não sabem quantos estados tem a UE. Afinal o que interessa isso? Mas qual a vantagem em saber quem foram ou são os detentores de cargos políticos para além do óbvio: o Sócrates, o Cavaco, etc! só se der pontos para ganhar um pacotes de sms à borla.

Mesmo na Escola isso é subalternizado e periférico para o Sucesso.

Portanto, enquanto não se fizer uma distinção clara entre o essencial e o acessório no currículo escolar e se optar pelo desejo do sucesso estatístico e não pela consolidação das aprendizagens fundamentais (mesmo que nos chamem conservadores), quaisquer estudos que se façam continuarão a ter este tipo de resultados. Nem há maneira das coisas se apresentarem de outra forma.

Vejamos como se estabelece um guião de questões neutrais, imparciais e em que nada se nota qualquer «interferência» da admiração declarada pelo entrevistador pela entrevistada.

Questionando sobre as consequências da avaliação para os professores:

– E os professores não têm consequências tão gravosas, pois não?

Sobre a forma como decorreram as negociações pré-entendimento e as pressões exercidas sobre os representantes sindicais::

– A chantagem, em suma, foi apenas esse alerta?

– Quis avisá-los que iam mesmo ser prejudicados?

Agora a fase albina-nova-paradimática da entrevista, ainda a propósito da avaliação e tal:

– É um novo paradigma?

– Era o tal paradigma de que falava?

– Esse paradigma foi alimentado politicamente durante muitos anos e deixaram os professores funcionar completamente à solta, não acha?

.
Agora sobre o processo legislativo na área da Educação:

– Não foram os sindicatos que determinaram durante anos toda a legislação produzida neste Ministério?

Sobre a qualidade dos docentes, que no curto entendimento de ARF apenas têm três hipóteses, duas delas negativas:

– Falando da qualidade dos professores. O ponto máximo de mobilização dos professores, na manifestação de 8 de Março, foi a avaliação. Muitos professores terão medo da avaliação? Qual é, em sua opinião, a qualidade média dos professores? É boa, medíocre ou má?

E isto continua por ali abaixo, sendo notável como uma grande parte das perguntas começa com uma fórmula próxima de «Não acha que…?», claramente a convidar a aquiescência da entrevistada para exercer o seu direito ao chicoteamento público dos professores, aparente motivo maior desta espécie de entrevista.

A certa altura julgo que, já retemperada pela ingestão de bolachinhas de digestão fácil, com bastantes fibras, mas nutritivas, é a própria Ministra que tenta colocar o bom jornalista num caminho menos «à solta» e quase parece «adorável» por comparação com o afã de ARF em enterrar por completo toda a classe docente, os sindicatos e respectivas famílias ascendentes, laterais, colaterais e descendentes.

Sinceramente, e ainda há quem diga que este mundo da comunicação social é para levar a sério. Isto é o mesmo que colocar o Luís Filipe Vieira a fazer uma análise crítica do desempenho de um árbitro que acabou de marcar dois penaltys contra o Sporting e outros dois contra o Porto no intervalo dos respectivos jogos.

Haja paciência e valha-nos que o CM é um órgão de comunicação privado.

Por inaudita comparação, antes a Judite de Sousa a grande-entrevistar o Fernando Seara.

Eis um exemplo, chegado via Conceição C., de como há quem não esteja contra este modelo de avaliação e atropele os próprios pés na ânsia de se chegar mais à frente.

O modelo original chegou-me em formato não suportado pelo WordPress, pelo que o transformei em ficheiro de Word, mas ficou algo esquisito (avaliacao-de-desempenho.doc). É de um agrupamento de Leiria e o documento ainda está em discussão, pelo que por enquanto não identifico a origem:

Chamo a atenção em especial para alguns parâmetros, como aqueles em que se avaliam negativamente aspectos como:

Verbaliza a sua insatisfação/satisfação face a mudanças ocorridas no Sistema Educativo/na Escola através de críticas destrutivas potenciadoras de instabilidade no seio dos seus pares.

Ou:

Mantêm uma relação pedagógica com os alunos produtora de:
• expulsão de aluno(s) da sala de aula;
• atitudes de rejeição do aluno face à frequência da respectiva aula;
• desinvestimento do aluno na disciplina.

Ou:

Coloca as causas do insucesso dos alunos em situações de vida do discente ou no seu perfil.

Ou:

Os alunos das turmas atribuídas ao docente pioraram ou mantiveram o seu desempenho.

É todo um admirável mundo novo que se abre para aqueles que sempre tiveram o pior dentro de si, só que não tinham oportunidade de se esconder por detrás do Ministério da Educação para promoverem caças às bruxas e perseguições por delito de opinião, como acontece no primeiro exemplo citado.

Não há que ter dúvidas: eles vivem e andam entre nós. E nem precisamos de óculos especiais para os ver como no clássico filme do John Carpenter que agora vai fazendo 20 anos.

Ministra diz que municípios vão poder gerir contratação e colocação de professores

Eu vou ainda esta semana percorrer as sedes partidárias locais, trazer propostas de adesão, fazer os meus cálculos e pagar quotas adiantadas até ao fim de 2009.

E já pensaram como vai ser agradável ter no Conselho Geral o patrão?

Afinal, que poderes terá o Director Executivo?

«Reitor»?

Isso gostariam alguns!

Nada disso, meros assalariados, condutores de carroças, de látego na mão para domesticar as alimárias de carga.

Grande barrete que andam a enfiar aos adesivos mais inclinados para ditadores de esquina.

Menos disciplinas e mais enriquecimento curricular

O Ministério da Educação (ME) pretende reduzir o número de disciplinas no 2.º Ciclo (5.º e 6.º anos de escolaridade) e quer implementar actividades de enriquecimento curricular após as aulas.

Esta fórmula deixar-me-ia absolutamente perplexo caso não vivêssemos num estado de disparate permanente há quase 3 anos na área da Educação.

É que não consigo perceber a necessidade de «enriquecimento curricular» quando se opta pela redução do número de disciplinas do (adivinharam?) currículo.

Ou seja, empobrece-se o currículo para depois o enriquecer.

O que significa então este enriquecimento curricular?

Acabar com a História e a Geografia para incluir fóruns de discussão sobre a Chiquitita ou os amores dos Morangos com Açúcar?

No 1º CEB as AEC passam pelo Inglês, pela Educação Musical, pela Educação Física, tudo disciplinas que existem no currículo do 2º CEB.

O caminho não será, portanto, esse a menos que se acabem com aquelas disciplinas para as fazer renascer como AEC. O que seria estúpido, desculpem, pouco lógico.

Portanto, devem ser outras AEC. Quanto as TIC não vale a pena andarmos por esse caminho. Apesar da propaganda ministerial, o aumento dos recursos em equipamentos informáticos nas escolas foi inteiramente absorvido pelos CEF e outras iniciativas semelhantes. Na minha escola, em toda a semana, a Sala de Informática está ocupada em mais de 90% dos tempos lectivos.

Também em termos de espaço, nomeadamente em escolas com uma estrutura muito aberta, não consigo ver onde seja possível durante vários meses, desenvolver actividades minimamente consequentes ao ar livre.

Por outro lado, não se percebe quem irá animar estas actividades. Provavelmente o objectivo é tornar os professores meros animadores culturais, coisa que os futuros professores de modelo «generalista» não se devem recusar a fazer, perante a escassez do mercado de trabalho.

Ou então a ideia é empurrar para fora do ensino muitos docentes, abrindo espaço para as Câmaras contratarem animadores de AEC pagos a meia dúzia de euros por hora como já agora acontece, apesar de afirmarem oficialmente que não.

Perante isto, as “famílias” aplaudem e optam por nivelar o nosso sistema de ensino pela bitola da mediocridade absoluta.

Não sou dado a tiradas apocalípticas, mas eu já vi o fim disto e é algo em que me parece que não quererei participar. Sei que provavelmente o ME quer que muitos como eu tomem essa opção e só isso me impede de decidir de vez mudar de vida.

Alguém deve ficar. Alguém precisa de resistir contra tanta asneira. Se nos formos embora, os predadores tomarão conta de todo o território e não deixarão pedra sobre pedra.

Embora não tenha elaborado parecer sobre o novo modelo de gestão escolar (provavelmente disseram-lhes que não valeria a pena), a Confap desdobrou-se hoje a apoiar a pretensa reforma do 2º CEB.

Há que justificar a tranche trimestral que se aproxima, caso contrário como é que a «confederação que reúne as associações de pais» sobreviveria e poderiam os seus dirigentes percorrer o país? Voluntariado?

Pois…

Curiosamente, no site da Confap em vez de se produzir um texto, cita-se a Lusa a citar a Confap, o que tem sempre um efeito extremamente interessante.

Saquemos umas passagens para nos animar, sempre úteis nas férias dos Gato Fedorento:

Iremos trabalhar com o Governo na implementação desta medida procurando aproveitar a experiência adquirida com a ‘escola a tempo inteiro’ no primeiro ciclo e procurar evitar os constrangimentos práticos que a medida teve na aplicação’ à antiga primária, afirmou à Lusa Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), lembrando que a medida estava prevista e pretende acertar o ensino português com o que é praticado no resto da Europa.

Nota-se a convivialidade Confap/ME em termos de «trabalho», assim como são de sublinhar a sensação de facto consumado e os conhecimentos profundos do seu líder quanto ao modelo de ensino «praticado no resto da Europa», só ficando por saber a que parte da Europa se refere, porque pelo que sei a chamada «Escola a Tempo Inteiro» não existe em muitos dos países mais desenvolvidos do continente em causa. Mas poderemos sempre esperar que Albino Almeida um dia consiga demonstrar ou exemplificar uma afirmação sua com casos concretos relevantes.

Continuemos:

Os pais concordam ainda com uma redução das cargas horárias e defendem o reagrupamento das actuais disciplinas por áreas de saber.
‘Há muito tempo que nós dizemos que os currículos do 2º ciclo e do 3º ciclo têm de ser revistos. São currículos imensos e faz sentido agrupar as disciplinas por áreas e, nesse ponto de vista, nós não partilhamos a ideia de que possa ser feito por um professor único’, defende, realçando que ‘deve haver pelo menos um professor de língua portuguesa, um professor de matemática e um professor de expressões’, as três áreas que considera fundamentais no currículo do segundo ciclo, onde as crianças chegam depois de quatro anos com um só professor.

Eu sou pai e não concordo, mas tudo bem. Sou irrelevante. O que interessa é perceber que Albino Almeida (a Voz dos Pais) acha que os currículos devem ser revistos e que no 2º (e 3º CEB já agora) devem apenas existir 3 professores, a saber: Língua Portuguesa, Matemática e Expressões.

Mais nada. No fundo é uma espécie de retorno ao modelo salazarista do saber ler, escrever e contar só que agora aumentado de 3/4 anos para 6. Antigamente ainda se era obrigado a saber Geografia e História Pátria, mas para Albino Almeida isso não interessa nada. Pelo caminho percebo que mesmo no 1º CEB seria útil acabar com o Estudo do Meio, provavelmente substituído por umas horas de Lavores Femininos para as meninas e Ginástica Sueca para os meninos.

Fica também por perceber como é que Albino Almeida concilia uma «redução da carga horária» com a Escola a Tempo Inteiro, mas suponho que a ideia será manter os miúdos na Escola metade do tempo em recreio quase permanente.

A Confap poderia reivindicar condições para as Famílias estarem mais tempo com os seus filhos, mas não, prefere mesmo mantê-los na Escola o máximo de tempo. São opções e prioridades em que não me revejo.

Mas há mais:

‘Este é um enorme trambolhão que as crianças dão e, portanto, faz sentido trabalhar por áreas e reduzir o currículo. Esta medida deve procurar recolher o melhor do que são não só as experiências de outros países como ainda a aplicação da medida ao primeiro ciclo cá’, disse, considerando que trabalhar por áreas de saber contíguas, como matemática e físico-químicas, por exemplo, será benéfico para os alunos de forma a reduzir as aulas, as disciplinas e o peso das mochilas, por exemplo.

Assinalo a imagética forte que associa a transição do 1º CEB para o 2º CEB com «um enorme trambolhão», ficando na expectativa de saber se à defesa que AA faz de «um novo paradigma para a Educação» que partilha com a Ministra corresponderá uma outra metáfora deste calibre: será o «paradigma do escorregão» ou o «paradigma do espalhanço»? Espera-se para saber.

Mas o mais interessante é perceber que Albino Almeida considera que a Matemática e a Físico-Química são áreas de saber contíguas e que ser o mesmo professor a dá-las reduz «as aulas, as disciplinas e o peso das mochilas».

Portanto, não interessa que Físico-Química não faça parte do currículo do 2º CEB (mas desde quando Albino Almeida se preocupa com minudências como o rigor dos factos?) ou que seja tão parecida com Matemática como a Biologia. O que interessa é menos aulas, menos disciplinas e mochilas leves, supondo-se que isso corresponda a um agrupamento dos manuais do género Física Matemática da Química ou Língua Portuguesa, Inglesa e Afins e (caso não extingam esta ára do saber, claramente secundária) História, Geografia, Geologia e Cultura Portuguesa.

Eu sinceramente acho que é necessário muito pouco trabalho e esforço para ridicularizar mais esta desconchavada e patética posição da Confap. As declarações de Albino Almeida são ridículas e o que é mais triste é que não passem de reflexos daquilo que parece ser a posição do Ministério dito da Educação.

Porque não duvidemos que estas são posições concertadas.

E quando pensávamos que já estávamos no abismo, eis que se abre toda uma nova e enorme cavidade por onde a Educação em Portugal se afundará irremediavelmente.

Felizmente, parece que a Presidência da República «acompanha» o descalabro. Fico muito mais descansado.

Caímos no mais absoluto descalabro em termos de política educativa, mas caímos «acompanhados».

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A generalidade dos professores está familiarizada com o conceito de baú pedagógico, que se difundiu bastante desde finais dos anos 80, não em exclusivo na área da História.

Agora, apesar de em alguns pontos do país já ser conhecido por muitos profissionais que trabalham em EB2/3 ou Secundárias ditas «provisórias» há décadas, generaliza-se o conceito de «contentor pedagógico», com a agravante da aplicação já não a jovens e adolescentes mas às crianças ainda da dita «tenra idade«.

A imprensa deste fim de semana aborda o tema de forma complementar: o Expresso referindo como a deslocalização de crianças de escolas encerradas ocorre sem o devido planeamento ou existência de alternativas razoáveis, enquanto o Sol revela como está em decadência o parque escolar à conta da Câmara Municipal de Lisboa que, endividada até à ponta das extensões capilares, se preocupa mais em promover um inexistente Rally Dakar (a designação Lisboa-Dakar é mais para consumo interno, que lá fora aquela é que é a designação corrente) do que em recuperar estabelecimentos de ensino.

Este tipo de notícias é tão importante como a denúncia dos atrasos do INEM, do encerramento dos SAP e das Urgências nocturnas em muitas localidades.

As consequências não são a doença ou a morte física mas andam num patamar não muito distante.

A realidade é que o fecho à bruta de escolas para exibir números tem piorado as condições de vida de muitas crianças (deslocações longas, condições precárias das novas “escolas” como se vê no caso de Torres Vedras e não só). Não vê isso só quem não quer ou fanático da mudança porque sim.

Mas mais importante, a transferência de competências para as autarquias sobre a manutenção do parque escolar tem, nas zonas mais densamente povoadas, resultados muitas vezes aquém do desejável, para não usar designação pior. Se no interior ainda se estima a velha Escola primária pelo símbolo que ela é (enquanto não a fecham) nas zonas (sub)urbanas com maior pressão demográfica e um poder local mais dado às fantochada de encher o olho, muitos equipamentos vão-se degradando progressivamente, com os responsáveis a alijarem a sua culpa para cima de outros.

Tal como Correia de Campos, saído pela porta baixa da governação, quem no ME decide e implementa esta política (julgo ser justo ao considerar que MLR apenas apõe a assinatura) só se preocupa em exibir um corte radical na rede pública de ensino básico do 1º ciclo, quantas vezes desrespeitando as Cartas Educativas já existentes. É gente que vive liofilizada, certamente com a descendência já adulta com curso em boa Universidade ou ainda em escola privada ou pública «de elite», daquelas que só não surgem nos «estudos» do ISCTE sobre práticas discriminatórias nas matrículas, porque sabem como evitar os olhares indiscretos.

É gente já sem alma, apenas preocupada com um pseudo-Sucesso estatístico e com o sucesso seu carneirismo carreirístico pessoal.

E não me venham com o argumento dos ganhos a «médio-longo prazo». É que então providenciem para que no curto não nos pareçamos tanto com o Terceiro Mundo que repugna ao Novo Homem Tecnológico.

Ministério improvisa soluções para remediar atraso na avaliação

O secretário de Estado adjunto da Educação, Jorge Pedreira, garantiu ontem ao DN que “esta sexta-feira, o mais tardar na próxima segunda-feira”, serão disponibilizadas às escolas as recomendações do Conselho Científico para a Avaliação de Professores (CCAP), tendo em vista a implementação por estas dos instrumentos de registo e indicadores de medida para a avaliação.
A diferença, face ao que estava previsto no diploma que fixou as regras para a análise do desempenho dos docentes é que as recomendações não virão do conselho de 21 elementos -que na prática ainda não existe -, mas da sua presidente: a ex-inspectora-geral da Educação, Conceição Castro Ramos.
“Houve de facto um atraso na publicação do diploma com a orgânica do conselho científico”, admitiu o secretário de Estado . “Apesar de em termos formais, essas recomendações não serem obrigatórias para que as escolas dêem início ao processo, decidiu-se que a presidente do conselho científico, em funções há vários meses, faz as recomendações”.

Quem diz 10 de Janeiro, diz 25 ou 28.
Quem diz sexta-feira, diz segunda-feira.
Quem diz que tudo está normal, diz que por «determinação superior» os prazos definidos em decreto-lei e divulgados em coiso-show espampanante não são para respeitar.
Quem diz que o CCAP vai coordenar e monitorizar o processo de avaliação dos docentes, diz que vai ser só a sua Presidente.
Quem diz que tudo isto é um processo bem planeado e rigoroso também diz que o sal nasce em árvores ou que o maior rio português é a Serra da Estrela.

Ooooooppppppsssssss, esta última foi hoje numa aula de 5º ano. Por momento confundi-me.

Agora gostava sinceramente que os defensores da accountability me explicassem como avaliam o desempenho do ME neste processo.

Ao menos os meus alunos sabem as regras da avaliação desde o início, fazem e recebem os seus elementos de avaliação nas datas aprazadas ou mesmo antes.

Mas isso é o trabalho normal, de um professor mediano.

Ministério altera prazos da avaliação de desempenho dos professores

Medida mais do que óbvia, decorrente da absoluta inexequibilidade de um sistema mal pensado a variadíssimos níveis.

Mas uma medida tão legal como a repetição dos exames de Química e Física ou a alteração, a meio do processo, dos critérios do concurso para provimento dos professores-titulares.

Já antes se enxertara a criatura ao decidir-se que, afinal, os Coordenadores de Departamentos não seriam avaliados já este ano lectivo pelos enviados da IGE. Fazer isso seria impossível com os inspectores disponíveis e obrigaria à completa paralisia da avaliação externa das Escolas.

Mesmo assim e mesmo recrutando mais umas dezenas de inspectores, continuaria a ser impossível avaliar 8000 docentes com duas centenas de avaliadores externos.

Solução: obrigar de forma ilegal as Escolas a reduzir o número dos Coordenadores de Departamento para 4 (Secundárias ou EB 2/3 não agrupadas) ou 6 (agrupamentos verticais com os 3 ciclos do Ensino Básico e pré-escolar). Assim já será vagamente imaginável uma avaliação superficial, mesmo se pouco credível para quem conheça os meandros de um processo sério de avaliação.

Quanto ao resto do povo docente, decreta-se a 10 de Janeiro que há 30 dias para colocar tudo em marcha, só que o diploma não sai acompanhado dos anexos indispensáveis para cumprir o que ele próprio determina. Pior: o Conselho Científico para a Avaliação dos Professores, que deveria produzir e certificar esses instrumentos de avaliação, é algo com a existência material do limbo.

Solução: divulgam-se umas grelhas (que certamente se adivinham de feitura cuidada) duas semanas depois, a meio do prazo que o próprio ME definiu para estar tudo em marcha e determina-se de forma «superior» que os prazos decretados em DR não são para cumprir.

Serei só eu a achar que isto se combate pela via jurídica?

Hoje, pela manhã, a caminho da escola, acabei por ouvir a parte inicial do Fórum da TSF em que um jovem político local promovido a secretário de Estado da Segurança Social, defendia perante a discreta incredulidade de Manuel Acácio medidas como a transferência da actualização das pensões de Dezembro para Janeiro e a repartição das actualizações por 14 meses, com base em argumentos que ultrapassam a pornografia política.

Acho que os registos áudio ainda estão disponíveis do site da TSF, mas eu recuso-me a ouvir de novo tamanha falta de decoro.

Já sei, alguns e algumas irão chamar-me demagógico e anti-democrático porque estou a criticar um membro de um Governo democraticamente eleito, mas quem tem pessoas próximas nesta situação de reformas abaixo dos 600 euros, que para mais passam a ser objecto das ânsias do IRS, sente uma profunda náusea por saber que vive(u) no mesmo distrito que a pessoa que disse aquilo que eu ouvi.

E mão me venham com a conspiração grisalha, porque estas pessoas (que o distintíssimo SE afirma serem 90% dos pensionistas) quase não têm condições para continuar a inspirar  e a expirar  quanto mais para conspirar.

O antidemocrata (como alguém chegou a insinuar quando escrevi sobre o assunto) sou eu quando acho que a territorialização das políticas educativas vai ser a desgraça total do sistema educativo?

Autarquias são o principal foco de corrupção

As câmaras municipais são o principal alvo de investigação de suspeitas de corrupção. Esta é a conclusão do “diagnóstico da corrupção participada”, um estudo elaborado pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), a pedido do procurador-geral da República, e cujos resultados vão ser apresentados em Fevereiro de 2008.

Tudo bem, pode até ser que seja muita corrupção em pequena escala e que os grandes esquemas de corrupção passem por outro lado.

Mas se a gestão dos estabelecimentos escolares passar a ter uma maior participação das autarquias, é mesmo melhor acharmos outro adjectivo mais forte do que disfuncional para descrever o resultado.

A má nota de Portugal no relatório do Programme for International Student Assessment (PISA) 2006 – com um 37.º lugar entre 57 países e um desempenho abaixo da média nas ciências, conhecimento da língua e matemática-, é justificada pelo Ministério da Educação com uma “disfunção” do sistema educativo nacional, que leva as escolas a reterem muitos alunos, quando esta deveria ser uma solução de “último recurso”.

Já se esperava. A culpa é do “sistema” e, por inerência dos professores. Os alunos têm maus resultados no PISA porque chumbam demasiado. Tudo isto parece ser disfuncional.

Obviamente que se passassem, mesmo sabendo o que sabem, teriam melhores resultados. Parece ser essa a mensagem.

Claro que um aluno com 15 anos com o 9º ano concluído saberá menos do que um aluno ainda no 7º. Pelo menos o senso comum sugere-nos isso.

Mas o senso comum também nos ensina que um aluno que transita sem as aprendizagens realizadas, em especial em matérias onde elas encaixam entre si e são sequenciais, dificilmente perceberá novos conteúdos sem os necessários pré-requisitos (lá vai um palavrão eduquês agora em desuso por razões instrumentais).

Mas tudo bem, já percebemos, a ideia é afirmar que o insucesso se deve à falta de sucesso por causa do insucesso. A lógica é mais ou menos esta.

Claro que no meio disto tudo exigir efectivamente maior rigor em todo o processo de aprendizagem, responsabilizando mais os alunos e as famílias pelo desempenho escolar, criando uma imagem de rigor que a maioria dos discentes leve a sério é coisa que não passa pela cabeça dos responsáveis do ME.

Para o secretário de Estado adjunto da Educação, Jorge Pedreira, os dados “desfazem a ideia de que o sistema educativo português é facilitista: “Pelo contrário, é selectivo. Há muitos países onde não há retenção ou esta só existe em final de ciclo”, argumentou, considerando ter ficado provado que o chumbo “não funciona como mecanismo de recuperação” dos alunos. “Apesar das orientações, como os planos de recuperação [do básico], não foi possível passar a mensagem de que a retenção é uma solução extrema e de último recurso”, lamentou.”É preciso que as escolas assimilem a ideia de que a retenção não é normal”. (Diário de Notícias)

Pois, o problema é que a mensagem “não passou”. Ainda há uns posts atrás a Lalage se insurgia quanto a alunos passados sem condições mínimas, por Conselhos de Turma demasiado suaves, dizendo que não é o ME que os obriga a isso. Não? E que tal estas declarações como demonstração que se não obriga é mesmo porque não pode colocar um comissário/inspector em cada CT?

Portanto, cambada, vamos a passar o pessoal porque no próximo mandato, se estes senhores voltarem, a retenção mais do que algo “disfuncional” ou “anormal” será pecado com penitência grave, não para o aluno, mas para o professor.

E o plano de criar um primeiro ciclo de escolaridade de seis anos com um professor generalista mais facilmente responsabilizável e pressionável quanto aos resultados dos alunos, é apenas o passo final para a erradicação das repetências até aos 12 anos. Porque só no fim do ciclo será possível saber se…

Como já disse e escrevi: no PISA 2018 constataremos o erro. Mas será tarde e os culpados do costume estarão longe, com reformas douradas. E nós é que voltaremos a ser os culpados das disfuncionalidades anormais.

Alunos portugueses abaixo da média em todas as competências

O desempenho dos alunos portugueses de 15 anos é mais baixo do que a média dos seus colegas de 57 países a Ciências, Matemática e Leitura, segundo um estudo da OCDE. O secretário de Estado Adjunto e da Educação confessa estar insatisfeito com estes resultados, mas destaca a estabilidade destes de ano para ano.

Desde esta manhã que andei a tentar aceder ao texto da notícia que ouvi de raspão na TSF a caminho da escola, mas uma virose com riscos de se espalhar pela rede impediu-me de tocar num computador.

Agora que leio a versão completa, que no fundo apenas confirma o que sabemos, já posso finalmente fazer um pequeno conjunto de notas, que me parecem óbvias:

  • Antes de mais, destacar que de acordo com Jorge Pedreira – mais valia não ter aparecido para dizer isto – devemos estar algo satisfeitos por termos estabilizado na mediocridade.
  • Em segundo lugar que o que nunca se faz é comparar estes resultados com a avaliação destes alunos no plano interno. Porque algo que me interessava saber é quantos destes alunos com desempenho insatisfatório – ou comparativamente abaixo da média, pelos padrões internacionais – acabaram por ter avaliação positiva, nomeadamente no final do 3º ciclo. Porque o estabelecimento dessa relação seria interessante para perceber até que ponto – e é o que eu acho – o nosso sistema de avaliação obriga a empurrar para cima muitos alunos que depois se revelam estar pouco preparados, em termos de comparação internacional.
  • Em terceiro, tentar perceber se as sucessivas queixas dos professores relativamente ao aligeiramento dos currículos e ao facilitismo que se foi institucionalizando nos últimos 15 anos não terá razão de ser, perante os maus resultados recorrentes dos alunos portugueses no PISA (realizados em 2000, 2003 e 2006). Provavelmente não será tentando simplificar as coisas que se conseguirão melhores resultados. Pelo contrário, só elevando os padrões de exigência melhoraremos a performance.
  • Por fim, e esta é uma questão fundamental, não percebo como a criação de um ciclo de escolaridade inicial de seis anos, de matriz generalista, com professores, eles próprios, com uma formação cada vez mais superficial, poderá ajudar a inverter esta situação. Pelo contrário, a consequência mais óbvia será, aí por alturas do PISA 2015 ou 2018 ainda mais estarmos mais afundados na lista e o Secretário de Estado da época aparecer a congratular-se por ainda termos um ou dois países em pior situação.


Adenda
: Documento teórico sobre o PISA 2006 (versão castelhana), onde no final se percebe que entre os especialistas seleccionados para o programa não existe nenhum português. O que pode ajudar a explicar muita coisa.

Já está em lançamento pela via da criação dos cursos para professores generalistas e pelo mau uso da discussão em torno da redução dos ciclos de escolaridade.

É, obviamente, a questão da monodocência (coadjuvada ou não) até ao 6º ano (9º?) de escolaridade.

A ideia tem a aparência de coisa boa, é apresentada como uma coisa boa, até se alinham argumentos e evocam exemplos para provar que a coisa é boa. Só falta mesmo a demonstração que é mesmo boa. Coisa de que duvido seriamente. Por muito que alguns opinadores ou especialistas venham dizer que é mesmo muito boa e que vai ajudar a reduzir o insucesso e abandono escolares.

Talvez, talvez.

Mas duvido muito que a medida se traduza numa melhoria das aprendizagens dos alunos, no desenvolvimento mais ricas e variadas competências ou que, no final, o balanço não passe pela constatação que fomos, de novo, na onda de uma pseudo-moda passageira, sem qualquer ancoragem na nossa realidade, no nosso actual contexto educativo e respectivas necessidades.

Eu traduzo de forma simples as principais vantagens do regime da monodocência coadjuvada para a actual tutela:

  • Redução a médio prazo (5-10 anos) do número de docentes em exercício, com as consequentes poupanças orçamentais. Para além disso, ter um grupo profissional com uma formação que não permitirá outras saídas no mercado de trabalho e, por isso mesmo, mais cordato e submisso.
  • A possibilidade de responsabilizar/pressionar de forma mais individualizada os docentes pelo desempenho dos alunos, amarrando-os 6 anos a uma turma e, dessa forma, criando uma espécie de casulo para todos os envolvidos que pode perpetuar tanto as boas, como as médias ou mesmo as péssimas práticas.

O que os especialistas e responsáveis governamentais actuais parecem não entender é que os tempos, sendo de dispersão das áreas de conhecimento e de alguma hiper-especialização, não são necessariamente de molde a ganhar muito com educadores generalistas, com pouca formação especializada nas áreas disciplinares de tipo científico (e tomo esta designação no seu sentido lato), quando os alunos cada vez acedem com maior facilidade a conhecimentos muito específicos sobre muitos temas.

Quem interpreta a situação de forma superficial, considera que são necessário meros técnicos educativos com um saber pedagógico geral, complementado com uns créditos disto e daquilo, tudo polvilhado com um mestrado de pouco mais de seis meses. E que esse tipo de capital humano deve ser deixado seis anos a formar gerações de alunos.

Quem entende o que se passa, percebe que é necessário exactamente o contrário. Que após uma fase inicial de aprendizagem de hábitos de trabalho, pesquisa, estudo e organização da informação, os alunos de hoje, da era digital e da informação rápida e acessível, precisam de educadores que tenham uma formação “forte” nas suas áreas de especialidade, por forma  conseguirem ajudar os seus alunos a dar sentido ao manancial informativo disponível.

E isso não se consegue com alguém “com umas ideias” de Matemática, com outras de História e mais algumas de Ciências ou Língua Portuguesa. Porque se há coisa que eu aprendi com os meus alunos, mesmo os mais novos ou especialmente estes, é que eles detectam facilmente quando o professor não está à vontade em dada matéria, quando revela insegurança, sendo que quando devidamente estimulados os alunos são muito rápidos a realizar as aprendizagens que lhes interessam e, com alguma facilidade, ultrapassam docentes que não tenham a sua formação devidamente escorada em termos académicos.

Por isso a monodocência (coadjuvada ou não) para seis anos é um imenso equívoco estratégico em três planos:

  • No plano da formação de docentes, corresponderá a uma sua desqualificação profissional, encoberta com uma certificação baseada em diplomas bolonheses de fraca qualidade e banda muito estreita.
  • No plano das aprendizagens dos alunos de um alongamento de uma formação inicial incaracterística, pouco diferenciada e superficial nas diversas matérias. Na prática, se os alunos agora completam o 2º CEB em condições muitas vezes precárias, num modelo de monodocência de seis anos terminarão esse ciclo de estudos ainda pior. Quando deveria ser o contrário. É que até alguns teorizadores com que não concordo muito, discordam dessa via.
  • Por fim, em termos de articulação com uma futura reorganização dos ciclos de ensino, implica um primeiro ciclo de escolaridade de seis anos (a escolaridade primária ou ISCED 1 de acordo com a terminologia europeia), o que parece manifestamente errado em relação às nossas actuais necessidades, pois se o modelo for o do 1º CEB, em vez de elevarmos o nível de exigência e aprofundamento das aprendizagens, teremos antes uma infantilização maior do que agora correspnde ao 2º CEB.  E teremos dificuldades imensas para erguer um Secundário de bom nível a partir de tais bases. As consequências serão depois visíveis nos resultados em testes comparativos internacionais.

Mas, tudo bem. Já se percebeu que alguns daqueles que há 15 anos avançaram destemidamente por caminhos errados (por vezes atrás de um tutela política poucfo conhecedora da matéria), estão de volta em força, prontos para continuar a trilhar veredas erradas. O decoro e a prudência aconselharia a que se tivessem retirado, ou os tivessem mantido afastados, de cargos em que podem causar mais danos à Educação em portugal, sendo que a cada machadada as hipóteses de recuperação diminuem.

Parecido com isto, só mesmo a política do Estado Novo que, nos anos 30, cruzou a redução da escolaridade obrigatória (o que paradoxalmente não é muito diferente, em termos práticos, de agora estender o 1º CEB por seis anos) com o fecho das Escolas Normais, de forma a disciplinar a formação do pessoal docente. Quando abriram, já estavam organizadas de molde a produzir professores adequados à matriz ideal do novo regime.

A História, por vezes, repete-se, mesmo se com mantos diversos.

Que é de manhã, ontem voltei às 8 da noite e hoje, não tarda a nada, estou de volta para mais uma runião.

Este Governo usou os docentes, no auge do estado de graça, para testar o método de atacar, pela tentativa de descrédito público e investida legislativa, um grupo profissional no sentido de quebrar o seu poder negocial e a sua autonomia.

Funcionou quase bem, podendo apenas existir algumas poeiras na engrenagem, só começando a fracassar depois quando tentou entrar em grupos profissionais mais coesos e com capacidade de resposta: jornalistas, médicos e magistrados são os casos mais evidentes de capacidade de auto-defesa (Pinto Monteiro já avisou que reagirá em nome dos últimos, a Ordem, bem ou mal, reagiu em defesa dos segundos e o PR no caso dos primeiros).

E a estratégia baseou-se – e isto é revisão da matéria dada – em três linhas de acção:

  • Controle e cerceamento da capacidade de progressão salarial da maioria dos docentes (objectivo único do ECD), por forma a degradar a sua situação material na sociedade, mesmo comparativamente a outros grupos profissionais de equivalente qualificação.
  • Descaracterização a formação profissional, tornando-a indiferenciada e retirando-lhe identidade (é o projecto do professor “generalista” sem um saber específico ou qualquer perspectiva profissional fora dos caprichos do ME.
  • Desregular as condições e horário de trabalho dos docentes, o que passa pela forma como abusivamente passou a ser organizada a carga horária do trabalho dos docentes, tanto inserindo mais horas na componente lectiva, quer multiplicando as funções e obrigações nas escolas, o que se traduz, em meses como este, em semanas de 50 horas de trabalho efectivo, por vezes 40 das quais entre portas.

Todos já sabemos disto, mas eu quero voltar ainda a este assunto, mais que não seja porque a aprovação dos diplomas sobre a regulamentação da avaliação com os prazos dados para nós erguermos o nosso próprio cadafalso está prestes a acontecer, vai acontecer quase por cert em torno das férias do Natal – por mero acaso, claro – e agravará em muito as nossas condições de trabalho.

Estará a PR atenta a isso?

Há discursos inquinados desde a origem, porque assentam em chavões sem substância. O problema do país é a falta de qualificação, a sobre-qualificação ou a forma errada como se produzem “qualificações” relativamente à capacidade de absorção pelo mercado de trabalho?

Chovem críticas sobre a Escola Pública, em especial sobre o Ensino Básico e Secundário, a sua qualidade, os professores. Apontam-se o abandono e o insucesso e procuram-se culpados onde eles não estão. Alinhavam-se causas endógenas ao sistema e não se percebe que os estímulos disruptores são na maior parte dos casos exógenos.

Há estatísticas que fogem a ser domesticadas e dão pistas sobre a realidade. No número de Novembro da revista Fórum Estudante (nº 193, p. 25), o retrato do mercado de trabalho é o que se apresenta e que demonstra que estudar mais e prolongar a escolaridade só tem vantagens óbvias até certo ponto. E é isso que desmobiliza muita gente: o facto de Portugal continuar a ser uma economia de 3ª ordem, que aposta pouco em trabalho qualificado e prefere mão-de-obra barata.

Até aos 44 anos tirar um Curso Superior parece ter poucas vantagens em termos de mercado de trabalho, pois a taxa de desemprego é mais alta entre quem tem um “canudo” do que entre quem tem apenas o Ensino Secundário completo. Entre os 25 e os 34 anos a diferença é de apenas 0,5% em termos de capacidade de inserção no mercado de trabalho entre licenciados e detentores da escolaridade básica.

Contrariamente ao senso comum tantas vezes repetido, prolongar os estudos e ir para a Universidade pode acabar por ser uma armadilha, como se vai percebendo. Resultado do descontrole da oferta de cursos sem perspectivas profissionais e de uma procura de mão-de-obra que continua pouco mais do que terceiro-mundista em grande parte do país.

É perante isso que, muitas vezes, as famílias mais desfavorecidas e que sabem não ter vantagens competitivas na luta por lugares no mercado de trabalho (contactos certos, no meio social adequado) acabam por não apostar na extensão da escolaridade dos seus descendentes. E, enquanto não decidirem maquilhar também estes números, as estatísticas dão-lhes razão.

Em média os que têm mais qualificações e conseguem emprego podem ganhar mais, mas acabam por ser muitos os que ficam muito tempo à espera do 1º emprego. E entre o 9º ano e um curso superior eram até há pouco mais 7-8 anos de investimento. Agora podem ser apenas 6, mas depois há um mestrado bolonhês a tirar, se quiserem que o canudo sirva para mais do que enfeitar a parede.

E nem sempre a espera se perspectiva vantajosa.

E é aí que radica muito do abandono da escolaridade logo que é cumprida a parte obrigatória.

Não é a falta de qualificação que atrasa o país. É o atraso do País que impede que uma maior qualificação compense.

Lembram-se quando José Miguel Júdice defendia ardorosamente Maria de Lurdes Rodrigues e desancava a malandragem dos professores? Eu cá lembro-me bem. E duplamente bem.

Num caso passou quase um ano, mas no outro são meros três meses. Sei que só os burros não mudam de ideias e que Júdice não o é. Mas, por isso mesmo, sempre achei que ele devia ter enxergado mais longe e não ter sido embalado pelo discurso pseudo-meritocrático do ME. Pronto, tinha os faróis muito fraquinhos e não deu para alumiar ao longe.

Agora que o ciclo das medidas se aproxima do culminar, Júdice já começa a ver claramente. E, após afirmar a sua fidelidade à escola pública no seu percurso pessoal da 1ªa classe à licenciatura, o que vê ele agora:

Uma cultura de laxismo, de facilitismo, de falta de rigor, que recusa a disciplina e o trabalho, que nivela por baixo, serve os mais desfavorecidos ou prejudica-os? A percepção dos jovens – baseada em factos inequívocos – de que não precisam de se esforçar para passar de ano provoca uma tendência crescente para a diminuição do esforço, ou motiva os estudantes a trabalhar? No mundo moderno basta a escolaridade formal para progredir ou, pelo contrário, os hábitos de trabalho e a aprendizagem real é que fazem a diferença? Manter na escola os que não vão às aulas, não estudam, não aprendem e que ninguém castiga é bom para eles e para os que querem trabalhar? Para os mais desfavorecidos (e com excepção do Euromilhões) existe algum meio eficaz de progresso do que uma escola pública de excelência?

Para tudo isto a Ministra da Educação dá respostas idênticas às que deram os seus equivalentes do PSD. Mas ela faz parte de um governo de esquerda, de um governo que tem de estar emocional e culturalmente forjado na luta pela qualidade e rigor do ensino público como instrumento de igualdade. Por isso é inconcebível o que diz, o que justifica, o que propõe. Como é incompreensível que se mantenha no Governo. E que entradas de leão são, em regra, previsíveis. Como, está a ver-se, são fáceis as saídas de sendeiro.

Pois, era previsível. Nós sabíamos. Quem de entre os docentes não sabia que toda a conversa sobre o mérito dos docentes ia acabar na completa rebaldaria (estou a usar o termo de uma forma erudita, como ainda recentemente foi usado por Pedro Norton) quanto às exigências de avaliação dos alunos, em nome do Sagrado Sucesso?

Pena que a JMJúdice tal previsibilidade não tivesse logo ocorrido. Já tem idade e experiência para saber que isto acaba sempre assim.

Assim como deve saber que MLR é apenas um rosto para desgaste rápido e que a definição das políticas erradas não passa propriamente por ela.

E já agora, um último remoque, afinal pedir a demissão da Ministra deixou de ser exclusivo dos façanhudos sindicalistas comunistas?

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