Manuais


Circular da DGE: CircularAdoçãoManuais2013.

Chegou o primeiro caixote deles. Onde antes caberiam uns 4 ou 5 vinham apenas 2 carregados de apêndices.

E depois lá vamos ter de preencher as grelhas de avaliação, para poupar trabalho a outros…

… é quando os exercícios estão errados (na sua formulação) ou então estão as soluções, baralhando por completo os miúdos que tentam fazer o que lhes é pedido. E o manual em causa está de acordo com as metas curriculares de Junho de 2013 e até está certificado por uma instituição pública de nomeada.

Não estamos a falar de disciplinas soft, nem sequer de problemas complexos.

Pronto, não verificaram tudo. Acontece. É das certificações à la minute.

(respondam-me lá… se alguém conta um segredo a duas pessoas e cinco minutos depois cada uma delas conta a mais duas, quantas pessoas ficam a saber do segredo, excluindo o original língua de trapos? e se a progressão se mantiver, quantas ficarão a saber ao fim de 10 e 15 minutos?)

… uma bandalheira, uma falta de respeito total pelo trabalho dos alunos e professores e pela tão evocada “economia das famílias”.

Mudar de manuais porque se decide mudar de programa e metas a cada mini-ciclo político e depois dizer que se desenrasquem nas escolas com manuais que têm estruturas diferentes, textos diferentes e exercícios diferentes num momento em que as turmas estão com uma dimensão como não tinham desde o século passado é um enorme desrespeito e estas desculpas formais são ridículas.

A verdade é que o programa de Matemática mudou porque era uma causa pessoal do actual MEC e da associação de professores a que pertence e o de Português mudou, após anos e anos de preparação do que entrar muito recentemente em vigor, porque as “Metas” tinham de ser novas e foram entregues a um nicho académico diferente daquele que fizera o programa.

Tudo isto nas disciplinas que estão sujeitas a exame revela uma total falta de cuidado com qualquer planificação e revela ainda que se deveria fazer uma prova de ingresso para os contratados da política que parecem não dominar os conceitos mais simples para o exercício da função de governar a Educação.

Podem sempre dizer que se está a dramatizar, mas dificilmente que isto são casos pontuais. As editoras reformularam, com prazer, os manuais de um modo que, em muitos casos, é perfeitamente disparatado afirmar que se podem usar, numa aula de 5º ano de Português, manuais diversos ao mesmo tempo, enquanto em um está o texto da cigarra e da formiga e no outro um excerto de Sophia de Mello Breyner para interpretar.

Não estamos a falar de variantes de um relato de um acontecimento histórico ou do funcionamento do aparelho digestivo. Estamos a falar de exercícios feitos a partir de textos específicos, com uma turma de 28 ou 30 alunos.

Isto é estúpido, desonesto e profundamente incompetente. Só pode defender a “legalidade” disto que nunca deu aulas no Ensino Básico, quem já se esqueceu que as deu ou quem despreza profundamente quem as dá.

A menos que a prometida prova de ingresso na docência tenha um grupo de perguntas sobre como lidar com estas situações na sala de aula e com as consequências práticas da inépcia do MEC.

Pub20Set13

Público, 20 de Setembro de 2013

Tenho hesitado em falar aqui da vergonha que considero ser o que se está a passar com as consequências da implementação das novas metas de aprendizagem na reformulação dos manuais de Português e Matemática de 5º ano, o que implicou que os manuais adoptados no ano passado para um período de 6 anos tivessem de ser substituídos e não possam ser reutilizados.

Ou seja, os manuais adoptados o ano passado e comprados pelos alunos já não servem para nada e podem ser deitados fora, pois as metas definidas a destempo e de forma desarticulada fazem com que centenas de milhar de exemplares adquiridos o ano passado tenham perdido qualquer utilidade para os alunos do ano lectivo presente e possam ir directamente para a guilhotina ou a reciclagem.

Este é um daqueles casos em que os representantes das famílias – a começar pelo valentinesco pai ascensão que apoia ao voto nulo em Gondomar – poderiam aparecer a dizer qualquer coisa de útil e não de meramente instrumental para o MEC.

… só somos levados a conhecer os relatórios da ocde/iscte?

Uma verdade inconveniente.

Olá, sou o pai da Leonor. A Leonor entrou este Setembro para o 8º ano e, além dela, tenho mais duas filhas. Andam todas em escolas públicas. Este ano lectivo, os livros de estudo da Leonor custaram-me € 237,03 (duzentos e trinta e sete euros e três cêntimos). Não falo de cadernos, lápis ou mochilas, do material de desenho ou dos equipamentos da ginástica. Nem falo dos livros cuja leitura é recomendada ou aconselhada, e que constam de uma lista muito, muito grande, a que chamam Plano Nacional de Leitura. Não. Falo apenas dos manuais de cada disciplina. Uma criança do 8º ano, 237 euros de manuais.

(continua)

Muito interessante, não apenas pela questão dos manuais, mas igualmente por demonstrar que a escola gratuita universal é uma outra ficção que anda por aí na boca dos defensores dos co-pagamentos.

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