Manuais


A notícia já é da semana passada, mas só agora o Livresco me enviou o link, onde é citado um pequeno trabalho de invetariação que fiz e que aqui já tinha referido em post.

Clássicos da literatura fora dos manuais escolares

Alice Vieira e Isabel Alçada são das autoras mais citadas. Torga e Aquilino quase não aparecem.

Os clássicos estão a desaparecer dos manuais de Português do 5.º ano. A constatação é feita pelo professor Paulo Guinote que, depois de analisar doze livros, chegou à conclusão de que «Aquilino Ribeiro, José Gomes Ferreira, Miguel Torga e Jaime Cortesão estão quase ausentes», enquanto Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes «pura e simplesmente desapareceram» dos novos livros.

No lugar destes escritores aparecem nomes contemporâneos. Alice Vieira – que está em onze dos doze manuais que Guinote analisou – é a mais citada, «com 34 referências».

Uma coisa é a busca de informações de tipo técnico para acorrer a certas situações mais específicas, outra quererem fórmulas mágicas em 50 a 100 páginas.

Para a próxima, pensem nisso, quando acharem giro ser mamãs e papás. É bom pedir ajuda, mas ajuda do tipo fast-food ainda acentua mais a irresponsabilidade actual. E depois querem que os professores, em algumas horas semanais, consigam ter para 150 (ou mais) crianças e jovens uma capacidade de individualização da relação que, como pais, não conseguem.

Mães e pais devem ser – SEMPRE – os primeiros educadores. Demitiram-se progressivamente disso 8, 10 ou mais horas por dia, a ceitando o modelo da Escola a Tempo Inteiro como recurso útil. Agora querem instruções para as poucas horas que a miudagem está em casa, acordada.

Apetecia-me fazer uma série de observações politicamente muito incorrectas sobre a decisão e o acto de fazer meninos por parte de muita gente (e não falo de pessoas das chamadas classes desfavorecidas que essas não andam em busca de livrinhos de auto-ajuda, são obrigadas a VIVER), mas a esta hora as crianças estão acordadas.

Pais cada vez mais adeptos de “manuais de instruções”

Editoras dizem que os pais procuram cada vez mais “manuais de instruções“. Especialistas e educadores alertam que cada criança é única. 

Acabei de fazer uma sondagem estatística muito rápida para consumo local nos manuais para LP (5º ano) e fui como nos estudos isczé: constatei com amostra alargada o que se percebe só de olhar.

O cânone concentra-se num número restrito de autores: Alice Vieira, Ana Maria Magalhães/Isabel Alçada, António Mota, António Torrado, José Jorge Letria, Luisa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres e Sophia.

Dos 12 manuais, Alice Vieira está representada em 11 (com 34 referências), António Torrado (com 29, 9 delas num único manual) e Luisa Ducla Soares (com 36, dispersas) em 10, José Jorge Letria (com 27 referências, 10 delas num único manual) e António Mota (21 referências) em 9 e Sophia em 8 (15 referências). Matilde Rosa Araújo, Álvaro Magalhães e Cecília Meireles surgem depois. Confesso que a coisa foi feita olhando para o índice de uns e apenas desfolhando outros. É, pois, um estudo mesmo dos bons.

Dos autores mais antigos, Fernando Pessoa aparece em 6 manuais e Eugénio de Andrade em 4. Aquilino, Teófilo e Jaime Cortesão sobrevivem em 3, mas o resto é quase residual.

Os autores lusófonos estão muito pouco representados: Mia Couto, Pepetela e Ondjaki são excepções.

Em matéria de banda desenhada, a opção recai quase sempre em Bill Watterson (via Calvin e Hobbes). Autores estrangeiros espreitam com Roald Dahl e Goscinny. Há ousadias, mas escassas: C. S. Lewis, Ursula Le Guin e pouco mais.

Talvez isto seja útil, talvez não. Mas, já agora, fica feito. Sem subsídio.

As editoras, claro. Época de adopção de manuais. Quase nos sentimos alguém.

Este tipo de conclusões, em estudos na esteira das teses multiculturais e da pedagogia pós-colonial, valem apenas o que valem. Conheço os manuais e se há por lá belos desvios, não são propriamente os apontados. Só retorcendo muito.

Manuais de História ainda contam o mundo à moda do Estado Novo

Há sempre a remota hipótese de me converter ao calvinismo…

… na caixa de correio convencional. Não me apetece muito analisar a estratégia ou o produto, porque estou cansado e com mais que fazer. Não porque tenha negócios pendentes com a editora que patrocina, que os não há.

Apenas diria que, se não sou grande fã da ideia dos empréstimos tal como é concebida por quem anda fora da escola, também não o sou da política de produção de manuais por parte das maiores editoras – ou grupos editoriais – presentes no mercado.

Estudo sobre o impacto pedagógico, económico e cultural da implantação em Portugal de um sistema de empréstimo de manuais escolares

Podem chamar-me nostálgico, mas neste caso em vez de o ser dos tempos do faxismo, será dos tempos do préque ou imediato pós-préque, quando éramos obrigados a ler textos cheios de sustança.

Este manual do 7º ano unificado (1977) começava com a frase ” – Tem lêndeas… tem lêndeas… tem lêndeas…”, o que é sempre inspirador, mesmo se era de um texto com o título “Manhã na Escola”, extraído de A Criação do Mundo de Miguel Torga.

Há uns dias, o sector comentarístico da esquerda modernaça mandou-me reciclar os meus velhos cadernos, mas neste caso acho que hesitariam porque a panóplia dos autores representados neste manual é bem rica; os primeiros são o dito Miguel Torga, Manuel da Fonseca, Vitorino Nemésio, Almada Negreiros, Erico Veríssimo, Herberto Helder, Alves Redol e Jorge Amado. Mas havia mais: Baptista-Bastos, Mário Castrim, Rodrigues Migéis, o incontornável Soeiro Pereira Gomes, Alexandre O’Neill, Júlio Dinis, Camões, Ricardo Alberty e por aí acima e abaixo.

É que não era por acaso que nos pediam comentários ideológicos aos textos…

… destas reuniões semanais de trabalho sobre os novos programas de Língua Portuguesa?

  • Na versão benigna, é uma forma dos docentes trabalharem em conjunto e se irem ambientando ao novo programa. Mas todo um ano lectivo parece-me excessivo.
  • Na versão conspirativa poderá ter a ver com a produção de milhares de materiais pelo país que servirão para alimentar este ou aquele site do ME e poder servir para esvaziar a obrigatoriedade de utilização de manuais produzidos pelas editoras.

… os rendimentos dos alunos.

A implementação pode ser muito fácil e óbvia, desde que os senhores deputados não a compliquem. Nas escolas há bibliotecas, nas bibliotecas emprestam-se livros. Basta fazer a ligação entre os serviços da ASE e as bibliotecas…

Aprovados diplomas do CDS, BE e PEV sobre empréstimo de manuais escolares

Acho bem, só lhe faltam cento e quarenta e nove mil e novecentos e noventa e sete.

Em tempo, era para se chamar Lista De Espera, soma seis anos.

PSD quer livros escolares gratuitos para o ensino escolar obrigatório

Não sei se ria, se chore. Querem retirar o «tendencialmente gratuito» da Constituição e agora lembraram-se desta…

Atenção encavalitados, não começem a (des)encavalitar antes de tempo…

Lembrem-se do outro encavalitado que preferiu o contrato com a PE a dois pingos de coerência…

Os professores portugueses dificilmente não serão os melhores do mundo. Agora há uns que dão a sua disciplina a umas turmas com um manual na escola sede e depois vão dar as outras com outro manual, pois antes cada escola fez as suas escolhas de acordo com o projecto educativo e os respectivos grupos de trabalho.

Agora, com os novos mega-departamentos e mega-grupos disciplinares mistura-se tudo e quero fazer como se fazem planificações integradas e articuladas com cada escola com os seus materiais de apoio. Claro que o manual não é tudo, mas é com os seus materiais – afinal as famílias compram-nos para quê? – que os alunos devem trabalhar e estudar.

Mas, claro, tudo isto é feito por parte do ME privilegiando os aspectos pedagógicos

A Sábado traz hoje uma peça sobre o assunto, que se presta sempre a alguns sorrisos, mas também a algumas desnecessidades, para quem sabe como os manuais são produzidos e como certas falhas passam o crivo, a maior parte delas resultando de gralhas, distracções e falhas de comunicação entre autores, revisores, gráficos e etc.

A mim foi-me pedido que desse exemplos de erros nos manuais agora em circulação. Por diversas razões, desde logo pelas acima apontadas, optei por apresentar situações passadas comigo enquanto coautor de manuais.

Na peça de hoje, a situação seleccionada está correctamente descrita, mas ao ser sintetizada, pode parecer menos perceptível, pelo que vou reproduzir aqui o mail final que enviei à jornalista Sara Capelo.

Uma situação, com imagens, que é curiosa de um “erro”.

Imagem “Um”


Manual “Viajar no Tempo”, Texto Editores, de que fui coautor.

1995, 1ª tiragem (6000 exemplares para distribuição aos professores), p. 27

A imagem contém um erro: na legenda, onde está o perfil de um porco, escreve-se “bovino”.

Detectado o erro (assim como outros, não muitos, em outras páginas, como uma imagem de javali invertida), a legenda é corrigida, dando origem à…

Imagem “Dois”

Mesmo manual, 2ª tiragem ainda em 1995 para venda aos alunos.

O que é curioso é que em 1998, a mesma editora desenvolve o projecto “História 7º ano” com outros autores (…) que usa materiais decalcados dos nosos, incluindo o tal erro da primeira tiragem, notando-se uma completa falta de cuidado da editora e autores, pois já existia imagem corrigida.

Confirmar reprodução da p. 32 desse manual (15.000 exemplares dessa edição) na Imagem “Três”.


Adenda final: Há erros em manuais, o que é sempre criticável. Assim como é criticável que o processo de certificação dos manuais, durante algum tempo propagandeado pelo ME, seja uma espécie de nado-morto em muitas áreas, acabando por ser os professores a fazer, nas suas análises prévias às adopções, o papel de pós-revisores, ao preencherem alguns fichinhas com os erros detectados. Só que apenas com o uso efectivo dos manuais é possível detectar a maior parte dos que existem.

Estou com preguiça, pelo que não vou em busca do meu exemplar vermelho, em inglês. Ficam aqui ligações para os textos online em português do Brasil e em inglês. Agora que dizem que me tornei extremista e desiludi certos sectores, é bom retornar à pureza das fontes.

A Lusa e muita comunicação social já escrevem letivo e seguem o Acordo Ortográfico, mas:

O Governo ainda não aprovou o vocabulário que será a norma do português europeu com o novo Acordo Ortográfico e a APEL não tem neste momento marcada qualquer reunião com o Ministério da Educação para acertar os pormenores necessários, nomeadamente os prazos para desenvolver o trabalho que lhe compete: colocar no mercado os livros escolares ao abrigo das novas regras.

Para além disso, só em 2011-12 se prevê a entrada em vigor do Acordo Ortográfico nas escolas e nos manuais escolares… sendo que, entretanto, este ano foram adoptados manuais em muitas disciplinas…

Goste-se ou não do Acordo, seria de esperar que a sua divulgação começasse exactamente… no sistema educativo…

Mas por cá começa primeiro na imprensa.

Ok.

Entendi-te!

Passo 1 – Lamentar o elevado nível de insucesso num dado ciclo de escolaridade.

Passo 2 – Identificar os alunos que, nesse ciclo de escolaridade, mais contribuem para os níveis de insucesso.

Passo 3 – Criar vias alternativas para esses alunos, retirando-os das turmas e percursos regulares desse nível de escolaridade e permitindo, por exemplo, que não façam exames.

Passo 4 – Calcular o nível de insucesso no percurso regular do ciclo de escolaridade em causa, sem esses alunos, e compará-lo com o obtido anteriormente, quando esse alunos eram contabilizados.

Passo 5 – Apresentar os progressos como resultado de uma acertada política educativa, se possível em conferência de imprensa com pauerpóintes.

Passo 6 – Comunicar esses dados à comunidade internacional, a começar pela OCDE.

(se precisarem de formação nesta área, não hesitem, posso disponibilizar uns sábados desde que pagos pela tabela da PT…)

Saiu hoje o despacho 22025/2009 sobre o procedimento de avaliação dos manuais escolares.

Há manuais que serão avaliados antes de ser adoptados, uma espécie de 1ª divisão dos manuais, a saber:

a) Matemática do 1.º, 3.º, 5.º e 7.º ano de escolaridade;
b) Estudo do Meio do 1.º ano de escolaridade;
c) Língua Estrangeira I (Inglês) do 5.ºano de escolaridade.

Depois há uma 2ª divisão, em que os manuais são avaliados já depois de adoptados, os quais são os seguinte:

10.2 — Serão submetidos ao procedimento de avaliação de manuais já adoptados, previsto no artigo 34.º da Lei n.º 47/2006, de 28 de Agosto, e no artigo 16.º do Decreto -Lei n.º 261/2007, de 17 de Julho, os manuais escolares das seguintes disciplinas a adoptar no ano lectivo de 2010 -2011:
a) Ciências da Natureza do 5.º ano de escolaridade;
b) História e Geografia de Portugal do 5.ºano de escolaridade;
c) Língua Portuguesa do 1.º, 5.º e 7.º ano de escolaridade;
d) Português e Matemática A dos cursos científico -humanísticos do 10.º ano de escolaridade.
10.3 — O procedimento de avaliação relativo aos manuais escolares previstos no número anterior deve estar concluído até às seguintes datas:
a) Até 28 de Fevereiro de 2011 para os manuais escolares de Língua Portuguesa do 1.º e 5.º ano de escolaridade, de Ciências da Natureza e História e Geografia de Portugal do 5.º ano de escolaridade;
b) Até 28 de Fevereiro de 2012 para os manuais escolares de Língua Portuguesa do 7.º ano de escolaridade e de Português e Matemática A dos cursos científico -humanísticos do 10.º ano de escolaridade.»

Vai ser interessante se a avaliação de alguns dos manuais mais populares for inferior à de outros, preteridos nas escolhas. Ou o que acontecerá aos manuais que tenham uma avaliação claramente abaixo do desejável. E isso saber-se-á, em alguns casos, mais de um ano depois de terem sido adoptados.

E há todo um imenso mundo do manuais que continuam por avaliar.

Eis o despacho n.º 16497/2009 que fica o montante a pagar aos avaliadores do manuais escolares

17 de Julho, determina -se o seguinte:
1 — A remuneração a atribuir aos membros das comissões de avaliação dos manuais escolares a que se refere o artigo 9.º da Lei n.º 47/2006, de 28 de Agosto, é fixada por manual escolar avaliado, da seguinte forma:
a) Coordenador da comissão de avaliação — € 1400;
b) Restantes membros da comissão de avaliação — € 900.

2 — Da aplicação do número anterior não pode resultar o montante global superior a € 5000 por manual avaliado.
30 de Junho de 2009. — O Ministro de Estado e das Finanças, Fernando
Teixeira dos Santos. — Pela Ministra da Educação, Jorge Miguel
de Melo Viana Pedreira, Secretário de Estado Adjunto e da Educação.

Não é nada mau, mas o que eu gostava mesmo era de saber os critérios de selecção dos avaliadores,a começar pelos coordenadores…

Porque o plafond de 5.000 € dá para cinco avaliadores por manual (!!!). Multipliquem-me lá isto pelo número de manuais em circulação…

Garanto-vos, acho que neste momento há muito autor de manual que preferia estar a certificá-los. Certamente ganharia mais…

Ao fim de quase quatro anos o ME já consegue estar a avaliar manuais de quatro (4) disciplinas.

IUPE!

Agora só falta avaliar os manuais das outras 20 ou 30.

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