Irreverências


A pilhéria só é saudável se não for estúpida, se não for parva e se não for imbecil.

Calem o Melício que há em vós.

Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.

O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.

[António Osório] Os Loucos

VINTE E UM MILHÕES traduzem algo.

.

.

.

.

.

.

.

Sacraste!!!!

Encontrado hoje em pseudo-edição fotocopiada por alguém que foi esperto mas, mesmo assim, prestou um bom serviço a quem teria de o ir consultar à BN que agora anda em acesso reduzido.

Em troca de dez euros, uma colecção de poesia chistosa que o nosso Buli certamente gostaria de usar na minha caixa de comentários em ocasiões especiais.

A edição original não está datada e está atribuída a uma tipografia parisiense, algo que muito duvido, pois mais me parece ter sido a forma de proteger os autores da malfeitoria.

Tornou-se recorrente o apelo a – perante tudo o que não tem funcionado – novas ideias, novas estratégias para a luta dos docentes.

Minhas amigas e meus amigos, os tempos não estão favoráveis para ganhos, apenas para limitação de estragos.

É nessa perspectiva que eu lanço daqui uma nova proposta de estratégia.

Assine-se logo de início um qualquer acordo e marque-se em seguida uma grandiosa manifestação para comemorar o ditoso acontecimento.

The Washington Post’s Dave Weigel Resigns Following Strange Semi-Scandal

Chega-me por mail a informação que numa escola, cuja identificação omito por opção pessoal e não por pedido, o prazo para a entrega dos Objectivos Individuais é a primeira semana do 3º período.

Eu acho inteligente. E ainda sobra algum tempo para a negociação dos ditos, caso isso seja indispensável, o que acho ser.

Mais ninguém pensou nisto? É que eu não conheço prazos legais para esta pseudo-fase do processo de ADD, portanto…

Chegaram por mail, via Francisco Trindade. Não os posso usar todos porque não lecciono Matemática. Bolas…

«—– De acordo com ponto 2 do Artigo 9.º do Decreto Regulamentar n.º 2/2008, (itens de referência para os objectivos individuais), passo a apresentar os meus objectivos e respectivas estratégias.

a) A melhoria dos resultados escolares dos alunos; Pretendo baixar o insucesso dos meus alunos, a matemática, de 25% para 20% . No ano anterior a turma tinha 20 alunos dos quais 5 tiveram insucesso (25 %); como este ano a turma aumentou para 25 alunos, se os mesmos 5 não obtiverem sucesso terei uma percentagem de insucesso de 20%. Estou de parabéns. (P.S: Não esquecer de pedir para voltarem a aumentar a turma para o próximo ano).
Estratégia II: não me aumentando a turma, e como o Ministério diz que não precisam de ter aproveitamento a matemática (podem transitar com nível 2 a duas ou três disciplinas), vou oferecer 2€ sempre que um aluno tenha
positiva num teste. (P.S: se 2 € não resultar terei de pensar em 5€ e já não vou de férias para a praia ).

b) A redução do abandono escolar;
Pretendo obter 4% de abandono escolar, que corresponde a 1 aluno cuja família é constituída por pais toxicodependentes;
Se durante o ano lectivo a avó materna que cuida de um dos alunos, por este ter sido abandonado pelos pais, vier a falecer (já tem 80 anos) ou ficar incapacitada de cuidar dele, comprometo-me a adoptá-lo para cumprir os
objectivos da minha avaliação;
Quanto aos que mudarem de residência sem efectuarem transferência, encarregar-me-ei de descobrir a nova morada e contactá-los pessoalmente para que assinem os papéis da transferência (P.S: espero que nenhum dos
ucranianos regressem ao seu país pois a 5€ por positiva, não vou poder ir à terra deles tratar dos papéis);

c) A prestação de apoio à aprendizagem dos alunos incluindo aqueles com dificuldades de aprendizagem;
Comprometo-me a prestar apoio a todos explicando individualmente a matéria que tinham que estudar e resolvendo os exercícios que tinham para TPC, mas que não fizeram pois como me disseram “tenho mais que fazer que ir para casa fazer TPC’s”; (P.S: 90 min de aula a dividir por 25 alunos dá 3,6 min a cada um; será que aquela programação de matemática que previa 8 aulas para uma unidade contou com este tempo?);

d) A participação nas estruturas de orientação educativa e dos órgãos de gestão do agrupamento ou escola não agrupada;
Como não sou titular só poderei ser director de turma, o que farei se me atribuírem o cargo (que remédio); (P.S: se não me derem o cargo de DT será que ficarei em falta? Se calhar é melhor pedir para, por favor!, por favor!,
me darem o cargo);

e) A relação com a comunidade
Proponho-me a estabelecer boas relações com a comunidade, não reagindo se for insultado ou agredido por alunos ou EE.
Não sei se é com a escolar se é com a local por isso pelo sim pelo não estou a pensar organizar uma recepção, com buffet claro, a todos os alunos e EE e convidar também os elementos da Junta de Freguesia (P.S.: se não me deixarem fazer a recepção na escola tenho de alugar um espaço;

NOTA: se alugar o espaço à Junta até estou a contribuir para as boas relações, pois uma rendazita é sempre bem vinda para a autarquia).

Agora não posso pensar em mais itens; a minha mulher está-me a chamar para atender um aluno que tem os pais desempregados e veio cá a casa buscar umas merceariazitas, enquanto não chega o subsídio de desemprego. É que a mãe já me disse que na situação em que se encontram, não tem dinheiro para mandar o miúdo à escola, mas eu não posso aumentar a taxa de abandono…

Recebi há pouco tempo por mail esta produção/montagem que, para ser apreciada, deve ser vista e ouvida até ao fim. Realmente já se antevia que os últimos acontecimentos e declarações acabariam por despertar a veia satírica de amadores e profissionais.

Agora resta-me ver se os Gato Fedorento hoje também entrarão por territórios destes.

Adenda: E também já está no Youtube. Isto anda mais depressa do que o vento.

No sítio do costume, lá depositei a carta aberta desta semana do Comendador Marques de Correia (revista Única do Expresso) que nos introduz no conhecimento do Prof. Jean Desgrandes Baldás, alguém que bem poderia ser um exemplo para o progresso da nossa Educação.

Realmente, quando até a ficção se sente ultrapassada pela nossa realidade, algo haverá de estranho no meio de tudo isto.

Não são os Gato Fedorento (de quem espero anisosamente que estejam disponíveis online dois dos sketches de ontem), mas apanharam mais ou menos a essência da coisa.

Agradecendo a referência ao Miguel Latas do Livre de Ponto

 

O Ministério da Educação está a preparar um novo programa de língua gestual portuguesa como língua materna, no âmbito de um decreto-lei que vai ainda determinar que os professores deverão ser, preferencialmente, surdos. (Diário de Notícias)

O assunto é sério, mas tanto a forma como está escrita a notícia como o próprio detalhe do concurso, para o qual falta o decreto-lei que vai determinar quem pode concorrer, sendo que estamos em idos de Setembro, têm a sua graça, lá isso têm.

Entretanto, pelos meus lados, uma colega anda a tentar encontrar um dicionário simples e prático de português-ucraniano-português (há uns mas parece que só para quepara poder comunicar com uma aluna que pura e simplesmente não chegou a Portugal ao tempo suficiente para se expressar na língua de Camões melhor do que 80% dos alunos indígenas. Normalmente demoram três a cinco meses, mas até lá fazia falta comunicarmos com ela para acelerar o processo. Há este, mas é carote e aquelas letras estranhas do alfabeto cirílico são difíceis de perceber como tudo

Porque a América fica aqui tão perto…  É só ouvir George Carlin com atenção.

duo.jpg

Experimentem também o Bubblesnaps, pois no original até mexem (as bolhas, claro).

Da Visão, em peça (p. 122) a propósito do prémio de Palerma do Ano, desculpem, Professor do Ano (embora esta designação me pareça algo machista e discriminatória):

E o que faz um bom professor? António Nóvoa, 52 anos, reitor da Universidade de Lisboa e membro do júri do prémio, arrisca: deve ter conhecimento, «munir-se de tacto pedagógico e mostrar responsabilidade profissional», aliando a «reflexão sobre a experiência» com o «trabalho em equipa». E ainda ser capaz de um «compromisso social» com os valores, a inclusão social, a diversidade cultural».

Disclaimer: Para que conste, e para evitar reparos laterais como os que já aconteceram há tempos por parte de um ex-comentador assíduo do Umbigo, o professor António Nóvoa foi formalmente o presidente do júri (embora substituído no acto propriamente dito) do meu doutoramento. Acho que isso não é impeditivo de eu o citar, como agora faço, de forma algo divertida, até concordando com tudo aquilo que afirma.

tomates.png

O Umbigo foi nomeado para o prémio Blog com Tomates, pelo que devo também nomear alguns daqueles que considero ser dos blogues que, exibindo um bom par de solanáceas, também exibem o belo do neurónio. Vamos lá, que há mais, mas hoje fico por um quarteto de cordas:

Agora só espero que o prémio seja do bom e do melhor.

Eu sinceramente acho que este pedaço de auto-congratulação pública até dispensava o acrescento final pelos fedorentos. Aquilo em si já é suficientemete ridículo.

Não é o clássico dos clássicos, “Como desmentir um desmentido“, mas é da mesma obra e do mesmo calibre. Pode servir para uma refundação da Independente ou mesmo para um plano de estudos de alguém que precise de ajuntar prestígio ao currículo. Um excerto pois do:eco.jpg

Projecto para uma Universidade da Insignificância Comparada

Departamento de Oximórica

Urbanística cigana
Enologia muçulmana
Fonética do filme mudo
Iconologia Braille
Instituições da Revolução
Línguas franco-germânicas
Linguas uralo-melanésias
Línguas ogro-romanas
Hidrografia selenítica
Dinâmica parmenidiana
Estática heraclitiana
Oceanografia tibetana
Microscopia sideral
Oftamologia gástrica
Bizantinismo suiço
Códigos da infracção
Instituições da aristocracia de massas
Instituições da oligarquia popular
História das tradições inovadoras
Dialéctica tautológica
Erística booleana
(U. Eco, Comment voyager avec un saumon, p. 256)

prim2.jpgDe há 25 anos para cá que as séries televisivas Yes, Minister e Yes, Prime Minister são referências obrigatórias para toda a aminha tentativa de análise política.

Quanto aos dois volumes extraídos da segunda série são para mim como uma Bíblia que estimo e preservo desde que foram editados entre nós há cerca de 20 anos.

Sobre a Educação, o 2º volume tem um capítulo memorável onde podemos entre o volúvel e honourable James Hacker, o notável secretário permanente Humphrey Appleby e o circunspecto e literal secretário particular Bernard Woolley encontrar o mais rico sortido de citações, para os mais variados gostos e perspectivas, sobre tudo o que envolve e vicia o sistema educativo. Eu escolhi esta, um pouco longa, que inverte um pouco a nossa lógica da relação entre ministro e funcionário:

Humphrey recusava-se basicamente a admitir que o nosso sistema educativo era um desastre. Disse-lhe:
– As crianças aprendem disparates subversivos. Reina uma indisciplina toral nas salas de aula.
Humphrey não aceitava a verdade. Continuava a esgrimir argumentos baratos. por exemplo:
– Se reina a indisciplina total nas salas de aula, não sabem sequer que lhes estão a ensinar disparates subversivos. E de certeza que não os aprendem. De qualquer maneira, nenhuma cirança com dignidade acredita numa palavra do que o professor lhe diz.
Estava a ficar seriamente irritado com estas respostas gozonas e indignas.
– Nós temos a obrigação de os educar para a vida de trabalho e, durante tr~es quartos do tempo, eles sentem-se mortalmente aborrecidos.
– Pensava que passarem três quartos do tempo mortalmente aborrecidos era uma excelente preparação para a vida de trabalho – foi a resposta irreverente que deu.
– Humphrey – disse eu, com firmeza – elevámos a idade em que podiam abandonar a escola para dezasseis anos, a fim de que aprendessem mais. E estão a aprender cada vez menos.
De repente, deu-me uma resposta séria.
– Não elevámos a idade em que podiam abandonar a escola para permitir que aprendessem mais. Fizemo-lo para manter os adolescentes do mercado de trabalho e baixar os númros relativos ao desemprego.
Tinha razão.
Mas não queria meter-me nisso. Voltei ao resto da questão. perguntei-lhe se estava a tentar dizer-me que não havia nada de errado no nosso sistema educativo.
– Claro que não estou, senhor Primeiro-Ministro. É uma anedota. Sempre foi uma anedota. Enquanto estiver nas mãos dos vereadores, continuará a ser uma anedota. De qualquer maneira, cinquenta por cento deles são nossos inimigos. E os outros cinquenta por cento são o tipo de amigos que preferiríamos ter como inimigos.
Percebi finalmente qual a posição dele. Entende que a educação não vai melhorar enquanto estiver sujeita a todas aquelas futilidades parvas das câmaras. Comentou, aliás com razão, que nunca entregaríamos um assunto importante como a defesa ao poder local – se déssemos 100 milhões de libras a cada câmara municipal e disséssemos que nos defendesse, poderíamos deixar de nos preocupar com os Russos, teríamos uma guerra civil em três semanas. (Jonathan Lyn e Anthony Jay, Sim Senhor Primeiro-Ministro, 2º volume, pp. 248-249)

Página seguinte »