Investigação


Fica aqui o ficheiro: StageII_ResultsAfterEvaluation-locked-221214.

E acho isso não apenas quando a desdita me cai na sopa, como está a acontecer aos investigadores na sua disputa com a FCT e o MEC.

Eu sei que fica bem mostrar solidariedade e fingir que não me lembro de como a maior parte deles achou que o mecanismo de limitação da avaliação dos professorzecos até era justo ou, no mínimo, que não merecia sequer especial atenção por parte da douta classe a que pertencem.

Pois, mas eu tenho memória e por muito que ache justa a sua causa, seria hipócrita se não relembrasse que a sua solidariedade foi nula quando queimaram uma casa que não era a deles e que achavam ser localizada num bairro pobre, da periferia.

Não perceberam que a seguir iriam em busca de quem se sentia num boulevard de primeira.

Se assim se mata a investigação? Não se matará, mas amputará seriamente, como se amputou o trabalho dos professores não superiores, enquanto muita gente assobiava para o lado, quando não aplaudia o “princípio”.

Sorry.

Luta justa, uma enorme falta de visão e de solidariedade em devido tempo.

 

O artigo revela uma evolução muito parecida, embora bem mais lenta, em grande parte devido à maior proximidade pessoal, à que eu senti.

Como cheguei a dizer a muitas pessoas, incluindo o próprio CF, a demolição  Ensino Básico que o actual MEC continuou, acabaria por atingir todo o edifício, sendo que o patamar da Ciência e da Investigação foi apenas o último a ser atingido.

Porque aquela distinção entre “Educação” e “Ciência” desvanece-se perante a real politik do desvario economicista. O desprezo pelos “professorzecos” transfere-se muito rapidamente para os “investigadores” em qualquer aprendiz de piresdelima.

O pior do Crato

Este não é o Nuno Crato que eu conheci, mas sim um membro de um governo sem qualquer sentido da res publica.

The European Educational Space: New Fabrications

The Dark Power of Fraternities

A yearlong investigation of Greek houses reveals their endemic, lurid, and sometimes tragic problems—and a sophisticated system for shifting the blame.

Algumas notas quezilentas sobre “A Ciência em Crise”

A minha posição sobre a grande polémica em torno de algumas centenas ou mesmo um milhar ou dois de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento está longe de ser consensual ou pacífica.

Vou resumi-la desde já, deixando para depois as deambulações mais ou menos confessionais e sublinhando que conheço melhor o que se passa na área das humanidades ou ciências sociais, aquela que agora anda a levar mais pela medida grossa com o argumento da sua inutilidade prática:

  • Qualquer país vagamente desenvolvido necessita de ter um nível aceitável de apoio à investigação ou I&D, pura ou aplicada, o qual não pode ser definido por um qualquer ministro da economia de casca grossa e visões tacanhas. Sem essa investigação, mesmo a meramente teórica ou especulativa, não há país que consiga desenvolver um verdadeiro espírito de inovação e verdadeiro empreendedorismo (que na sua verdadeira acepção está longe de ser a de fundadores de negócios de ocasião). A investigação é estruturante neste nosso mundo mais que pós-moderno (desculpem lá a passagem de conversa fiada).
  • Em Portugal, o sector da Ciência tem funcionado desde que me lembro (vou a meados de 80 do século XX) como o resto do país, em larga medida (mesmo se não em exclusivo) na base da cunha, do conhecimento, da palavrinha certa à pessoa certa, da reverência, do clientelismo, do nepotismo, das capelinhas, da prostituição intelectual (até de quem se afirma contra isso, que eu bem os vi…), do favorzinho, do olha lá o meu filho que gostava tanto de ir para oxford fazer uns estudos. Quando houve dinheiro expandiu-se o sistema e houve sobras para além das redes clientelares habituais (de várias cores, mesmo se com inclinação para os círculos dependentes dos gurus da mesma geração, a de 60) e aumentaram em termos quantitativos os apoios. Mas nunca houve uma política que olhasse mesmo mais longe do que a quantidade, o número de publicações (quantas vezes nulas) em revistas nacionais e internacionais com peer review (um raio de sistema que entre nós é endogâmico até à medula), o número de comunicações, o número de eventos realizados em amena co-confraternização dos do costume.
  • Uma revisão deste estado de coisas deve ser fazer-se com base na alteração dos procedimentos e não apenas na base dos cortes ou rotação das clientelas preferenciais. A definição de uma estratégia desse tipo não pode ser unipessoal (o modelo mariano gago é muito elogiado porque serviu bem a quem se serviu e viveu dele), nem pode depender de júris ou painéis com interesses directos ou indirectos nos circuitos de distribuição de verbas. É anedótico ver grupos de “especialistas” a decidir o destino de projectos que acarinharam meses antes ou a avaliar centros de investigação a que pertenceram ou onde estão os seus amigos de sempre. E encomendar especialistas estrangeiros que se conheceram em congressos, em casa de quem se ficou naquelas férias, com quem se partilharam publicações e convites não altera a essência das coisas. A mudança de procedimentos deve começar a partir de cima e não se limitar a substituir os isczés pelos católicos, certo?

Dito isto…

Acho que muitos dos inflamados neste debate são parecidos com aqueles encenadores de teatro, realizadores de cinema ou artistas que fazem um berreiro monumental quanto ao estado das coisas, até ao momento nem que conseguem o que querem, mesmo que seja à custa do borda fora de outro seu equivalente. Basta redireccionar – recalibrar? – os apoios e toda a gente se esquece do que denunciara meses antes.

E esse é o erro maior daqueles que sempre apostaram na proximidade pessoal com o poder para poderem manter os seus mini-feudos concêntricos apoiados pelo bondoso suserano. Como é dos que criticam agora um estado de coisas de que beneficiaram e acerca do qual numa abriram a boca quando recebiam a devida tranche.

Os espadas&ramos beneficiaram longamente do sistema que agora dizer ser uma miséria que apoiou projectos inúteis para o desenvolvimento do país. Mas, enquanto os outros mandavam, voavam baixinho e faziam uma objecção de consciência muito interiorizada à tertúlia dos amigos que também ganhavam bolsas contra as quais estariam.

Vou ser muito claro (i shall say this only once… more): nunca recebi um tostão ou cêntimo da FCT ou da JNICT, embora desde cedo soubesse como poderia inverter decisões desfavoráveis. Em devido tempo, um professor de mestrado explicou-me como, ainda em alturas de Cavaco como PM, se resolviam estas coisas. A obediência certa, a fidelidade adequada, a postura adequadamente flexível e uma palavra certa seria dada ao [nome de alguém que todos conheciam e conhecem] e quase tudo se resolveria a contento. Pelo contrário, tive apoio a algumas investigações ou trabalhos por parte de fundações privadas, em especial as que gerem maioritariamente o seu próprio dinheiro, mesmo se nem sempre de acordo com o solicitado ou necessário, pois o braço longo da mediocridade é ainda mais tentacular do que se pensa. Na área, por exemplo, dos Descobrimentos, em que o desaparecimento de Luís de Albuquerque fez florescer um punhado de ineptos em posições-chave (e nem me falem da Contemporânea ou sou fuzilado ainda este fim de semana) só se conseguia alguma coisa ou na base da vénia ou base do confronto pessoal, in your face, das aldrabices conhecidas.

Mas isso não significa que ache que a FCT deve acabar, ser instrumentalizada, esvaziado o seu funcionamento ou tratada como qualquer empresa pública em processo de privatização, em que se colocam os amigos a substituir os amigos dos outros, se despedem os mexilhões e se afirma que se está a defender a “qualidade” quando quem avalia essa qualidade não a reconheceria nem que fosse num elevador de 2 lugares com ela (a qualidade) da cave ao 100º andar.

Os dinheiros públicos devem ser geridos de forma transparente e com critérios que não mudam a meio dos processos, às escondidas, de modo arbitrário.

Como estou numa de mau feitio… assim como acho que Fundações privadas quase exclusivamente financiadas por dinheiros públicos se devem nortear pelos mesmos princípios de transparência e não das conveniências ou humores das suas cliques particulares. Esta veio-me à cabeça por ter sabido até que ponto uma dessas Fundações andou a empatar a cedência de imagens (digitalizadas com dinheiros públicos) a um organismo público sem razão aparente que não o eventual desamor do decisor em relação ao autor do estudo.

Porque há que perceber uma coisa simples: as fundações públicas ou com dinheiros quase exclusivamente públicos devem nortear-se pela clareza de procedimentos e critérios. As que gerem principalmente dinheiros privados (Gulbenkian, Oriente, FFMS, etc) é que são livres para fazer com eles o que bem entendem pois não os foram buscar ao Estado e ao dinheiro de todos nós. As outras… tal como qualquer boa escola privada com contrato de associação – deverão seguir regras iguais ou próximas às do sector público e deixarem-se de truques.

(e nem vou aqui falar da FLAD para onde foram, no passado recente e agora, pessoas que estão com um pé aqui e outro ali, como antes deles estiveram outr@s, a meter-se na distribuição de todo o tipo de verbas e apoios, públicos e privados)

Portanto… em relação à “Ciência em Crise” seria bem bom que as partes em confronto, que até há um par de anos conviviam tão bem sob o mesmo tecto, se deixem de tretas e confessem que o que está em causa é quem fica por cima, quem fica por baixo e quem é atirado para fora da cama.

São poucos os que me parecem interessados em mudar o que interessa: os procedimentos.

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