Guerra


… mesmo que alguns fofinhos estejam à espera de desculpa para negociar e ganhar nada de concreto.

Exp8Jun13

Expresso, 8 de Julho de 2013

confirmada pelo Arlindo, aguardo pela capacidade da ressuscitada Plataforma Sindical conseguir o apoio, ou pelo menos a compreensão tácita, da Confap e CNIPE em relação à luta dos professores como componente da defesa dos interesses dos alunos e não apenas da causa específica da mobilidade docente que não diz grande coisa, por exemplo, aos professores contratados ou a quem se sente abrigado e pouco convicto.

Aguardo ainda pelos resultados da abordagem que certamente a dita Plataforma fará à ANDAEP e ANDE para as sensibilizar para a mesma causa. Sem o apoio activo da maioria dos directores (excluo os agnelos da equação) dificilmente a greve conseguirá ter impacto perante uma requisição civil. O que poderia deixar todos satisfeitos, excepto os mexilhões do costume.

Em tempo explicarei porquê, quiçá de viva voz.

Já agora… por uma vez faria sentido uma greve conjunta com a administração pública central e local. Espero que consigam perceber porquê, porque se não perceberem… é porque isto é tudo fogo de artifício e a luta não é uma guerra a sério, mas apenas um torneio floral em que ao MEC basta despachar um par de documentos para esvaziar (quase) tudo.

mas é claro que tudo isto está já a ser feito.

A entrevista de Sofia Galvão ao suplemento Dinheiro Vivo do DN de hoje merece ser lida por todos aqueles que desejem estar informados sobre o plano A deste governo para o país, aquele plano que existiu desde sempre nas tertúlias de auto-nomeados jovens liberais empreendedores que orbitam em torno da actual liderança do PSD.

Declaro desde já que, em termos pessoais, os escassos contactos que tive com Sofia Galvão por ocasião daquele debate no palácio Foz, foram bastante cordiais e que ela fez o possível para que as conclusões na área da Educação fossem vagamente equilibradas e não um panfleto de um grupo de interesses que estava ali para mimar os secretários de Estado que conhecem dos tempos da Faculdade.

Mas, dito isso, dificilmente encontraria alguém que expressasse de forma tão completa e articulada um pensamento sobre o mundo e o país do qual estou em completo desacordo.

E não estou em desacordo por questões apenas de “ideologia política” mas sim, e mais profundamente, por questões de “ideologia de vida” e de análise do trajecto do nosso país.

Para Sofia Galvão todos os valores que geraram alargados consensos sociais e políticos entre nós são relativos e conjunturais, dependendo da contabilidade do dinheiro que sobre dos negócios do BPN, BPP, para falar dos falidos, e do Banif e BCP, para falar dos que o Estado vai impedindo de falir, mesmo que com isso arrase a CGD e o Orçamento de Estado. Um chumbo que representa mil milhões de euros é pretexto para demolir conquistas sociais, mas não para estancar o oleoduto de verbas enterradas nos ruinosos negócios do grande Centrão. Relembremos que há pouco mais de 3 meses só o Banif levou mais dinheiro do que o montante real das medidas chumbadas pelo Tribunal de Contas.

Para além disso, Sofia Galvão acha que nos devemos comprar com os países de Leste da Europa, os que saíram de ditaduras de matriz comunista há 20 anos ou pouco mais, quando nós já estávamos integrados na CEE e com um regime democrático há quase duas décadas.

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Sofia Galvão esquece-se de duas coisas, que acredito de somenos para a elite que despreza a História:

  • Quem desperdiçou os pletóricos dinheiros europeus na segunda metade dos anos 80 e nos anos 90 foram muitos daqueles que agora querem passar por salvadores da Pátria e grandes gurus. É agarrar em qualque manifesto de economistas ou liberais e traçar-lhes o currículo de encostanço aos Estado que dizem ser gordo e aos subsídios que renegam para os mais carenciados. Não adianta comparar um PREC de menos de um ano com ditaduras de mais de 40 na Polónia, Roménia ou Bulgária. É desonesto.
  • É no quadrante político de Sofia Galvão que existem diversos intelectuais de alegado grande gabarito que afirmam ter sido o Estado Novo uma ditadura benigna e o período dos anos 60 e depois do marcelismo uma época de desenvolvimento económico e início de uma convergência com a Europa, como que antecipando (via ligações à EFTA) a posterior adesão à CEE. Já sei que se falar nas teses de Rui Ramos vão achar que eu estou a embirrar com o homem, mas nem é preciso ir ao grande guru da nossa direita inteligente para encontrar muitos outros (que transitaram da blogosfera para os gabinetes do PM, d’o relvas e de mais alguns) que defendem essa teoria que inviabiliza a comparação agora ensaiada por Sofia Galvão para nos equiparar à Ucrânia, ao Kosovo ou à Letónia.

A verdade é que Sofia Galvão pertence a um grupo de liberais poedeiros de teorias, que não conseguem sentir-se bem no país em que vivem, a menos que o país os considere uma espécie de casta superior, iluminada, sobredotada, que tem o poder e a capacidade de definir quem deve ter direito ao quê, com base nos números falhados de um ministro incompetente e em relatórios feitos por encomenda e com guião a amigos de instituições internacionais escolhidas a dedo.

Sofia Galvão deveria, antes de debitar quem precisa ou não disto ou daquilo, deveria colocar diante de nós os interesses que defende e o que tem ganho, ou não, o escritório de que faz parte em contratos com o Estado e para fazer o quê, já que diz que há funcionários públicos a mais e dinheiro a menos para lhes pagar.

Porque eu gosto de ser claro nestas coisas: quem dá lições de moralidade e cidadania deve, em primeiro lugar, dar o exemplo. Porque se não há dinheiro para pagar a escolaridade que o seu partido votou ser obrigatória também não há para pagar estudos e pareceres aos gabinetes dos amigos.

Se isto é demagógico da minha parte? Olhem que não, olhem que não…

Os velhos. Os velhos são uma chatice para este governo de jovens liberais com a minha idade ou mais, de permeio com tipos já com currículo de trintões. Isto para não falar nos andropáusicos teóricos da casta que parecem não ter espelhos em causa e sobre os quais vou poupar o sarcasmo, que me correria com extrema facilidade, atendendo a tudo o que se vai ouvindo e sabendo.

Concentremo-nos naqueles que, como um certo idiota, desculpem, imbecil, desculpem de novo, jovem político do PSD que tratou os idosos como sendo uma espécie de peste, insurgindo-se contra o encargo que eles são para o pobre Estado que, assim, fica menos liberto para apoiar os banqueiros não grisalhos na base do Petróleo Olex ou parecido.

Os velhos são chatos porque adoecem, porque usam o SNS, porque gostam de comprar medicamentos comparticipados, porque têm doenças crónicas, porque querem fazer análises ao sangue e ao xixi de 24 horas, porque recebem reforma após 40 anos de trabalho, porque, porque, porque, porque…

E agora há ainda os velhos precoces… aqueles que ainda trabalham e que, aos 55 ou 60 anos, ainda se sentem em condições de receber um salários, que não gostam de os ver cortados só porque o gaspar falhou outra vez as contas estocásticas, e que o ministro Relvas considera instalados e os restantes idiotas alaranjados ou azulados acham que são uns privilegiados porque têm trabalho e não dão lugar aos jovens.

Porque, como se sabe de acordo com a teoria económica do café na esquina ali do Campo Grande, os jovens só poderão sair do desemprego se os velhos desaparecerem dos locais de trabalho e, se possível, sem receberem subsídio de desemprego ou reforma.

Porque, como se sabe, a Economia funciona na base da substituição de trabalhadores nas mesmas funções e não na criação de empregos. Isso são ideias esquerdistas, do tipo-PREC, quiçá rooseveltianas.

Porque, como todos sabemos, em especial os liberais de aviário, os velhos são uma peste, conspiram contra o interesse nacional e devem ser exterminados ou abandonados à sua sorte, a menos que queiram praticar o voluntariado em troca de pão, água e uma enxerga lavada a cada bimestre. A menos que seja um catroga, pois nesse caso deixamo-lo lambuzar-se com um tacho escolhido para compensar o beicinho de não ser gaspar em vez do gaspar. Ou então se for um ulrico ou um salgado e nesse caso espera-se que seja ele a dar-nos(lhes) um tacho para se lambuzarem depois de fazerem tirocínio de secretário de estado rosélino ou ministro de vespa. Ou assessorando, ou consultando ou especializando pelos gabinetes.

Como todos sabemos, os velhos já não são o que eram quando se reformavam aos 65 e morriam logo a seguir, ali de forma estrondosa com a bendita trombose ou o adequado ataque cardíaco fulminante, abençoados que eram. Agora dignam-se viver mais uns anitos, têm esperança de vida, mas o raio é que têm catarro, gota, maleitas daquelas neurológicas e outras ortopédicas, artroses e ateroscleroses. Têm tremeliques e as famílias, mesmo dos proletas, querem cuidados paliativos como se fossem gente rica e pudessem pagar, que isto do Estado Social não é coisa para todos, pois há que pagar os desfalques do Oliveira e Costa e não mugir, ou melhor, há quem munja (o leitinho da teta gorda do Estado em subsídio) e quem muja (porque agora vais despedido e levas meio tostão de mel mal coado).

Portugal está cheio de velhos e este mundo não é para velhos. Este mundo é para jovens relvettes ou para borginhos de proveta, gente empreendedora que saca dinheiros ao Álvaro enquanto janta e que acha que a sociedade está cheia de parasitas, sendo os mais parasitas de todos esses idosos sem vergonha na cara que tanto exigem ao pobre Estado, como se só pensassem no egoísmo que é manter-se vivos.

Porque, como todos sabemos, a população portuguesa está envelhecida.

Não porque a decisão racional das famílias, perante o corte dos rendimentos e apoio à natalidade, seja racionalizar a descendência numa compreensível estratégia neo-maltusiana. Racionalizar só se for nos serviços do Estado.

Não porque o incitamento à emigração pelo pedro & miguel, a dupla sertaneja do momento, leve à redução da população jovem e em idade fértil no país, agravando ainda mais a baixa natalidade.

Claro que o envelhecimento da população é causado, única e exclusivamente, porque o raio dos velhos insistem em viver cada vez mais e em resistirem às doenças que antes – nos bons velhos tempos – os matavam que nem tordos, benzós Deus que Deus nessa altura andava mais atento na ceifa.

E depois fica aquele problema, curioso, digno de meia dúzia de teses bolonhesas de uns filhos d’algo com passeio por universidades amaricanas para verem as salas de leitura e o verdejo dos campus, que é querer, ao mesmo tempo, que as pessoas se reformem mais tarde, para alargar a carreira contributiva, enquanto dão lugar aos mais novos, abdicando do seu vergonhoso privilégio de trabalhar, para combater o desemprego jovem.

A solução para isto passa, claro, por um guião para a juventude saber ser jovem e ir para a ingricultura (a Cristas, coitada, não percebe da poda, só do resto) ou quiçá para a pesca à linha.

Que, feito a mando do ministro Relvas, é o equivalente (com certificado) ao pior dos sketches dos Malucos do Riso. Ou à tirada mais clearasil dos morangos açucarados.

Porque com o Relvas a guiar, já sabemos, é meio caminho para o despachanço….

… ou não.

Tomemos o caso do famigerado Estado Social, aquele que alguns abominam porque está para lá das funções naturais de um Estado medieval, quiçá renascentista, porque contempla outras missões de redistribuição das colheitas fiscais para além da segurança, defesa, justiça e mais fisco.

Por comodidade de análise, deixemos agora de lado a questão da Saúde, falada que foi a da Educação em post anterior.

Concentremo-nos nas chamadas “prestações sociais” que se resumem ao abono de família ou a subsídios como o de maternidade, de desemprego, com o seu subsidiário rendimento social de inserção,  e a aposentação.

Correspondem, no fundo, a incentivos do Estado à maternidade, a apoios a pessoas em situação de privação de emprego ou forte vulnerabilidade económica e às reformas para quem atingiu a idade legalmente definida como limite para trabalhar de forma produtiva, sem colocar em causa a sua saúde ou qualidade de vida. Sei que estas não são as definições oficiais, mas fiquemo-nos assim.

O princípio básico é que, na sua missão (contestada por muitos ou alguns) de regulação e redistribuição da riqueza gerada num país, o Estado deve proteger os mais desfavorecidos e apoiar, no caso da família, políticas natalistas destinadas a uma eficaz reprodução geracional de forma a evitar um acentuado envelhecimento da população.

Faz parte da lógica do sistema que os apoios de tipo social são menos necessários em situações de desenvolvimento económico, baixo desemprego e aumento geral do nível de vida da população. Aumentam quando existe crise económica, forte desemprego e quebra acentuada do nível de vida da população.

A que assistimos nós nos últimos anos, com a desculpa da crise internacional a agravar a incompetente governação interna dos últimos 20 anos? A políticas activas de destruição do emprego, ao que parece na base de uma crença teórico-irracional no mito da destruição criadora do capitalismo e da sobrevivência dos mais fortes, com o consequente aumento da pobreza e das situações de desprotecção social e, em complemento, perante os consequentes encargos do tal Estado Social, a restrições às tais prestações sociais com o argumento da falta de recursos.

Ou seja, o Estado que, através de política erradas do ponto de vista fiscal e de desinvestimento público, agrava as situações que implicam encargos de tipo social, queixa-se desse aumento, acusando as vítimas do processo de serem os seus agentes. Nada como, levando muita gente ao desemprego, depois lhes negar qualquer apoio. Como se as pessoas buscassem o desemprego e a pobreza, em busca da caridade-jonet ou do encostanço ao Estado, praticado numa escala infinitesimal por comparação aos salgados e ulricos e respectivas descendências.

Não é racional e roça mesmo a pura estupidez que exista quem considere – à moda de um Mitt Romney com o passado bem conhecido de destruição nada criadora da Bain Capital- que há pessoas que acham só ter direitos à custa do Estado, quando isso não passa de meras migalhas por comparação aos grandes negócios feitos com prejuízo evidente para a coisa pública como o recente prejuízo de 650 milhões de euros com as acções da EDP ou a injecção de muitos mil milhões em instituições bancárias geridas de forma desastrada e desastrosa. Quem assim age são aqueles que, filhos de algo e com uma ideia qualquer na cabeça para uma start-up que durará menos de um par de anos, usam os conhecimentos e relações familiares para conseguir subsídios ou apoios de milhões junto do Estado cuja obesidade tanto criticam.

É do domínio da obscenidade moral ver fedelhos de dupla consoante e apelido copulativo mamarem à tripa forra milhões, ao mesmo tempo que chamam parasitas a quem recebe 200 ou 300 euros de um qualquer subsídio resultante de situação de extrema pobreza.

Se até há pouco isso era evidente em muita opinião publicada e em vários teóricos de um Estado Liberal, nos últimos dois anos tornou-se prática governativa corrente: negar apoio mitigado aos mais desfavorecidos para entregar e enterrar muitíssimo, sem refilar, para encobrir os falhanços de gestão daqueles que se consideram as luminárias do empreendedorismo nacional.

O actual Governo agravou um divórcio profundo entre governantes e governados, culpando estes pelos insucessos daqueles sem qualquer pudor e fazendo-os pagar pelos seus sucessivos erros de cálculo e de implementação das suas medidas, apesar dos repetidos avisos sobre os equívocos em que assentavam.

Para estes governantes, os desempregados são responsáveis pelo seu desemprego, mas os grandes financeiros são inocentes pelos buracos sucessivos que se vão tapando com os impostos recolhidos junto daqueles que ainda conseguem ter emprego.

Para estes governantes, os funcionários públicos são uma espécie de malfeitores privilegiados que contam como despesa e encargo, fingindo não perceber que custam bem menos e produzem mais do que as sucessivas PPP que tanto lucro foram dando as ex-governantes.

Para estes governantes, os portugueses devem emigrar, devem sair da zona de conforto que deve ficar reservada para consultores, assessores, chefias com cartão partidário e gente que ganha a vida a gerir dívida ou a aconselhar a delapidação dos bens públicos.

Estes governantes, como os anteriores, desgostam do país e dos portugueses, pelo que me parece ser missão patriótica fazer com eles o que foi feito com os outros, se possível com bilhete de ida sem volta para um destino mais longínquo do que Paris ou as comissões e secretariados do Partido do Seguro.

Porque os medíocres relvas ou os sobredotados gaspares estão unidos numa visceral desafeição pela maioria dos portugueses, esse povo que eles gostariam que fosse outro, se bem que a um agradasse mais o saracoteio tropical do que a sobriedade teutónica.

Ao contrário do que afirmam, não é o Estado Social que arruína o país. São eles. E é tempo de agir em conformidade.

Passemos ao caso da Educação. Ao sector que parece congregar maior aversão, e não apenas no que se refere a tudo o que cheire a professor e apesar dos desmentidos, neste Governo e no anterior, incluindo nos mais directos conselheiros e decisores na área, só assim se explicando o desejo de contrair praticamente para metade o orçamento para o Ensino Não Superior em 2-3 anos e achar-se que isso é muito bom, pois durante um período de tempo curtíssimo gastámos acima da média.

Comecemos pelos secretários de Estado, sendo de merecida justiça que ignoremos a da Ciência e o do Ensino Superior porque não há provas de existam fora do organigrama do governo. O que até poderia ser bom, se significasse uma governação consensual, discreta, eficaz, nos seus sectores. ora, pelo que se nota, nada disso se passa e os reitores e investigadores parecem tratar directamente dos seus assuntos com o ministro, sendo a única área em que Nuno Crato parece genuinamente interessado em evitar problemas e conflitos. Talvez por se sentir inter-pares.

Sobre o SE Casanova de Almeida também é justo que nos detenhamos pouco tempo pois não é do conhecimento público qualquer ideia sua sobre Educação, antes ou depois de ter assumido o cargo. Dizem-me que é óptimo no trato e que consegue amenizar situações de tensão e gerar consensos em torno de soluções vazias de conteúdo ou meramente más, como foi o caso do Estatuto do Aluno. Poderia googlar qualquer coisa em busca de contra-prova mas julgo que seria perder, inutilmente, alguns segundos da minha vida, que em termos cósmicos tem uma duração infinitamente pequena e não deve desperdiçar-se em actos sem sentido.

Sobre o actual SE Gracho, que substitui a escolha mais caricata desde a ex-ministra Maria do Carmo Seabra na área da Educação, sempre tive uma opinião favorável por ser alguém com ideias e posições que, mesmo que discordemos delas, tinham alguma densidade e coerência. Só que parece que ficarão em estado de banho-maria neste seu exercício nas lides políticas, pois tudo aquilo em que se envolveu desdiz o que antes dissera ou faz disso tábua rasa. E das duas, uma: ou estava mal informado nas suas posições ou decidiu suprimi-las em troca de uma duvidosa honraria transitória. Sabe-se que anda em negociações com a FNE sobre o próximo ano lectivo mas como a dita FNE vai negociar mas não informa ninguém do que lá se passa, não se sabe se apenas é uma encenação destinada a validar as políticas que o ministério das Finanças mandou implementar no sector.

Quanto ao ministro Nuno Crato, sou insuspeito na minha desilusão, pois considerei-o a melhor escolha possível para MEC. Porque, pela sua idade e percurso, considerava-o a única figura na área política da coligação no poder, capaz de travar a investida que vinha de trás e se sabia fazer parte do programa eleitoral explícito e implícito do PSD e do CDS para a Educação.  Porque concordava com algumas das suas posições (por exemplo, sobre a necessidade de avaliação) e com a sua desafeição com o discurso dissimulado de muitos responsáveis políticos e especialistas educacionais.

Daí o meu enorme desânimo perante a forma como, sucessivamente, se mostrou incapaz de controlar a máquina administrativa do ministério, a despojou de operacionalidade ao optar por uma estratégia de concentração e esvaziamento de meios técnicos de apoio às escolas, se rendeu à continuação de muitas das políticas que criticara aos governos de José Sócrates e, por fim, quase pareceu implodir, desaparecer do radar político, limitando-se a intervenções desastradas e típicas daquilo a que Sokal e Bricmont (autores que ele citou com prazer nas suas análises pré.ministeriais) designaram como “imposturas intelectuais” por se resumirem, em grande parte, a truques de linguagem e a utilizações truncadas e manipulatórias dos dados disponíveis como se fossem argumentos rigorosos e fundamentados.

Poderia recordar a entrevista ao Sol, na qual recuperou para a sua aritmética os formandos das NO para alegar que os alunos tinham diminuído 14% e justificar o número de professores, ocultando que o número de professores diminuiu mais e que a reorganização curricular foi a primeira razão para a redução dos horários disponíveis.

Ou a sua promessa de fazer uma vinculação extraordinária de professores contratados que se traduziu numa farsa.

Ou ainda a declaração de que o MEC não faria despedimentos de professores, sabendo-se que isso não é juridicamente possível, excepto em casos limite e que a redução de docentes tem sido galopante na base de outras modalidades como o empurrão para a aposentação ou a não renovação de contratos, isto não falando na questão da mobilidade. Só no último ano deixaram de dar aulas 15475 docentes. Claro que não houve despedimentos e, no sentido restrito da linguagem, Nuno Crato não faltou à verdade. Mas ele sabe o que diria se fosse ele a analisar alguém que tivesse feito em 2008 ou 2009 o que ele fez em 2012.

E chegamos a 2013 e à garantia de que a carga horária dos professores não aumentará. Ora, sabe-se agora que o aumento do horário para a FP não passará para as 40 horas, depois de meses a martelarem as redacções dos jornais com essa confidência que agora se qualifica como especulação. Assim como se sabe que dentro da carga horária dos docentes existem duas componentes, lectiva e não lectiva, que podem ser manipuladas de forma a colocar os professores a dar um maior número de aulas ou trabalhar mais tempo sem que formalmente se aumente a dita carga horária. E nem falo da possibilidade de manipular novamente o currículo do Ensino Básico e Secundário de forma a, como foi feito com os grupos de EVT do 2º ciclo e de ET do 3º no ano anterior, pulverizar todo um conjunto de professores e as suas hipóteses profissionais com umas simples linhas de um decreto. Basta decidirem cortes de uma ou duas horas aqui e ali para se varrerem milhares de horários de profissionais qualificados a quem se nega um futuro, com pretextos sem qualquer fundamentação pedagógica.

Há quem diga que Nuno Crato era demagogo na sua forma de analisar a Educação antes de ser ministro. Discordo. Acho que fazia críticas em grande parte correctas. Próprias da demagogia tem sido diversas das suas aparições públicas, no Parlamento ou na Comunicação Social (relembro em especial uma muito útil entrevista de Mário Crespo na SICN destinada a lavar mais branco o episódio dos horários-zero), nas quais optou por utilizar a linguagem para dissimular actos concretos de agressão ao sector da Educação e que (para além dos efeitos a curto prazo sobre os professores) a médio prazo terão consequências graves para os alunos e para a sua formação.

Lamento que Nuno Crato se tenha transformado em mais um agente das Finanças na governação da Educação, revelando-se incapaz de travar a amputação da Escola Pública e parecendo rendido a entregar importantes fatias suas a interesses privados que tem sido evidente estarem mais preocupados em gerar lucros próprios do que fazer serviço público.

Lamento que Nuno Crato se tenha rendido à Situação, colaborando na mistificação da opinião pública e alienando aqueles que mais confiaram nele e que estavam dispostos a colaborar, mesmo com sacrifícios, numa renovação da Educação em Portugal que não se cingisse a cálculos de mau contabilista. E a quem reponde com meneios linguísticos pós-modernos.

Nuno Crato tornou-se um agente activo do desinvestimento na Educação. Não sei se por perceber isso ou por outra qualquer razão, optou por um quase completo desaparecimento. 

Em vez de implodir a burocracia, implodiu-se.

O país ficou a perder. Muito. Para além de qualquer interesse corporativo, pois sou encarregado de educação e lamento o modelo de escola, despersonalizada, concentracionária, que a minha filha está obrigada a frequentar.

Repescado de post anterior apenas com título e link para o Parlamento Global:

Depois de uma redução absolutamente draconiana da despesa no sector da Educação, anunciam-se mais 900 milhões de cortes para 2013-14, A narrativa oficial emanada dos gabinetes governamentais é a de que se gasta muito e mais do que as nossas possibilidades financeiras permitem e que o peso maior da despesa é com encargos “sociais” e com “pessoal” ou “salários”.

Destas premissas decorre que os cortes devem incidir nessas parcelas da despesa. Parece elementar e satisfaz os camiloslourenços que ecoam a narrativa oficial para a opinião pública, quais justiceiros anti-privilégios, nas páginas da “imprensa especializada”, enquanto outros gurus da situação (Bento, Borges) se dedicam a lamentar as falhas de comunicação do governo, que acham inábil na inculcação da “mensagem certa” e da transmissão da “inevitabilidade” das medidas.

A informação com que se polvilham as redacções é seleccionada, amputada, retorcida, de forma a comprovar a dita narrativa e parte do pressuposto que os “indicadores” são aceites com escassa ou nula crítica como bons, fiáveis e actualizados. A quem se opõe a isso tenta descredibilizar-se com o estribilho dos “interesses instalados” ou “corporativos” que tenebrosamente estarão a prejudicar o “interesse nacional”… Como se houvesse corporação mais forte do que a de um punhado de banqueiros.

Assume-se ainda que, pelo meio do “ruído” comunicacional, a injecção de mais 1000 milhões de euros no BPN, os prejuízos na CGD e nos intervencionados BCP e Banif passem como encargos legítimos e não um peso brutal na despesa, enquanto se protesta com aparente indignação contra quem acha que cortar 900 milhões na Educação é trágico para o presente e o futuro do país. Tudo isto combina o despudor típico da aldrabice factual com uma inaudita impermeabilidade moral e ética em relação a qualquer tipo de acusação e demonstração de más práticas, tropelias e falsidades variadas.

A “narrativa” exige tranquilidade e uma postura não conflitual na superfície, um estilo “português suave” de baixa nicotina. Aposta-se na não crispação, na ausência de reacção imediata, na anuência quanto à necessidade de corrigir dados que nunca acabam por o ser. Como aconteceu com o relatório do FMI que alguns já querem fazer renascer como uma “ferramenta útil”, depois de trucidado na primeira vaga da sua apresentação.

Após uma curta retirada estratégica, eis que os dados e propostas renascem como “válidas” na pena e prosa de “especialistas”, os mesmos que de forma recorrente sabem qual a salvação, mas nunca a praticaram. Em particular quando foram ministros, secretários de Estado, assessores, consultores. Os Borges e Gaspares de ontem. Todos apostam na nossa fraca memória, tomando como geral a maleabilidade e volubilidade das suas próprias convicções.

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