Greve Geral


Uma edição do Expresso com uma interessante faceta pró-greve geral. Carvalho da Silva nos altos da semana, logo a seguir a Mário Soares por causa daquele manifesto de que já nos estamos a esquecer.

Um editorial favorável.

Uma peça de Rosa Pedroso Lima muito confortável sobre a greve geral, acompanhada de depoimentos todos no mesmo sentido: o de que a ngreve marcou um evento muito importante e que o governo deve rever posições.

O Expresso ao serviço do povo, pois então!

Ou então com receio que os protestos se tornem inorgânicos e extravasem a capacidade de enquadramento que as centrais sindicais permitem, em especial a CGTP.

Passado:

Presente:

A produção, captada pelo Luís Guerreiro que tem oficina defronte (ver foto acima). A 100 metros do meu domicílio de 32 anos.

Um pouco mais adiante, captada em movimento…

Porque desmonta a coreografia estatística em torno da greve de ontem:

Greve: contabilização das adesões e dos efeitos

MUDANÇA: QUEM A QUER?

Quando alguém, como eu fiz, põe em causa o significado da Greve Geral devido à sua falta de eficácia e ao esgotamento das suas fórmulas esteriotipadas, aparece invariavelmente gente a ripostar pedindo – às vezes de forma ácida… – que eu apresente, então, formas de protesto melhores ou alternativas.

Não querendo escapar ao contraditório, o que eu pretendo chamar a atenção é para a ingenuidade que, no fundo, assiste àquela posição. Essa forma de interpelação parece partir do convencimento de que os protestos sindicais atingiram um ponto de saturação devido às estruturas dirigentes terem já esgotado o repertório das formas de luta que lhe estão consignadas. Como se o horizonte de possibilidades se encontrasse encerrado e agora estivéssemos condenados apenas a baralhar as cartas para um jogo de antemão sabido.

Pergunto eu, porém: será que aquilo que realmente falta são ideias ou projectos para novas formas de acção e de protesto? Os sindicalistas de carreira, pelo menos uma boa parte deles, com a tarimba e os conhecimentos que têm, com o tempo e disponibilidade que usufruem, não conseguirão de facto conceber outras estratégias de luta mais consistentes?

Ou o que falta – e este é o ponto capital – não será, antes, vontade de mudar?

Porque a mudança, a mudança efectiva, se podemos saber quando ou como começa, já é mais difícil sabermos quando e em que termos acaba. Os velhos modelos, entretanto, têm estatutos adquiridos, colectivos instalados, rituais consagrados, crenças arreigadas e actores reconhecidos. A previsibilidade, a rotina e o sentido da conservação são os seus referenciais paradigmáticos (no sentido forte, kuhniano, se quisermos, do termo).

Passar de uma “zona de conforto” para um “espaço de turbulência”, de imprevisibilidade, em que as variáveis que entram em cena podem desafiar e subverter os poderes instituídos e escapar ao controle, provoca naturalmente resistência. E medo.

Medo da mudança: eis o que, afinal, tolhe os nossos sindicatos. Não, não é falta de imaginação para conceber outras estratégias de luta mais eficazes ou outras formas de luta mais mobilizadoras que é o problema. É a falta de vontade de mudança, por se ter medo que esta possa alterar a correlação de forças, o equilíbrio estabilizado dos poderes já conquistados. O instituto “Greve Geral” não passa de um mecanismo de segurança para que esses equilíbrios se possam manter e os respectivos poderes se continuem a fazer prevalecer.

Farpas

Como a DGAEP chegou aos 3,6 % de adesões

O texto, a partir de um comentário, chegou-me ontem, mas só hoje consegui…

De como a direita e a esquerda se tornam iguais ou a confirmação de que os extremos se tocam:

  • para uns, todos têm que fazer greve, isto estava-se bem é na Coreia do Norte porque lá o povo é que manda pá e é feliz.
  • para outros, se eu mandasse não havia cá greves nenhumas isto no tempo do salazar é que era bom e o povo era feliz.

Os que fazem greve são todos uns oportunistas e uns chulos e e os que não fazem greve são todos uns oportunistas e uns chulos, pá.

Os piquetes que impedem a não greve são os patrões da esquerda, os patrões que impedem as greves são os piquetes da direita. Tão diferentes e tão iguais!
para todos os outros, os (poucos) que acreditam na democracia, os que decidiram em consciência o que fazer ontem, sem pressões e sem pressionarem, os desejos de UM BOM DIA!

Ana Silva

Greve Geral na educação, actualização nos noticiários da noite.

Na RTPInformação, o ainda jovem João de Almeida do CDS a lamentar que a mobilização tenha sido baixa e que os sindicatos estejam com uma baixa capacidade de mobilização, porque assim são menos representativos no diálogo da concertação social.

C’um caneco, isto já é gozar demais.

… é que quem as convocou nunca se sente na obrigação de apresentar a demissão, caso admitissem o fracasso.

Não consigo colocar a coisa em outros termos:

Adesão à greve? Sindicatos falam de 90%, Governo de 4%

Para comentar ficções, prefiro as da literatura assumida.

Não me interessam grande ou pequena coisa.

A sério.

Sempre fui um bom aluno a Matemática, assim como antes na Aritmética.

E nunca gostei de quem exibe a ignorância aos gritos, por defeito ou por excesso.

(e este post é meu, do PG e não do Fafe, mesmo se escrevi, quiçá pensei, parecido)

Num friso de 17 criaturas que se pronunciam no DN sobre a adesão (ou não) à greve de hoje, sou um dos 3 que declararam aderir. As restantes 14 afirmam que não aderem pelas mais variadas razões, ou melhor, a maioria por razões da treta. Se percebo que o Américo Amorim, o Ramiro Marques e o Ribeiro e Castro a recusem por razões ideológicas e outras justificações mais ao lado (Amorim diz que as horas do dia não lhe chegam para ajudar o país!!!), já em outros casos acho patética a forma de se desculparem com a natureza das funções (o advogado porque é advogado, o juiz porque é juiz, o polícia porque é polícia, a actriz de novela porque é actriz), muito em especial no caso do jovem deputado do PS, Duarte Cordeiro.

Afirma ele que não pode fazer greve porque os deputados não podem fazer greve. Não? Formalmente, não. Mas informalmente, já que apoia que os funcionários do parlamento façam, porque não falta ele ao abrigo de uma justificação justificável, algo nada raro nos parlamentares, como o chamado trabalho político? Porque não tem ele coragem de demonstrar de forma activa a solidariedade proclamada?

Será que, no fim do dia, alguém vai dar pelas vantagens da presença do deputado Duarte Cordeiro em São Bento?

Respeito tanto quem faz como quem não faz greve. Mas não quando as desculpas são do calibre da treta mais esfarrapada. O seguidismo cego de alguns que fazem tem equivalente na invertebralidade daqueles que não fazem poruqe enfim.

No Público, o Manuel Loff escreve que a greve geral é a festa da democracia. Lamento discordar, ainda para mais de um historiador meu contemporâneo e politólogo mais recente. As eleições são a festa da democracia. As greves são, por regra, resultantes de situações de tristeza com as quais se protesta e esse protesto dificilmente poderá ser aquilo a que eu chamaria alegre. Com a bílis costumeira, eu diria que a greve (geral ou outra) só é festa para aqueles que a não vivem pelas razões certas ou que apenas nesse dia encontram sentido para o que (não) fazem o resto do ano e, nesse dia, aparecem a papaguear para as televisões a luta.

GREVE GERAL: E DEPOIS?…

Estamos em tempos de uma dureza excepcional, que está pronto para desenvolver e amadurecer um descontentamento também excepcional. A tarefa prioritária das forças da contestação tem de ser pensar e propor formas de luta à altura deste desafio, o maior desde o 25 de Abril.

A Greve Geral é importante para marcar uma posição forte – mas deve ser apenas um primeiro (ainda que grande) passo para uma luta mais dura que não deve ficar por aí. Não deve ser vista apenas, calculista e mesquinhamente, como um ganho táctico avulso, mas como uma alavanca para uma estratégia de luta de uma magnitude ímpar, ou não estivéssemos num momemto crucial da nossa vida colectiva.

Até porque há muita gente como eu que pensa que só vale a pena fazer Greve se esse acontecimento não servir apenas – como a experiência infelizmente demonstra – para os contestadores oficiais, no fim, virem recolher os louros e fecharem-se no auto-contentamento beato do “dever oficial cumprido”.

A questão que se coloca aos contestatários desta políticade suicida – designadamente aos partidos da esquerda e aos sindicatos – é saber articular, i.e, dar expressão e conteúdo político ao descontentamento crescente que a situação inevitavelmente trará (estamos só no começo, as medidas mais gravosas ainda não se estão a fazer sentir…).

Por isso, cumpre perguntar: então, e depois da Greve?
Que plano global e estratégico de luta(s) há? Quais são as propostas e objectivos que se podem desde já adiantar ou antecipar (para não se correr atrás dos acontecimentos que, no actual contexto, se podem precipitar de um momento para o outro)? Há alguma plataforma política pensada ou em ponderação para ser lançada e desenvolvida? Que articulação se procurou estabelecer com as outras grandes centrais sindicais europeias, já que a luta neste patamar ou é global ou perde grande parte do seu impacto e eficácia?

Farpas

O sindicalismo de véspera e os piquetes de greve

Chegado por mail:

Caros colegas: 

          Ainda há quem não saiba?
          GREVE GERAL DIA 24 DE NOVEMBRO!
          Porque já não há quem não saiba porquê!
          GREVE GERAL DIA 24 DE NOVEMBRO!
.
          Pel’A Direcção do Sindicato dos Inspectores da Educação e do Ensino
.
          José Calçada
          (Presidente)

Poderia remeter apenas para o post abaixo. Mas acrescento algo mais, mesmo que redundante.

Para além das razões sistémicas da luta e tal, que como sabem a mim sensibilizam apenas o q.b., há as entranhadamente individuais.

Que são aquelas em que eu já não sei se ando border ou underline (private joke mesmo privativa para algumas pessoas) e já pago (ou deixo de ganhar) para me manter à superfície por não jogar suficientemente à defesa.

Porque quero, amanhã olhar para o dia a acabar e não ver sete das lectivas no dia seguinte.

É uma forma de resistência, nada festiva, diferente da daqueles cujo trabalho é fazer greves, pelo que estão com a pica toda de um ano à espera.

Eu estou à espera de descansar. E faço greve porque me fizeram estar assim. E a muitos outros fizeram pior. E prometem fazer ainda mais, do alto da sua pequenez secretarial.

Estou farto de secretários de estado e de ministros emproadinhos. Na 5ª feira também vou descansar deles e pensar, com tempo, no que lhes faria se os apanhasse ali numa sala de aula.

Nada de especial, mas difícil para os novos aflautados e engomados… tentar que percebessem que não há um país sem as pessoas que o fazem. E que todos somos transitórios por muito que julguemos de nós mesmos, das nossas teorias e da nossa visão.

Todos estamos de passagem, Mesmo os que se sentem donos de algo. Das nomeações a fazer ou por receber.

Faço greve contra esses. A favor de mim. Da minha sanidade. O resto…? O resto já me interessa muito pouco porque há muito que desacredito dos que só trabalham nos dias de greve. Se desse para fazer declaração de voto na greve, também a faria contra eles. E contra muitos presumíveis piquetistas também. Corajosos em bando. Nulas individualidades.

A greve radical. De total alheamento em relação aos actores deste teatro. Dos almofadinhas aos façanhudos. Dos que colocam cenho franzido de Estado (só seu!) aos que colocam voz altiva de Luta (só sua!).

Estou farto de todos.

Por isso faço greve.

E por ser 5ª feira.

APEDE:

Greve geral, passado um ano…

Correntes:

fico e faço greve

Mas há quem tenha saudades de quem assinou o acordo com a troika. Que, tirando o cabecilha e mais dois ou três, permanecem no comando do PS, só que com um líder a querer parecer qualquer coisa que não se sabe (nem o próprio) o que será.

PS abstém-se da greve e clama pela concertação

“O PS não toma posição sobre a greve geral” da próxima quinta-feira e, “enquanto partido político, não participa” nela, disse ontem ao DN Miguel Laranjeiro, dirigente socialista responsável pelos assuntos sociais e laborais.

No congresso da Corrente Sindical Socialista (CSS) da CGTP-IN, que hoje será encerrado pelo líder do PS António José Seguro, Laranjeiro não falou do tema – apesar de a greve ser tema central do congresso e de o apelo à participação estar afixado no púlpito.

Quem impede as suas mãos de nadar

é ele próprio.

Quem puxa para o fundo os seus pés

é ele próprio.

Pegando na sua garganta

afunda-se

no seu próprio lago.

x

Água que flui através das orelhas

irrompe através das narinas

garganta pálpebras

e enche o estômago e os pulmões.

Os cinco sentidos

pela água explodidos.

O mundo continua a correr através dele

numa solidão tão grande

que nem em si próprio tem lugar.

[Gunnar Harding]

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