Grande Jornalismo


… mas o Zé Rodrigues dos Santos conseguiu fazer na Grécia uma figura mais triste do que as boas e velhas palhaçadas durante a I Guerra do Golfo.

Com tanta imaginação e jeito para ficcionar a realidade ainda se torna escritor.

Exp20Dez14

Expresso, 20 de Dezembro de 2014

O Expresso anda há um par de semanas a barafustar por ter uma entrevista ao vivo e a cores com José Sócrates, o recluso nº 44 do Estabelecimento Prisional de Elvas.

Parece-me evidente o interesse comercial de tal iniciativa.

Parece-me evidente que José Sócrates anseia imenso por tal entrevista.

Tenho sérias dúvidas sobre o seu interesse jornalístico, no sentido mais restrito e nobre do termo..

Porque quase todos sabemos o que José Sócrates responderia às 81 questões e, se quiserem, podem dizer que colocaram lá uma câmara oculta e eu escrevo-lhes as 81 respostas com um grau mínimo de diferença em relação ao que seria o original, pelo menos em termos de conteúdo.

Qualquer entrevista a José Sócrates e uma tão longa seria o palco privilegiado para ele desenvolver uma narrativa de que já nos apercebemos do essencial e para se auto-branquear com a ajuda do semanário do regime, amplificado em seguida por spots sucessivos na SIC e SICN e mais unas quantos comentadores (com o residente MST na primeira fila) a acenarem com a cabeça que sim, que tudo está perfeito e o homem mal detido.

Dificilmente seria usada para nos informar sobre algo de essencial.

Isto não significa que ache boa ou má a decisão do juiz ter negado o direito à entrevista ou a do Expresso continuar na sua luta, alegadamente sobre a transparência do processo do recluso nº 44 do E.P.E, (e de mais nenhum, não tendo eu reparado se foram entrevistar longamente aquele recém libertado em Paços de Ferreira que se descobriu não ter sido o autor do homicídio pelo qual foi condenado).

Por mim, podem entrevistá-lo as vezes que quiserem e até com 811 questões.

Acho é que o interesse da entrevista em causa não é propriamente “jornalístico”, em especial quando tanto se criticou o jornalismo de outros órgãos de comunicação social por acesso privilegiado a certas informações. Até porque sabemos bem que nenhuma informação substantiva se saberia de tal forma que Sócrates não consiga colocar cá fora através de diversas “fontes” que o visitam.

Não é bem o mesmo?

Não será.

Mas o que está em causa aqui é o interesse comercial (legítimo, claro!) de tal exclusivo para uma empresa de informação.

E o profundo interesse do recluso de – na falta de uma conferência de imprensa em directo televisivo nos vários canais – ensaiar uma peça rocambolesca como tantas que lhe conhecemos.

Mas não disfarcem isso com outros pretextos.

No Der Terrorist já se escreveu o essencial sobre a relação do Expresso com o caso Sócrates.

Eu apenas acrescentaria que fica bem que na 1ª página se remetam os leitores de forma correcta para o interior. A peça em causa está nas páginas 6 e 7 e percebe-se que o desfasamento se poderá ter ficado a dever a uma dupla página de publicidade a um banco. Outrora era o BES que andava muito em voga, agora são outros. Mutatis mutandis.

Exp13Dez14

Expresso, 13 de Dezembro de 2014

Os TPC aumentam as desigualdades ou as desigualdades prejudicam um melhor desempenho dos alunos ao nível dos TPC?

Trabalhos de casa podem aumentar desigualdades socioeconómicas

Vejamos o que é dito no corpo da notícia:

Nesse relatório, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) alerta para as diferentes condições em que alunos mais privilegiados e menos favorecidos fazem trabalhos de casa.

Se os mais favorecidos podem quase sempre contar com um espaço em casa com as devidas condições para estudarem, assim como com o apoio da família, que regra geral reforça a importância do cumprimento destas tarefas tendo em vista os resultados escolares, os menos favorecidos lidam muitas vezes com a situação oposta, sem condições em casa para estudar num ambiente calmo e tranquilo, com o tempo muitas vezes ocupado em tarefas domésticas, e sem o apoio dos pais para ajudar nestes trabalhos, por muitas vezes não terem tempo ou capacidade para isso.

«Os trabalhos de casa podem, desta forma, ter a consequência indesejada de aumentar as desigualdades nos resultados escolares dos alunos com origem em contextos socioeconómicos diferentes», lê-se no relatório da OCDE.

A OCDE refere que os professores devem encorajar os alunos com maiores dificuldades a fazerem os trabalhos de casa e sugere, para os casos dos estudantes menos privilegiados, que ajudem a encontrar ambientes onde estes possam fazer os trabalhos de casa de forma tranquila, se isso não for possível nas suas casas.

Quanto à matéria em apreço, ainda bem que há dinheiro para pagar a especialistas para produzirem estudos sobre a humidade da água e a aridez do outback australiano.

Que os directos televisivos a partir de Évora tenham de ser feitos com os repórteres à chuva só para provarem que não são fake news.

Pior, só as reportagens à hora do almoço, há um par de semanas, quando o pequeno Carlos foi mostrado a passear pelas ruas de Bruxelas, como se acabasse de ir para a guerra sem máscara de gás e sem botas da tropa.

Carlos Moedas de visita a Portugal

Vejamos este extraordinário título do Económico:

Salários da Função Pública aumentaram 10% com chumbo do TC

Claro que isto é MENTIRA. O que se passou foi que se deu a recuperação de cerca de 10% do valor período em cortes, sobretaxas, congelamentos, etc, algo que é impossível deixar de reconhecer na notícia.

Depois do chumbo do Tribunal Constitucional (TC), no final de Maio, aos cortes salariais da função pública, os trabalhadores do Estado recuperaram, em média, 9,9% da sua remuneração bruta.

Pior:

A SIEP ainda não contabiliza as reduções remuneratórias que entraram entretanto em vigor em Setembro e que estabeleceram o regresso dos cortes acima dos 1.500 euros brutos (e que vigoraram entre 2011 e 2013).

Pelo que o título em causa se pode incluir naquela categoria que me valeu um processo judicial… e faz-nos pensar no que quereria a criatura pensante (?) que se decidiu por tal parangona.

polish-a-turd

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