Ficção Pura


Pequeno divertimento, em pouco mais de 200 caracteres, resultante de um pedido (entretanto inviabilizado) para imaginar o sistema de ensino em 2023. Apesar de saber em tempo que não seria publicado em letra de imprensa, optei por terminá-lo em coisa de 15 minutos, com uma extensão ligeiramente superior à que me tinha sido solicitada, embora longe do desenvolvimento que o tema merece.

A Educação em 2023

Em 2023 o sistema de ensino estará em processo de reforma, após a chegada do novo ministro, um adepto da autonomia das escolas, da descentralização das decisões educativas, da desburocratização dos procedimentos e do aumento do rigor na avaliação dos alunos, dos professores e das escolas.

Após uma experiência falhada no sentido da localização das políticas educativas, através do alargamento da municipalização, a qual conduziu a uma enorme conflitualidade entre o poder central as autarquias em torno das responsabilidades financeiras que culminou num período de 4 meses sem que o pessoal docente e não docente recebesse os seus salários, a que se seguiu uma greve total às avaliações e exames em Junho e Julho de 2022, o novo ministro pediu a um grupo de trabalho que procedesse à apresentação urgente de um projecto para centralizar a gestão de todos os mega-agrupamentos.

Por outro lado, perante os resultados catastróficos dos testes PISA 2021, conhecidos em finais de 2022 e que deram a conhecer a continuação da descida dos resultados já verificada em 2018, com o aumento da desigualdade entre uma minoria de alunos com excelentes resultados e um número crescente de desempenhos nos percentis mais baixos, o novo Governo decidiu reduzir em 50% os apoios directos e indirectos às escolas privadas com financiamento público, que representam cerca de 40% da oferta educativa, incluindo as antigas escolas da Parque Escolar.

Em matéria disciplinar, perante a pressão da opinião pública na sequência de diversos casos muito mediatizados de violência, foi publicado um novo Estatuto do Aluno que pretende restaurar a autoridade dos professores nas escolas e salas de aula.

Em termos laborais, existe uma proposta para actualizar a estrutura da carreira docente dos actuais 3 para 4 escalões, sendo o acesso a este novo 4º escalão feito mediante quotas de 10% e a apresentação de um nível de sucesso de 100% entre os alunos dos candidatos.

A Fenprof declarou total oposição a todas estas medidas que considera serem contrárias à manutenção de uma Escola Pública de qualidade. A FNE prefere manter uma postura de diálogo e irá negociar durante a próxima semana a reposição da semana de trabalho das 35 horas lectivas.

Ensino público. Autonomia das escolas acaba onde começam as regras de Crato

Ao que parece, se destruirmos por completo uma cidade, um país, uma sociedade, o que vem a seguir é melhor. Como argumento ou demonstração, não é uma inanidade. é apenas ridículo. Porque nunca se disse que a liberdade de escolha é completamente má e não funciona em nenhum lado. Encontrar um exemplo e erguê-lo como norma é que é uma falácia.

Em especial quando não se citam partes como esta, exactamente a seguir ao excerto usado:

The enrollment system is complicated. There are far fewer available seats at good schools than at poor ones, leaving many families to choose between bad and worse. And few students can get into top-rated schools because of limited seats and strict admissions policies.

Parece que o que interessa é a quantidade (há mais gente certificada como com as NO), não interessa se lhes é permitida a escolha entre o mau e o péssimo.

Capela

Alguém acredita que a realidade que nos é transmitida corresponde a alguma realidade efectiva, com ligação ao real concreto, no sentido anacronicamente modernista do termo?

Alguém acredita que os números que nos são fornecidos todos os dias, hora a hora, sobre previsões, execuções, desvios, défices, poupanças, despesas, são mais do que meras ficções construídas para produzir efeitos?

Alguém consegue calcular o desvio entre a ficção mediatizada e a vida das pessoas?

… há um documentário muito interessante.

Haverá coragem no MEC para assumir que a formação de avaliadores externos se limita à apresentação da legislação aplicável, umas grelhas e uma ou duas actividades que dão mau nome ao conceito de “chacha“?

Excluo disto o vaidoso ensimesmamento dos agentes… quer transitaram sem espinhas do período MLR para o período Crato.

A formação para avaliadores externos. O que vou sabendo das sessões em diversos pontos do país é absolutamente risível.

Encenação pura.

Um dia, um par de tardes.

E remissão para a plataforma. A mudle.

Mais por menos?

A verdade é que é mais em troca de nada. Menos implicaria que algo viria em troca. Até ao momento, zero.

Em Vila Azul há meninos de famílias azuis claras e azuis escuras. Há mais, mas simplifiquemos.

Os meninos das mais escassas famílias azuis claras gostam de escolas azuis claras. São caras, mas dá para pagar os 4000 azures por ano, mas vale pela segurança, pelos tops e pela diferenciação, pois o direito de admissão é reservado.

Os meninos das mais numerosas famílias azuis escuras vão a uma escola gratuita, com menos pedigree, menos tops, mas em que todos podem entrar.

Nas famílias azuis claras, algumas pessoas muito inteligentes apareceram a dizer que é injusto não poderem ir todos para as escolas melhores e que deveria ser dado pelo Estado Liberal um cheque-brinde de 3000 azures, para que todos os meninos, claros e escuros, pudessem ter liberdade para escolher.

Os empreendedores das escolas azuis claras bateram palmas e subiram o prémio de entrada para 5000 azures por ano, devido à pressão da procura.

As famílias azuis claras não se importaram, pois com o cheque-brinde do Estado Liberal, ainda poupavam dinheiro, precisando apenas de juntar 2000 azures para continuarem diferenciadas.

As famílias azuis escuras viram-se um pouco sem saber o que fazer, pois os 2000 azures necessários para terem liberdade para escolher não estavam ao alcance de todas. Umas conseguiram e quiseram ir para escola azul clara e lá passaram pelo crivo, resultante da tal pressão da procura. Ficaram azuis assim-assim. Sentiram-se menos escuras, mas não o suficiente para serem claras.

As escuras ficaram mais escuras e continuaram nas escolas azuis escuras, cada vez mais abandonadas.

Nas escolas azuis claras, os empreendedores passaram a dormir muito mais descansados, com o suave e doce tilintar da cascata de azures do Estado Liberal. Em nome da Santa Liberdade.

.

Qualquer semelhança com um país real perto de si é mera coincidência. Mas há quem deseje que seja apenas uma questão de tempo, porque a porta já está entreaberta e oleada.

Há uma semanas não tive tempo e pachorra para escrever sobre mais uma série de vacuidades escritas por um notável articulista da nossa praça mediática, que da Educação não percebe a ponta de um corno bem curto, que criticava o fim dos Planos de Recuperação porque, em tempos de Sócrates-MR eles tinham tido um assinalável sucesso. E já nem me lembro de acrescentava alguma percentagem quanto aos alunos que tinham transitado, após lhes ter sido aplicado um tal plano ou o seu sobrinho, Plano de Acompanhamento.

Como hoje estou a engonhar outras escritas e tudo faço para fugir aos deveres, vou tentar ser claro nesta matéria: a maioria dos Planos de Recuperação eram uma treta, em que o aluno não estava em risco de reprovar o ano, sendo feitos como mera precaução justificativa perante os encarregados de educação por causa de uma negativa ou como táctica defensiva de alguns (bastantes) professores em relação a uma eventual crítica hierárquica. O que significa que uma quantidade muito razoável de planos (o MEC sabe, está na sua base de dados) resultava da necessidade de se registar a proposta de APA (Apoio Pedagógico Acrescido) para alunos com uma ou duas negativas, que não estavam em risco real de chumbo. E que por isso mesmo acabavam por transitar de ano e ter sucesso.

Um estudo a sério dos PR/PA deveria ter isto em consideração: quantos deles tinham na base situações de real risco de insucesso e quantos foram feitos na base do é melhor prevenir… ou ah, é melhor defender-me/nos ou outro pretexto legítimo, atendendo à pressão sobre os professores como causadores directos do insucesso, mas efectivamente vazio de grande substância?

O mesmo corre o risco de se passar com os actuais PAP(I), outra ficção burrocrática que o MEC legislou em nome do combate ao insucesso. Papelada (real ou virtual) usada para ocupar tempo e encenar combates ao insucesso e abandono. Tretas, no fundo.

O combate ao insucesso não se faz assim.

Faz-se a partir da base, de forma precoce (neste caso esquecem-se sempre os bons exemplos externos, pois são caros), despistando a razão das eventuais necessidades dos alunos, detectando as suas causas.

  • São de tipo cognitivo severo, que impedem a aquisição ou aplicação de determinados conhecimentos?
  • São meramente de ritmo ou estilo de aprendizagem?
  • São de carácter emocional, provocando comportamentos disruptivos e de indisciplina, prejudicando o desempenho?
  • São de carácter emocional, mas mais do ponto de vista da atitude de desinteresse perante as tarefas lectivas?

Cada uma destas situações implica uma forma de intervenção diferenciada, não existindo sequer uma solução absoluta para cada uma delas. Aponto só o que resulta da minha opinião pessoal.

  • A primeira exige pessoal especializado para o seu acompanhamento, que não pode estar dependente dos humores dos rácios de incidência de certas patologias.
  • A segunda e a quarta implicam um trabalho diferenciado na sala de aula, com eventual apoio fora dela em pequeno grupo não muito heterogéneo, mas que deve ser feito com o(s) professor(es) originais e não com alguém que tem horas para preencher no horário. E uma comunicação aberta e frequente com a família, sem preconceitos ou desconfianças.
  • A terceira aconselha uma tutoria e acompanhamento de tipo psicológico mais ou menos permanente, que não se resume a uma sessão semanal de conversa e observação do que se vai passando.

Claro que todas têm implícita uma colaboração parental activa e atenta.

Claro que todas implicam a existência de técnicos especializados nas escolas e agrupamentos com competência para fazer despistes, caracterizações e acompanhamentos.

Claro que isto implica que os professores tenham sempre no seu horário tempos previstos para estas actividades, numa escala flexível (por exemplo com as tutorias), em que o mais importante é intervir quando é preciso e não assinar o livro de ponto certo a horas.

Claro que para tudo isto bastaria existir um plano global das situações detectadas em cada turma e das medidas tomadas, só se justificando planos individuais nos casos em que o diagnóstico e as medidas a tomar são mais profundas, por estar efectivamente em risco o sucesso do aluno.

Interessa fazer e não parecer que faz ou registar que fez. Interessa resolver problemas e não encenar a resolução. Interessa, em especial, não criar artificialmente sugestões de insucesso para depois apresentar estatísticas excepcionais de objectivos alcançados.

Os Planos de Recuperação eram, em muitos casos, meras encenações para produzir sucesso, numa aliança pouco saudável entre demagogia ministerial e práticas profissionais defensivas.

Os PAP(I) irão pelo mesmo caminho?

Página 60 do estudo tipo-FMI:

Public school teachers have remained a relatively privileged group within society in general and within the civil service in particular. The compensation of teacher and other staff comprises about 70 percent of education spending. In 2012, out of 230,000 professional staff in public education, 160,000 are teachers (of which 117,000 are tenured teachers, including over 12,000 in regional or local administrations) (Table 6.1). These permanent teachers earn more than other senior civil servants at the top of their pay scales, and work fewer teaching hours (by earning schedule reduction entitlements). To date, their seniority privileges have not been curbed, and, although there are possibilities for teacher mobility, there is no mechanism to forcefully redeploy permanent teachers from overstaffed schools to schools with shortages of teachers.

Gostava de chamar a atenção para algumas coisas:

  • No quadro 6.1 não está muita da informação que aqui se diz estar, ou então está agrupada ao monte, sem dar para distinguir alhos de bugalhos. Num lado os dados estão divididos de forma canhestra por grau de ensino numa terminologia pouco usual em estudos internacionais sobre Educação, mas em outro (caso do vínculo contratual) aparece tudo misturado. os 117.000 “tenured teachers” estão todos ao molho e fé em Deus que ninguém sabe se são primários, secundários ou terciários. Também o que se afirma sobre 12.000 nas administrações locais e regionais 🙂 ). Mais complicado – porque metodologicamente pouco honesto – é deixar para uma nota de rodapé a explicação que, na verdade, os 160.ooo professores representam menos de 140.000 lugares reais, quando se transforma o sub-emprego docente em horários completos, baixando o número de docentes no ensino não-superior para menos de 120.000. Mas usar o outro número para estabelecer rácios.

FMI1c

Apublica

  • É um absoluto disparate dizer que os professores são os funcionários públicos melhor pagos (repare-se que não é fornecido nenhum quadro comprovativo, pois há diversos grupos como médicos, juízes ou diplomatas que têm remunerações mais altas), não apenas porque nenhum está no topo da escala salarial (não existe nenhum professor no actual 10º escalão), mas porque há carreiras melhor pagas e só a pura ignorância ou desonestidade pode fazer escrever outra coisa. É ainda de uma completa desfaçatez dizer que os professores dos quadros são os que dão menos aulas, quando isso se aplica apenas a uma parte deles e, obviamente, dão mais aulas do que médicos, enfermeiros, juízes e diplomatas (esta foi mesmo só para entrar no espírito de non-sense do documento).

Corte de quatro mil milhões adiado para 2014

Cortes de 4 mil milhões de euros nas funções sociais do Estado adiados para 2014.

Afinal, não é para haver debate, analisarem-se hipóteses e só depois tomar decisões?

O gabinete do primeiro-ministro considerou, esta segunda-feira, “lamentáveis e totalmente infundadas” as suspeitas levantadas pelo PS em relação ao envolvimento do ministro Miguel Relvas no processo de privatização da TAP, lamentando ainda o comportamento “populista” dos socialistas nesta matéria.

“Os membros do Governo não mantêm qualquer tipo de relacionamento privilegiado ou outro, a título individual, com as entidades envolvidas naqueles processos, que são objeto de escrutínio rigoroso e de decisão colegial em sede própria, ou seja, em Conselho de Ministros. É precisamente nesse quadro que o Governo procede à avaliação de todas e cada uma das propostas, pautando sempre as suas decisões por critérios de escrupulosa observância da legalidade e do interesse nacional”, lê-se num comunicado do gabinete do primeiro-ministro enviado à Lusa.

Mais um fracasso. Previsível. Porque obviamente inexequível para além da propaganda momentânea.

Coisas feitas em contra-ciclo. Mal preparadas. Sem atenção aos meios no terreno. Vai começando a ser a norma sem excepções.

Multas foram uma das principais novidades do novo Estatuto do Aluno, mas associações dizem que é quase impossível serem aplicadas.

O presidente da Comissão de Recrutamento e Selecção da Administração Pública (CRESAP) disse hoje à Lusa que a meritocracia passou a ser a regra nas nomeações de topo na função pública, concordando que acabaram-se os ‘jobs for the boys’.

O Expresso de hoje traz uma peça sobre as poupanças que o MEC terá feito com os rearranjos curriculares: 136 milhões de euros ou mais…

Isso serve para afirmar que as poupanças não se ficaram apenas a dever a cortes salariais e retirada dos subsídios, assim como para colocar Nuno Crato em alta na coluna de Altos e Baixos da semana.

Ora bem… não quero ser demancha prazeres mas gostava de acrescentar apenas dois pontos a esta história maravilhosa de eficácia poupadinha.

  • O orçamento do MEC para o Ensino Básico e Secundário em 2012 foi de mais de 5 mil milhões de euros… pelo que 136 milhões é algo inferior a 3%. Os cortes salariais e de subsídios equivaleram várias vezes mais do que isso, sendo que a reorganização curricular levou a poupanças por via da dispensa de milhares de professores contratados. aliás no orçamento do MEC para 2012 encontra-se uma redução de encargos acima dos 20%, o que bem revela a dimensão dos cortes, que em pouco se ficaram a dever a alguma verdadeira racionalização, mas apenas a amputação.
  • O MEC insiste, em declarações para a peça, em afirmar que a “revisão dos currículos foi feita com o objectivo de ‘reduzir a dispersão curricular’ e de ‘reforçar as disciplinas estruturantes’ como o Português ou as Ciências Naturais”. Ora… isto é falso, pois no 2º ciclo passou a existir mais uma disciplina com o desdobramento de EVT, apenas sendo eliminadas as ACND que não contavam para a progressão, sendo que no caso do Estudo Acompanhado as horas já eram por regra atribuídas a professores de Matemática e Português. Na prática, nenhuma disciplina ganhou horas no 2º ciclo e no 3º o fim dos desdobramentos de turmas colocou em causa esse “ganho” teórico nas Ciências. O que acabou foi a situação de par pedagógico em EVT e EA no 2º ciclo. O resto é ficção pura.

A estátua está ali junto ao parque antigo da cidade… e resistiu, quase intocada, aos excessos de 74-75.

O governo quer relançar a industrialização. Como se faz isso?

Pretendemos lançar uma estratégia de fomento industrial entre 2013 e 2020. Se queremos voltar a apostar na indústria e nos nossos sectores produtivos é importante a agenda de reformas estruturais que está no terreno. Em Portugal e na Europa viveu-se nas últimas décadas na ilusão de que podíamos deixar as nossas empresas deslocalizar. Vivemos uma crise sem precedentes que se baseia na perda de competitividade, conjugada com um nível de endividamento insustentável. É fundamental invertermos o ciclo de tendência de desindustrialização de Portugal e da Europa.

Foi afortunada coincidência onomástica, mas não são parentes, ela Perpétua de sua graça, ele Perpétuo de patronímico.

Encontraram-se na rua Projectada à Avenida das Gerberas (giribérias na boca de dona Perpétua, ironia urbanística para um aglomerado de betão, cimento, vidro, dejectos de cachorros bonsai e arbustos raquíticos, envergonhados da sua não sombra), no nº 23, ela a morar no 7º frente, ele no 5º direito trás.

Mal conhecidos em reunião de condóminos para constituição do respectivo colectivo legal, a sua atitude expectante e a voluntária vontade em assumir um sentido para a vida fora das suas funções quotidianas de alpaca, ansiosos de um brilho suplementar ao seu cinzento ser, ali se irmanariam na função espinhosa de gerirem um condomínio que ainda hoje afirmam ser muito complexo, apesar dos 20 anos de estadia no cargo, que a nomeação original remonta aos tempos de exposição andaluza.

Um passou a gerir até ao 6º andar e a outra do 7º para diante, porque mesmo sendo menos andares, são andares de maior responsabilidade, pois em caso de acidente, catástrofe ou mesmo outra trágica ocorrência são aqueles de onde mais alto se cai. O que agrava o prémio do seguro das partes comuns e não privadas.

A dona Perpétua sempre se destacou pela alegria posta na construção de um ar gaiato, certa ela de saber ser a gaieté um charme seu, natural e duradouro, assim durando ao longo das décadas, apesar do viço se ter escorrido e ter sido o seu espaço ocupado por um azedume crescente por sentir uma incompreensível insensibilidade alheia em relação às suas prendas. Prendas essas sofisticadas por saídas regulares a países estrangeiros lá de fora a que se chega só de avião, divididas entre as galerias comerciais e culturais, os museus de cera e as ceras cosméticas.

O senhor Perpétuo, de sorriso pronto e mão prontamente estendida para o cumprimento dócil, sempre foi um homem de flexíveis ideias feitas, confortado pelo lugar comum, temeroso da ousadia de um pensamento próprio, mesmo se toma como suas as opiniões que algures leu ou vagamente ouviu falar. Elevou a arte menor a capacidade para estar convicto das ideias dos ganhadores longínquos ou próximos, no país ou na junta de freguesia, por muito opostas que sejam e se afirmem, pois, diz ele, as coisas são mesmo assim e a vida é a vida.

Ambos, com o passar do tempo e o acumular da inércia de todos aqueles que se despreocuparam, ergueram a função de gestores a um patamar único de estagnação e irrelevância presumida. Requintaram no detalhe, na crítica melíflua aos inúmeros pecadilhos detectados em quase todos os condóminos, incluindo nos seus rarefeitos fiéis. Falando com outros gestores ou moradores em prédios vizinhos, até mesmo com visitas ocasionais com quem se cruzam no átrio e no elevador, não perdem a oportunidade para debicar os calcanhares que julgam ser vulneráveis em todos aqueles a quem sorriem quando encontram em pessoa. A todos encontram a mácula de que se sentem livres e a venialidade de que se sabem isentos.

O senhor Perpétuo afirma ter feito estudos e especializações, sabe coisas de computadores, mostra-se sempre disponível para ajudar, mesmo em canalizações entupidas, e é mais maleável e ziguezagueante que a sua colega. Sente-se em êxtase sempre que recebe um elogio, em particular quando é a dona Florida do 6º esquerdo que o lança, saltitando, ligeira, a caminho das suas ocupações singularmente múltiplas.

A dona Perpétua tenta não mostrar o frémito sempre que os garbosos irmãos Firmeza com ela se cruzam e destacam a forma hábil como a fivela do cinto que lhe acentua a silhueta combina com o pendente do seu colar comprado em Paris de França, algo que repetem mecanicamente com efeito garantido.

Ambos sentem já como propriedade sua e vitalícia o cargo que exercem, confundindo-se pessoa e função no que resta no palco de uma vida que encurta sem outras compensações.

A piedade aconselha que assim os deixemos, perpétuos, ilusórios felizes a rodopiar em torno da lâmpada. Enquanto ela não se apaga.

Não a apaguemos. Não sejamos cruéis.

Onde existir apenas um giga-agrupamento que escolha é que existe?

Mas desde que os excitados que acreditam ser liberais se calem um bocadinho já vale a pena fingir que.

Ministério admite que liberdade de escolha de escolas não será eficaz nos grandes centros

A possibilidade de os pais escolherem uma escola pública para os seus filhos, independentemente do lugar onde vivam ou trabalhem, “pode acabar por não ser tão eficaz quanto se desejaria em zonas de maior concentração populacional”, admitiu o Ministério da Educação e Ciência (MEC) em resposta a questões do PÚBLICO. Professores e pais já o tinham dito na semana passada, quando foi conhecido o despacho que, segundo o MEC, abre o caminho a que os pais possam escolher a escola dos seus filhos.

Até agora, quando inscreviam os filhos no ensino básico público, os pais tinham de indicar cinco escolas da sua área de residência, segundo a sua ordem de preferência. Nas inscrições para o próximo ano lectivo vão poder pela primeira vez esquecer este critério e indicar “livremente cinco escolas da sua preferência”, frisa o MEC. Só que as vagas existentes continuarão a ser distribuídas segundo os mesmos critérios, privilegiando-se, entre outro factores, os alunos com necessidades educativas especiais, que tenham irmãos no mesmo agrupamento ou que residam na sua área geográfica. Ou seja, concluem directores, não se esperam alterações, nomeadamente no acesso às escolas mais procuradas.

Nada que eu já não tivesse escrito há mais de uma semana, mas… é sempre bom ler a confirmação

« Página anteriorPágina seguinte »