Facilitismo?


A hiperburrocratização (dois trocadilhos numa só palavra é mesmo de quem ainda está a começar o ano…) continua de boa saúde e a andar por aqui.

Despacho normativo n.º 13/2014. D.R. n.º 177, Série II de 2014-09-15, do Ministério da Educação e Ciência – Gabinete do Ministro
Regulamenta a avaliação e certificação dos conhecimentos adquiridos e das capacidades desenvolvidas pelos alunos do ensino básico, nos estabelecimentos de ensino público, particular e cooperativo.

Quanto ao varrer dos “indesejáveis” para fora dos exames como estratégia de melhoria dos resultados globais (quantas vezes eu escrevi que o vocacional se destina, principalmente, a isso!), ler o José Morgado:

QUEM COMPROMETER RESULTADOS NÃO REALIZA EXAMES

.

Vem mesmo a tempo de uma melhoria fantástica dos resultados depurados nas vésperas das eleições de 2015…

… sempre inconsegue!

Se somos portugueses, o país é nosso! Quem manda, a governanta funcionária?

Chove.

Aleluia!

Serviço ao público! [lá para os 08:20] Isso misturado com os ah-ha-hum-ha.

Já aqui destaquei uma questão do teste intermédio de 9º ano de Físico-Química que se limitava a ser uma pergunta de recolha de informação e fazer uma subtracção simplérrima. No Blasfémias retomaram essa questão e adicionaram-lhe duas outras muito básicas.

Alertado, fui agora espreitar o teste completo e pasmei. Aquelas questões não são excepção, são a quase regra. Há questões que não testam nenhuma competência específica da disciplina, mas meras competências gerais de recolha de informação e cálculo simples.

A pergunta seguinte poderia ser feita numa prova de aferição de 6º ano de Matemática. Se o contexto temático fosse a de corridas e do tempo que se leva a andar à volta de uma pista, ia dar ao mesmo. Nesta questão está em causa um raciocínio lógico-dedutivo que não tem nada de específico da disciplina de CFQ. Até o facto de se escolher a unidade (ano terrestre) para o cálculo, remete para um nível muito simples de abstracção e cálculo. Aliás, esta pergunta poderia, por hipótese ridícula, inserir-se numa prova de Língua Portuguesa de 6º ano, na parte dedicada à recolha de dados num texto informativo.

Os planetas só lá estão para enfeitar.

Recolhi no FB esta questão de um teste intermédio de Físico-Química (9º ano):

No Expresso (p. 27) assinalam-se as percentagens absurdas de erros em exercícios básicos nas provas de aferição de Matemática e Língua Portuguesa, com destaque para o caso de 69% de alunos que não conseguiram ordenar alfabeticamente, sem erros, nove palavras.

Poderá parecer realmente absurdo.

Mas não é.

Poderíamos dizer que é o fracasso da Escola e da Educação.

Mas não é bem isso.

Pelo contrário, é um sinal de Triunfo.

Do triunfo generalizado da doutrina relativista do Errar é Humano, levada ao seu extremo.

Acham que, como professores de LP, não ensinamos (reensino, pois já deveria vir sabido) os alunos a ordenar alfabeticamente as palavras e a usar um dicionário?

Ensinamos.

Só que a coisa é encarada com displicência e considerada pouco relevante por muitos alunos que acham que se não for desta maneira, é parecido e é quase o mesmo, ou seja, o mesmo.

Mas não é.

Se as provas de aferição contivessem questões muito básicas, mas em que um erro simples implicasse um zero na sua classificação, os níveis de insucesso seriam galopantes.

O que vale é que na maior parte da provas se podem cometer erros sem grandes consequências.

E essa é a ideologia dominante de muitos teóricos do ensino entre nós.

Querem uma abordagem holística que privilegie o conjunto, e o seu eventual sentido, por sobre o conhecimento rigoroso das partes.

E, por qualquer razão curiosa, quiçá por verem que o culto do erro desculpável campeia na sociedade, a miudagem exerce o seu direito ao erro com escassa parcimónia e muita generosidade.

Se eu der uma lista de 5-6 palavras começadas pelas mesmas duas ou três letras (gelo, gelado, gelataria, geladeira, etc), o retorno em número de respostas totalmente certas é sempre muito abaixo do razoável?

Porquê?

Tanto, faz, setôr, qual é o problema? Não é a mesma coisa?

… de tão brilhante parágrafo, escrito em 1992, a propósito do despacho 98-A/92:

Se é verdade que os alunos não aprendem mais por terem repetência, também é verdade que não passam a aprender mais só por serem mais dificilmente retidos. As exigências de múltiplas justificações escritas, formais, oficiais para a retenção não pode significar uma pressão para a progressão facilitada. A qualidade das aprendizagens depende fundamentalmente da qualidade de ensino, da sua adequação às necessidades dos alunos e das condições em que se processa o ensino-aprendizagem. É toda a vida escolar que está em jogo.

Esta prosa está na página 11 da obra que ontem aqui reintroduzi e teve mesmo direito a publicação em Diário da República. Como se percebe, escrito em 1992, este parágrafo poderia ser repetido desde então, cada vez com maior razão de ser…

A autoria só é uma surpresa para quem não anda nisto há mais de 20 anos e para quem não conhece os ziguezagues da vida…

Como aquela da repetição dos exames.

Regimes diferentes para o 8.º ano em vigor este ano podem violar a Constituição

Despacho governamental cria um sistema de benefício injustificável para os alunos que não cumpriram, frisa constitucionalista.

Manuela Ferreira Leite falou um dia – para clamor geral – que a solução para governar (sem o saber evocava o regime excepcional original da ditadura em Roma) poderia ser a de suspender a democracia por seis meses.

O anterior e este governo preferem suspendê-la de forma casuística, por despacho, decreto, portaria ou outro artifício (i)legal.

Cada escola escolhe exames para ‘saltar’ o 9.º ano

Alunos com mais de 15 anos que chumbem no 8.º ano vão poder fazer exames de equivalência para chegar ao 10.º.

Isto significa que quem chumbar pode ir já do 8º para o 10º ano, enquanto quem passar de forma regular só lá chega no ano seguinte.

Não acham giro?

Este ano lectivo e pela primeira vez os alunos com mais de 15 anos, que frequentem o 8.º ano, vão poder fazer fazer exames de equivalência ao 9.º ano. Para “saltar” o último ano do 3.º ciclo, estes estudantes fazem os exames nacionais de Português e Matemática e nas restantes disciplinas fazem as provas feitas por cada escola. Só aqueles que vão chumbar no 8.º é que podem propor-se a exame.

… e pouco depois mostrou-se adepta do criacionismo. São questões de Fé, não devemos interferir.

Ministra nega facilitismo na possibilidade de passar do oitavo para o 10º ano

A ministra da Educação, Isabel Alçada, negou hoje que a possibilidade de os alunos, com mais de 15 anos, auto-proporem-se a exame do 9º ano e passarem para o 10º ano seja facilitismo. A medida, criada em Fevereiro, dá uma nova oportunidade de avaliação para os alunos com mais de 15 anos e que ficariam este ano retidos no 8º ano.

Mas se vem com chancela da Católica talvez levem a sério:

“Laxismo na educação é entrave para a competitividade”

Fátima Barros, directora da FCEE-UCP, afirmou na Conferência “Portugal em Exame” que é preciso reter os melhores talentos no país, mas também importá-los.

Por laxismo acho que será incontroverso entender coisas como:

  • Fazer exames a um nível acessível para não estragar (já) a vida aos alunos (estraga-se depois no mercado de trabalho que os não aceita).
  • Pressionar (a nível central ou local) os professores para darem classificações de sucesso sem olhar exactamente ao desempenho dos alunos, só para se terem estatísticas bonitas de ver.
  • Criar regimes de assiduidade e de procedimentos disciplinares extremamente burocráticos e que responsabilizam mais as escolas e professores do que os alunos e famílias, por forma a mascarar casos de abandono escolar e de violência.
  • Distribuir das Novas Oportunidades do Ensino Básico e Secundário em troca de um portefólio e uns 3 meses de aulas para dar uma aparência de qualificação da mão-de-obra nacional.

Etc, etc, etc…

Observem bem o espaço que é dado para fazer o cáculo 15+45. Isto partindo do princípio que no 6º ano já sabem que uma hora tem 60 minutos…

A prova completa do 6º ano está aqui.

Isto é de uma violência psicológica intolerável

Acusações de facilitismo são “insulto aos professores”, diz Sócrates

Por onde andam uns testes PISA quando precisamos deles para tira-teimas?

Sab25Jun09

Sábado, 25 de Junho de 2009

Arrasador.
Transcrição, para quem não visualizar bem após clicar na imagem, na Partilha do Saber.

Algumas considerações sobre o facilitismo dos exames nacionais – parte 1 (os formulários)

Algumas considerações sobre o facilitismo dos exames nacionais – parte 2 (as calculadoras gráficas)

Elementos sobre o estado da Escola Pública 24: laxismo e facilitismo estudantil significa exclusão social

jn21nov08

O JN trazia hoje um título enganador e (in)cómodo para os protagonistas neste conflito entre o Ministério da Educação e os professores.

Para os professores o título é incómodo porque é falso que a avaliação esteja facilitada. Não se tornou mais fácil, apenas se tornou aparentemente mais simples em termos de aparato.

Porque a questão não é se a avaliação é fácil ou difícil. Está no facto de ela ser adequada ou não. De ela ser capaz de distinguir efectivamente o mérito ou não. De ser justa, equitativa e transparente ou não.

O que está em causa não é a facilidade.

Essa mensagem só pode ser cómoda para os que acham que os professores querem ser avaliados com base no laxismo ou facilitismo de que se queixam quando o ME o tenta aplicar aos alunos. Não é o caso.

Eu tive testes profundamente difíceis na Faculdade com apenas uma ou duas questões para uma hora. Em contrapartida, podem dar-me 10 páginas com centenas de parâmetros de resposta múltipla para fazer em 3 ou 5 horas e esse tipo de exame ser fácil.

O que está em causa é a qualidade do modelo de avaliação do desempenho docente, a sua adequação aos fins pretendidos. Não se é fácil ou difícil.

Público, 25 de Setembro de 2008

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