Excelência


Sorteios da Fatura da Sorte transmitidos na RTP

A questão que se coloca é… Serenella Andrade ou Fernando Mendes a apresentar?

Eu prefiro a segunda hipótese.

Lucia Custódio 40cópiapc-2

 

Um dos grandes dilemas da Educação e não só que não é abordado devidamente, nem por teóricos, nem por práticos.

A conversa da promoção da excelência já a conhecemos e é difícil levantar-lhe reservas. Também eu acho que se deve promover a excelência, embora não necessariamente em nichos. A excelência educativa que não se mede apenas em exames mas, a médio-longo prazo, no grau de desenvolvimento de um país através de inovações consequentes e não de milhentas start-ups que entram em falência seis meses e um artigo de jornal depois.

Nas escolas a excelência pode promover-se de duas formas, uma mais simples, outra mais complicada.

  • A mais simples é segmentar grupos de aprendizagem, apostando muito nos que se acham melhores e capazes da excelência e deixar os outros na mediania ou na mediocridade, com o argumento da natural desigualdade dos méritos. É uma espécie de darwinismo educacional subjacente a muitos dos que defendem novos modelos de gestão e inovadoras formas de organizar o currículo e a própria pedagogia. Baseia-se no princípio implícito de largar o lastro que prende aquilo que pode voar melhor, se o fizer livremente. É um modelo pretensamente meritocrático e escassamente equitativo. Não discordo dele como experiência limitada, mas acho-o impróprio como modelo generalizado em que as desigualdades se acentuam de forma desmesurada como já se demonstrou em diversos casos internacionais.
  • A forma mais complicada é aquela em que a promoção da excelência arrasta consigo a elevação conjunta do desempenho de todos e em que os melhores ajudam todos a melhorar o seu desempenho, sem que isso belisque a sua capacidade de excelência. É diferente do princípio do sucesso para todos a qualquer custo, indiferenciador, pois não pressupõe que todos conseguem o mesmo nível de sucesso ou de desempenho. Apenas acredita que é possível, a partir de uma gestão (moderna ou antiga) apropriada dos recursos, melhorar as capacidades dos “naturalmente” menos aptos através de um trabalho partilhado e em que o voo de uns não se faz à custa do abandono de outros, mesmo existindo concorrência pelos melhores resultados. Não funciona sempre, pode parecer utópico, mas é apenas menos fácil. Mas é mais justo, menos exclusivista e promove a coesão por contraponto ao modelo anterior.

Dou um exemplo concreto do mau uso do primeiro modelo nos tempos do engenheiro, para não parecer que estou apenas a pensar nos lobbys actualmente mais activos na área da Educação: investiu-se imenso na requalificação de escolas secundárias urbanas dos meios já naturalmente mais favorecidos, deixando-se quase ao abandono grande parte do parque escolar das zonas com maiores dificuldades. Apostou-se apenas na excelência de alguns equipamentos, concentrando avultados investimentos que poderiam ter sido distribuídos de forma mais equitativa e passível de elevar as condições globais do conjunto das escolas. Uma melhoria de todos, mesmo que pequena em termos médios, é quase sempre mais positiva do que uma melhoria maior de apenas alguns à custa das perdas de um número muito maior.

Aos mais liberais isto poderá ser um modelo demasiado redistributivo, anacronicamente socialista (mas em meu entender no que esse termo tem de mais nobre e que não foi partilhado pela ideologia rodriguista-socratista e seus derivados em alguma esquerda caviar lisboeta, adepta de melhores liceus para os seus filhos), mas quer-me parecer que é muito melhor do que o do aumento consciente das desigualdades, mesmo se cobertas com o manto da liberdade.

A ideia perigosa da excelência

O último concurso para financiamento de projectos científicos teve uma novidade: a classificação de “excelente” deixou de ser o topo. Agora existem duas mais altas: “marcante” ou “notável” e “excepcional”. Tal inovação não passa de uma forma desonesta de mascarar a austeridade.

(…)

O problema será quando um aluno, também ele excepcional, tentar encontrar na sua universidade um grupo com o qual queira travar um primeiro contacto com a investigação e não conseguir. Não porque o que quer é demasiado específico, mas porque aquela área do conhecimento foi reduzida a um único super-mega-espectacular centro de investigação na outra ponta do país fora do seu alcance naquela fase da sua formação. Os seus professores deixaram de fazer investigação porque não eram “excepcionais” e certamente foi este aluno e os colegas quem mais perdeu com isso.

1986

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