Eterno Retorno


… é não ter uma opinião muito definida sobre qualquer assunto polémico, evitar qualquer tipo de clareza argumentativa e cavalgar toda e qualquer onda de insatisfação. Dizer preto e branco, à vez, com dias de diferença. Desde que diga preto no dia certo e branco no dia apropriado. E cinzento, já agora, quando o vento está de feição.

Ser do Belenenses, sem desprimor.

Não chegou a uma semana de distanciamento bloguístico para perceber que continuo com todos os defeitos habituais: opiniões radicais, excessivas, antipáticas q. b. para algumas pessoas ou grupos e a estupidez de escrever por mim e não por procuração.

Ao fim destes anos, ainda há quem aproveite um períodozinho meu de ausência para ferrar o dente nas tretas do costume?

Não percebem que eu não tenho emenda e não mando dizer por outros? Sou o que sou em nome próprio?

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O grupo parlamentar do PSD apresentou em 2008 no Parlamento uma proposta de resolução na qual considerava “gravoso” que se quisesse sujeitar professores com vários anos de contratos a uma prova de avaliação de competências e que se lhes exigisse uma nota mínima de 14. Cinco anos depois, o ministro da Educação Nuno Crato propõe aos sindicatos um modelo de prova com características semelhantes. Que está a ser alvo de críticas dos sindicatos.

… estava pelas 13 horas a defender o (inexistente) direito constitucional dos alunos a terem um dia tranquilo de exames, como corolário de um ano de trabalho.

  • Em primeiro lugar, é sempre emocionante este apego selectivo às Constituição, sendo que neste caso é duplamente postiço, até por nada vir na Constituição  este respeito.
  • Em segundo, o que está em causa, por exemplo no 9º ano, é um trabalho de um ciclo de escolaridade e no 12º mais do que isso. Mas que, no contexto actual, está mais em causa pelas medidas do governo de demolição da qualidade da rede pública de ensino do que pela (não) realização deste ou aquele exame.
  • Por fim, mas não menos importante, é interessante perceber como, no essencial, há uma enorme afinidade entre as facções que rodam no poder em relação à domesticação da contestação docente. Nem sequer estranho que MLR tenha acedido, em homenagem ao seu passado como ministra que enfrentou uma atabalhoada greve aos exames, a explicar como deve o MEC fazer as coisas antes do próprio se pronunciar.

Aguarda-se a posição de alguns construtores de pontes e entendimentos sobre isto.

  • Considerar que os serviços públicos são serviços equivalentes a qualquer negócio.
  • Alegar que são caros e pouco eficientes, sendo incomportáveis para o orçamento.
  • Desenvolver um plano de cortes que leva ao afastamento de muitos dos funcionários mais competentes e à degradação dos serviços.
  • Alimentar a insatisfação dos utentes, alegando que no sector privado há maior eficácia, com menores custos para o Estado (sem confessar que não é assim para os utentes).
  • Alegar que, dessa forma, é possível baixar impostos, mas baixá-los de forma selectiva e favorecendo em especial os escalões com mais rendimentos.
  • Continuar a política de erosão da qualidade dos serviços públicos (saúde, educação, segurança, transportes), alimentando a fuga dos utentes para os serviços privados.
  • Subsidiar directamente os interesses privados instalados naquelas áreas de actividade.
  • Os serviços públicos, de baixa qualidade, ficam disponíveis apenas para as camadas mais desfavorecidas (em termos materiais, mas também de informação) da sociedade, aumento a desigualdade de acesso a serviços básicos de apoio social, considerados periféricos às funções “naturais” do Estado.

Nos casos em que há alguma competência, a coisa funciona, em termos globais, mal. Nos casos em que há gaspares a fazer os cálculos, é um desastre.

Leitura para acompanhar.

Normal.

Educação diferenciada pode ser solução contra abandono escolar

Estratégias Motivacionais Com Famílias Multiproblemáticas

Sim, está bem… se o desemprego e a miséria continuarem a aumentar, quero ver quantos workshops e diferenciações conseguem funcionar.

Já ouvi e li isto mesmo em 2008 e 2009 em relação às manifestações dos professores.

Cedo soube que era só para acalmar as coisas e que, longe dos holofotes, as mensagens de apoio e conforto a Maria de Lurdes Rodrigues eram mais do que muitas.

Cavaco diz que as vozes dos manifestantes devem ser ouvidas

… com muitos escândalos e uma revolução pelo meio?

Muita coisa, alguma dela relevante, outra apenas entediante por parecer que o marasmo é o mesmo e apenas muda o ritmo das ondas.

Percebe-se que aos polvos e pântanos de antes se sucedem novos polvos e pântanos, que por vezes apresentam ramos genealógicos cruzados, pelo que a ramificação nunca é verdadeiramente cortada.

Que pouco depois de se derrubar uma situação que se clamava escandalosa e desonesta se adoptam parte das mesmas práticas,

Que a defesa da legalidade e constitucionalidade dos preceitos depende da posição relativa em relação ao poder, sendo-se muito estrito na exigência do cumprimento dos formalismos quando se está de fora, mas que depois já se acha que devem ser desprezados em nome da agilização da acção.

Que muita gente fala em interesse nacional quando apenas está a falar em interesses particulares. Que a realidade é descrita com indicadores adequados às teorias e manhas, quando antes se gritava a plenos pulmões pela transparência.

Que a miséria da maioria da população é a grande razão da corrupção endémica que nos assola e que a retórica do desenvolvimento do país não passou, quase sempre, disso mesmo, para encobrir opções destinadas ao engrandecimento de alguns.

Que o povo deve ser ouvido e os seus protestos respeitados até ao momento em que eles passam a incomodar quem assim falava.

1913, 2013, quantos apelidos e práticas em comum, quanto encontramos do passado no presente que nos desanima quanto ao futuro.

Até ao dia em que trocam de S.

Luís Bernardo e Mafalda Costa Pereira, que coordenaram a comunicação política de José Sócrates, no Governo anterior, estão de volta ao PS, agora liderado por António José Seguro, para chefiar a equipa estratégica de comunicação do partido, notícia o Jornal de Negócios.

Mas ainda há quem ache que há alguma mudança ou que pode haver com o PS que há.

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(c) Antero Valério

Carta de José Carlos da Maia a João Chagas em 3 de Julho de 1911, quando também andavam a tentar refundar a Pátria:

Os homens que a constituem [à Câmara dos Deputados] não têm politicamente individualidade definida. Caminham ao acaso seguindo orientações contraditorias que só podem ser explicadas por ambição pessoal.

Nota-se em toda esta gente a ânsia de querer ser. Daí a mobilidade de opiniões defendidas sempre com igual calor e todas apoiadas em argumentos de sólida contextura.

Ser Ministro, eis a ambição suprema, o ideal a atingir. Sacrificar tudo a esta ambição efémera, tudo até a própria dignidade. (Correspondência Literária e Política com João Chagas, Lisboa; Empresa Nacional de Publicidade, 1957, vol I, p. 218)

A acrescentar… apenas que agora o ideal a atingir é um lugar na administração de uma empresa privada, se possível privatizada ou com quem se negociou durante o próprio mandato como ministro ou secretário de Estado, para que as rendas fiquem asseguradas…

 

 

Suspensão? Simplificação? Outra vez?

E que tal agirem em vez de pedirem?

Conselho das Escolas quer suspender avaliação de professores

… repito que o problema não é o grau académico do homem porque acredito sinceramente que se ele tivesse ido às aulas só tinha perdido tempo, pois desenvolveu muito melhor as suas (in)competências no terreno.

O que está em causa é aquilo que se deve assumir com frontalidade e sem pudores: uma trapalhada pegada para justificar o sol com meia dúzia de meteoritos.

Parece que já se percebeu muito bem que a equivalência se baseou na posição do visado e que, de certa forma, isso até explica o enterrar de machado de guerra ensaiado por Passos Coelho, quando chegou à liderança do PSD e entrou em campanha eleitoral, em relação à licenciatura do outro, que tinha sido motivo de zurzidelas repetidas pela larga maioria da sua entourage-mirim nos tempos em que blogavam.

Com telhados de fino vidro na marquise, era melhor acalmar um assunto que, se surgisse, acabaria por implicar uma estratégia de nevoeiro e de teorias da conspiração como a usada pelo engenheiro. Que é o que está em causa… o refúgio na suposta legalidade do que é uma evidente imoralidade.

isto é pura conversa da treta.

Acho que sim. São mais do que lógicas. Até porque se sabe que, com em tempos do PS, que só servem para gregos verem.

A nossa grande vantagem é termos partidos revolucionários que funcionam por requerimento.

Não se confundam… não estou a promover a tomada da Bastilha em cuecas armadilhadas. Apenas acho que, em coerência com a ideologia, outros o deveriam fazer.

(eu sei que deveria ter continuado a postar coisas velhas…)

O Thalassa, nº 2 (13 de Março de 1913)

Despacho n.º 12567/2012. D.R. n.º 187, Série II de 2012-09-26

Ministérios das Finanças e da Educação e Ciência – Gabinetes dos Secretários de Estado da Administração Pública e do Ensino e da Administração Escolar.

Estabelece os universos e os critérios para a determinação dos percentis relativos à atribuição das menções qualitativas aos docentes integrados na carreira.

Vão precisar de um manual, com tabelas de Excel, para que se perceba tudo com clareza. Ou isso, ou esperam que o pessoal do Ad Duo faça.

Não sei se é regresso se é apenas um novo momento crítico em algo que nunca desapareceu.

O que se segue é o excerto de um mail que recebi de uma colega que, apesar de tudo, decidiu superar o efeito paralisante do medo para protestar contra os desmandos sofridos:

Na minha escola vive-se um ambiente de medo permanente:  ele ameaça as pessoas, insulta as pessoas, favorece descaradamente os amigos, circulam fortes rumores de corrupção (alguém teve acesso indevidamente a um documento muito comprometedor); fazem-se reuniões sem pré-aviso, que duram até às 10 da noite e os professores têm que estar na escola logo de manhã cedo para as suas aulas; há professores sem hora de almoço. 
 
 Quem pode sai da escola, concorrendo ou pedindo reforma antecipada; mesmo a nível de direção o ambiente é péssimo, pois o esquema é sempre o mesmo: desrespeito absoluto pelas pessoas.

Vítor Gaspar sinalizou esta noite que do Orçamento para o próximo ano não constará medidas de austeridade além das anunciadas nos últimos dias. “Eu esperaria que o Orçamento para 2013 não traga quaisquer surpresas”, assegurou o governante, reforçando que “as medidas que foram anunciadas hoje são suficientes para conseguir os efeitos esperados” e foram criadas para responder “a ventos contrários de grande relevância” relacionados “com as características do próprio processo de ajustamento, mas também com a crise global”.

Não ficou enterrada com os governos Sócrates a estratégia de justificar investidas contra os direitos laborais dos docentes com a redução do número de alunos a frequentar o sistema de ensino público.

No Correio da Manhã temos mais um desses exercícios:

Meio milhão de alunos a menos

Na última década, as escolas perderam quase meio milhão de alunos, entre o Pré-escolar e o Ensino Básico e Secundário. A diferença entre o número de alunos nos anos lectivos 2002/03 (1 807 522) e 2011/12 (1 321 174) é de 486 348, o que representa uma redução de 26,9 por cento. Esta realidade não deve ser dissociada do decréscimo de nascimentos no País.

Com números podemos fazer coisas maravilhosas, incluindo ignorar todas as restantes variáveis. Contam-se os alunos e, se houve uma redução de quase 27%, então o número de professores deveria seguir a mesma evolução!

Certo?

Errado!

A cada ano temos uma nova revoada desta argumentação da treta que ignora coisas tão simples como o facto de ter aumentado a oferta de disciplinas (e de áreas disciplinares) neste período, de se incluir nestes números professores que desempenham cada vez mais outras funções nas escolas que não as lectivas e, para não me estender mais, o facto de existirem outros números, curiosos, que seria interessante explicar antes de avançar por um caminho único e linear de argumentação.

Vejamos…

Para começar… seria possível contextualizar tudo com a redução de professores dos quadros, devidos às aposentações nos últimos anos?Dá trabalho?

Nem sequer há estatísticas oficiais, é isso?

Ora bem… podemos usar pelo menos os indicadores duma recente publicação sobre o Perfil do Docente (2010-2011).

E o que lá achamos, entre outras coisas?

Que, apesar da citada redução do número de alunos, foi necessário um crescente número de professores contratados no sistema…

Se tivermos em conta que o número total de docentes em exercício diminuiu de 146.040 em 200-01 para 140.684 em 2010-11 (e a redução não foi mais sensível devido ao alargamento da rede do ensino pré-escolar), é fácil perceber que a redução do número de professores do quadro foi substancial (nesse ano eram menos de 110.000), mas foi necessário recorrer a quase 36.000 professores contratados.

Como se explica isso para os teorizadores da necessidade (por razões demográficas) de reduzir o número de professores?

Há algo que não bate certo… reduzem-se os alunos, mas é necessário um crescente número de professores contratados!?

Como explicar que em Julho de 2012 se tivessem sinalizado quase 15.000 docentes sem componente lectiva com tantos contratados em exercício?

Não haverá uma péssima gestão de recursos humanos e quadros mal dimensionados?

Se a quebra foi tão pronunciada nos alunos como é que os tais rácios alunos/professor não revelam isso? Se só no 3º ciclo e secundário se verifica alguma quebra, mas nunca na proporção de quase 27%?

Como é que são explicáveis estes números pelos que gostam de usar apenas duas variáveis e um cálculo muito básico?

Como é possível terem sido empurrados para concorrer a DACL até 13 de Julho tantos milhares de professores, nas circunstância apontadas?

E, já agora, alguém informou os ditos teorizadores (e os seus ecos na comunicação social) que o alargamento da escolaridade obrigatória para 12 anos implica uma alteração na tendência detectada até ao ano passado?

Ou será que dá muito trabalho fazer as coisas com um pouco de seriedade?

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