Estratégia


A área da Educação é aquela em que o desgoverno PSD/CDS – à excepção de um cheque-ensino às claras, embora ele vá avançar de modo indirecto – mais parece determinado em levar o seu anti-PREC ao máximo das suas possibilidades, por forma a tornar muito complicado desmontar toda a asneira feita.

Foram aproveitadas todas as portas abertas por Sócrates e foram escancaradas de par em par, ao mesmo tempo que se foram e vão abrindo outras, por onde todo o folclore fandango irá entrar de armas e bagagens.

O objectivo é tornar o sistema educativo de tal modo desregulado nas matérias que mais interessam a certos grupos de interesses que será muito difícil fazer regressar alguma sanidade a um sector que está a saque há coisa de uma década.

Nisso, desenvolveram bastante a prática dos governos do engenheiro, em especial na área da Educação.

A aposta foi fazer, sendo legal ou não, apostando na morosidade da Justiça e na chantagem feita sobre os juízes do TC. O PR colaborou, por omissão, na forma como a Justiça foi sendo amesquinhada.

O Presidente é parcial com o Governo e não acrescenta nada ao sistema

O constitucionalista Jorge Reis Novais considera que o Chefe de Estado e o Governo tiveram uma estratégia de facto consumado durante os anos da troika.

Não tendo bastado a tentativa de relativizar os problemas do arranque do ano lectivo com números cozinhados acerca das falhas, percebe-se que a ideia do MEC é ir começando a, de fatia em fatia, esvaziar o número de queixosos por esta enorme palhaçada. Com colocações aqui ou ali, mais ou menos distantes, efeitos a 1 de Setembro, etc, etc, até poderem dizer que são apenas 0,1% os que estão a fazer barulho, assim tentando que a opinião pública se desinteresse do assunto.

Não deixa de ser curioso que o principal esforço para fragmentar o concurso nacional e a lógica tradicional de graduação para efeitos de concurso esteja a culminar neste enorme fiasco.

E há que encobrir isso.

… quando se pretende transformar uma rendição numa vitória, prometendo-se que a luta continuará.

Pois, é possível.

Só que eu estou cansadinho de vitórias destas.

Mesmo sendo do Sporting cansa tanta vitória deste tipo.

Vamos ser sinceros, pode ser?

Ou será que dói onde não devia?

De há seis anos para cá… o mais que se conseguiu foi limitar danos e fazer recuar aquilo dos titulares. E isso não foi uma vitória. Foi um empate, porque deixou as coisas como estavam antes da derrota.

Estive a ler um livrinho que há dias aqui postei sobre as campanhas na Rússia em 1944-45 e como Hitler procura, para efeitos de propaganda interna, transformar a defesa de algumas posições em tremendas vitórias sobre os seus inimigos.

Mas o que se passava é que apenas ia adiando a derrota, à espera de uma salvação ex nihilo que nunca apareceu.

E como se diz no tal livrinho, defender uma fortaleza não constitui vitória, quanto muito significa uma ausência de derrota.

Mas nem foi este o caso.

Como o Adolfo algum sindicalismo docente comemora vitórias sobre vitórias após entregar metade do território ao adversário.

Até agora não havia professores a fazer qualquer prova da treta, agora existirão uns 20.000 ou mais…

Isto é uma vitória?

Só se a FNE aprendeu bem e incorporou a forma como a Fenprof alinhava vitórias sobre vitórias até ao descalabro final.

O acordo que a FNE lavrou deixou 20.000 professores no campo de batalha, sob fogo inimigo (para eles, claro, que para a FNE são meros ciscos), com a promessa que a prova que vão fazer talvez outros não venham a fazer no futuro.

Lamento, mas é escasso consolo.

E é uma derrota.

Mais uma.

Servida a solo pela FNE sob o comando altaneiro do bigodes da UGT que fala grosso mas sai de fininho.

Mais um tretas para a colecção.

 

… é a que a qualidade da Educação está em causa de forma muito evidente e não apenas um interesse corporativo dos professores que, neste caso, é uma peça (importante, claro) numa luta que não é contra alunos, famílias, seja quem for que não um governo de putos desgovernados e outros políticos de ocasião que parecem não perceber bem ao que andam.

Não que me incomode a acusação de corporativo.

O que me incomoda é que se esteja a passar a ideia – com um beneplácito alargado – de que os professores estão prontos a “prejudicar os alunos” apenas por não quererem mudar de lugar para outro.

Não é isso que está em causa, mas as k7 e mp3 estão em pré-programação e isso chateia.

É como em 2008-09 quando se quis reduzir tudo a “os professores não querem é ser avaliados”, quando o que estava em causa era, antes de tudo, a divisão na carreira e, de forma secundária para muitos, eu sei, um modelo único e concentracionário de gestão.

Não é segredo que entre os tanques de pensamento que orbitam este governo e estiveram na origem de algum do seu ideário Margaret Thatcher é uma espécie de mãe espiritual.

Ora… aquela singular e mítica sucessão de vitórias eleitorais esteve quase para não acontecer, em virtude do que estava a ser o descalabro económico do seu primeiro mandato. Tudo acabou por ser salvo pelos argentinos, quando decidiram tomar as Malvinas/Falkland e a Maggie se tornou uma warlady. Só que por cá não temos ninguém que nos invada as Berlengas, sendo que a Madeira nem oferecida com dote a querem com o jardinesco lá instalado com o seu séquito. Então há que ir buscar uma lição diferente na governação da Dama de Ferro.

E os liberaizinhos de tertúlia encontram esse exemplo de firmeza e “liderança” na guerra travada pela sua idolatrada Margaret com os mineiros e os seus sindicatos, em particular com o então muito influente Arthur Scargill. Entre nós não há nenhum sindicato assim tão forte, nem o Arménio Carlos tem um estilo capilar tão arrojado, nem existe uma classe profissional tão vasta e determinada como era a dos mineiros britânicos quando os conservadores decidiram dizimá-los para mostrar como não temiam o movimento sindical.

Mas há os professores, em especial do ensino público. Que parecem ser (ainda) muitos e cujo rasto de demonização, iniciado há meia dúzia de anos por Sócrates/Maria de Lurdes Rodrigues, parece ser fácil de retomar, até porque muitos dos meninos-guerreiros assessores do actual governo parecem nutrir por eles um ódio muito particular, como se sentissem especial prazer em apoucá-los, acusando-os, conforme os momentos, de serem privilegiados mas igualmente incompetentes, uma espécie de aristocracia proletária, qualificada como que por engano, mas no fundo uns inúteis, se bem que relativamente perigosos.

Sei que não faz muito sentido, mas naquelas cabecinhas engomadinhas é tudo assim, muito elaborado mas na base da pobreza intelectual franciscana, alimentada a preconceito, ignorância factual mas muita prosápia e peneirice de quem leu umas coisas e teve aulas em estrangeiro.

(ahhhhh… este parágrafo, embora curto, fez-me libertar uma boa quantidade de toxinas… e ainda não adjectivei tudo o que me apetece)

E então devem ter convencido o actual PM – pessoa que cada vez me aparece abundar mais em convicções que entram pelos ouvidos ou em pastinhas finas – que os professores poderiam ser os seus mineiros, a sua guerra particular, capaz de o mostrar um líder forte, capaz de enfrentar os poderosos sindicatos e interesses corporativos e assim iludir a catástrofe económica em que nos vai rapidamente afundando.

E vai daí o homem chega a Paris e decide dizer umas parvoíces, retomando a tese demográfica que uns imbecis (mmm… a adjectivação de quando em vez alivia a tensão…) insistem em metralhar como se fosse um mantra inescapável, só faltando que recuperem os dados do aldrabado estudo tipo-fmi.

Ora… todos nós sabemos que ele sabe que nós sabemos que… ele disto não percebe nada.

E que mais valia estar calado… até porque os mineiros entraram em guerra aberta, o que termina sempre com uma vitória ou derrota total de uma das partes, enquanto que os professores, se conseguirem ser inteligentes e os seus representantes e líderes (sindicais ou a nível de escola) souberem estar à altura das suas responsabilidades, ganharão muito mais em optar pela guerrilha.

Que, como sabemos, sendo cirúrgica, pode moer quase indefinidamente até à queda do adversário.

É o que espero. E o que desejo.

O que é diferente de ser um post anti-sindicalista. Mas há quem confunda porque dá jeito apontar o dedo. O facto de eu ser crítico azedo de muitos políticos e deputados não me torna anti-democrata, a menos que da democracia tenhamos uma visão muito peculiar.

Dito isto…

… gostava de chamar a atenção para algo que já todos percebemos mas que gostaria de aqui deixar explícito.

  • A UGT tem todo o direito de ir fingir que discute alguma coisa com o FMI e a FNE de servir de gabinete de consultores do MEC.
  • A CGTP tem todo o direito de clamar que a rua é sua e tentar enquadrar todo o tipo de protestos com outros seus, para os esvaziar, assim como a Fenprof de ser uma peça operacional dessa estratégia.

Só que não venham dizer que estão, cada uns de sua maneira, a defender mais do que os seus interesses posicionais. Aos trabalhadores nenhuns estão a defender, seja em forma de soft ou de hard power.

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