Equívocos


… como pode ser muito prejudicial a lógica do custo mínimo…

What’s Wrong With Low-Cost Private Schools for the Poor?

Era para outro presidente, vocês é que não perceberam.

 

 

um ministro móvel, daqueles sem imi?

 

Diário de Notícias, 29 de Agosto de 2012

Mais logo aprofundo o que penso acerca do que sei sobre o assunto, nomeadamente o erro que é voltar ás experiências-piloto numa dúzia de escolas seleccionadas para depois obrigar a uma generalização a todo o sistema no ano seguinte em mais uma medida centralista e avessa à autonomia. Para além de recordar estratégias de outros tempos… 🙂 é só recordar quais…

Por outro lado há paradoxos, como o de associar obrigatoriamente o Ensino Profissional a alunos com insucesso, acabando por afastar outros, ao mesmo tempo que o currículo tem equívocos nas suas adaptações, mantendo a origem de muito do insucesso. Até porque quase tudo isto já existe nos CEF e PCA, salvo uma maior ligação ao tecido empresarial que ainda resta e que nada garante que esteja pelos ajustes… a menos que seja para mão de obra gratuita.

O desejo do MEC em reforçar as matrículas nos Cursos Profissionais do Ensino Secundário deu-me mais um daqueles abanões ao mau feitio em que, confesso, sou useiro.

Vou deixar de parte a questão de essa ser uma forma do MEC engolir uns fundos para equilibrar o seu orçamento à custa dos negócios de empresários liberais encostados ao Estado em tudo o que cheire a milhões.

Vou-me concentrar na questão essencial que é o logro em que o Ensino Profissional se tornou, sempre a oscilar entre o argumento retórico demagógico e uma prática que está muito longe de corresponder, em tantos casos, às finalidades que deveria cumprir.

Querer metade dos alunos do Ensino Secundário a frequentar Cursos Profissionais não é, em sim, bom ou mau. Tudo depende da forma como funcionam, da adequação dos equipamentos disponíveis à teoria exposta nos programas e à efectiva relação estabelecida com o chamado tecido empresarial.

Se há bons exemplos de Cursos Profissionais, adequados a alguma procura local de mão-de-obra relativamente especializada, com meios adequados em termos humanos e técnicos, a verdade indesmentível é que há muitos (quantos mais?) em que tudo não passa de uma ficção modelada em tempos de Maria de Lurdes Rodrigues e Valter Lemos para encaminhar parte dos alunos para uma via alternativa à encarada como regular, em que as regras deslocam para os professores e formadores praticamente todo o ónus do insucesso, desde o modelo de avaliação às regras de assiduidade.

E é bom recordar que a avaliação dos órgãos de gestão dependia em parte da diversificação das alternativas propostas, o que fez com que aparecessem Cursos Profissionais de restauração em salas de aula normais, de jardinagem em jardins de pedra (que não os do Fafe) e de acompanhamento de crianças para turmas de crianças grandes incapazes de tomar conta de si mesmas. Isto para não falar dos milhentos cursos de informática destinados a formar pessoal com conhecimentos úteis para os tempos do Windows 98 e para quem multi core se confunde com uma qualquer prática pornográfica. Isto para não falar dos de multimédia que, pelo contrário, são meras iniciações ao que qualquer adolescente consegue fazer com um telemóvel de gama média e um computador com ligação à net.

Para além disso temos ainda o labirinto em que ficamos enredados no plano político, quando cada facção em confronto tem um argumento para cada situação.

  • Se não há cursos de tipo profissional é porque não se oferecem ofertas alternativas ao percurso-padrão e não se adequam essas mesmas ofertas ao perfil e (des)interesses dos alunos.
  • Se há cursos desse tipo é porque se criam percursos estigmatizadores e não-inclusivos, destinados a alunos a quem se pretende cortar horizontes.

Depois há a questão da avaliação… se as regras são mais flexíveis, uns clamam contra o facilitismo. Se existe algum rigor é porque se quer um ensino elitista.

Há sempre alguém pronto a discordar da solução adoptada, logo no plano teórico-político, mesmo antes de se conhecerem as condições concretas em que tais cursos decorrem.

A realidade que conheço através de colegas que leccionam esses cursos é, em especial nas zonas onde servem para agarrar jovens em risco de abandono e com comportamentos problemáticos, de um quase vale-tudo menos arrancar olhos. Os professores são positivamente privados de direitos laborais legalmente estatuídos e praticamente forçados a inventar formas dos alunos passarem por pressão da regulamentação ou da gestão interna. É uma verdadeira epopeia ouvir os relatos do processo que vai dos testes às provas extraordinárias, passando pelas de recuperação para quem nunca quis ser recuperado e goza com quem é obrigado a…

Sendo uma solução interessante, alternativa à regular e não a regra desejável num sistema vagamente normal, os Cursos Profissionais parecem ter-se tornado a fórmula mágica para promover à força um sucesso em que o ónus da prova está apenas de um dos lados. Foi assim que as coisas começaram a ser em tempos de Sócrates e, pelos vistos, é assim que continuarão em tempos de Passos.

E no meio, como peões, alunos matriculados ao engano ou a pensar que assim se safam às disciplinas madrastas e professores arregimentados (em tempos de escassez de horários) para trabalhos forçados com escasso sentido.

E um país enganado, de novo, acreditando que existe alguma formação profissional a sério onde só há truques.

 

Para mim, o essencial passa pelo modelo de funcionamento destes cursos, que torna os professores quase escravos do desempenho dos alunos, com a obrigação de realizar provas de recuperação e provas extraordinárias sempre que os jovens decidem não estudar e reprovar nos testes de cada módulo.

Para além de que, na prática, os professores são obrigados e repor todas as aulas, sendo-lhes vedado o direito inscrito no ECD de faltar. Mesmo em caso de doença, as aulas terão de ser dadas, seja quando for. Uma pessoa falta uma semana por doença incapacitante nesse período? Tem de repor todas essas aulas, a bem ou a mal.

O ónus está sempre do lado do professor…

De quem foi a ideia desta nova valtice?

Crato quer metade dos alunos do 10.º no ensino profissional

Associações contestam a exequibilidade desta medida, pois “os alunos já estão inscritos nas escolas” e até temem que as inscrições baixem.

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