Doutor Em Spin


Exp9Ago14bExp9Ago14Expresso, 9 de agosto de 2014

Entretanto, o Expresso faz tudo para aguentar o sistema instituídos e nos seus altos da semana coloca Carlos Costa (de novo) no caderno principal e a ministra das Finanças no caderno de Economia.

Como bem sabemos, por tantas experiências passadas, isto são apenas profissões de fé destinadas a reconfortar os convertidos.

Tal como com empresas públicas que foram passadas para o domínio privado.

Elabora-se uma narrativa, ajoujada em números martelados, sobre os seus imensos prejuízos para o orçamento do país e sobre o seu mau desempenho.

Faz-se um downsizing dos seus quadros humanos e reduzem-se os encargos.

Divide-se a estrutura em parcelas, que se vão progressivamente alienando.

É um método que permite fragmentar a resistência, desorçamentar encargos e, cereja em cima do merengue, servir clientelas diversas, neste caso locais.

Foi publicado há dias o volume das Estatísticas da Educação relativo ao ano lectivo de 2012-13.

Até passou despercebido, porque há assuntos que andam muito mais quentes, mas foi impossível não reparar na mensagem básica que foi transmitida:

Ensino nacional perdeu quase 100 mil alunos

O sistema de ensino nacional perdeu quase 100 mil alunos entre os anos letivos de 2011/2012 e 2012/2013, segundo o Ministério da Educação, destacando-se o ensino básico, com menos 64.288 estudantes.

De acordo com os dados do relatório «Estatísticas da Educação 2012/2013», houve um total de 2.139.977 alunos inscritos, entre a educação pré-escolar, ensino básico, ensino secundário, ensino pós-secundário não superior e ensino superior.

Comparando com os dados do relatório relativo ao ano letivo 2011/2012, é possível constatar que há uma redução de 98.956 alunos entre os dois anos letivos, já que naquele ano letivo estiveram inscritos 2.238.933 alunos.

Estes dados incluem alunos matriculados/inscritos e adultos em atividades de educação e formação.

Entre os vários níveis de ensino, é no básico que a quebra é mais acentuada, passando de 1.157.811 em 2011/2012 para 1.093.523 em 2012/2013, o que representa menos 64.288 alunos.

Só lá muito mais para o fim da peça é que se pode ler que:

Olhando apenas para a educação e formação de jovens, a quebra é menos acentuada, passando de 1.710.075 no ano letivo 2011/2012 para 1.696.696 em 2012/2013, o que representa menos 13.379 estudantes.

Comecemos pelas partes giras… em primeiro lugar, ao usar-se a expressão “ensino nacional” mete-se tudo ao molho, sabendo-se que será lido algo mais parecido a “ensino público”; em segundo, estas estatísticas continuam a sofrer de velhos males… os dados ora aparecem sobre Portugal, ora apenas sobre o Continente, ora incluem o ensino privado, ora não incluem e temos nós de os calcular… quando pura e simplesmente os valores nuns quadros não batem certo com os de outros, apesar de se referirem à mesma realidade… é o caso do número de docentes do ensino público que num quadro geral têm um valor, mas quando se vai ao quadro do vínculo contratual já têm outro…

Mas, passemos ao que interessa. Quando se vão ver os números e se comparar com os de 2011-12 o que achamos?

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Os tais 100.000 que se perdem, têm uma distribuição muito assimétrica… na rede pública perdem-se 3% e na privada quase 10%.

Como já sabemos que estas conversas se destinam, em primeiro e último lugar, a justificar os cortes em decurso na rede pública de escolas e no número de professores, que tal vermos a evolução do número de docentes (do quadro e contratados) neste mesmo período?

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Como parece ser fácil perceber, em termos relativos, a redução de docentes foi quase o triplo da redução do número de alunos… sendo muito maior entre os contratados que desceram de 31.000 para menos de 22.000.

Mas isso não é notícia…

Só mesmo para terminar… a evolução do número de alunos e escolas da rede pública do 1º ciclo em Portugal Continental:

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Certamente, haverá quem diga que isto significa ganhos de eficiência do sistema

Eu não descreveria ou qualificaria assim a coisa

 

Ontem, à noite, na TVI24, Augusto Santos Silva deu largas à sua proverbial e periódica pesporrência analítica que serve, como em quase todos os analistas, para acertar contas pessoais e políticas e não propriamente para “analisar”.

Na ocasião, dizia ele que Passos Coelho foi levado para o poder num andor que quatro personalidades seguravam: Paulo Portas, Jerónimo de Sousa, Mário Nogueira e Francisco Louçã.

Para além do ressabiamento geral quanto aos que chumbaram o PEC IV (que foram todos os partidos da oposição, coisa que alguns fazem por ignorar ou amputar da realidade), nota-se ali um ódio particular aos professores que ele quis injustamente personalizar em Mário Nogueira, o líder sindical que tão boas relações tinha com Isabel Alçada/Alexandre Ventura durante o segundo governo do engenheiro Sócrates, com quem se entendeu e acordou em mais de uma ocasião.

Singularizar Mário Nogueira foi apenas uma forma de apontar o dedo aos professores em guerra com Sócrates, desde os tempos de Maria de Lurdes Rodrigues no ME,

E revela como esta gente do grande centrão partilha as ideias e projectos.

Mas voltando ao essencial eu gostaria de deixar claros alguns pontos sobre esta matéria, enquanto cidadão e professor:

  • Varrer o engenheiro e a sua clique do poder foi um imperativo de higiene política básica. Apoiei essa varridela e fá-lo-ia outra vez, pois considero que foi obra meritória e patriótica. Percebo que Santos Silva discorde, mas, afinal, cada um defende a sua facção como pode.
  • Quando se diz que Passos Coelho chegou ao poder de modo instrumental e apenas como forma de afastar Sócrates, parece ignorar-se que Sócrates chegou ao poder de modo instrumental e apenas como forma de afastar Santana Lopes.
  • Considero que varrer Passos Coelho e a sua clique é outro imperativo de higiene política básica. É obra meritória e patriótica. Apoiarei essa varridela sem problemas, só que receio muito que se estejam a perfilar para a sucessão os ressabiados como Santos Silva que, apanhando-se lá. continuarão a obra do engenheiro e, pelo que se vê, aprofundarão a sua acção de bullying profissional sobre a classe docente. O grande consenso em torno da obra de pseudo-balanço das políticas educativas de MLR serviu para que eu percebesse em quem não dá para confiar.

 

Não gosto de duvidar da palavra de quem não conheço, pelo que não vou duvidar das belíssimas intenções do vereador famalicense Leonel Rocha ao jornal O Povo Famalicense.

Só que… infelizmente já ando cá há quase meio século e já assisti a muito troca-tintismo seja a nível central, seja a nível local.

E se as autarquias querem tanto fazer o Bem, nada as impede a partir dos canais já existentes, seja da participação nos Conselhos Gerais, seja através do Conselho Municipal de Educação.

O que me parece “esquisito” é pretender-se fazer o “Bem” mas apenas desde que se recebam mais poderes e dinheirinho.

Ora… assim também eu.

Mun. Famalicão

O Povo Famalicense, 8 de Julho de 2014

Vejamos a mensagem que se pretende passar:

Crato garante que municípios não vão gerir carreira ou salários de docentes no próximo ano

Agora leia-se com atenção a declaração, tecnicamente irrepreensível, pois Crato sabe que está quase de saída e que em 2015-16 já não será ele a prestar contas:

“Eu sei o que vai acontecer no meu mandato e o que está em causa no meu mandato é, no próximo ano lectivo, haver uma transferência de competências para os municípios que não inclui a gestão dos salários e a contratação de professores. Não inclui. Continuará a ser feita pela administração central. E o que está em causa em linhas gerais é um maior envolvimento local na melhoria da educação, é só isto. Não vale a pena especularmos”, afirmou.

Por acaso vale a pena especularmos e, mais importante, vale a pena especular porque a FNE está mortinha por fazer mais este frete ao MEC, ao ponto do seu líder ir à televisão defender a medida, em mais uma tentativa de branqueamento da acção da tutela.

O governante foi questionado à saída de uma reunião com a Federação Nacional da Educação (FNE) sobre a proposta de descentralização de competências deste ministério para as autarquias e que inclui a possibilidade de estas serem monetariamente compensadas, caso consigam gerir as escolas com menos docentes, mas garantiu que tal não irá acontecer.

Garantiu que não vai acontecer? Até quando vale a garantia? Porque, como o passado demonstrou, houve outras garantias que também tiveram um prazo muito curto, justificado com declarações como esta “o que está em causa no meu mandato”…

EDP diz que Mexia não irá para o BES

RTP noticiou que António Mexia poderá ser o novo presidente do BES em substituição de Ricardo Salgado. Não é a primeira vez que o seu nome é apontado para este cargo, mas Mexia já disse que isso “não faz sentido nenhum”.

… pois corresponde a tudo o que eu esperava e ainda vai mais longe na forma de manipular as coisas por forma a tornar uma obra sobre os 40 anos da Educação em Democracia um mero instrumento para legitimar as políticas desenvolvidas entre 2005 e 2009 e rasurar por completo as críticas ou visões alternativas da realidade reescrita.

Aliás, difícil seria esperar diferente de uma obra feita por uma facção político-académica, com um par de convidados especiais para dar a ilusão de pluralismo, que convida os seus alunos e colegas para abordar algo em que se foi parte interessada e bem interessada.

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Não tenho tempo, por agora, para fazer uma recensão completa às 600 páginas, mas gostava de deixar, desde já, algumas notas básicas:

  • Uma obra que pretende analisar 40 anos de Educação em Democracia não deveria (poder, pode, como se vê) ser feita como arma de auto-legitimação de uma equipa política que ocupou o poder nesta área da governação e que faz de um “estudo” uma espécie de apologia, com pretensões de fundamentação histórica, das suas próprias opções, eliminando qualquer tipo de eventual dissonância. Temos a obra de uma professora universitária e coordenadora de um programa de doutoramento, ex-ministra, que chamou de volta os seus mais dilectos colaboradores e os seus mais fiéis alunos para erguer algo que, em primeira e última instância, se trata de um escrito que serve para justificar as suas próprias opções políticas num dado mandato.
  • Uma obra deste tipo, com as pretensões do seu título, não deve ser feita, em especial quando se abordam áreas muito específicas, por quem é mero “interessado” na matéria. Ou seja, eu nunca ousaria fazer um capítulo sobre Educação Especial, por muito que o assunto me interesse, se apenas sei alinhavar a evolução do seu enquadramento jurídico. Mas Luís Capucha não hesitou e fez um capítulo que faz lembrar aqueles apontamentos esquemáticos que fazíamos na Faculdade, como resumo de obras complexas, deixando apenas o esquelético e factual, mas eliminando qualquer pretensão de análise conceptual do tema da Educação Especial. Consultar aquele capítulo ou um qualquer digest da legislação sobre a Educação especial, vai dar ao mesmo.
  • A finalizar este volume, anuncia-se uma parte sobre “O Debate Público”. Neste volume só se encontra um capítulo, entregue a Pedro Abrantes sobre “Opinião Pública e Políticas Educativas. E a entrar refere-se que o ensaio vai tratar o assunto para o período de 1960 a 2010. E quase esperei que fosse isso mesmo. Mas não é, porque não poderia ser. Era impossível que fosse algo assim, feito a sério, com este contexto editorial. A verdade é que o artigo se divide, no essencial, em três partes… uma de suave enquadramento teórico sobre a percepção pública das políticas educativas, com recurso a uns dados do European Social Survey, outra em que se recolhem testemunhos de ministros da Educação até 1999 que se encontram numa obra de António Teodoro e uma outra que praticamente se limita a alinhavar uns títulos de jornais (parece que se confunde “opinião pública” com “jornais”) sobre a questão dos exames de 2005 para cá, mais coisa menos coisa. Por incrível que pareça, este “ensaio” consegue escamotear totalmente o que foi motivo de maior polémica e discussão no espaço público e mediático na última década em matéria de Educação, dando a entender que tudo se centro nos exames. Zero sobre as polémicas sobre a carreira docente, a organização curricular, a gestão das escolas, a organização da rede escolar, etc, etc, etc, etc, etc. O mandato de Maria de Lurdes Rodrigues é, neste ensaio, uma pasmaceira em termos de polémicas, parecendo que tudo foi consensual e impermeável a contestação na opinião pública e publicada. Não percebo se é essa a convicção do autor, se acha que dos 50 anos de análise que prometeu, achou que os últimos 5 não mereciam nada mais.

Só isto já me fez considerar bem gastos os 19,20 aérios (tinha 70 cêntimos no meu cartão da Almedina para descontar) que dei pelo cartapácio, pois eu adoro ter para leitura, exploração e utilização futura todo aquele tipo de obras muito datadas e comprometidas com determinada Situação, ao ponto de se tornarem caricatas ao fim de um par de décadas, mesmo quando surgem com chancela académica.

Quantas obras tidas como “essenciais” nos anos 60 ou 70 (e já mesmo 80) conseguem resistir hoje a uma leitura sem um sorriso algo condescendente sobre o seu “alcance” e as motivações que se vão tornando cada vez menos fáceis de ocultar?

… Soares, o Velho que o empurrou de escantilhão?

Depois de ouvir os lellos e ramalhos (até o galamba mais jovem) nas televisões, restam pouca dúvidas que o amuo não ficaria por palavras.

 

Governo afasta descida das indemnizações por despedimento ilegal

Executivo convenceu a troika.

Tudo treta.

A verdade só mesmo lá para o Verão.

Até mesmo em relação a isto

Nova licenciatura suspeita envolve adjunto de Sócrates

Para quando investigações mais a sério sobre coisas como esta que vem na Visão desta semana?

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Por exemplo, hoje chamaram-me a atenção para o sucesso galopante de certos escritórios de advogados ligados ao poder do centralão dos negócios em matéria de outsourcing jurídico do Governo.

… com anúncios de poupanças mil sem sacrifícios.

Mendes diz que cortes são de 1,7 mil milhões

(…)

Garantiu ainda que não haverá aumento de impostos, nem “cortes adicionais” nos salários e pensões. A poupança será feita, disse, na máquina do Estado e através de taxas a sectores mais ricos, como a energia e banca.

Nota-se muito o ambiente pré-eleitoral.

Marques Mendes só diz o que lhe dizem e dizem-lhe aquilo que querem que ele diga. Ele não é jornalista ou investigador, é apenas amigo de. Não passa de um efeito de eco.

Os cortes anunciados dificilmente significarão que as pessoas não verão os rendimentos reduzidos, a menos que perder o posto de trabalho ou a sua prestação social deixe de se considerar uma

“Está a ser visto Ministério a Ministério. Neste momento já há ao que parece uma poupança de 800 a 850 milhões de euros, ou seja, metade do 1,7 que está previsto, sobretudo à custa, digamos assim, com a colaboração de três ministérios – Segurança Social, Economia e Educação”, afirmou Marques Mendes no seu espaço de comentário semanal, na Sic.

“O que significa que já só falta metade e esta metade há-de ser repartida entre cortes na despesa” de “outros ministérios e eventualmente algumas taxas, como na energia e outras”, continuou.

Marques Mendes referiu que as poupanças passam, entre outras, por cortes em despesas intermédias, fusões e reorganização de serviços, e sublinhou as palavras já ditas por Passos Coelho, de que não haverá cortes adicionais nos salários e pensões. 

O que há a reter? A palavra “algumas” antes de taxas que é indefinida q.b. para ficar paredes meias com a irrelevância.

Por gastos intermédios na Segurança Social e na Educação é difícil imaginar algo que não passe por medidas relacionadas com a diminuição de prestações sociais (que não sejam pensões) ou postos de trabalho (para esta malta os professores não auferem salários, constituem despesa).

Quanto a poupanças na Economia, deve ter sido engano do recadeiro. Não se vê por onde possam poupar numa área que só serve para alimentar o ego do actual ministro,

 

Entre algumas coisas que foram ditas ontem na conversa toda depois das 17 horas, houve uma ou outra que se mostraram – no desânimo do desespero actual – especialmente carentes de perspectiva em relação à evolução da situação dos professores na última década.

Se valter hugo mãe teve o cuidado de sublinhar que a erosão da situação do professorado tem vindo a ser um processo continuado, houve quem, da audiência (não retive o nome, apenas que era um colega mais ou menos da minha idade), em termos mais inflamados, quase ensaiasse uma recuperação de Maria de Lurdes Rodrigues por comparação com Nuno Crato.

Eu percebo a reacção de quem, doendo-lhe fortemente um dente, culpa a dor e quer remédio rápido que a anule, perdendo a perspectiva da origem da dor.

É uma reacção natural, mas fica pela resolução do imediato, não resolve a doença e abdica de determinar a sua origem. É um erro. Grave.

A origem do mal está – para não ir mais longe – em 2005 e num estudo encomendado por Maria de Lurdes Rodrigues a João Freire, seu mentor político e académico, e que lhe foi entregue em Dezembro de 2005 (é essa a data do documento) e que teve uma circulação muito restrita, até eu o ter recebido através de uma fonte ligada ao movimento sindical e ter feito neste blogue sete posts (A Arqueologia do Estatuto da Carreira Docente 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7) a propósito desse guião destinado a domesticar a classe docente, estrangular a sua progressão na carreira e aplainar a sua remuneração.

Que parece ser bom recuperar.

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Parece que muita gente não leu ou já se esqueceu dessas mais de 100 páginas em que João Freire faz um desenho técnico-político da melhor forma de quebrar a força de uma classe profissional, através de uma negociação hábil destinada a criar quotas de progressão, categorias diferenciadas entre professores e tudo o mais que em seguida se viu.

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Até mesmo uma plafonamento da progressão salarial lá está, aquela que agora se está a tentar impor como definitiva, depois de apresentada como provisória.

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Ao colega muito inflamado que falou, respondi que não sei bem se a culpa maior pelos males que nos entrem pela porta é de quem a escancarou se de quem a abriu em primeiro lugar.

No meu caso, não ilibo ninguém, não tenho falta de memória e não estou disponível para recuperar algozes do passado, só porque agora há novos.

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Se for necessário, eu ainda me recordo de quem esteve na Almedina do Saldanha, no lançamento do livro de MLR, a prestar-lhe vassalagem.

Alguns, por não gostarem de Passos Coelho e Crato até agora dizerem umas coisas assim vagas a favor dos professores, até podem enganar os mais incautos. Mesmo na área do PSD já então ela muito admirada, pelos que estão e pelos que gostariam de estar.

a) Em Portugal, governa-se a Educação em ziguezague.

b) Em Portugal, as políticas educativas nunca são verdadeiramente avaliadas, antes de serem enxertadas, reformadas, amputadas ou desvirtuadas.

c) Em Portugal, nunca seria popular entre a classe mista de políticos e especialistas concluir que o trabalho de professores em sala de aula com os seus alunos melhorou por competência daqueles. O que há de bom foram eles a fazer ou sugerir e, por isso mesmo, não dá para distinguir, pois todos acabam, deste modo, por ser responsáveis.

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Expresso, 5 de Abril de 2014

O estilo de Mário Crespo é muito próprio, nem sempre concordo com as suas posições, mas é um estilo de jornalismo incómodo, mesmo se selectivamente incómodo, como muitos outros. Uma pessoa gosta de quem gosta e desgosta de quem desgosta.

Como em outras alturas, reagiu mal quando se sentiu afastado ou limitado no seu programa na SICN.

Mas, analisando a publicidade esplendorosa ao BIC (o comprador do que resta do BPN por tuta e meia, com o Miga Amagal como esta de fego) no Expresso, talvez reconsidere… é bem verdade que quase toda a banca”de referência” está lá em peso com mensagens de esperança na retoma (até o Santander-Totta, aparentemente o menos alinhado com este desgoverno), mas há ali um destaque que vai da primeira página até à página 3.

E olhem que não é nada que, mesmo de forma ténue, há uns tempos, não chegue aos próprios blogues com o recado de “vê lá se não acabas por parecer racista, que eles são muito sensíveis a isso”.

 

1 – Quem faz publicidade e ajuda a pagar a coisa.

2 – O Zé a limpar a imagem, dizendo agora o contrário do que sempre ajudou a dizer.

3 – Manobras de contra-spin depois do descalabro das pensões indexadas às quecas férteis. Pequena nota (do lado esquerdo) a dar conta da sensibilidade social do PR e “notícia” com um pseudo-plano B governamental de tipo “socialista” e “esquerdista” contra os ricos (do lado direito).

4 – Secção d’O Crime em sinergia com a redacção da Caras.

5 – Outras coisas para acabar de encher o espaço.

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Expresso, 29 de Março de 2014

Mais do que o caso em concreto, é interessante que se perceba como tudo é feito. Não é novo e, como dizia André Macedo na TSF, o problema é quando é one-on-one e o governante desmente depois, porque sabe que é difícil provar-se que disse o que efectivamente disse.

Os canais de informação funcionam desta forma e é assim que se preenchem muitos títulos e páginas de jornais, em alegre convívio e não como resulytado de investigação.

Há casos, em especial na área da Economia e da pequena política, em que os cordelinhos ficam mesmo todos à vista de quem não seja distraído.

Numa nota intitulada «Sigilo sobre a fonte e não sobre o assunto», os diretores do Diário Económico, Público, DN, JN, Correio da Manhã, Dinheiro Vivo e da agência Lusa afirmam ter cumprido «todas as regras da profissão, bem como o acordo feito, em coletivo e na presença de todos, com o membro do Governo que convidou os jornalistas» para um encontro, na quarta-feira, no Ministério das Finanças, e que resultou na notícia de estar a ser ponderado um corte permanente de pensões.

«O tema da reunião seria a convergência de pensões. Durante o encontro, foi referido que os temas abordados e discutidos poderiam ser noticiados, mas sem serem atribuídos a nenhum responsável, apenas a fonte do Ministério das Finanças. Os temas tratados, com embargo de divulgação até à meia-noite de quarta-feira, acabaram por fazer a manchete da maioria dos títulos de imprensa de quinta-feira», lê-se no texto.

A forma como os governantes, de hoje e ontem, procuram manipular a opinião pública, através da selecção de jornalistas e órgãos de comunicação social preferenciais para dar “notícias” é um dos maiores atentados à transparência do funcionamento da democracia.

A manipulação tem origem no poder e visa enganar os cidadãos através da fuga selectiva da informação que se considera conveniente, no timing escolhido.

Era a velha ideia da “central de comunicação” do governo Santana/Portas e que Sócrates desenvolveu com escasso pudor.

Aliás, qualquer “notícia” que começa com um contacto por parte de um governante ou um seu emissário deveria ser assim caracterizada, sem os eufemismos da “fonte oficial” que ocultam o processo de recvolha da informação.

Marques Mendes fala em cortes de até 1700 milhões em 2015

O número é atirado de forma oficiosa usando quem não se importa de cumprir a missão. Fica-se à espera das reacções. Acerta-se ou não a estratégia, conforme essas reacções.

Isto é tão básico, tão previsível que se mantém a dúvida: são eles que são assim tão básicos e estúpidos ou apenas pensam que nós é que somos?

Vivemos tempos pasmosos de manipulação da relação entre realidade e linguagem. E mesmo da própria causalidade dos factos reais e objectivos, como se alguém tivesse decidido transformar a nossa vida pública num delírio de pós-modernices.

Há desemprego galopante, em especial entre os jovens?

A culpa é de quem está empregado e impede a entrada de novos trabalhadores.

Mas impede como?

Mantendo-se empregado?

Mas se fosse despedido não iria para o desemprego por troca com o que (hipoteticamente) iria para o seu lugar?

No caso dos professores, por exemplo, a saída de um professor com redução da componente lectiva não equivale a um lugar de início de carreira.

Mas a mistificação está alargada a toda a sociedade, a cada diatribe televisiva do alucinado César da Neves ou crónica radiofónica iluminada do avançado mental Camilo Lourenço. Ou comentário contra os “velhos” de governantes ou opinadores na esperança de terem um qualquer lugar ou a fazerem por merecer o que já receberam.

Os “velhos” (parece que se aplica a qualquer pessoa acima dos 40-50 anos) são culpados do desemprego dos “jovens” (estado que parece prolongar-se até aos 35-40 anos).

São conservadores e atávicos. Parece que teriam de abdicar dos eu salário para serem progressistas. Alinharem pelo culto da mediocridade sem refilar. E quando se recusam a isso são vilipendiados a torno e direito pelos maçães-totós e outros borginhos de aviário.

A culpa não é de quem falhou as opções políticas de investimento com os dinheiros que choveram da Europa, preferindo as negociatas endogâmicas ao interesse público, de quem fez contratos ruinosos apostando na inimputabilidade ou nas prescrições, de quem delapidou lucros em gastos sumptuários em vez de os reinvestir de forma produtiva.

Não.

A culpa é dos “velhos” que ainda mantêm o seu emprego e procuram manter um mínimo de qualidade de vida para as suas famílias.

Ide…

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