Contributos


Adenda: espiral hiperbólica. Parece.

A OPINIÃO DOS DOCENTES SOBRE AS PRINCIPAIS REIVINDICAÇÕES DA FNE PARA A AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO DOCENTE

Continuo aqui em obra de pro bono. Já tenho o meu destino lectivo mais ou menos traçado para o próximo ano, não precisam agradecer. Quer dizer… se me quiserem recompensar, há sempre banda desenhada nova a sair e outras antiguidades.

Mas vamos lá.

1.

No episódio Novas Oportunidades, Passos Coelho cometeu um desnecessário deslize linguístico, falando em certificação da ignorância. A expressão é, em si mesma, paradoxal, porque os formandos não recebem certificados de ignorância mas, em muitos casos, certificados de competências que não têm. Ou seja, certificados de competências fictícias. A culpa não é deles. Muitas vezes, basta ver a sua preocupação e empenho nos espaços de espera dos CNO, estão lá com boas intenções. A máquina é que não está montada para os qualificar, mas apenas para os certificar. Em alguns casos, até ficam a ganhar algo, mas isso é inifinitesimal por comparação ao investimento feito no aparato em volta.

Perante o deslize, o contra-ataque mobilizou forças blogosféricas, mediáticas, técnicas e políticas. Saíram logo da cartola os abrantinos, Isabel Alçada, Vieira da Silva, Luís Capucha e o próprio Sócrates.

E fizeram o que fazem melhor. Recortaram a expressão e exploraram-na à exaustão, como um director do fmi gostaria de ter explorado uma serviçal afro-americana caso tivesse tido menos resistência.

Em vez de se manter mais ou menos firme na sua posição, Passos Coelho recuou em terreno aberto, acabou por admitir que dissera o impróprio e acabou a remendar a sua crítica deslocando-a para a encenação propagandística das NO.

Fez, em grande parte, mal.

Porque a crítica à máquina NO tem razões para existir, não apenas pelo aproveitamento, mas pelo próprio funcionamento, que continua por avaliar de uma maneira séria (espreitar aqui).

Passos Coelho ficou como alguém preconceituoso que falou sobre o que não conhece, recuando em seguida, perante o tropel adversário. Fez mal. Porque preconceituosos são muitos daqueles (do próprio PCP ao PS, passando por Loução no debate de ontem) que aceitam validar acriticamente as NO só porque lhes parece que ajudam os pobrezinhos e coitadinhos. É mentira, na sua larga maioria os seus efeitos são residuais na melhoria de vida das pessoas certificadas.

2.

Mas esta estratégia de ataque e fuga desordenada já acontecera em outra matéria, também ligada à Educação. Tratou-se da forma inexplicável como Passos Coelho reagiu às críticas de Santana Castilho na apresentação de um livro que aceitou prefaciar. Neste caso, repetiu erros, pois aceitou dar o aval a um escrito sobre uma matéria crítica, num período crítico. Não se prefacia um livro nestas condições se não se concorda com o que lá está. Se concorda, não se deixa que o programa eleitoral do partido não inclua o essencial do que lá vem (acho que vem, a incompetência da Wook continua a surpreender-me!). E depois, perante audiência agastada, afirma-se que se vai mudar o programa eleitoral.

Isto não é humildade, é um erro enorme. O programa eleitoral tinha 3 ou 4 dias e já merecia errata? Eu até discordo fortemente do programa, mas deu-me algum dó ver aquela forma de reagir perante a investida de alguém que se sentiu menos valorizado do que gostaria em todo o processo.

A reacção correcta seria a de admitir que o programa tivera vários contributos e que nem todos tinham sido passados para versão definitiva. Que mais tarde, quando no poder, na altura de negociar, se poderiam fazer ajustamentos. Nunca dizer que se iria a correr corrigir o programa. Porque ou se faz isso e é ridículo ou não se faz e se caiu em nova contradição.

E Sócrates vai aproveitar-se disso em grande no debate que se aproxima.

3.

Agora uma espécie de dica (sei que tem quase marca registada, mas eu vou ousar…) para uma boa polémica em matéria de Educação:

Os encargos e oportunidade de algumas obras da Parque Escolar.

Mas, POR FAVOR, sem parecer que estão a colocar em causa a requalificação dos equipamentos.

Apresentar dúvidas sobre as intervenções… se foram feitos estudos prévios sobre as efectivas necessidades das escolas intervencionadas (sabe-se que algumas não precisavam de obras de 15 milhões de euros…) ou se foi a olhómetro, se houve monitorização das intervenções, se os materiais usados foram os prometidos, se os encargos com a manutenção de alguns equipamentos não inviabilizam a sua actualização, acabando por se tornarem obsoletos antes de devidamente usados.

Identificar casos de obras sumptuárias em escolas que tinham falta de equipamentos muito específicos. Relacionar certas intervenções com a cartografia eleitoral.

Estudar as empresas envolvidas e a distribuição dos dinheiros… Determinar quais os custos efectivos de tanta obra, a sua engenharia financeira…Elaborar uma lista de aparições ministeriais e não só em período pré-eleitoral, bem como de anúncio do lançamento de novas obras ou projectos.

E não se deixar intimidar pela campanha demagógica de contra-ataque que surgirá tentando apresentar a crítica como um ataque à requalificação do parque escolar, que é nestas alturas que o PS mostra como a Educação e tudo isso, pois são apenas tretas para encobrir que esta área de negócios vale mais milhões do que o aeroporto…

Ou seja, ter uma ideia de ataque, explorá-la e não vacilar.

Poderiam tentar? Só uma vez para se perceber se temos gente capaz de enfrentar os outros?

Pronto, também eu – para não ficar atrás de alguns sindicatos – quero facultar elementos para que os colegas não sintam o sufoco destes dias, para isso usando o contributo da Isabel G. e da sua forma de preencher a ficha de autoavaliação:

01 – Como avalia o cumprimento do serviço lectivo e dos seus objectivos individuais estabelecidos neste âmbito?

Excelente. Cumpri o dever de assiduidade que abrange todos os funcionários do Estado e que sempre foi o meu objectivo individual.

02 – Como avalia o seu trabalho no âmbito da preparação e organização das actividades lectivas? Identifique sumariamente os recursos e instrumentos utilizados e os respectivos objectivos.

Excelente. Utilizei os recursos necessários à programação das aulas de modo a promover a formação e realização integral dos alunos, estimulando o desenvolvimento das suas capacidades, a sua autonomia e criatividade.(art. 10ºA alínea b) do ECD)

03 – Como avalia a concretização das actividades lectivas e o cumprimento dos objectivos de aprendizagem dos seus alunos? Identifique as principais dificuldades e as estratégias que usou para as superar.

Excelente. As dificuldades foram superadas organizando e gerindo o processo ensino-aprendizagem, adoptando estratégias de diferenciação pedagógica susceptíveis de responder às necessidades individuais dos alunos. (artº 10ºA alínea d) do ECD)

04 – Como avalia a relação pedagógica que estabeleceu com os seus alunos e o conhecimento que tem de cada um deles?

Excelente. Tenho o conhecimento suficiente e necessário de forma a respeitar a sua dignidade pessoal e as suas diferenças culturais valorizando os diferentes saberes e culturas, prevenindo processos de exclusão e discriminação (art. 10ºA alínea a) do ECD) e promovendo o desenvolvimento do rendimento escolar dos alunos e a qualidade das aprendizagens, de acordo com os respectivos programas curriculares e atendendo à diversidade dos seus conhecimentos e aptidões (art. 10ºA alínea c) do ECD)

05 – Como avalia o apoio que prestou à aprendizagem dos seus alunos?

Excelente.

06 – Como avalia o trabalho que realizou no âmbito da avaliação das aprendizagens dos alunos? Identifique sumariamente as instrumentos que utilizou para essa avaliação e os respectivos objectivos.

Excelente. Foram usados os instrumentos de avaliação definidos nas reuniões de grupo adequando-os às exigências do currículo nacional, dos programas e das orientações programáticas e curriculares, adoptando critérios de rigor, isenção e objectividade na sua correcção e classificação (artº 10ª alínea f do ECD)

(…)

09 – Como avalia o seu contributo para a vida da escola e em particular a sua participação nos projectos e actividades previstos ao nível da escola/agrupamento e da turma (designadamente, no 1.º ciclo, na supervisão das actividades de enriquecimento curricular)? Identifique as actividades que dinamizou e/ou em que participou.

Excelente. Colaborei com todos os intervenientes no processo educativo, favorecendo a criação de laços de cooperação e o desenvolvimento de relações de respeito e reconhecimento mútuo, em especial entre docentes, alunos, encarregados de educação e pessoal não docente. (art 10º ponto 2 alínea c))

10 – Como avalia a sua participação nas estruturas de orientação educativa e nos órgãos de gestão e o contributo que deu para o seu funcionamento?

Excelente. Colaborei, de forma activa, nas reuniões de departamento. Cooperei com os órgãos de gestão sempre que solicitada.

11 – Como avalia o estado de actualização dos seus conhecimentos científicos e pedagógicos e a sua capacidade de utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação?

Excelente. Actualizo e aperfeiçoo os meus conhecimentos, capacidades e competências, numa perspectiva de aprendizagem ao longo da vida, de desenvolvimento pessoal e profissional e de aperfeiçoamento do meu desempenho. (artº 10, ponto 2 alínea d) do ECD). Excelente capacidade para a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação

.12 – Refira as acções de formação contínua realizadas e a classificação nelas obtida e avalie o contributo de cada uma delas para o seu desempenho profissional

Não realizei nenhuma acção de formação.

13 – Identifique sumariamente as suas necessidades de formação e de desenvolvimento profissional

Formação em Educação de Adultos.

14 – Como avalia a relação que estabeleceu com a comunidade e o cumprimento dos seus objectivos individuais definidos neste âmbito?

Excelente.

15 – Este espaço destina-se a permitir aos coordenadores de departamento curricular e aos professores titulares com funções de avaliação fazer a auto-avaliação do exercício das funções de coordenação e/ou avaliação. Permite ainda a todos os docentes adicionar elementos complementares que considere relevantes para a sua auto-avaliação

Cumpri, na sua generalidade, os deveres consignados no ECD nos artigos 10º, 10ºA, 10ºB e 10ºC.

Caro Paulo

Perdoe-me a ousadia de opinar sobre uma questão deste teor; considere esta intervenção como se fosse apenas um raciocínio em voz alta para esclarecimento das minhas próprias dúvidas.
Em primeiro lugar, o defunto modelo sobre o qual nos debruçamos não tem pernas para andar, não só pela sua complexidade mas sobretudo porque não assegura qualquer avaliação credível e, sobretudo, qualquer responsabilização de quem avalia. Por isso, parece-me que a única hipótese de desbloquear a situação é suspender (com intuito de SUBSTITUIR) este modelo e construir outro que seja fundado numa avaliação interna, colegial, com identificação e responsabilização de quem avalia e fundamentação (declarações de voto, por exemplo) em caso de discordâncias do colégio avaliador. O recurso para instâncias superiores teria de estar assegurado, evitando a formação de “capelinhas”, quer no sentido de um corporativismo desculpabilizador, quer no de uma excessiva valorização dos avaliados de uma escola ou agrupamento. A Inspecção poderia e deveria ter, nestes casos, um papel fundamental. Assim estaria resolvido um dos fantasmas deste processo, a avaliação de Insuficiente, cujas consequências seriam, obviamente e em primeiro lugar, formativas, mas não excluiriam, em casos considerados graves, outras soluções. Uma segunda consequência lógica deste procedimento seria a da validação dos avaliadores, ela própria efectuada pela dinâmica interpares; parto obviamente do princípio de que a maioria dos profissionais têm competência para tal.
Quanto à solução transitória, não me parece que solução para este ciclo possa ser outra que não a manutenção do modelo antigo, regulamentada que seja a atribuição de Muito Bom e Excelente – que poderia e deveria caber a um colégio da própria escola ou agrupamento, desde que fosse assegurada a participação nesse colégio de elementos que pudessem julgar das dimensões específicas da disciplina do professor avaliado. Como é óbvio, tal resolveria também o problema das quotas, que poderiam ser recomendadas como critério adicional mas seriam ultrapassáveis desde que o relatório global da avaliação o justificasse cabalmente.
A avaliação incidiria assim sobretudo sobre aspectos científicos e pedagógicos, prevendo como critérios adicionais e, eventualmente, distintivos outros parâmetros como o envolvimento, a todos os níveis, na comunidade escolar.
O único instrumento a apresentar pelo avaliado seria um VERDADEIRO relatório crítico e o seu dossiê pessoal – que, só chegaria (e, talvez, muito bem, e, talvez, como factor distintivo) a um Portefólio se e quando o profissional o entendesse.
Peço desculpa pela extensão do que não pretendeu ser mais que uma achega.

Um abraço,

Paula Lago

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