Contributos


Adenda: espiral hiperbólica. Parece.

A OPINIÃO DOS DOCENTES SOBRE AS PRINCIPAIS REIVINDICAÇÕES DA FNE PARA A AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO DOCENTE

Continuo aqui em obra de pro bono. Já tenho o meu destino lectivo mais ou menos traçado para o próximo ano, não precisam agradecer. Quer dizer… se me quiserem recompensar, há sempre banda desenhada nova a sair e outras antiguidades.

Mas vamos lá.

1.

No episódio Novas Oportunidades, Passos Coelho cometeu um desnecessário deslize linguístico, falando em certificação da ignorância. A expressão é, em si mesma, paradoxal, porque os formandos não recebem certificados de ignorância mas, em muitos casos, certificados de competências que não têm. Ou seja, certificados de competências fictícias. A culpa não é deles. Muitas vezes, basta ver a sua preocupação e empenho nos espaços de espera dos CNO, estão lá com boas intenções. A máquina é que não está montada para os qualificar, mas apenas para os certificar. Em alguns casos, até ficam a ganhar algo, mas isso é inifinitesimal por comparação ao investimento feito no aparato em volta.

Perante o deslize, o contra-ataque mobilizou forças blogosféricas, mediáticas, técnicas e políticas. Saíram logo da cartola os abrantinos, Isabel Alçada, Vieira da Silva, Luís Capucha e o próprio Sócrates.

E fizeram o que fazem melhor. Recortaram a expressão e exploraram-na à exaustão, como um director do fmi gostaria de ter explorado uma serviçal afro-americana caso tivesse tido menos resistência.

Em vez de se manter mais ou menos firme na sua posição, Passos Coelho recuou em terreno aberto, acabou por admitir que dissera o impróprio e acabou a remendar a sua crítica deslocando-a para a encenação propagandística das NO.

Fez, em grande parte, mal.

Porque a crítica à máquina NO tem razões para existir, não apenas pelo aproveitamento, mas pelo próprio funcionamento, que continua por avaliar de uma maneira séria (espreitar aqui).

Passos Coelho ficou como alguém preconceituoso que falou sobre o que não conhece, recuando em seguida, perante o tropel adversário. Fez mal. Porque preconceituosos são muitos daqueles (do próprio PCP ao PS, passando por Loução no debate de ontem) que aceitam validar acriticamente as NO só porque lhes parece que ajudam os pobrezinhos e coitadinhos. É mentira, na sua larga maioria os seus efeitos são residuais na melhoria de vida das pessoas certificadas.

2.

Mas esta estratégia de ataque e fuga desordenada já acontecera em outra matéria, também ligada à Educação. Tratou-se da forma inexplicável como Passos Coelho reagiu às críticas de Santana Castilho na apresentação de um livro que aceitou prefaciar. Neste caso, repetiu erros, pois aceitou dar o aval a um escrito sobre uma matéria crítica, num período crítico. Não se prefacia um livro nestas condições se não se concorda com o que lá está. Se concorda, não se deixa que o programa eleitoral do partido não inclua o essencial do que lá vem (acho que vem, a incompetência da Wook continua a surpreender-me!). E depois, perante audiência agastada, afirma-se que se vai mudar o programa eleitoral.

Isto não é humildade, é um erro enorme. O programa eleitoral tinha 3 ou 4 dias e já merecia errata? Eu até discordo fortemente do programa, mas deu-me algum dó ver aquela forma de reagir perante a investida de alguém que se sentiu menos valorizado do que gostaria em todo o processo.

A reacção correcta seria a de admitir que o programa tivera vários contributos e que nem todos tinham sido passados para versão definitiva. Que mais tarde, quando no poder, na altura de negociar, se poderiam fazer ajustamentos. Nunca dizer que se iria a correr corrigir o programa. Porque ou se faz isso e é ridículo ou não se faz e se caiu em nova contradição.

E Sócrates vai aproveitar-se disso em grande no debate que se aproxima.

3.

Agora uma espécie de dica (sei que tem quase marca registada, mas eu vou ousar…) para uma boa polémica em matéria de Educação:

Os encargos e oportunidade de algumas obras da Parque Escolar.

Mas, POR FAVOR, sem parecer que estão a colocar em causa a requalificação dos equipamentos.

Apresentar dúvidas sobre as intervenções… se foram feitos estudos prévios sobre as efectivas necessidades das escolas intervencionadas (sabe-se que algumas não precisavam de obras de 15 milhões de euros…) ou se foi a olhómetro, se houve monitorização das intervenções, se os materiais usados foram os prometidos, se os encargos com a manutenção de alguns equipamentos não inviabilizam a sua actualização, acabando por se tornarem obsoletos antes de devidamente usados.

Identificar casos de obras sumptuárias em escolas que tinham falta de equipamentos muito específicos. Relacionar certas intervenções com a cartografia eleitoral.

Estudar as empresas envolvidas e a distribuição dos dinheiros… Determinar quais os custos efectivos de tanta obra, a sua engenharia financeira…Elaborar uma lista de aparições ministeriais e não só em período pré-eleitoral, bem como de anúncio do lançamento de novas obras ou projectos.

E não se deixar intimidar pela campanha demagógica de contra-ataque que surgirá tentando apresentar a crítica como um ataque à requalificação do parque escolar, que é nestas alturas que o PS mostra como a Educação e tudo isso, pois são apenas tretas para encobrir que esta área de negócios vale mais milhões do que o aeroporto…

Ou seja, ter uma ideia de ataque, explorá-la e não vacilar.

Poderiam tentar? Só uma vez para se perceber se temos gente capaz de enfrentar os outros?

Pronto, também eu – para não ficar atrás de alguns sindicatos – quero facultar elementos para que os colegas não sintam o sufoco destes dias, para isso usando o contributo da Isabel G. e da sua forma de preencher a ficha de autoavaliação:

01 – Como avalia o cumprimento do serviço lectivo e dos seus objectivos individuais estabelecidos neste âmbito?

Excelente. Cumpri o dever de assiduidade que abrange todos os funcionários do Estado e que sempre foi o meu objectivo individual.

02 – Como avalia o seu trabalho no âmbito da preparação e organização das actividades lectivas? Identifique sumariamente os recursos e instrumentos utilizados e os respectivos objectivos.

Excelente. Utilizei os recursos necessários à programação das aulas de modo a promover a formação e realização integral dos alunos, estimulando o desenvolvimento das suas capacidades, a sua autonomia e criatividade.(art. 10ºA alínea b) do ECD)

03 – Como avalia a concretização das actividades lectivas e o cumprimento dos objectivos de aprendizagem dos seus alunos? Identifique as principais dificuldades e as estratégias que usou para as superar.

Excelente. As dificuldades foram superadas organizando e gerindo o processo ensino-aprendizagem, adoptando estratégias de diferenciação pedagógica susceptíveis de responder às necessidades individuais dos alunos. (artº 10ºA alínea d) do ECD)

04 – Como avalia a relação pedagógica que estabeleceu com os seus alunos e o conhecimento que tem de cada um deles?

Excelente. Tenho o conhecimento suficiente e necessário de forma a respeitar a sua dignidade pessoal e as suas diferenças culturais valorizando os diferentes saberes e culturas, prevenindo processos de exclusão e discriminação (art. 10ºA alínea a) do ECD) e promovendo o desenvolvimento do rendimento escolar dos alunos e a qualidade das aprendizagens, de acordo com os respectivos programas curriculares e atendendo à diversidade dos seus conhecimentos e aptidões (art. 10ºA alínea c) do ECD)

05 – Como avalia o apoio que prestou à aprendizagem dos seus alunos?

Excelente.

06 – Como avalia o trabalho que realizou no âmbito da avaliação das aprendizagens dos alunos? Identifique sumariamente as instrumentos que utilizou para essa avaliação e os respectivos objectivos.

Excelente. Foram usados os instrumentos de avaliação definidos nas reuniões de grupo adequando-os às exigências do currículo nacional, dos programas e das orientações programáticas e curriculares, adoptando critérios de rigor, isenção e objectividade na sua correcção e classificação (artº 10ª alínea f do ECD)

(…)

09 – Como avalia o seu contributo para a vida da escola e em particular a sua participação nos projectos e actividades previstos ao nível da escola/agrupamento e da turma (designadamente, no 1.º ciclo, na supervisão das actividades de enriquecimento curricular)? Identifique as actividades que dinamizou e/ou em que participou.

Excelente. Colaborei com todos os intervenientes no processo educativo, favorecendo a criação de laços de cooperação e o desenvolvimento de relações de respeito e reconhecimento mútuo, em especial entre docentes, alunos, encarregados de educação e pessoal não docente. (art 10º ponto 2 alínea c))

10 – Como avalia a sua participação nas estruturas de orientação educativa e nos órgãos de gestão e o contributo que deu para o seu funcionamento?

Excelente. Colaborei, de forma activa, nas reuniões de departamento. Cooperei com os órgãos de gestão sempre que solicitada.

11 – Como avalia o estado de actualização dos seus conhecimentos científicos e pedagógicos e a sua capacidade de utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação?

Excelente. Actualizo e aperfeiçoo os meus conhecimentos, capacidades e competências, numa perspectiva de aprendizagem ao longo da vida, de desenvolvimento pessoal e profissional e de aperfeiçoamento do meu desempenho. (artº 10, ponto 2 alínea d) do ECD). Excelente capacidade para a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação

.12 – Refira as acções de formação contínua realizadas e a classificação nelas obtida e avalie o contributo de cada uma delas para o seu desempenho profissional

Não realizei nenhuma acção de formação.

13 – Identifique sumariamente as suas necessidades de formação e de desenvolvimento profissional

Formação em Educação de Adultos.

14 – Como avalia a relação que estabeleceu com a comunidade e o cumprimento dos seus objectivos individuais definidos neste âmbito?

Excelente.

15 – Este espaço destina-se a permitir aos coordenadores de departamento curricular e aos professores titulares com funções de avaliação fazer a auto-avaliação do exercício das funções de coordenação e/ou avaliação. Permite ainda a todos os docentes adicionar elementos complementares que considere relevantes para a sua auto-avaliação

Cumpri, na sua generalidade, os deveres consignados no ECD nos artigos 10º, 10ºA, 10ºB e 10ºC.

Caro Paulo

Perdoe-me a ousadia de opinar sobre uma questão deste teor; considere esta intervenção como se fosse apenas um raciocínio em voz alta para esclarecimento das minhas próprias dúvidas.
Em primeiro lugar, o defunto modelo sobre o qual nos debruçamos não tem pernas para andar, não só pela sua complexidade mas sobretudo porque não assegura qualquer avaliação credível e, sobretudo, qualquer responsabilização de quem avalia. Por isso, parece-me que a única hipótese de desbloquear a situação é suspender (com intuito de SUBSTITUIR) este modelo e construir outro que seja fundado numa avaliação interna, colegial, com identificação e responsabilização de quem avalia e fundamentação (declarações de voto, por exemplo) em caso de discordâncias do colégio avaliador. O recurso para instâncias superiores teria de estar assegurado, evitando a formação de “capelinhas”, quer no sentido de um corporativismo desculpabilizador, quer no de uma excessiva valorização dos avaliados de uma escola ou agrupamento. A Inspecção poderia e deveria ter, nestes casos, um papel fundamental. Assim estaria resolvido um dos fantasmas deste processo, a avaliação de Insuficiente, cujas consequências seriam, obviamente e em primeiro lugar, formativas, mas não excluiriam, em casos considerados graves, outras soluções. Uma segunda consequência lógica deste procedimento seria a da validação dos avaliadores, ela própria efectuada pela dinâmica interpares; parto obviamente do princípio de que a maioria dos profissionais têm competência para tal.
Quanto à solução transitória, não me parece que solução para este ciclo possa ser outra que não a manutenção do modelo antigo, regulamentada que seja a atribuição de Muito Bom e Excelente – que poderia e deveria caber a um colégio da própria escola ou agrupamento, desde que fosse assegurada a participação nesse colégio de elementos que pudessem julgar das dimensões específicas da disciplina do professor avaliado. Como é óbvio, tal resolveria também o problema das quotas, que poderiam ser recomendadas como critério adicional mas seriam ultrapassáveis desde que o relatório global da avaliação o justificasse cabalmente.
A avaliação incidiria assim sobretudo sobre aspectos científicos e pedagógicos, prevendo como critérios adicionais e, eventualmente, distintivos outros parâmetros como o envolvimento, a todos os níveis, na comunidade escolar.
O único instrumento a apresentar pelo avaliado seria um VERDADEIRO relatório crítico e o seu dossiê pessoal – que, só chegaria (e, talvez, muito bem, e, talvez, como factor distintivo) a um Portefólio se e quando o profissional o entendesse.
Peço desculpa pela extensão do que não pretendeu ser mais que uma achega.

Um abraço,

Paula Lago

Um texto com um par de anos, publicado num jornal escolar, que me foi gentilmente enviado pelo Aristides Adão: a-festa.

Recebido por mail de várias origens, é um relatório com interesse, por procurar conhecer melhor a realidade docente, para além das teorias e números oficiais::

Caro(a) Professor(a),

É com o maior gosto que lhe envio a versão preliminar do relatório de análise dos resultados ao inquérito em que, no decurso do mês de Maio, teve a amabilidade de participar.

O documento em anexo: “Os desafios da Escola Pública – Inquérito a educadores e professores sobre as condições de exercício da actividade docente”, procura sistematizar as principais conclusões resultantes da análise dos dados, evidenciando a importância de colocar no centro das políticas educativas a questão do quotidiano profissional dos docentes.

Agradeço por isso, novamente, o seu contributo, sem o qual não teria sido possível aprofundar – através desta iniciativa – as questões tratadas no documento.

Quaisquer comentários, sugestões e observações, que desde já agradecemos, devem ser enviados para o seguinte endereço de correio electrónico: educacao_be@be.parlamento.pt

Com os meus melhores cumprimentos,

Ana Drago

Relatório preliminar completo: inqueritobe.

O Fernando Cortes Real começou no Kosmografias o seu contributo para a construção de uma alternativa aos modelos actualmente propostos pelo ME.

Lendo-o, poderemos todos contribuir com as nossas ideias, tal como eu o farei.

Também aqui no Umbigo tentarei divulgar as minhas ideias sobre o assunto, não se de forma tão sistematizada como o Fernando. Será apenas a oportunidade para, de forma construtiva, demonstrar que a crítica às políticas deste ME não são meramente reactivas, mas sim que se baseiam em concepções bastante diferentes da carreira, da avaliação e da progressão, assim como do modelo de gestão das escolas. Sei que a APEDE também está no mesmo caminho e com eles penso colaborar.

No meu caso muitas ideias nem sequer serão as mais populistas, mas não me incomodo que as escrutrinem e aos seus fundamentos, a saber:

Para se ser professor é necessário que exista sempre uma componente de docência lectiva, salvo em casos de incapacidade manifesta para o seu exercício por motivos de saúde.

  • A base da carreira deve ser comum, embora com diferenciações funcionais verticais, seja no plano da gestão e administração escolar, seja no da dinamização de projectos e espaços escolares.
  • A progressão deve corresponder à conclusão de cada segmento da carreira.
  • A carreira deve estar segmentada em escalões de 4 anos correspondentes a um modelo de três ciclos de ensino com 4 anos, numa escolaridade obrigatória de 12 anos que leve a sério o conceito de continuidade pedagógica.
  • A avaliação (assim como ingresso na profissão) deve basear-se em provas públicas de aptidão pedagógica (numa fórmula obviamente diversa para o ingresso e a progressão que depois explicarei).

Como até ao momento no caso da contestação, um funcionamento em rede de troca de ideias (aquilo a que Jorge Coelho chamaria um mecanismo de «pseudo-democracia avançada» como verbalizou numa Quadratura do Círculo), mesmo que discordantes, é fulcral para dinamizar o chamado Plano B (ou A-2.0, porque no fundo é a segunda parte do msmo) e tornar claro que os professores não são os últimos a perceber do ofício que exercem.

Se estas ideias foram no passado propostas por alguém ou se são, ou não, partilhadas por este sindicato ou aquela associação profissional não me interessa.

Interessa-me sim que sejam debatidas ideias e conceitos pois, afinal, o primeiro texto a sério deste blogue foi exactamente sobre isso.

Qualquer projecto de avaliação deve ser entendido numa perspectiva formativa, baseada na partilha de experiências, na entreajuda e na procura comum de soluções. Colocar professores a avaliar os seus “pares” numa situação de superioridade, esquecendo aqueles pressupostos parece-nos, à partida, comprometedor de todo o processo. Parece-nos igualmente comprometedor que quem avalia não tenha que ter qualquer formação em supervisão. Seria de grande utilidade que o Ministério da Educação não só procedesse a formação nessa área, como formasse equipas de supervisores por disciplina, encarregados de acompanhar formativamente os professores, como se faz na maioria dos países europeus mais desenvolvidos.

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Texto completo aqui.

Carta re-reencaminhada e chegada por mail ao Umbigo através do António Antão:

Boas! Deixo aqui a carta, que pretendo seja bastante esclarecedora, que enviei para vários figuras do meio cultural, político, jornalístico do país. Não me conformo em não fazer nada… isto é muito pouco, nada, atendendo à arrogância da senhora ministra, mas pelo menos, deito-me mais tranquila!
Enviei para o director do Expresso, J.N., Público, para a Inês Pedrosa (para ver se ela abre osolhos e não diz mais asneiras acerca dos profs),para o Pacheco Pereira, para o António Barreto, para o Marcelo, para um jornalista do Sol que um dia me contactou, para o Presidente da República… ainda procuro o mail do Manuel Alegre (que a ele ninguém o cala) e do Sousa Tavares (com o mesmo objectivo da Pedrosa).

Se pensares em mais alguém, avisa. Nunca será demais.

Fátima

Boa noite,

Peço-lhe, por favor, dedique uns minutos à leitura desta missiva, já que é imperioso alertar o país para o estado calamitoso para o qual resvala, irremediavelmente, a Educação em Portugal, caso não se faça nada em contrário. Sou professora e não alimento nem a ilusão nem a pretensão de conseguir mudar muito. Mas V. Excia tem os meios para promover essa mudança.

Vai-me permitir a brutalidade do discurso, mas a situação é gravíssima, muito mais do que transparece tibiamente para o exterior, e este governo incompetente, cínico e prepotente vai conseguir destruir, não apenas o presente, mas, mais gravosamente, o futuro. E não, não estou a ser dramática. Antes estivesse.

1º ponto – Avaliação do desempenho dos professores.

Deve ficar bem claro que os professores querem ser avaliados! Cansados estamos todos de sermos enxovalhados em praça pública, porque nada no sistema distingue os maus profissionais dos bons! Não queremos é esta avaliação. E não é por capricho. É por ser abusiva, quase que surreal, de tão distante que está do conhecimento objectivo da realidade escolar. É despótica e brutal em todos os âmbitos, desde a planificação à implementação… chegando, neste caso, a ser perigosa. A incompetência e falta de lisura dos senhores que comandam o Ministério da Educação são gritantes e raia o patético. Não só insultam os professores, mas insultam (e é bom que todos se consciencializem disso) todos os portugueses, sempre que tentam passar a imagem de competência e profissionalismo.

Passemos aos factos, que poderá constatar com toda a facilidade (e nem os mencionarei todos, por serem tantos).

É pedido, digo, exigido, às escolas que, num prazo de 20 dias, a contar da data de publicação do Decreto Regulamentar nº 2/2008, de 10 de Janeiro seja implementado o processo de avaliação dos professores com base em documentos, despachos, grelhas, recomendações que, decorridos quinze dias sobre aquele prazo, não foram tornados públicos:

· Faltam as recomendações do Conselho Científico (“os avaliadores procedem, em cada ano escolar, à recolha, através de instrumentos de registo normalizados, de toda a informação que for considerada relevante para efeitos da avaliação do desempenho. Os instrumentos de registo referidos no número anterior são elaborados e aprovados pelo conselho pedagógico dos agrupamentos de escolas ou escolas não agrupadas tendo em conta as recomendações que forem formuladas pelo conselho científico para a avaliação de professores.” – artigo 6º, ponto 1 e 2);

· sem aquelas recomendações, o Conselho Pedagógico não pode elaborar e aprovar os tais “instrumentos de registo”, nem se pode proceder à observação de aulas (artigo 17º);

· o regime da “observação de aulas” raia o absurdo, não porque os professores vejam inconveniente em serem observados (são-no, todos os dias), mas pela violência que representa para o avaliador. Invocando um Decreto Lei que, expressamente, referia que a redução dos departamentos para quatro apenas teria efeitos no concurso para titular (200/2007), o Ministério agora exige o que não é apontado neste despacho 2/2008: a reorganização dos departamentos naqueles quatro, instalando mais confusão num processo já de si tão escabroso e provocando a aglomeração grande número de docentes em cada um desses quatro departamentos. O meu, e do qual fui eleita coordenadora, entenda-se também, “avaliadora” (Departamento de Línguas), tem 31 professores. O das Ciências, por exemplo, tem quarenta e muitos professores. Como é possível que uma pessoa consiga assistir a três aulas por ano lectivo (neste ano, generosamente, apenas serão duas) de 30 professores? Além disso, como é possível acompanhar as planificações das aulas, diárias, desses trinta professores, reunir com cada um, definir objectivos, estratégias e instrumentos? Tudo isto mantendo um horário completo (sim, porque os avaliadores não têm redução alguma da sua componente lectiva, nem tão pouco qualquer alteração no seu salário, nem direito a horas extraordinárias), tendo o dever maior de cumprir com as suas turmas (que, para mim, é o realmente importante! Eu sinto-me responsável pelas minhas cinco turmas do 11º ano!), ao que acresce todo o trabalho burocrático e administrativo do Conselho Pedagógico, onde tenho assento e… as minhas próprias planificações! Sim, porque eu também serei avaliada, duplamente, como professora e como avaliadora! Poderei vir a tornar-me uma competentíssima avaliadora, mas, certamente, me tornarei numa pior professora. E isso é o que mais me angustia, porque eu gosto de dar aulas!

· é certo que no artigo 12º é apontada a possibilidade do coordenador “delegar as suas competências de avaliador noutros professores titulares, em termos a definir por despacho do membro do Governo responsável pela área da educação.”. Está bom de ver que… falta esse despacho.

· O que falta, por parte do Ministério, não se fica por aqui: falta o despacho que aprova as fichas de avaliação (artigo 35º), como falta o despacho relativo às ponderações dos parâmetros de avaliação (nº 2, artigo 20º), como falta o despacho conjunto de estabelecimento de quotas previsto no nº 4 do artigo 21º, como falta a portaria que define os parâmetros classificativos a realizar pela inspecção (nº 4 do artigo 29º), como falta o diploma que rege a avaliação dos membros dos conselhos executivos que não exercem funções lectivas (nº1 do artigo 31º).

· no artigo 8º pode ler-se: 1 — A avaliação do desempenho tem por referência: a) Os objectivos e metas fixados no projecto educativo e no plano anual de actividades para o agrupamento de escolas ou escola não agrupada; b) Os indicadores de medida previamente estabelecidos pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada, nomeadamente quanto ao progresso dos resultados escolares esperados para os alunos e a redução das taxas de abandono escolar tendo em conta o contexto socio-educativo.2 — Pode ainda o agrupamento de escolas ou escola não agrupada, por decisão fixada no respectivo regulamento interno, estabelecer que a avaliação de desempenho tenha também por referência os objectivos fixados no projecto curricular de turma.

Nada disto existia antes de 10 de Janeiro e não se altera o Regulamento Interno de uma Escola nem o seu Projecto Educativo, documentos estruturantes que envolvem a participação de todas a comunidade escolar (pais, professores, funcionários, alunos, autarquia) em 20 dias! A menos que se faça com a mesma rapidez, consistência e respeito pelos envolvidos com que o Ministério da Educação despacha leis.

2º ponto – Postura do Ministério da Educação

Creio que os aspectos já apontados seriam suficientes para traçar o negro perfil dos órgãos responsáveis pela área de educação, mas este Governo colocou a fasquia bem alta, daí que tenhamos notícia de algumas pérolas de… escapam-me já as classificações…. e que passo a enunciar (pelo menos, as que eu conheço pelos meios de comunicação social:

· Há dois dias atrás, a Sra Ministra respondeu aos jornalistas, a propósito do, chamemos-lhe, mal-estar manifestado pelas escolas, com a candura que caracteriza o seu discurso, que estavam reunidas todas as condições para se proceder à avaliação do desempenho e que o Ministério daria todo o apoio necessário (não encontrei a citação exacta).

No dia seguinte, é comunicado, através do site do Dgrhe (http://www.dgrhe.min-edu.pt/), que “a contagem dos prazos definidos no artigo 24º do Decreto Regulamentar 2/2008 iniciar-se-á na data da divulgação na internet das recomendações do Conselho Científico para a Avaliação de Professores”. Então, não estava tudo a decorrer com normalidade? Até se perdoaria este “lapso” não estivesse o documento eivado de muitas outras arbitrariedades!

· As cerejas no topo do bolo, porque são duas, chegaram hoje com as afirmações do Sr. Secretário de Estado Adjunto e da Educação, Jorge Pedreira: «Os conselhos pedagógicos podem produzir os seus instrumentos sem essas recomendações. Não é obrigatório que as recomendações existam. O decreto regulamentar diz tendo em conta as recomendações que forem formuladas. Se não forem formuladas…»,

(http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=77274)

Creio que nem será necessário comentar uma declaração deste tipo… diz na lei, mas se não aparecerem as recomendações…

Extrapolando: aqueles despachos em falta… se não aparecerem… as escolas improvisarão, que já vão tendo prática disso.

· A outra cereja prende-se com o tal “Conselho Científico”. Aliás, está prevista para hoje a apresentação das famigeradas “recomendações”. O grotesco desta aparente prova de competência está bem expressa em mais uma afirmação do Sr. Secretário de Estado Adjunto e da Educação, que refere que, estando “em funções há vários meses”, a presidente do Conselho Científico, esta elaborará as recomendações!

(http://dn.sapo.pt/2008/01/25/sociedade/ministerio_improvisa_solucoes_para_r.html)

Se isto não é um insulto a tudo o que são os princípios de um estado democrático, já não sei mais o que pensar!

Ora, lê-se no documento aprovado em Conselho de Ministros que regulamenta o Conselho Científico que “Este órgão consultivo será constituído por um presidente, cinco professores titulares em exercício efectivo de funções na educação pré-escolar ou nos ensinos básico e secundário, cinco individualidades em representação das associações pedagógicas e científicas de professores, sete individualidades de reconhecido mérito no domínio da educação e por três representantes do Conselho de Escolas (http://www.min-edu.pt/np3/1459.html).

· Por fim, o próprio Conselho Nacional de Escolas, criado para trabalhar em conjunto com o Ministério da Educação, levando para a mesa de trabalho a experiência de quem lida directamente com as escolas e seu funcionamento prático, tem feito várias recomendações às quais o Ministério não dá ouvidos

(http://jn.sapo.pt/2008/01/25/nacional/conselho_escolas_quer_adiar_avaliaca.html).

O que prova que este Conselho foi criado, apenas, para o Ministério poder invocar uma relação de lisura com as escolas que não acontece de todo. Em anexo, colocarei as propostas apresentadas por este Conselho.

3º e último ponto – Qualidade de ensino.

Este é, a meu ver, o aspecto mais terrível desta arquitectura que o Ministério montou. Custa-me, na verdade, acreditar que pessoas de bem ajam com tanta leviandade e desprezo pelo futuro do país e é esta a razão da premência do meu apelo:

– esta torrente de grelhas, recomendações, parâmetros, planificações diárias, instrumentos, registos e afins esgotarão os professores num trabalho inglório e improdutivo, pois não estarão a trabalhar para os alunos, mas para a sua avaliação;

– o mais grave, ainda, gravíssimo! A subordinação da avaliação do desempenho dos professores e a sua progressão na carreira ao sucesso dos alunos (artigo 16º):

5 — Para o efeito da parte final do número anterior o docente apresenta, na ficha de auto -avaliação, os seguintes elementos:

a) Resultados do progresso de cada um dos seus alunos nos anos lectivos em avaliação:

i) Por ano, quando se trate da educação pré -escolar e do 1.º ciclo do ensino básico;

ii) Por disciplina, quando se trate dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;

b) A evolução dos resultados dos seus alunos face à evolução média dos resultados:

i) Dos alunos daquele ano de escolaridade ou daquela disciplina naquele agrupamento de escolas ou escola não agrupada;

ii) Dos mesmos alunos no conjunto das outras disciplinas da turma no caso de alunos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;

c) Resultados dos seus alunos nas provas de avaliação externa, tendo presente a diferença entre as classificações internas e externas.

Tenho a certeza que reconhece de imediato o perigo que isto constitui… nada mais fácil para um professor que “produzir” sucesso. Aliás, estou convicta de que é essa a intenção deste Governo, para assim poder ostentar, com orgulho, as grelhas e os números e o inquestionável sucesso destas medidas… porque os números estão acima de qualquer dúvida!

E, na verdade, tudo estará podre, sob essa capa de êxito. O sistema público de ensino passará a ser um faz-de-conta, um recinto para entreter os jovens… aqueles que não puderem pagar uma escola privada, que lhes garantirá um ensino exigente.

E não olhe com esperança para a alínea c!… a avaliação externa só existe em algumas disciplinas e em alguns níveis de ensino. Como vê… mais um factor de desigualdade entre professores: uns nunca passarão por essa bitola e serão, com toda a certeza, professores de sucesso! E já nem falo do que é subordinar a qualidade do desempenho de um professor à heterogeneidade das turmas que encontra (ambiente familiar e social, motivações pessoais, capacidades cognitivas, enfim, muitos dados em jogo). Eu já tive boas, menos boas e más turmas: será que a minha competência varia tanto?

Peço perdão pela extensão desta carta, mas o problema é por demais sério e, infelizmente, as arbitrariedades são tantas que não as consegui reduzir a menos.

Creia-me, preocupada, mas esperançosa, no poder que a comunicação social exerce sobre a opinião pública. Neste momento, o problema não é só dos professores, é do país inteiro. É uma cidadã, professora e mãe que lhe escreve.

Com elevada estima,

Fátima Inácio Gomes

Professora de Português do quadro da Escola Secundária de Barcelos
Coordenadora do Departamento de Humanidades
Coordenadora do Departamento de Línguas (de acordo com o decreto 200/2007)

Este texto foi deixado no fórum da petição, tendo eu pedido a quem a colocou se poderia contactar o autor original para aqui a reproduzir, o que me foi permitido.

 

Como sabe sou economista/ gestor (dei aulas de gestão no ISEG durante uns anos, isto é fui coordenador da Cadeira de Direcção das Organizações) e actualmente metodólogo em educação, além disso já fui coordenador de uma pós graduação em Gestão Escolar.

O processo de gestão é uma forma de conduzir as organizações a atingirem os seus objectivos e por vezes há que arbitrar conflitos de interesses entre as partes.

Por isso um gestor tem que actuar livre de pressões de alguma das partes nomeadamente de quem os nomeia.

O que está previsto no actual quadro legal será mais um retrocesso no processo de gestão das escolas e certamente com graves e perversos inconvenientes sobre a qualidade do ensino. O processo de gestão actual vai ficar predominantemente orientado pela “emissão de diplomas” sem conteúdo que é o “facilitismo desejado” da sociedade actual e principalmente dos eleitores dos gestores, o que vai resultar que estando nós agora classificados ao nível da OCDE/ PISA em ultimo lugar entre os países europeus, iremos certamente descer para a média da tabela dos “países em desenvolvimento”.

Ouvi muitas vezes dizer no tempo da “outra senhora” que cada país tem o governo que merece, infelizmente pouco ou nada mudou…

Serão certamente as gerações vindoura que irão pagar na pele a falta de “tino” de mais uma fantochada a ser implementada ao nível da gestão das escolas.

Os nossos filhos e netos serão cada vez menos competitivos ao nível global com o tipo de educação que têm, mas daqui a 10 ou 15 anos certamente irão mudar outra vez o sistema de gestão das escolas. Espero que dessa vez para melhor.

E a falta de qualidade crescente das escolas públicas vai cada vez mais incrementar o sucesso do ensino privado. Mas quem manda que resolva…

Um abraço do amigo

António Reis

Antes de tentar fazer uma análise do projecto de decreto-lei apresentado pelo ME para a gestão das escolas e estabelecimentos de ensino públicos, gostaria de fazer algumas considerações prévias, que acho essenciais para esclarecer eventuais (pre)conceitos, assim como para justificar porque esse debate é importante. E já agora porque acho eu que tenho algo para dizer, pois não sou um especialista instantâneo em toda e qualquer matéria educativa.

Vamos lá:

  • Porque interessa este debate? Interessa porque pretende mudar o regime de administração da rede de ensino público não-superior, menos de uma década depois da última reforma (durante o Ministério de Marçal Grilo), sem que se perceba exactamente os critérios que justificam tal mudança. São critérios fundamentalmente administrativo-financeiros? São critérios de natureza pedagógica? É uma mudança conceptual em todo o modelo? Interessa perceber porque acontece esta mudança, que objectivos persegue, que fundamentação têm as soluções apresentadas e, já agora, se não existiriam outras soluções mais adequadas à resolução dos bloqueios eventualmente detectados no actual modelo.
  • A quem interessa este debate? Interessa verdadeiramente a todos, em especial a todos os actores sociais que se cruzam na Escola Pública e que são chamados a intervir nela por força destas propostas (embora em boa verdade já o fossem anteriormente, embora alguns não tenham comparecido da forma desejável). Interessaria ao próprio ME ter suscitado a discussão a partir de um documento aberto e não de um articulado onde se adivinha a possibilidade de acertos meramente pontuais. Interessa às famílias, que se pretende que venham a ter uma quota-parte de responsabilização maior na gestão das escolas. O mesmo se aplica para as autarquias locais, que no caso do 1º CEB nem sempre têm feito o melhor que poderiam. Interessa aos professores e funcionários porque – até mais do que os alunos – são eles que passam lá a maior parte da sua vida e lá fazem a sua carreira profissional. Porque quando dizemos que não haveria Escola sem alunos, se esquece que, sendo isso verdade, são os professores que lá permanecem mais tempo.
  • Como se deveria realizar idealmente este debate? Deveria ser feito com tempo para uma verdadeira discussão pública, assim como deveria ser dinamizado pelo próprio ME directamente ou através dos seus organismos regionais ou mesmo a partir do Conselho das Escolhas ou do Conselho Nacional da Educação, entidades que – de acordo com o seu próprio estatuto – deveriam ser consultadas antes da produção de projecto legislativo e não apenas a posteriori. Por estranho que pareça, e isso seria possível sensibilizando e mobilizando os Centros de Formação de Professores, seria utilíssimo ter estabelecido um calendário para a discussão local e regional do tema durante este mês de Janeiro e, a partir daí, congregar os contributos recolhidos de Associações de Pais, Autarquias e Professores. Não é negar completamente a representatividade a entidades como os Sindicatos, a Confap ou a ANMP, mas a verdade é que neste momento aqueles que essas organizações representam estão completamente a leste do que se passa e só estão informados a partir dos seus próprios meios. O que só foi reforçado pelo lançamento da discussão pública no dia 26 de Dezembro passado.
  • Porque razão no universo acho eu que tenho algo a dizer sobre o assunto? Pela mesma razão que qualquer outro professor, encarregado de educação, autarca ou cidadão comum interessado na vida pública – neste caso educativa – do país. Não acho que a minha opinião tenha um especial valor acrescido em relação à generalidade dos meus colegas, pois nunca exerci (nem espero exercer) qualquer cargo na área da administração ou gestão escolar. Não tenho especial conhecimento prático dessas matérias para além da observação, durante cerca de duas décadas, do funcionamento de uma dezena de escolas públicas. Em termos teóricos, posso ter algum crédito adicional porque, por circunstâncias variadas, acabei por ler alguma bibliografia sobre gestão, quer em termos de comparação de modelos de gestão nos sectores público e privado (ajudei uma pessoa da família nas leituras teóricas para uma tese na área da Gestão, tendo traduzido uns 20 artigos sobre o assunto e lido uma mão-cheia de obras de referência sobre o tema. Para além disso, e por razões relacionadas com o meu próprio doutoramento – mesmo se não se nota muito no produto final, porque foram umas dezenas de páginas que se sacrificaram para não causar uma apoplexia ao orientador e júri – li bastante bibliografia sobre estilos de school management numa perspectiva comparativa e mais especificamente sobre a gestão escolar cada vez estar mais feminizada, o que tem implicações teóricas e práticas interessantes. Pelo que, pelo menos no plano das ideias e modelos, estou suficientemente informado.

Tendo em atenção estes esclarecimentos, penso que é possível agarrar nisto e analisar-lhe as premissas, identificar as eventuais vantagens e enumerar os aspectos que me merecem discordância, tanto em termos de modelo abstracto como de conretização prática no nosso contexto.

Carta que me chegou por mail, sem ser enviada pelo próprio, mas que julgo de todo o interesse divulgar ou não fosse exactamente uma carta “aberta”.

Ílhavo, 22 de Outubro de 2007

Senhor Presidente da República Portuguesa

Excelência:

Disse V. Excia, no discurso do passado dia 5 de Outubro, que os professores precisavam de ser dignificados e eu ouso acrescentar: “Talvez V. Excia não saiba bem quanto!”

 

1. Sou professor há mais de trinta e seis anos e no ano passado tive o primeiro contacto com a maior mentira e o maior engano (não lhe chamo fraude porque talvez lhe falte a “má-fé”) do ensino em Portugal que dá pelo nome de Cursos de Educação e Formação (CEF).
A mentira começa logo no facto de dois anos nestes cursos darem equivalência ao 9º ano, isto é, aldrabando a Matemática, dois é igual a três!
Um aluno pode faltar dez, vinte, trinta vezes a uma ou a várias disciplinas (mesmo estando na escola) mas, com aulas de remediação, de recuperação ou de compensação (chamem-lhe o que quiserem mas serão sempre sucedâneos de aulas e nunca aulas verdadeiras como as outras) fica sem faltas. Pode ter cinco, dez ou quinze faltas disciplinares, pode inclusive ter sido suspenso que no fim do ano fica sem faltas, fica puro e imaculado como se nascesse nesse momento.
Qual é a mensagem que o aluno retira deste procedimento? Que pode fazer tudo o que lhe apetecer que no final da ano desce sobre ele uma luz divina que o purifica ao contrário do que na vida acontece. Como se vê claramente não pode haver melhor incentivo à irresponsabilidade do que este.

 

2. Actualmente sinto vergonha de ser professor porque muitos alunos podem este ano encontrar-me na rua e dizerem: ”Lá vai o palerma que se fartou de me dizer para me portar bem, que me dizia que podia reprovar por faltas e, afinal, não me aconteceu nada disso. Grande estúpido!”

 

3. É muito fácil falar de alunos problemáticos a partir dos gabinetes mas a distância que vai deles até às salas de aula é abissal. E é-o porque quando os responsáveis aparecem numa escola levam atrás de si (ou à sua frente, tanto faz) um magote de televisões e de jornais que se atropelam uns aos outros. Deviam era aparecer nas escolas sem avisar, sem jornalistas, trazer o seu carro particular e não terem lugar para estacionar como acontece na minha escola.
Quando aparecem fazem-no com crianças escolhidas e pagas por uma empresa de casting para ficarem bonitos (as crianças e os governantes) na televisão.
Os nossos alunos não são recrutados dessa maneira, não são louros, não têm caracóis no cabelo nem vestem roupa de marca.
Os nossos alunos entram na sala de aula aos berros e aos encontrões, trazem vestidas camisolas interiores cavadas, cheiram a suor e a outras coisas e têm os dentes em mísero estado.
Os nossos alunos estão em estado bruto, estão tal e qual a Natureza os fez, cresceram como silvas que nunca viram uma tesoura de poda. Apesar de terem 15/16 anos parece que nunca conviveram com gente civilizada.
Não fazem distinção entre o recreio e o interior da sala de aula onde entram de boné na cabeça, headphones nos ouvidos continuando as conversas que traziam do recreio.
Os nossos alunos entram na sala, sentam-se na cadeira, abrem as pernas, deixam-se escorregar pela cadeira abaixo e não trazem nem esferográfica nem uma folha de papel onde possam escrever seja o que for.
Quando lhes digo para se sentarem direitos, para se desencostarem da parede, para não se virarem para trás olham-me de soslaio como que a dizer “Olha-me este!” e passados alguns segundos estão com as mesmas atitudes.

 

4. Eu não quero alunos perfeitos. Eu quero apenas alunos normais!!!
Alunos que ao serem repreendidos não contradigam o que eu disse e que ao serem novamente chamados à razão não voltem a responder querendo ter a última palavra desafiando a minha autoridade, não me respeitando nem como pessoa mais velha nem como professor. Se nunca tive de aturar faltas de educação aos meus filhos por que é que hei-de aturar faltas de educação aos filhos dos outros? O Estado paga-me para ensinar os alunos, para os educar e ajudar a crescer; não me paga para os aturar! Quem vai conseguir dar aulas a alunos destes até aos 65 anos de idade?
Actualmente só vai para professor quem não está no seu juízo perfeito mas se o estiver, em cinco anos (ou cinco meses bastarão?…) os alunos se encarregarão de lhe arruinar completamente a sanidade mental.
Eu quero alunos que não falem todos ao mesmo tempo sobre coisas que não têm nada a ver com as aulas e quando peço a um que se cale ele não me responda: “Por que é que me mandou calar a mim? Não vê os outros também a falar?”
Eu quero alunos que não façam comentários despropositados de modo a que os outros se riam e respondam ao que eles disseram ateando o rastilho da balbúrdia em que ninguém se entende.
Eu quero alunos que não me obriguem a repetir em todas as aulas “Entram, sentam-se e calam-se!”
Eu quero alunos que não usem artes de ventríloquo para assobiar, cantar, grunhir, mugir, roncar e emitir outros sons. É claro que se eu não quisesse dar mais aula bastaria perguntar quem tinha sido e não sairia mais dali pois ninguém assumiria a responsabilidade.
Eu quero alunos que não desconheçam a existência de expressões como “obrigado”, “por favor” e “desculpe” e que as usem sempre que o seu emprego se justifique.
Eu quero alunos que ao serem chamados a participar na aula não me olhem com enfado dizendo interiormente “Mas o que é que este quer agora?” e demorem uma eternidade a disponibilizar-se para a tarefa como se me estivessem a fazer um grande favor. Que fique bem claro que os alunos não me fazem favor nenhum em estarem na aula e a portarem-se bem.
Eu quero alunos que não estejam constantemente a receber e a enviar mensagens por telemóvel e a recusarem-se a entregar-mo quando lho peço para terminar esse contacto com o exterior pois esse aluno “não está na sala”, está com a cabeça em outros mundos.
Eu sou um trabalhador como outro qualquer e como tal exijo condições de trabalho! Ora, como é que eu posso construir uma frase coerente, como é que eu posso escolher as palavras certas para ser claro e convincente se vejo um aluno a balouçar-se na cadeira, outro virado para trás a rir-se, outro a mexer no telemóvel e outro com a cabeça pousada na mesa a querer dormir?
Quando as aulas são apoiadas por fichas de trabalho gostaria que os alunos, ao sair da sala, não as amarrotassem e deitassem no cesto do lixo mesmo à minha frente ou não as deixassem “esquecidas” em cima da mesa.
Nos últimos cinco minutos de uma aula disse aos alunos que se aproximassem da secretária pois iria fazer uma experiência ilustrando o que tinha sido explicado e eles puseram os bonés na cabeça, as mochilas às costas e encaminharam-se todos em grande conversa para a porta da sala à espera que tocasse. Disse-lhes: “Meus meninos, a aula ainda não acabou! Cheguem-se aqui para verem a experiência!” mas nenhum deles se moveu um milímetro!!!
Como é possível, com alunos destes, criar a empatia necessária para uma aula bem sucedida?
É por estas e por outras que eu NÃO ADMITO A NINGUÉM, RIGOROSAMENTE A NINGUÉM, que ouse pensar, insinuar ou dizer que se os meus alunos não aprendem a culpa é minha!!!

 

5. No ano passado tive uma turma do 10º ano dum curso profissional em que um aluno, para resolver um problema no quadro, tinha de multiplicar 0,5 por 2 e este virou-se para os colegas a perguntar quem tinha uma máquina de calcular!!! No mesmo dia e na mesma turma outro aluno também pediu uma máquina de calcular para dividir 25,6 por 1.
Estes alunos podem não saber efectuar estas operações sem máquina e talvez tenham esse direito. O que não se pode é dizer que são alunos de uma turma do 10º ano!!!
Com este tipo de qualificação dada aos alunos não me admira que, daqui a dois ou três anos, estejamos à frente de todos os países europeus e do resto do mundo. Talvez estejamos só que os alunos continuarão a ser brutos, burros, ignorantes e desqualificados mas com um diploma!!!

 

6. São estes os alunos que, ao regressarem à escola, tanto orgulho dão ao Governo. Só que ninguém diz que os Cursos de Educação e Formação são enormes ecopontos (não sejamos hipócritas nem tenhamos medo das palavras) onde desaguam os alunos das mais diversas proveniências e com histórias de vida escolar e familiar de arrepiar desde várias repetências e inúmeras faltas disciplinares até famílias irresponsáveis.
Para os que têm traumas, doenças, carências, limitações e dificuldades várias há médicos, psicólogos, assistentes sociais e outros técnicos, em quantidade suficiente, para os ajudar e complementar o trabalho dos professores?
Há alunos que têm o sublime descaramento de dizer que não andam na escola para estudar mas para “tirar o 9º ano”.
Outros há que, simplesmente, não sabem o que andam a fazer na escola…
E, por último, existem os que se passeiam na escola só para boicotar as aulas e para infernizar a vida aos professores. Quem é que consegue ensinar seja o que for a alunos destes? E por que é que eu tenho de os aturar numa sala de aula durante períodos de noventa e de quarenta e cinco minutos por semana durante um ano lectivo? A troco de quê? Da gratidão da sociedade e do reconhecimento e do apreço do Ministério não é, de certeza absoluta!

 

7. Eu desafio seja quem for do Ministério da Educação (ou de outra área da sociedade) a enfrentar ( o verbo é mesmo esse, “enfrentar”, já que de uma luta se trata…), durante uma semana apenas, uma turma destas sozinho, sem jornalistas nem guarda-costas, e cumprir um horário de professor tentando ensinar um assunto qualquer de uma unidade didáctica do programa escolar.
Eu quero saber se ao fim dessa semana esse ilustre voluntário ainda estará com vontade de continuar. E não me digam que isto é demagogia porque demagogia é falar das coisas sem as conhecer e a realidade escolar está numa sala de aula com alunos de carne, osso e odores e não num gabinete onde esses alunos são números num mapa de estatística e eu sei perfeitamente que o que o Governo quer são números para esse mapa, quer os alunos saibam estar sentados numa cadeira ou não (saber ler e explicar o que leram seria pedir demasiado pois esse conhecimento justificaria equivalência, não ao 9º ano, mas a um bacharelato…).
É preciso que o Ministério diga aos alunos que a aprendizagem exige esforço, que aprender custa, que aprender “dói”! É preciso dizer aos alunos que não basta andar na escola de telemóvel na mão para memorizar conhecimentos, aprender técnicas e adoptar posturas e comportamentos socialmente correctos.

 

Se V.Excia achar que eu sou pessimista e que estou a perder a sensibilidade por estar em contacto diário com este tipo de jovens pergunte a opinião de outros professores, indague junto das escolas, mande alguém saber. Mas tenha cuidado porque estes cursos são uma mentira…

 

Permita-me discordar de V. Excia mas dizer que os professores têm de ser dignificados é pouco, muito pouco mesmo…

Atenciosamente

 

Domingos Freire Cardoso
Professor de Ciências Físico-Químicas
Rua José António Vidal, nº ***
3830 – 203 ÍLHAVO
Tel. 234 *** *** / 93 *** 11 **
E-mail: dfcardos@gmail.com

A leitura dos volumes clássicos do Sim, Senhor Ministro ou Sim, Senhor Primeiro-Ministro, assim como o visionamento da série permitem-nos perceber como algumas técnicas são imorredoiras na vida política, quando se trata de mascarar algo que incomoda, em especial factos que se possam traduzir em notícias desagradáveis ou estatísticas embaraçosas de exibir.

Este Governo não é novo nesta matéria, bastando lembrar as constantes mudanças de critérios na contabilização do desemprego ou na determinação do custo/nível de vida. O INE muda os critérios a cada triénio ou quinqénio sem que se percebam as vantagens; já o IEFP parece mudá-los semestralmente, por forma a que, a cada subida oficial do desemprego de acordo com os cálculos do INE, corresponda uma equivalente quebra no número oficial de desempregados oficialmente reconhecidos pelo IEFP.

Outra área interessante de acção é a da Justiça e da Segurança Pública. Reordenando as categorias de crimes ou atirando para fora do Código Penal certos actos, reduz-se a criminalidade. Assim como mudando o Código de Processo Penal, em matérias como o cúmulo jurídico, penas de 25 anos passam para 8. Simples e eficaz.

Na área da Educação a estratégia não é complicada e está actualmente numa fase já bem avançada embora, após uns 15 anos de prática, ainda se note alguma dificuldade em fazer desaparecer o que não interessa para debaixo do tapete ou em moldar a realidade de forma a caber nos números desejados.

Um caso é o da violência escolar. Nada como criar um Observatório destinado a recolher os dados em grelhas de classificação que quase fazem sumir as ocorrências no limbo sebastiânico do quadriculado. Porque depois é subjectiva a classificação da bolachada dada por um aluno no outro que o fez parar ao hospital, afinal pode ter sido apenas uma brincadeira que correu mal.

Mas a questão do (In)Sucesso e do Abandono é agora a mais premente para este Governo apresentar resultados e, como tal, eu presto-me a oferecer cinco ideias, nada originais, mas que podem ajudar a completar o esforço colocado pelo ME nos recentes pacotes legislativos.

Vamos lá:

  1. Considerar como classificações positivas todas as que forem superiores a Zero. Afinal, dita a rigorosa e exacta Matemática que negativos, negativos, só são os números inferiores a zero. Portanto, há séculos que laboramos num erro conceptual ao considerar como insuficientes classificações que são evidentemente positivas.
  2. Determinar que o Abandono Escolar não existe, pois quem não vai à escola não pode abandoná-la. O que poderá existir é um Tratamento Recreativo da Educação em Tempos Alternativos ou, para os menos conhecedores desta linguagem técnica, a TRETA. Assim poderemos ter uma grande quantidade de TRETA mas nada de Abandono.
  3. Fustigar publicamente os professores que insistam em protestar contra as medidas ministeriais e em considerar que existem alunos sem condições para transitar de ano, mesmo que não saibam escrever o seu nome aos 15 anos, sem outra razão aparente que não seja o desinteresse-iô-tá-se bem, man ou a certeza do emprego garantido graças ao facto do papá ser administrador daquela empresa que presta assessoria a uma outra que trata dos subsídios europeus e está muito bem relacionada com o chefe de gabinete do senhor ministro.
  4. Eliminar os quadradinhos destinados ao registo do insucesso ou abandono escolar nos impressos estatísticos oficiais. Fazer algo parecido com os formulário a preencher nas escolas, nos quais a classificação qualitativa mais baixa deve ser a de Satisfaz/Suficiente. Em termos quantitativos já vimos que acima de zero é positiva.
  5. Lançar uma grande campanha de certificação das competências dos cidadãos de qualquer idade com o título de Para Lá de Novíssimas Oportunidades. Os candidatos enviam um pequeno trabalho por qualquer meio – o fax caiu em desuso, usem o mail ou sms se possível ou peçam a quem saiba para o fazer por si – com a respectiva identificação, certificação desejada (grau académico, especialidade), um slogan alusivo ao projecto em inglês técnico com 2 a 8 palavras e um envelope selado e auto-endereçado para receberem o respectivo diploma.

Modéstia à parte eu acho que estas são ideias que estão um passo ligeiramente à frente – mas só ligeiramente – das políticas do ME, pelo que nem cobrarei direitos de autor, cedendo-as em nome do bem público e da felicidade do Portugal Inovador, Certificado e Autenticado, o que dá sempre PICA, seja qual for a cor do Governo.

Este é um texto que foi enviado para o meu mail, não divulgado em nenhum outro espaço e que por isso agradeço e passo a publicar, apenas tendo inserido alguns parágrafos e destaques para facilitar a leitura.

É o golpe fatal! Com a nova regulamentação da avaliação do desempenho dos professores, os alunos passam, definitivamente, por ordem ministerial, para segundo plano!

A partir de agora é a lei da sobrevivência que impera! Lei da sobrevivência dos professores porque precisam de fazer impossíveis para manter os seus empregos e cumprirem os compromissos que assumiram ao longo dos anos! Os alunos sobreviverão de qualquer maneira! Com mais ou menos novas oportunidades, com mais ou menos certificados e diplomas à “ Independente”! E hão-de sobreviver porque têm, a exemplo de outros casos conhecidos, os respectivos diplomas garantidos! Basta que os requeiram! Pessoalmente…ou por fax! E, no imediato, é apenas isso que pretendem! A exemplo, também, de outros casos conhecidos!

O diploma é que interessa, nada mais! Nem sei mesmo porque não decreta o governo que qualquer cidadão que nasça neste país tem, a partir de agora, e à nascença, logo direito ao diploma! Nasciam…registo…cédula pessoal…e diploma! No fim, resulta na mesma coisa! O diploma garantido! Pelo menos assim o governo sempre podia, conforme as necessidades, decretar que no próximo ano nasceriam tantos médicos…tantos engenheiros…tantos enfermeiros…tantos electricistas…tantos contabilistas e por aí fora! Não haveria falhas e as estatísticas batiam sempre certo!

A continuar a distribuição de diplomas a que temos assistido, seremos, a curto prazo, um país de diplomados! Diplomados analfabetos, mas diplomados com garantia dada pelo governo liderado por um bom exemplo! Um dia, perante uma qualquer oportunidade do destino, esta juventude verificará, na altura, que apesar da habilitação certificada, não está, de facto, habilitada ao cumprimento das exigências dos novos tempos. Restar-lhes-á emoldurar os respectivos diplomas para que terceiros acreditem que não mentem. Ficam, pelo menos, a dever a decoração das paredes lá de casa às oportunidades criadas por um governo empenhado em alterar, ainda que falaciosamente, as estatísticas do país.

Mas voltemos aos professores! Entre mortos e feridos, muito poucos escaparão! Mas é preciso tentar! Tentar para sobreviver! É humano! Com a nova avaliação, é preciso aprender a sorrir à direita e à esquerda! Aceitar que um qualquer avaliador, a quem não reconhecemos nem legitimidade nem competência para dar sugestões credíveis de promoção do sucesso escolar, possa agora dizer se merecemos passar, ou não, ao escalão seguinte! Possa avaliar aquilo que fazemos na sala de aula, no recreio, na sala de professores, na casa de banho, na escola! Possa avaliar aquilo que fazemos dentro das nossas quatro paredes, dizendo se utilizámos devidamente as horas de Trabalho Individual para preparar e planificar aulas, actividades e estratégias!

Não sei como vão poder avaliar justamente e com verdade todos os parâmetros que saíram da cabecinha pensadora da D. Lurdes e dos seus dois subalternos! Mas sei que se vão prestar a esse papel! A partir de agora, os professores estão nas mãos uns dos outros! Uns mais do que outros! Enquanto aguardam que D. Lurdes se evapore das suas vidas, os professores só têm uma alternativa! Não concordam com a avaliação que lhes é feita? Tribunal com os avaliadores! Consideram que os avaliadores não constituíram uma mais-valia para o seu desempenho e evolução, enquanto docentes? Tribunal com eles! Consideram que foram injustamente ultrapassados pelos amigos dos avaliadores? Pelos amigos dos amigos dos avaliadores? Tribunal com eles! Precisaram de ajuda e não foram ajudados? Tribunal com eles! E não adianta fazer participações a Direcções Regionais e Inspecções! Não percam tempo! Tribunal com eles!

Até que alguém os ouça e reconheça aquilo que têm vindo a dizer e que os próprios Inspectores vieram, publicamente, reconhecer! Esta avaliação do desempenho não avalia desempenho nenhum! Avalia os compadres! Os amigalhaços! Esta avaliação do desempenho não é exequível! Não é pensada por gente de bem! Não pode ser posta em prática por gente de bem! Ninguém está verdadeiramente preocupado com o processo ensino-aprendizagem, a não ser os professores! E estão preocupados porque sabem o que se passa nas escolas…vivem dentro delas! Mas ninguém os ouve! Nem mesmo aqueles que, de vez em quando, por alturas mais ou menos solenes, parecem querer dizer que sim! Se assim fosse já tinham tomado alguma atitude a bem de Portugal!

A verdade é que toda a classe política pensa que a educação está no bom caminho! A todos interessa a ignorância para que meia dúzia de espertos possa, tranquilamente, viver!

A educação está de luto! E a Senhora Ministra diz que não é verdade e que os sindicatos não representam os professores! E os professores têm de decidir se é assim ou não! Se representam ou não! Se ficam do lado da D. Lurdes e se calam, ou se consideram que os sindicatos ainda são a única esperança de alterar o sistema e lutam! Vêm aí tempos difíceis!

 Os professores que resolverem dar razão à D. Lurdes e permanecer quietinhos como se nada fosse com eles, por favor, calem-se para sempre! Não chorem mais! Lutem, então, sozinhos e mostrem até onde conseguem chegar! Os professores que ficarem do lado da D. Lurdes, esperando que os colegas do lado lutem pelos interesses de todos, não voltem a gemer na sala de professores e a indignar-se com as ideias criativas da Ministra! Calem-se, por favor!

Neste momento, o jogo da Milu é separar professores dos sindicatos! É fazer crer que meia dúzia de sindicalistas está contra o Ministério, mas milhares e milhares de professores beijam-lhe os pés e agradecem a sua existência! É preciso que os professores esclareçam! É preciso que os professores façam ouvir a sua voz! Que façam chegar à sociedade a sua indignação!

É preciso mostrar ao país que sindicatos e professores são um só! Fica o apelo! Aos sindicalizados e aos não sindicalizados! Fica o apelo a todos aqueles que se sentem violentados e injustiçados com o actual Estatuto da Carreira Docente, com a nova Avaliação do Desempenho, com os Concursos a Titulares…com todas as reformas implementadas por uma alma sinistra a quem as novas gerações, um dia, deviam pedir responsabilidades! Os professores têm de decidir!

Os professores só sairão derrotados quando desistirem! E tu, que és professor, o que resolves? Qual a tua atitude? Lutas ou desistes? Lutas ou calas-te? E lutas sozinho ou dás as mãos a outros como tu? Tu decides! E, garanto-te, a Senhora Ministra está ansiosa por saber se pode contar contigo…

Isabel Matias

Fica aqui o destaque e a ligação para o depoimento completo (aqui a imagem é meramente ilustrativa e não é legível) do colega António Antão, professor da ES Carlos Amarante de Braga, publicado originalmente no Diário do Minho entre 30 de Junho e 1 de Julho, mas que o mesmo me enviou com autorização explícita para a sua divulgação.

Não apenas porque aborda uma questão directamente relacionada com o post anterior, mas igualmente porque trata do exame de uma disciplina que agora passou para um 2º ou quase 3º plano, em cujos exames nos dois últimos anos lectivos existiram equívocos terminológicos ou mesmo incorrecções científicas, sem que ninguém se tivesse aborrecido muito com os alunos eventualmente prejudicados.

Eis mais uma qualidade do Governo Sócrates: o de ter constituído desde a sua formação em Março de 2005 o mais eficaz contraceptivo da história recente do nosso país.

As crianças nascidas em 2006, e portanto concebidas já no período de entrada em funções deste Governo, foram no menor número de sempre, desde que existem estatísticas minimamente fiáveis sobre a natalidade.

Isto é obra. Porque conseguir bater a dupla Durão Barroso/Manuela Ferreira Leite em matéria de domesticação dos instintos mais primários da espécie humana não está ao alcance de qualquer um.

O Governo Sócrates e os seus intelectuais orgânicos (com o JMJúdice agora acho que já voltaram a ser dois) poderiam reflectir sobre isto, sobre o significado profundo de terem feito os portugueses, e os próprios imigrantes que cada vez são menos, pensarem que não vale a pena fazer nascer crianças neste mundo triste em que nos mergulharam.

Porque, se outros argumentos não se pudessem aduzir, a médio prazo esta quebra na natalidade vai ser prejudicial em termos de Educação – mesmo se Maria de Lurdes Rodrigues já cá não estiver para justificar a previsível quebra do número de alunos – e mais tarde em termos de Segurança Social pois se agora poupam em abonos de família, depois perderão em mão-de-obra activa, exactamente lá por aquelas alturas de 2025 quando já não sabemos se haverá verdadeiramente Segurança Social.

Mas para mim o que é mesmo verdadeiramente incrível é que esta equipa tenha conseguido ser mais contraceptiva do que o Durão Barroso de tanga e a Manuela Ferreira Leite agarrada ao défice.

Termo de Responsabilidade: este texto não pretende ser jocoso, já que o seu autor tem poucos meios para suportar acções em Tribunal ou um processo disciplinar que o prive do seu gamnha-pão.
Por desafio do outrÒÓlhar e porque não custa nada manter a chama da esperança acesa:

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“Ainda acredito que qualquer revolução do futuro terá início na livre propagação das ideias que a Internet acelera.
Nesse aspecto, a blogosfera constitui para mim o berço ideal para o germinar das soluções ideológicas para o vazio que se instala aos poucos onde antes existiam convicções inabaláveis.
O mundo mudou e em muitos aspectos para pior. E se antes era possível contar com o filtro apertado de valores que obrigavam mesmo os piores a imporem limites para os desvios nas respectivas condutas, nestes dias isso já não acontece da mesma forma.
Cada um no seu espaço privado, ficamos mais à mercê das bizarras associações de interesses que se formam com facilidade neste meio virtual.
E por isso urge despertar de novo a ideia de que a união faz a força.
Essa união existe nas redes cada vez mais complexas que se formam entre aqueles que visam dar largas às suas taras hediondas e, por sua vez, atraem as habituais seitas sem escrúpulos que aproveitam o ensejo para lucrarem das formas mais impensáveis com a “mercadoria” mais vulnerável que a sociedade produz.
As crianças são o alvo da cobiça desta gente que rapta, viola, escraviza e, no topo da desumanidade, chega a roubar-lhes os órgãos internos para comércio clandestino.
Esta insanidade tem que acabar e depressa.
Nós, os que blogamos, temos na mão um instrumento poderoso de divulgação de tudo quanto nos aprouver. Ou seja, podemos constituir-nos num grupo de pressão com visibilidade suficiente para, em esforços colectivos, atrair a atenção mediática e, em última análise, influenciar a opinião pública em torno de temas que de outra forma podem perder-se no meio do bombardeio de informação.
Uma das mais conhecidas ferramentas de propagação seja do que for na blogosfera são as correntes que tantos abominam. E na maioria dos casos com toda a razão.
Porém, esse mecanismo de sucesso comprovado é utilizado quase em exclusivo para a divulgação de testes, questionários e paródias várias, por norma concebidos para inflacionar os contadores do blogue de origem.
E eu gostava de ver esses nossos esquemas a funcionarem de uma forma mais útil para o mundo que integramos e ao qual podemos oferecer contribuições importantes para o tornar melhor.
Gostava de conseguir dar origem a uma corrente que espalhasse pela blogosfera portuguesa o rosto e o nome do Rui Pedro e a causa que ele simboliza.
Tão simples quanto publicar um post com o nome do Rui Pedro no título e a foto do que se presume ser a sua actual aparência.
Porquê? Acima de tudo pelo sinal que isso enviaria aos pais das crianças desaparecidas quanto à capacidade dos seus conterrâneos de se solidarizarem e de darem algo de si pela causa.
Essa causa é a recuperação das crianças e jovens caídos nas garras dessas organizações medonhas, a criação de mecanismos de protecção legislativos, policiais e civis eficazes, o apoio sustentado, permanente, às vítimas que são também as famílias de quem desaparece sem deixar rasto.
E a guerra informática sem quartel a tudo quanto esta ameaça à escala planetária produz.
Só mantendo a questão num plano mediático, nas prioridades de um país que se move ao sabor das modas e das correntes que a Imprensa cria e os vários poderes aproveitam, só assim se reúnem as condições necessárias para que algo de bom aconteça.
E é preciso acabar com a ilusão de impunidade que o excesso de passividade fomenta.
Se as pessoas conseguem unir-se para expulsar da sua comunidade as ovelhas ranhosas que as importunam no plano analógico, acredito que poderão fazer o mesmo no domínio virtual.
Eu gostava de ver erradicados deste meio todos quantos ameaçam a vida e a felicidade das nossas crianças com as suas salas privadas de partilha de imagens abjectas.
E porque alguém tem que dar passos nesse sentido, peço encarecidamente aos seguintes espaços que publiquem um post com a foto acima e o nome do Rui Pedro e tentem convencer outros tantos (ou menos, ou mais) a fazerem o mesmo.
Vamos mostrar ao país que a blogosfera reúne pessoas de bem e capazes de encontrarem no seu tempo a motivação necessária para lutar pelas causas mais prementes destes dias que partilhamos em comum.
Vamos dar um sinal de esperança às vítimas e um sinal de alerta aos seus algozes.”

Mais informações aqui.

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