Contraditório


Resposta da CAP à carta das associações de pais que publiquei aqui há um par de dias. Pela sua extensão, fica aqui o ficheiro completo: Resposta carta REPRESENTANTES PAIS FINAL.

Divulgo, com autorização da autora, a carta que a presidente da APM me dirigiu a propósito de umas observações que fiz em post de há uma semana. Transcrevo a carta propriamente dita, que anexo com as respostas completas dadas ao Expresso por LF (as minhas estão aqui).

Mais tarde, publicarei a minha resposta, para dar tempo a cada posição para ficar clara.

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Caro Paulo Guinote

Sou pouco frequentadora de blogues; não é um tipo de comunicação nem uma forma de diálogo em que me sinta minimamente confortável.

Para mim a importância da palavra no seu contexto, a construção de pensamento em diálogo colaborativo em que discordamos olhos nos olhos, em que nos reforçamos nos significados partilhados, nas buscas, nas incertezas, nas (poucas) convicções que nos unem para além de tudo o que nos possa dividir e que, em minha opinião, tende a ser sobrevalorizado neste tipo de comunicação em que o tom de agressividade e de ironia – ou pior, de desdém, de rápido e fácil julgamento, se reveste de características demasiado maniqueístas.

No entanto reconheço que vivemos uma era em que este tipo de comunicação é ineludível e por isso, ainda que reconheça a minha incapacidade, admiro aqueles que utilizam estes meios com a persistência e a atualização permanente que exige – e a exposição também – ainda que sacrificando análises mais complexas e completas, ainda que à custa da profundidade que é a minha nostalgia.

Estou fora do país desde o dia 12 de agosto a participar num seminário de interculturalidade. Talvez por isso, por estar num ambiente em que se procura encontrar aquilo que nos une enquanto condição humana e que perpassa culturas, países, nações, etnias, religiões, ideologias, gerações, individualidades (esse mínimo ético que alguns continuam a procurar como lugar de entendimento e colaboração e onde a educação joga um papel insubstituível) surpreendeu-me especialmente o tom do post que colocou e o tom das reações que provocou. Sem ser frequentadora de blogs e sem ter tido sequer a oportunidade de ter visto a peça saída no Expresso, fui alertada por email para o teor do que escreveu e dos comentários que suscitou.

Tenho absoluta consciência do risco que é a exposição à comunicação social, sobretudo no formato entrevista em diferido sempre sujeito a posterior edições com cortes e descontextualizações, quer seja na rádio, na televisão ou na imprensa escrita. Pessoalmente não assumiria esta exposição; faço-o apenas por dever associativo. Enquanto presidente da direção da APM, tenho consciência – e temor – do dever de dar voz. Faço-o em nome da Associação que tão gratamente (de agradável e de agradecida) represento. Sem a pretensão de ser voz de cada um dos seus associados mas com a convicção de que digo muito do que foi e é a palavra constitutiva, aquela que faz parte dos nossos significados partilhados, que conheço desde o seu início sabendo, certamente, que não a possuo.

Há, no entanto, algo em que tenho extremo cuidado nas minhas declarações públicas: a defesa dos professores. Por isso surpreende-me o que me parece ter entendido nas suas palavras que, ao citar a “cultura de retenção” referida por David Justino, eu: 1) tenha concluído que essa cultura de retenção seja protagonizada sobretudo pelos professores ou tenha neles os principais mentores; 2) me tenha “colado” ao presidente do CNE não sei por que espécie de aliança ou interesse de circunstância. Se referi essa “cultura da retenção” é porque, neste caso, eu concordo com as declarações de DJ e, pensava eu, que ao citá-lo me encontrava “acima de qualquer suspeita” exatamente por não me rever especialmente nas suas posições em matéria de políticas educativas, que aliás, para além da sua prática enquanto ministro, conheço pouco. Efetivamente, até pelas reações que tive oportunidade de ler no blogue, se há algo que vi refletido no teor das opiniões foi ainda uma grande afetação por essa mesma cultura de retenção; caso contrário não estaria tão subjacente o gasto, fácil e populista binómio facilitismo/exigência. E sim, digo que a escola padece – por peso do passado, por pressão social e política – de uma cultura de retenção. Senão, como se explicam aquelas sinistras e patéticas fórmulas para atribuição dos créditos horários às escolas que privilegia, por exemplo, as com melhores resultados na avaliação externa e aquelas em que as classificações dos alunos internos mais se aproximam dos resultados dos exames nacionais, sabendo nós os condicionalismos e a limitação deste tipo de provas, bem como a prática que se tem vindo a instalar, sobretudo no que à Matemática diz respeito? Já agora, seria muito pouco honesto eu referir a alteração dos programas a propósito do número de retenções no 2º ano, uma vez que estes alunos não foram diretamente afetados por essas alterações. Outra coisa é o que elas significam e têm provocado junto dos professores e a isso fiz efetivamente referência nas respostas que dei ao Expresso (que aproveito também para anexar).

Surpreende-me o tom de desdém com que se refere às minhas declarações. Alguma vez teve interesse em saber o que se está a passar com o ensino da Matemática no nosso país? Alguma vez teve a curiosidade sequer de saber aquilo que a APM defende, aquilo que denuncia e porquê? É assim tão difícil, para alguém que tem uma intervenção no espaço público sobre Educação, tentar um contacto que, ao menos, o qualifique minimamente em assuntos em relação aos quais está possivelmente mais distante? Por mim, manifesto desde já a minha disponibilidade para o diálogo e a partilha sobre o que pensamos e o que queremos para a Escola em Portugal e para o ensino da Matemática em particular.

Entristecem-me as profundas rupturas e enfrentamentos; as cada vez mais numerosas fissuras no nosso tecido social. No que à Educação diz respeito, entristecem-me duplamente por ser o âmbito onde, desde sempre, investi as minhas melhores energias, esforços, saberes; por nos sentir incapazes de definir um pacto social – ou chame-se-lhe o que for – para a Educação que nos salvaguarde das derivas ideológicas, dos ministros de turno; por nos ver a dirimir preconceitos e dogmas com pequenos e grandes ódios caseiros; por ver desperdiçado tanto esforço, tanto investimento na Escola e na educação pública. Será que não nos damos conta que, com um atraso de mais de 100 anos em relação à maioria dos nossos congéneres europeus, conseguimos enfrentar como poucos a democratização do ensino, a explosão demográfica da escola, finalmente para todos embora ainda não com todos, em épocas de instabilidade e poucos recursos? Foram os conselhos executivos, os professores (alguns até com reduzida formação académica) que com a sua entrega à causa da Educação conseguiram simultaneamente democratizar a Escola e fazer com que ela atravessasse as difíceis décadas de 70, 80 e até de 90 do século passado, fazendo com que os nossos alunos ombreiem com os de qualquer país com quem partilhamos sistemas educativos, políticos e culturais similares.

Já vai longa a carta. Ainda sou daquelas pessoas que gosta de escrever e conversar para se expressar embora, nestes temas como em quase todos os que têm alguma relevância, manejemos conceitos complexos que, se vistos só de um lado, nos aparecem como contraditórios sendo quase sempre complementares.

Peço desculpa por esta minha reação mas, às vezes, não gosto de ser mal interpretada. Outras vezes, tanto se me dá…

Com os meus melhores desejos para que todos possamos contribuir para uma escola pública de qualidade e que não desistamos de um debate sério, subescrevo-me cordialmente

Lurdes Figueiral
professora de Matemática e presidente da Associação de Professores de Matemática
Madrid, 22 de agosto de 2014

Anexo: Carta a Paulo Guinote.

Para a malta anti-exames ganhar consistência na argumentação e tentar comparar com o que se passa pelos States de mais polémico.

FairTest: Protests Against Testing Madness Continues to Grow

Seria interessante começarem a perceber até que ponto as nossas Metas de Aprendizagem se inspiram na mesma fonte do Common Core e o que isso pode ter de errado.

Porque mesmo quem acha que devem existir exames, como é o meu caso por razões repetidamente explicadas, não deve ignorar os excessos de formatação…

Por lá… é uma iniciativa de um governo teoricamente de esquerda, no que isso significa para a realidade deles.

O senhor desculpe, sabemos que tem sido um bom cliente, mas o que pretende deixou de se produzir.

Não vencido, comprei o que pretendia noutro lado, mais barato, ainda produzido e não precisei de me deslocar – foi entregue no local e à hora acordados! Um abraço ao senhor Simão!

As mil e seiscentas amendoeiras que plantarei este fim-de-semana também agradecem.

 

 

Caro (a) amigo (a)

O semanário Expresso publicou em 24.8.2013 um extenso artigo do Secretário de Estado da Administração Pública sobre a chamada lei de requalificação da Administração em que ele a defendia utilizando um conjunto de inverdades, para não dizer mesmo mentiras. Para reforçar/apoiar a posição do governo, este semanário  enquadrou o artigo com uma longa coluna não assinada, portanto da responsabilidade  do próprio jornal, onde repetia os argumentos do governo sem qualquer análise objetiva.

Como tenho participado como assessor dos sindicatos da Função Pública nas negociações com o governo, e tive de analisar  de uma forma atenta o projeto de lei do governo e suas consequências para os trabalhadores , escrevi um pequeno texto onde procurava repor a verdade, e em nome de uma informação objetiva aos leitores, o que pressupõe o contraditório, solicitei ao diretor do Expresso a publicação do referido texto.

O Expresso optou por não publicá-lo por isso decidi divulgá-lo e para seu conhecimento envio em anexo agradecendo a sua divulgação
Com consideração

Eugénio Rosa
Economista

Anexo: Eug Rosa Resposta-Expresso

Adenda (16.50): Afinal o Expresso publicou hoje um texto de Eugénio Rosa, mais curto, pelo que talvez agora se possam reconsiderar certas observações:

Exp07Set13

Acerca deste post, eis a posição de Jorge Marques, o autor do texto que esteve, de forma mais ou menos directa, na sua origem:

Caro Paulo,
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Como autor do tal post que linkou no post “O Novo Acordo Com O MEC E Os Professores Contratados”, devo dizer em primeiro lugar que desconhecia que andasse a ter ampla divulgação. Publiquei-o num grupo do facebook de seu nome “Movimento pela vinculação dos professores contratados” e é só. Não sei como chegou a esse blogue, pois apenas uma pessoa pediu para o partilhar e foi na própria rede do facebook.
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Depois esta coisas fora do contexto dão sempre nisto. Aquele grupo foi invadido nas passadas semanas por colegas dos sindicatos a apelar à união, a chamar traidores a todos os que diziam que dos contratados se tinham esquecido, entre muitos outros impropérios. E foi assim que surgiu o texto, como um desabafo, mas, e pode reler o que escrevi, um desabafo contra aqueles que vieram clamar vitória e ‘milhares de horários’ para os contratados deste país.
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Os sindicatos esqueceram-nos e não é de agora. Nunca se lutou por uma verdadeira vinculação. Para essa luta, como o próprio Paulo, diz nunca houve mobilização. Provavelmente nem dos próprios interessados (e não é sempre assim?), é um facto, mas isso não desculpa o esquecimento. Não desculpa que se tenha esquecido por completo, e só para citar o caso de mais fácil resolução e negociação, a obrigatoriedade de todos os que concorrem o terem de fazer obrigatoriamente a dois qzps, sob pena de exclusão do concurso. E se era tão importante assegura-lo para os professores do quadro, seria também importante para estes contratados de 40 anos, com 15 ou 20 anos de serviço. É que há uma grande diferença que se tende a esquecer: sim, muitos dos professores do quadro foram contratados pelo mesmo período, mas ao chegar a esta bela idade dos ‘entas’ não foram despedidos. E é isso que nos está a acontecer, com belíssimas perspectivas de futuro como deve calcular.
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Disse e repito, e é a grande crítica que faço e que assumo na plenitude, tudo o que foi conseguido para os professores contratados foi um ‘dano colateral’, pois nunca as suas preocupações ocuparam a mesa das negociações.Não pretendo entrar de novo nessa discussão, até por perceber o que quis dizer. Rejeito, porém, essa hiperbolização de malfeitorias. Se ela existe, não está certamente no texto que escrevi. Talvez nos comentários, mas eles próprios são a reacção a muitas outras provocações que se repetiram desde fins de Maio.
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Já agora deixo o texto original, pois o link que deixou não permite a ele chegar.
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“O ar andava, de facto, irrespirável. A partir de amanhã já não haverá por aqui muitos a fazer propaganda. E o resultado desta propalada união que tanto pediram foi o que se viu. Nada que directamente diga respeito a quem anda há 15 ou 20 anos a percorrer o país e a ficar com as sobras.

Defendi desde a primeira hora a greve. Mesmo sabendo que o que levava a esta união dificilmente poderia defender os interesses dos milhares que já ficaram ou ficarão desempregados. Sim, sempre achei que a luta de uns é a dos outros. É, porém, escandaloso, virem para aqui vangloriar-se desta vitória. Para nós é mesmo de Pirro.

Fico feliz que a mobilidade ter sido adiada e que quem já pertence ao sistema não seja obrigado a concorrer a mais de 60 Km. Fico, sem qualquer hipocrisia. Expliquem-me só é como podem achar que quem continua a ser obrigado a concorrer a zonas que distam 300 km entre si fique contente? Sabem que estes candidatos a docentes já têm trinta e muitos, quarenta e tal anos? E não, não estão de fora por não terem feito sacrifícios, pois na maioria dos grupos não era só concorrer a qualquer lado que o lugar estava garantido.Já o escrevi por aqui. A vitória de ontem afecta os contratados, não há dúvida. Apenas afecta como dano colateral, pois em momento algum os seus interesses estiveram à mesa das negociações. Se não forem hipócritas, reconhecerão a verdade do que afirmo.

Ninguém aqui diz que estaríamos melhor sem os sindicatos. Sei, sempre soube, o que fizeram e conquistaram por todos nós, mas para os milhares que viram os seus direitos a um contrato digno vilipendiados não chega. E não, não dá para esperar mais. Não para muitos de nós.

Sempre gostei de ensinar. Mas está na altura de dizer basta. Admiro quem vai persistir, agora mais do que nunca na certeza de que o faz sozinho. Foram 16 anos. Não é uma vida mas é quase. Estou farto do faz de conta. Como ontem aqui ficou bem claro neste mural, quem tanto apelou à união está agora a marimbar-se ela. A luta já ia longa e as férias têm de ser gozadas. Um bem haja a todos!”

Abraço,
Jorge Marques

Caro Miguel

Desde já peço desculpa pela familiaridade do trato, mas como nos conhecemos tão bem sinto-me no direito de ser mais tu-cá-tu-lá consigo. Li o seu artigo sem adulteração, aquele do Expresso do último sábado, do dia 15 de Junho de 2013. Escrevo a data completa porque a quantidade de textos que debita poderiam criar na sua cabeça alguma confusão sobre o espaço temporal a que me refiro. Devo dizer que é um texto bem escrito, daqueles que se aprendem a escrever quando se tem uma professora à moda antiga, das que nos ensinam a amar o saber e fazer da vida uma busca continua desse mesmo saber, das que nos ensinam a ter espírito critico, das que nos ensinam a pensar e a usar com racionalidade essa fundamental característica que é uma das que nos distinguem das restantes espécies da Classe Mammalia. Como se deu ao trabalho de fazer uma breve introdução romanceada do seu percurso pelo primeiro ciclo, então escola primária, vou, também eu, essa breve introdução, sem as figuras de estilo que o Miguel usa, porque em mim a escritora não pode florescer por falta não de vocação que essa até tenho, mas de tempo, e a seu tempo entenderá o porquê. Então vejamos, em 1976 entrei na escola primária. A escola que me acolheu, uma das obras positivas do tempo assumidamente autocrático, era linda, branca, com casas de banho que por acaso não funcionavam mas estavam lá, com as paredes preenchidas pelos trabalhos de desenho dos meus colegas mais velhos que a minha arte ainda não se tinha manifestado. Sabe porque é que a minha escola era linda? Porque eu não sou filha de nenhuma escritora, nem nenhum deputado, nunca os meus olhos tinham visto tanto livro junto, e refiro-me a meia dúzia que havia lá pela minha escola de aldeia, longe de Lisboa e do Porto. Sabe Miguel, acredito que pense efectivamente que sabe, ou não tivesse sido aluno da D. Constança, as vivências da realidade são diferentes de ser humano para ser humano, e por isso o quadro feio e negro da escola do Miguel pode ser belo e muito colorido para alguns dos seus colegas de carteira. Mas deixemos isto e continuemos na saga do meu percurso escolar. Tal como o Miguel também na minha escola éramos muitos, tanto que nem me lembro do número, será porque isso nunca foi relevante? É que das pessoas ainda me lembro bem, das brincadeiras também, das aulas também… As duas salas estavam sempre cheias, como um ovo, havia dois turnos de aulas com 4 professoras, duas de manhã e duas de tarde. A mim calhou a D. Maria Isabel, uma mulher linda, com o seu cabelo cinzento e os lábios pintados de uma cor fabulosa, um tom de laranja doce. A D. Maria Isabel acabou de me ensinar a ler, que alguma coisa a minha teimosia já me havia feito aprender. Sabe Miguel, em algumas situações a teimosia é uma característica boa, de tal forma que no final do primeiro período já eu substituía a minha avó na leitura de “O amigo do Povo” às suas comadres analfabetas. Vou agora refrescar-lhe a memória em relação ao que era o primeiro período: – período de tempo que mediava entre Outubro e meados de Dezembro, suponho que entende o que lhe estou a dizer, mas se não informe-se junto de alguns psicólogos e pedagogos credíveis. Abreviando um pouco, e quase para terminar este parágrafo, devo dizer-lhe que a minha professora foi tão boa que em 3 anos resolveu comigo as questões que para muitos se resolviam em 4, e para outros muitos em mais de 4. Tal como a sua, também a minha deixou em mim um apetite voraz para as letras, chamava-me “papa livros” tal era a minha voracidade, e todas as semanas, levava de Coimbra para mim muitos livros. A minha professora Maria Isabel era uma mulher completa com marido, 3 filhos, sendo um surdo-mudo,  pais e sogros. Vivia do seu trabalho e como tal faltou algumas vezes, pois não tinha possibilidades económicas para delegar responsabilidades. Mas sabe o que lhe digo, foram muitos os alunos que mandou para a universidade, que hoje até lêem o que o Miguel escreve com espírito crítico. Neste momento poderia considera-lo um mentecapto e situar este comentário no seu texto brilhante, mas não o vou fazer, porque o Miguel também teve uma boa professora na escola primária.

Mudando de parágrafo e de assunto, tal como o Miguel, sei que o país está à beira da bancarrota, mas na minha família só o direito ao voto responsabiliza por essa situação, sabe porquê? Nunca nenhum dos meus progenitores ocupou lugar em nenhuma das cadeiras da Assembleia da Republica, por partido nenhum quanto mais por dois e ainda mais relevante, nunca nenhum dos meus progenitores foi ministro. Sinto muito Miguel por ter que lhe lembrar que algumas das responsabilidades da miséria que crassa por esse Portugal fora tem genes que lhe foram a si entregues. Mais ainda, na minha família toda a gente produz, desde tenra idade. Sobre trabalho o Miguel, por certo, teria muito a prender comigo e com os meus.

Voltemos agora ao ainda cerne desta questão, a greve dos professores. Sabe Miguel, depois de ler o seu texto, volto a dizer, sem adulterações, fiquei a pensar se o seu sistema digestivo seria igual ao dos restantes mamíferos. E confesso que esta duvida já me assaltou algumas vezes frente aos seus escritos. Em relação aos professores o Miguel não sabe nada do que pretende dizer, seria bom e revelador de algumas sinapses activas, que se calasse até conseguir saber sobre o que se pronuncia. Eu sou professora, há já muitos anos, executo a profissão que sempre quis ter, lá por causa da minha rica professora Maria Isabel, e trabalho que me desunho, e não falto, e estou disponível para os meus alunos até para ser mãe. O meu horário semanal ( e o da maioria) tem sempre muito mais do que as 40 horas agora na moda, tenho que me preparar, nem sequer para cada ano é mesmo para cada turma, pois são sempre diferentes os alunos e as suas interacções; tenho que os avaliar, e isso exige muito pois sou acérrima defensora da avaliação formativa; tenho que tentar manter-me actualizada pois lecciono uma disciplina das ciências mais vanguardista, e isso requer muito tempo ( percebe agora porque não me dedico mais à escrita?). Eles, os meus alunos, que são quem me importa, sabem disso! Acho de uma arrogância tola o Miguel vir pronunciar-se sem saber do que fala. Eu também sou leitora e agora vou aqui falar de um  escritor medíocre que já li. Vou tecer comentários sobre obras e escrita que conheço, não sobre números de origem duvidosa! O Miguel escreve com a qualidade necessária para ser comercial, isto é para ganhar dinheiro, muito por sinal. Quer assumir-se como um Eça? Sabe que está a anos luz, sobra-lhe a capacidade descritiva, mas falha nos pormenores, vou dar-lhe um exemplo concreto: descreve cenas de sexo/amor com minúcia, mas impraticáveis por imposição das leis da física. Tenta ser um critico social, mas o seu azedume natural tira-lhe a graça e a leveza que tornam Eça sempre actual. Poderia continuar mas acho que já consegui perceber onde quero chegar. O Miguel é um escritor medíocre, mas isso não faz com que todos os escritores de Portugal o sejam, repare a sua mãe até ganhou um prémio Camões. Até sei que vai pensar que estou a ser ressabiada, será um argumento de defesa legítima uma vez que o estou a atacar, mas totalmente desprovido de verdade. Entenda o que lhe quero dizer de forma clara, há professores medíocres mas a maioria é bastante boa, empenhada e esforçada. Esta greve serviu apenas para mostrar ao governo que o caminho da mentira e do enxovalhamento publico tem que acabar. Os direitos dos alunos estão a ser salvaguardados, é certo que temos menos alunos, mas também é certo que cada ano as turmas são maiores e os problemas sociais, que entram sempre pela sala de aula dentro, são cada vez mais. Sabe Miguel, seria mais proveitoso para os alunos trabalhar em salas com menos crianças/jovens e consequentemente menos problemas do que em salas cheias até à porta. Sabe que assim poderíamos desenvolver o espírito critico desses jovens e aí as coisas mudavam um pouco… Já  imaginou um pais em que a maioria dos cidadãos tivesse espírito critico? Imagina o destino que seria dado aos medíocres? Acha que haveria lugar a tantas PPP’s? Acha que o dinheiro do Estado Social  ( faço aqui um parêntesis para lhe dizer o que é o estado social, que eu sustento: EDUCAÇÃO, SAUDE e SEGURANÇA SOCIAL) seria desbaratinado em manobras  bizarras sem que fossem pedidas contas? Acha que os gestores das empresas publicas que acumulam prejuízos continuariam a ser premiados? Acha que se assistiria a uma classe politica corrupta, incompetente e desavergonhada de braços cruzados? Acha que haveria prémio para a mediocridade de textos que vendem como cerejas à beira do caminho? Ai Miguel depois destas questões até o estou a achar inocente… acabei de ficar com aquele sorriso que dou aos meus alunos travessos, mas simples, só que para eles é para os conduzir ao bom caminho, para si é mesmo com condescendência.

Falou no seu texto no estado calamitoso em que se encontram as contas públicas, e sou forçada a concordar consigo, só tenho pena que apenas consiga ver o erro, e lhe falte a coragem para imputar responsabilidades. O país está neste estado por causa dos decisores políticos e dos fazedores de opinião, entre os quais o incluo. A má gestão é que nos levou a este marasmo, não fui eu, nem os meus pais. Desde muito jovem que justifico o que como, foi assim que fui educada, é assim que educo os meus filhos e até os meus alunos, dentro do possível. Da má gestão posso ser responsabilizada por votar, mas sempre o fiz em plena consciência, acreditando que dava o meu voto a um ser humano digno. E continuo a fazê-lo! Quanto aos fazedores de opinião é um problema acrescido, porque esses nascem do nome que carregam, tal como o Miguel bem sabe. Por isso lhe digo em jeito de conclusão, este texto só será lido em blogues, porque o apelido Bragança não me abre as portas dos jornais. Fique bem Miguel e quando não conseguir mais dormir, por ter tomado consciência da sua responsabilidade pessoal no estado em que se encontra o país, não pense logo em suicídio, tome primeiro Valeriana e se não resolver tome Xanax.

Anabela Bragança, professora de Biologia, ainda com alegria e orgulho!

Coimbra, 19 de Junho de 2013

Tarde, mas… PS-PortoRELATÓRIO FMI EDUCAÇÃO.

Enviado aos encarregados de educação:

Contra1Contra2

Em prosa de fino recorte copy/paste, a criatura emília, relvette de mãe e borginha de pai, quis introduzir num comentário a questão do co-pagamento na Educação, o que significaria o fim da gratuitidade da frequência da escolaridade obrigatória (decretada pelo Estado), com o pagamento de parte do custo por aluno por parte das famílias com mais meios económicos.

Vamos deixar de parte o facto de ser deliciosa a forma de querer fazer os cidadãos pagar por algo que são obrigados a fazer por determinação do próprio Estado. Não é novidade, não seria a primeira vez, mas é sempre curioso que alguém obrigue outro a fazer algo e ainda cobre por isso.

Vamos deixar de parte o facto de já se adiantar um valor médio por aluno de 5000 euros quando há pouco tempo, quando os professores ainda recebiam 14 salários e sem reduções adicionais, se falar em valores abaixo dos 4000 euros. Vamos acreditar que a menos encargos com a massa salarial dos professores corresponde um aumento dos ditos encargos. Acreditemos nisso tudo e até no coelho da Páscoa que faz ninhos para os seus ovinhos nos buracos escavados nas árvores pelos cucos.

Mesmo deixando isso tudo de parte, seria útil às criaturas emílias conhecer um pouco mais do que se passa no ensino público, visto terem sido criadas e querendo criar as suas criaturinhas longe desse mesmo ensino, pois há muito que a escolaridade obrigatória não é efectivamente gratuita como acontece em outros países.

Eu explico:

Quem tem mais meios e não beneficia do apoio da ASE paga por inteiro os manuais escolares e todo o restante material básico (não falo em mochilas de marca e coisas assim) e ainda é uso comum fornecer materiais adicionais às escolas, em especial do 1º ciclo e pré, porque o seu subfinanciamento é crónico em muitos concelhos. Poderia fazer somas, mas sou fraco em aritmética.

Quem tem mais meios e não beneficia de apoio da ASE paga por inteiro as senhas de refeição que apesar de serem baratas (sabe o valor casa criatura emília ou vai ter de googlar?) orçam mais de 30 euros mensais, valor que não me importaria de ser maior para ter a certeza que as refeições chegam a todos os que dela precisam sem racionamento (sim… que o há em muitas escolas para esticar o número de refeições servidas…).

Só estes dois encargos, que certamente saberá não serem das famílias em diversos países, implicam um custo mensal que andará pelos 40 euros mensais (próximo do valor que dará dividir os tais 500 euros anuais de propinas que as criaturas emílias gostariam de cobrar às famílias pela prestação de um serviço que o próprio Estado declarou obrigatório).

Só que as criaturas emílias, inebriadas pelo aroma dos corredores do poder e dos apoios a certas investigações de facção, desapercebem-se das vidas alheias, das questões concretas e, mergulhadas em folhas de excel, constroem modelos e teorias. Enquanto isso é pago por fundações privadas, eu entendo, se for pago pelo Orçamento de Estado já tenho mais dificuldade…

Quanto à maneira de andarem a atirar barro à parede por aqui, apenas revela que os canais normais de inculcação andam com pouca procura…

Anda aqui pelo blogue há umas semanas uma criatura que s’assina “dona emília“, ora aberta, ora semi-aberta, que exibe um discurso de assinalável agressividade em relação aos professores das escolas públicas que considera serem muito caros, ganharem muito e coisas assim, retiradas directamente do argumentário dos tempos de Maria de Lurdes Rodrigues e Sócrates (não espanta nada a coligação que a apoiou e apareceu em peso no lançamento do seu árido livro na Almedina de Lisboa).

Passando à frente as recorrentes ofensas pessoais que me dirige, incluindo pessoas amigas (a que designa, na falta de coragem como “umbiguistas”) e a minha filha (que acusou de ser tratada preferencialmente na escola) ficam aquilo que a criatura considera serem “argumentos” e “números”, mas que, no fundo, são uma alegada antecipação de um estudo que estará a ser feito pelo MEC sobre o custo médio dos alunos na rede pública de ensino e, comparativamente, na rede privada.

O estudo em causa supõe-se ser o que foi encomendado pelo MEC a um grupo de trabalho dirigido por um ex-Presidente do Conselho Coordenador do Ensino Particular e Cooperativo. E supõe-se ainda que tal estudo, conduzido com extrema minúcia e rigor, terá já conclusões prévias que o dito comentador tem espalhado em comentários ameaçadores por este blogue. Não percebo que o faz porque faz parte da equipa como amanuense se apenas é conhecido da prima da porteira de um dos investigadores nomeados. Tenho uma ideias sobre o perfil da criatura – modelo borginhos alimentado a curso pago pelo apelido e colocação feita na mesma base – mas só queria aqui destacar o processo rasteirinho que tem sido usado (os princípios éticos e morais alegados quando se assina em nome próprio desvanecem-se no anonimato da ofensa fácil) e destacar que tal estudo é muito importante, mas deverá ser feito com alguns cuidados, pois não basta a aritmética para o realizar. Porque há formas honestas e outras não tanto de fazer um estudo desses, desde logo a exposição clara dos métodos e fontes e não apenas das conclusões à martelada.

Eu explico.

Um estudo sobre o custo médio de um aluno terá em conta, nos cálculos, o valor nominal dos salários dos professores ou o salário real, com os cortes que têm sido feitos? Contará a comparação com 12 ou 14 salários por ano? E, já agora, contará nesse cálculo com o valor do IRS que cada professor devolve, via impostos (sim, os professores pagam impostos!!!), ao dito Estado para assegurar as suas funções sociais, de soberania e etc?

Em suma, será um estudo honesto ou um estudo conveniente, à la lemos-capucha?

Já agora… o tal estudo será feito com base em que número de alunos? No número real ou numa parcela, segmentada a gosto, conforme o interesse momentâneo? E em que número de professores? Só nos dos quadros ou em todos aqueles que vão rodando pelo sistema? Incluem aqueles que nem estão nas escolas?
Porque me contam que, apesar de muito material estatístico disponível no MEC, muito dele não é credível e, pior, alguém com muito conhecimento do assunto confirmou-me o quão desesperante é tentar usar muita da informação com critérios uniformes…

Talvez depois de respondidas estas questões, não muito simples para borginhos (modelo relvettes 2.0) e borges habituados à manipulação pública dos dados sobre a despesa pública e a despesa corrente seja possível algo que se assemelhe a um debate.

Porque ensinar quem não sabe a fazer alguma coisa pode mascarar-se como debate para não o menorizar de modo muito ostensivo.

Em caso de comentário – que a criatura de Deus (porque certamente é crente, o jovem!) anuncia com vaidade ser contraditório a doeragradeço que deixe os meus amigos, colegas e família de fora, porque aqui neste blogue nunca se criticaram responsáveis políticos pelo desempenho escolar dos seus parentes, apenas no caso do ministro Miguel, o estudioso.

No caso de evocar salários pagos… lembre-se sempre das palavras sábias de um situacionista que evocou em comentário recente quando esse senhor professor gozou comigo por apenas ganhar 1500 euros. Decidam-se… ou o que ganho é uma ridícula ninharia ou sou um encargo enorme para o Estado, estando a meio da carreira.

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Antes de mais fica aqui a dita com alguns pontos assinalados. A verde os pontos que eu contesto mais nas declarações do entrevistado (no fundo é toda a concepção preconceituosa e estereotipada do ensino em Portugal que ele revela que me desgosta) e a castanho a pergunta que acho que merecia uma formulação mais completa. Mas hoje não vai dar para escrever sobre tudo, portanto, fica apenas a parte 1.

Paulo Santiago faz uma série de afirmações que eu gostaria de saber em que se fundamentam, em quantas observações, com que relevância empírica… Por exemplo:

Em Portugal resume-se muito a avaliação dos alunos aos testes e exames e é esse conceito que pomos em causa no nosso relatório. O conceito de avaliação é muito mais vasto do que isso. O objectivo central é o de assegurar que a própria avaliação e os seus resultados sejam utilizados para a melhoria das práticas. Dando indicações aos alunos para poderem melhorar os seus resultados e permitindo ao professor melhorar a sua prática para melhorar os resultados dos seus alunos. Existe uma componente formativa na avaliação que está pouco desenvolvida em Portugal.

(…)

Na sala de aula, através do diálogo com o aluno, permite ao professor identificar quais as práticas que se podem adaptar melhor à aprendizagem de determinados estudantes. Existe uma interacção na própria avaliação através de práticas que passam pela auto-avaliação dos alunos, por estes se avaliarem uns aos outros, por um ensino mais individualizado em algumas circunstâncias. É todo um campo de acção que ainda não é bem entendido em Portugal.

Mas que base empírica tem Paulo Santiago para fazer uma generalização destas?

No fundo, o que ele faz é passar um atestado de menoridade profissional e intelectual à classe docente portuguesa. Isto parece um Valter Lemos II a falar. Eu leio aquilo ali e sinto que me estão a chamar imbecil, ignorante e insensível. E não me venham cá com corporativismos. Há gente que não sabe fazer avaliação formativa? Há! Mas há mais gente que só sabe palrar avaliação formativa e tal e coiso, que o sucesso e tal. A começar por cima.

Deixemo-nos de tretas. A avaliação formativa esteve no centro do discurso pedagógico, legislativo e especializado nos últimos 20 ou mais anos. A maioria dos professores em exercício foi formada (inicialmente ou na profissionalização) com base nestas teses. E a prática tem sido implementada, daí tanta grelha para contextualizar a avaliação, outrora sumativa, com uma série de outros parâmetros.

E a avaliação formativa passava e passa não só pelo feedback dado aos aluno e pelo aconselhamento sobre o que poderá fazer (a Paulo Santiago devem ser estranhas as folhas da avaliação entregues aos encarregados de educação, cheias de cruzes ou avaliações qualitativas), mas também pela avaliação das atitudes em relação à aprendizagem.

E só assim percebo uma avaliação formativa integral.

Só que Paulo Santiago, estranhamente, acha que não. Acha que a avaliação deve ser segmentada em parâmetros… como se não acontecesse já isso. Só que há uma classificação no final e não percebo bem se ele defende que deva, pura e simplesmente, desaparecer.  O que ele não explica é como se conjugariam, por exemplo no 3º ciclo, essas duas avaliações para efeitos de progressão. A menos que a progressão acontecesse sempre… com uma mera indicação do tipo polegar para cima, para baixo ou a meia haste…

Nas escolas portuguesas, combina-se na mesma nota o resultado da aprendizagem e a avaliação dos comportamentos e atitudes dos alunos. Isto tudo combinado faz com que as notas acabem por perder o sentido em termos de como as interpretar e da informação que transmitem para a aprendizagem futura. É importante existir uma avaliação dos comportamentos, das atitudes e dos valores, mas as aprendizagens propriamente ditas têm de ser avaliadas separadamente.

Aqui o atestado de imbecilidade é passado aos encarregados de educação… como se o acompanhamento dos alunos se faça apenas através da leitura da nota na pauta. Acontece, mas há ainda quem faça mais do que isso e se informe junto do DT e tenha vários meios para comunicar, inquirindo a escola e os professores, acerca do desempenho dos seus educandos.

Mas Paulo Santiago faz tábua rasa disso tudo e comete o erro que aponta aos outros e ainda comete sucessivas confusões: dá por adquirido que os professores só fazem testes, que isso é que conta para a avaliação final e que deveriam entrar em conta outros factores. Mas depois afirma que a nota final é formada pela avaliação das aprendizagens e dos comportamentos e que isso é confuso. No que ficamos?

E ainda dá a entender que os encarregados de educação não recebem (ou procuram) outro feedback que não seja o da nota final e que não têm forma de distinguir avaliação das aprendizagens da avaliação dos comportamentos. Isto é ridículo. Isto é pura ignorância sobre o que se passa e tem passado, anos a fio, no quotidiano escolar que muitos de nós conhecemos directamente, e descredibiliza profundamente as suas afirmações, porque dá a entender que o que afirma se baseia numa observação muito lacunar do que se passa nas escolas portuguesas.

Se há algo que se tem feito nas últimas duas décadas é produzir tanto feedback informativo que quase se tornou ruído.

E é espantoso porque não se percebe se Paulo Santiago pretende que a avaliação se torne cada vez mais um paraíso de grelhas e parâmetros, à maneira dos anos 90 e de que ainda há muitos vestígios, se apenas quer que se fale sobre as coisas, sem deixar rasto documental. Ou se é para fazer uma síntese. Só que tudo isto existe. O que é fado é ter de ler/ouvir que não.

Ex-governante contra docente

A ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues vai testemunhar contra o professor Paulo Guinote, num processo em que o autor do blogue A Educação do meu Umbigo é acusado de difamação agravada por um jornalista da ‘Visão’, Paulo Chitas.

… não posso aceitar a lógica implícita no tira o que o outro deu a mais, se não for para aplicar a todos.

Escreve hoje o JMF no Público:

Desculpem-me os funcionários públicos, mas quem não achou estranho, ou até aplaudiu, um aumento de 2,9 por cento em plena crise e num ano de eleições, algum dia teria de também pagar a factura. Ela chegou agora, com juros.

Eu não estranhei, nem aplaudi, porque sabia que aquilo era uma tentativa de compra, como outras foram feitas por aqueles tempos. José Sócrates ganhou, mas perdeu a maioria. A compra, com dinheiro do Estado, não funcionou.

Mas… pela parte que me toca já tinha levado um congelamento de mais de dois anos em cima.

E os 2,9% não repunham, nem de perto, o que já perdera.

Mas agora levam-me, de forma directa, cerca de 17% do meu rendimento anual durante dois anos, o que (em cálculos grosseiros) equivale exactamente ao mesmo valor do aumento anual de então.

Mais a redução salarial que já vem de trás. Dos mesmos que deram os 2.9%, mas depois tiraram e3m média 5% e ninguém parece lembrar-se!

Mas o ponto nem é esse.

O ponto é que, se entramos nessa de agora-têm-de-devolver-o-que-receberam-e-não-deviam, não são só os funcionários públicos a terem de devolver dinheiros que escasseiam nos cofres do Estado…

O que dizer dos milhões do BPN que ninguém devolverá, muito menos a BICada que vai ficar com os despojos?

O que dizer das ruinosas negociações em tornos das PPP (não só das estradas, mas também na área da Saúde), de que ninguém agora é responsável e não há accountability que lhes chegue e, em matéria de políticos, já temos o presidente do STJ a dizer que não pode ser?

O que dizer da banca, que quer ser recapitalizada por negócios em que entrou sem nenhuma arma apontada à cabeça? Não acharam estranhos (e quiçá aplaudiram) certos negócios em que se meteram? Alguém os obrigou a comprar dívida grega ou italiana, sendo agora os clientes a terem de pagar comissões e spreads obesos para compensar as péssimas análises de risco que fizeram?

Se NÃO HÁ DINHEIRO como escreve JMF no final do seu artigo de opinião, como é que só não há dinheiro para a arraia-miúda, mas há para outros?

E não falo dos trabalhadores do sector privado, mas dos patrões e afins desse mesmo sector, que continuam a beneficiar das prebendas do Estado e têm uma capacidade de enfrentar os transitórios ocupantes do poder executivo, porque sabem que os têm (e virão a ter) nas suas mãos.

Aqui e ao que parece na edição de hoje do Correio da Manhã.

Como é de lei, não comento.

Mail recebido e que reproduzo sem identificar a emissária, para não a melindrar. Se entender, ela que publique a minha resposta em comentário. Confesso que foi educada (a resposta). Publico o mail porque acho relevante o que ela veicula… sempre gostei de críticas e esta nem é das mais descabeladas que recebi.

Acho o post de 28 de Julho desprezível.

É legítimo não gostar de sindicatos mas o ódio que lhes destilam, no seu blog, com a sua complacência, só soa a despeito. Como diz o povo, “é preso por ter cão e preso por não ter”!!!… Já enjoa a mesma cantilena!… Pois, não fazemos nada (a não ser “arrotar postas de pescada” como se fossemos muito intelectuais e tão distantes estamos dos pobres operários…), vamos a uma manifestação e achamos que já fizemos muito pelo nosso futuro!…

Quando a FENPROF exige que não haja negociações em Agosto não é porque queira gozar férias (apesar de serem trabalhadores que têm igualmente direito a elas porque exploração tem limites!… É que sabe mesmo bem usufruir dos direitos que os sindicatos conseguem ganhar…); aliás, desafio qualquer um a deslocar-se a um dos sindicatos da FENPROF hoje, para a semana ou em pleno mês de Agosto. E não é que eles estão lá? Até nos ajudam nos concursos!… Não é que seja paga para defender estes sindicatos mas tenho colegas que são dirigentes sindicais e bem vejo a vida que elas fazem… Há que lhes reconhecer trabalho que, se calhar, teria mais qualidade se seres pensantes como vós, estivessem lá a fazer propostas e a trabalhar nas escolas a ouvir gente como vocês…

Exigir que a negociação não decorra neste mês (e não é preciso ser muito inteligente para o inferir), é para os professores poderem acompanhar a mesma (é que nem todos têm net, para ter informação, no sítio onde gozam, calma e merecidamente, as suas férias…). Quanto mais não seja para, depois, não terem motivo para os juízos que habitualmente fazem… São sempre os mesmos e dizem sempre o mesmo!!!…

He!, quero dormir, a sesta foi caótica.

Há dois dias, o jornal Público publicou um texto de Esther Mucknik que visava directamente um post deste blogue. Fica aqui esse artigo e a resposta do António Duarte, autor do dito post.

Exma. Senhora Directora do jornal Público

O jornal que V. Exa. dirige publicou no passado dia 30 de Junho um texto de opinião da autoria de Esther Mucznik (EM) no qual, a propósito da realização de um seminário sobre o ensino do Holocausto, se tecem considerações acerca do actual regime de formação contínua dos professores. Sendo parcialmente transcrito, na referida peça, um texto de minha autoria, publicado no blogue “A Educação do Meu Umbigo”, para a partir dele se desenvolverem considerações abusivas e, em minha opinião, ofensivas da dignidade profissional dos professores portugueses, solicito a publicação do seguinte texto, ao abrigo do direito de resposta previsto na lei.

Concordando com a ideia central que EM defende no seu texto de opinião – o actual sistema de formação de professores é errado e perverso – não posso aceitar que a partir daqui, e baseando-se numa leitura parcial e distorcida de uma situação concreta, em que a autora esteve envolvida, se façam generalizações apressadas e se tente pôr em causa o profissionalismo de uma classe, apenas porque ousa defender os seus direitos e a sua dignidade profissional, postos em causa perante o que outros decidiram unilateralmente. Concretamente, o Centro de Formação e Associação de Escolas Minerva, que propôs aos professores de História uma acção de formação creditada subordinada ao tema “Ensinar o Holocausto, como e para quê?” e a decorrer, entre outros, nos dias 17 de Junho, sexta-feira, das 20:30h até à meia-noite, sábado, 18, e domingo, 19, durante todo o dia.

Mas porque EM parece desconhecer algumas regras a que se submete actualmente a formação contínua de professores, tirando conclusões apressadas, cometendo incorrecções factuais e eventualmente induzindo em erro, dessa forma, os leitores, importa esclarecer alguns aspectos.

1. A formação contínua é um direito e simultaneamente um dever de todos os professores, que estes nunca se recusaram a cumprir. Para proporcionar acções de formação, as escolas agrupam-se em centros de formação, que organizam e acreditam junto das entidades competentes as acções a realizar, nas quais os professores se inscrevem em função da adequação às suas necessidades e à respectiva área disciplinar.

2. Como dever profissional que é, a formação contínua faz parte do horário dos professores, mais concretamente da sua componente não lectiva. Ou seja, e ao contrário do que EM falsamente sugere, não há acções de formação que permitam aos professores faltar às aulas. Assim, se não pretende ser acusada de atacar os professores com base em ideias falsas e preconceituosas, desafio EM a indicar uma só acção de formação de professores que tenha sido realizada, no presente ano lectivo, “em coincidência com o horário escolar”.

3. Também é falso que a acção “Ensinar o Holocausto, como e para quê?” tenha sido proposta da forma como foi para permitir a participação de um maior número de professores. Porque uma das propostas dos professores interessados em participar – e eu fui um dos professores inscritos, sei do que estou a falar – foi justamente a divisão das horas de formação por dois fins-de-semana, de forma a não sobrecarregar o horário não-lectivo dos docentes. E aqui, há que dizê-lo, houve completa inflexibilidade da parte da organização, nomeadamente da associação a que EM pertence, no sentido de modificar o cronograma, de forma a adequá-lo minimamente às disponibilidades dos participantes.

4. Há já muitos anos que os professores fazem formação aos fins-de-semana, geralmente aos sábados. Esta situação é consensualmente aceite, perante a necessidade de reunir profissionais com horários muito diversos e oriundos de escolas diferentes. Assim como fazerem-se ajustamentos ao cronograma proposto inicialmente, sempre que isso é do interesse da generalidade dos participantes.

5. O que não é aceitável é propor-se a profissionais que trabalharam toda a semana e que na segunda-feira seguinte retomarão o serviço nas suas escolas, para já não falar no trabalho que tragam para fazer durante o fim-de-semana, uma formação intensiva que lhes irá ocupar todo o período de descanso semanal a que, de acordo com o artigo 59º da Constituição, têm direito. Quando falo em abuso e desprezo, palavras que repito e sublinho, refiro-me concretamente à tentativa de impor a determinado grupo de professores uma decisão que, violando o disposto em várias alíneas do referido artigo da Constituição, priva os professores de um direito previsto constitucionalmente. Com o significado que isto tem na situação em apreço mas também como abertura de um precedente para situações futuras.

6. O direito/dever de realizar formação creditada não se pode sobrepor aos direitos constitucionalmente garantidos e era essa situação anómala que, com a atribuição dos créditos, estava a acontecer, pois na ausência de outras acções propostas pelo Centro de Formação Minerva, a inscrição e frequência daquela de que estamos a tratar tornar-se-iam, em termos práticos, obrigatórias para todos os professores de História dos ensinos básico e secundário. Os direitos das pessoas hierarquizam-se segundo a sua importância, e isto é algo que uma pessoa que se tem dedicado ao estudo do Holocausto, um processo histórico que negou a milhões de pessoas o mais básico de todos os direitos – o direito à vida – deveria saber sem terem que lho estar a recordar.

De resto, o cancelamento da acção de formação não comprometeu a realização do seminário com o mesmo nome, que ao que parece foi um êxito com o qual me congratulo. De facto, nunca foi intenção, nem dos professores envolvidos, nem do sindicato que condignamente os representou, qualquer “boicote” a esta iniciativa, como lamentavelmente EM insinuou. Foram todos os que quiseram e puderam, e certamente deram o seu tempo por bem entregue. Se as condições de participação fossem outras, eu também teria ido.

 

António Duarte

Professor de História do 3º CEB e Ensino Secundário

Parafraseando-o, todos temos direito a querer coisas diversas e liderar interesses diferenciados, mas a suspensão da ADD no Parlamento a 25 de Março não caiu do céu aos trambolhões. Já tinha sido tentada em diversas ocasiões desde 2008, durante a maioria de Sócrates, até com o apoio de deputados do PS. Não foi uma excepção, foi a continuidade de uma regra. Excepção foi a vergonha protagonizada por Aguiar Branco em Novembro de 2010, por ocasião  de se saber que o seu escritório de advogados fizera um contrato com a Parque Escolar.

Que João Marcelino não entenda isto é uma estranha forma de distorção da realidade. Ora, é minha convicção que Marcelino sabe bem o que se tem passado. E sabe que quem atropelou sistematicamente as regras do Estado de Direito em matéria de Educação foram o Governo e o PS, com o beneplácito do PR. Se o distorce, lá saberá os interesses diferenciados que o movem…

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