Conflitos


Amizade

Ser-se amigo é ser-se pai
( — Ou mais do que pai talvez…)
É pôr-se a boca onde cai
A nódoa que nos desfez.

É dar sem receber nada,
Consciente da prisão,
Onde os nossos passos vão
Em linha por nós traçada…

É saber que nos consome
A sede, e sentirmos bem
O Céu, por na Terra, alguém
Rir, cantar e não ter fome.

É aceitar a mentira
E achá-la formosa e humana
Só porque a gente respira
O ar de quem nos engana.

[Pedro Homem de Mello]  in  Miserere

Não é segredo que entre os tanques de pensamento que orbitam este governo e estiveram na origem de algum do seu ideário Margaret Thatcher é uma espécie de mãe espiritual.

Ora… aquela singular e mítica sucessão de vitórias eleitorais esteve quase para não acontecer, em virtude do que estava a ser o descalabro económico do seu primeiro mandato. Tudo acabou por ser salvo pelos argentinos, quando decidiram tomar as Malvinas/Falkland e a Maggie se tornou uma warlady. Só que por cá não temos ninguém que nos invada as Berlengas, sendo que a Madeira nem oferecida com dote a querem com o jardinesco lá instalado com o seu séquito. Então há que ir buscar uma lição diferente na governação da Dama de Ferro.

E os liberaizinhos de tertúlia encontram esse exemplo de firmeza e “liderança” na guerra travada pela sua idolatrada Margaret com os mineiros e os seus sindicatos, em particular com o então muito influente Arthur Scargill. Entre nós não há nenhum sindicato assim tão forte, nem o Arménio Carlos tem um estilo capilar tão arrojado, nem existe uma classe profissional tão vasta e determinada como era a dos mineiros britânicos quando os conservadores decidiram dizimá-los para mostrar como não temiam o movimento sindical.

Mas há os professores, em especial do ensino público. Que parecem ser (ainda) muitos e cujo rasto de demonização, iniciado há meia dúzia de anos por Sócrates/Maria de Lurdes Rodrigues, parece ser fácil de retomar, até porque muitos dos meninos-guerreiros assessores do actual governo parecem nutrir por eles um ódio muito particular, como se sentissem especial prazer em apoucá-los, acusando-os, conforme os momentos, de serem privilegiados mas igualmente incompetentes, uma espécie de aristocracia proletária, qualificada como que por engano, mas no fundo uns inúteis, se bem que relativamente perigosos.

Sei que não faz muito sentido, mas naquelas cabecinhas engomadinhas é tudo assim, muito elaborado mas na base da pobreza intelectual franciscana, alimentada a preconceito, ignorância factual mas muita prosápia e peneirice de quem leu umas coisas e teve aulas em estrangeiro.

(ahhhhh… este parágrafo, embora curto, fez-me libertar uma boa quantidade de toxinas… e ainda não adjectivei tudo o que me apetece)

E então devem ter convencido o actual PM – pessoa que cada vez me aparece abundar mais em convicções que entram pelos ouvidos ou em pastinhas finas – que os professores poderiam ser os seus mineiros, a sua guerra particular, capaz de o mostrar um líder forte, capaz de enfrentar os poderosos sindicatos e interesses corporativos e assim iludir a catástrofe económica em que nos vai rapidamente afundando.

E vai daí o homem chega a Paris e decide dizer umas parvoíces, retomando a tese demográfica que uns imbecis (mmm… a adjectivação de quando em vez alivia a tensão…) insistem em metralhar como se fosse um mantra inescapável, só faltando que recuperem os dados do aldrabado estudo tipo-fmi.

Ora… todos nós sabemos que ele sabe que nós sabemos que… ele disto não percebe nada.

E que mais valia estar calado… até porque os mineiros entraram em guerra aberta, o que termina sempre com uma vitória ou derrota total de uma das partes, enquanto que os professores, se conseguirem ser inteligentes e os seus representantes e líderes (sindicais ou a nível de escola) souberem estar à altura das suas responsabilidades, ganharão muito mais em optar pela guerrilha.

Que, como sabemos, sendo cirúrgica, pode moer quase indefinidamente até à queda do adversário.

É o que espero. E o que desejo.

Resolvemos? Ou querem ser “integrados”?

A “GESTÃO DOS CONFLITOS” NA ESCOLA

           1. (…) e o primeiro problema é apurar de que conflitos estamos a falar. Podemos estar perante conflitos a nível micro ou a nível macro, com origem dentro da escola ou fora dela, de natureza interpessoal ou de âmbito institucional. Quando se fala de gestão de conflitos, a própria palavra “gestão” está longe de ser neutra e, pela sua raiz tecnocrática, tende a centrar a causa das coisas no universo do indivíduo ou do individual. Disfunções de natureza individual seriam deslocadas para as relações interpessoais e nelas residiriam a causa e a solução dos problemas, isto é, dos “conflitos”. Trata-se de uma leitura simplistamente freudiana dos comportamentos, mas que tem a vantagem, para quem a defende, de atirar para o foro individual responsabilidades que claramente se situam fora dele, nomeadamente no âmbito social e/ou no das organizações. E não nos esqueçamos que uma escola não é um conjunto ou uma soma de pessoas individuais – uma escola é uma organização. Já Brecht denunciava num famoso poema que “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

2. Para a definição e enquadramento do “conflito” temos de ter sempre presente que a escola é o que é porque a sociedade é o que é, ou seja, a escola não é mais do que um dos modos de organização produzidos por uma sociedade concreta, e seu reflexo. A escola, qualquer que seja a perspectiva pela qual a abordemos, é muito mais uma consequência do que uma causa. Não existe “a escola” e o “fora da escola” – o que existe é uma estrutura económica, social, politica, cultural, etc. de que a escola faz parte. Por isso os conflitos e a sua gestão dificilmente podem ser confinados aos muros da escola e, pelo contrário, têm de ser abordados num âmbito muito mais vasto. Por exemplo: é um equívoco que o estancar de duas clássicas fontes de conflito, como o são a indisciplina ou o insucesso escolares, passe pela adopção de medidas disciplinares ou pedagógicas de mera circunstância. Em casos excepcionais, sem dúvida, mas não como regra.

3. Vejamos a indisciplina e o seu inevitável companheiro, o insucesso escolar – fontes privilegiadas de “conflitos”. Ambos têm uma origem próxima na violência do modo de organização das nossas escolas e no mal-estar consequente, que tudo inquina – embora a generalidade dos nossos alunos e dos nossos professores nem sequer disso tenha consciência.

4. Em primeiro lugar, têm origem na brutal carga horária curricular, que a todos submerge. Se pensarmos que a vida escolar não pode esgotar-se na escola e que há sempre estudo a desenvolver em casa, então os nossos alunos vivem com um horário de trabalho digno dos operários da Revolução Industrial do século XIX. (O culminar deste absurdo atinge-se com as 70 horas semanais de trabalho, ao serviço dos míticos 18,84-valores-para-entrar-em-Medicina!). Trata-se de uma realidade opressiva e asfixiante, que não deixa tempo para nada, nem verdadeiramente para estudar, e que não pode senão constituir-se em fonte de “conflito” – um conflito mais surdo ou mais exteriorizável. A carga horária curricular clássica dos nossos alunos (as “aulas”) nunca deveria ultrapassar as 20 a 25 horas semanais.

5. Mas as coisas não ficam por aqui. Na verdade, na generalidade das nossas escolas, o processo de ensino/aprendizagem privilegia o “ensinar” em detrimento do “aprender”. A pergunta, de tão simples, dispensa a óbvia resposta: nós, Professores, estamos nas escolas para “ensinar” ou para que os alunos “aprendam”? Em termos de modos e ritmos de aprendizagem, todos sabemos que não existem dois alunos iguais, que não existem dois jovens iguais – mas o sistema obriga-os a que aprendam todos do mesmo modo e com o mesmo ritmo. Era como se nas lojas existisse um fato de uma medida única para todos os corpos, deixando nus todos a quem não servisse, isto é, quase todos. Um absurdo, sem dúvida – mas é assim que (não) funcionam as nossas escolas. Se esta situação não é fonte de “conflito”, então não sabemos qual possa sê-lo.

6. E depois da sobrecarga horária e do esmagamento da diferenciação – que apoios concedem as escolas a quem deles mais necessita, isto é, principalmente àqueles cujas famílias não possuem poder económico para suportar “explicações” no exterior? Com os constrangimentos atrás assinalados, as escolas pouco podem fazer, porque se encontram metidas num colete-de-forças – e, agora, com turmas ainda maiores, com limitações orçamentais, com mega-agrupamentos cada vez mais desumanizantes, as coisas não vão caminhar para melhor. Até porque atirar os apoios para cima dos alunos ditos com NEE (Necessidades Educativas Especiais) é olhar para a questão de modo afunilado – como se em algum momento, em alguma circunstância, em alguma disciplina ou em alguma matéria todas as crianças e jovens não pudessem necessitar de apoio especial.

7. Dito de outro modo: toda a criança, todo o jovem, é “especial”. Não entender isto é uma outra e tradicional fonte de “conflito” e, mais do que pessoal, é institucional. Por isso as (apenas) 20 a 25 horas de “aulas” que atrás assinalámos constituiriam a componente de currículo nacional, obrigatório para todas as escolas. Fora dessas horas, as escolas usufruiriam de autonomia para, apoiando todos os alunos, os conduzir ao sucesso escolar e socioeducativo. Não faz qualquer sentido que um aluno excelente a Inglês e fraco a Matemática continue com uma carga curricular igual à do colega que nesse âmbito é exactamente o seu oposto – garantidas que sejam, para um ou para outro, as 20 a 25 horas globais de aulas. Nas nossas escolas, os problemas essenciais pouco têm a ver com o espaço-aula – os problemas têm a ver com o antes ou o depois das “aulas”, e é aqui que a autonomia das escolas se deverá centrar. Também por esta razão, parece-nos justo dizer que, hoje, não existem professores a mais, o que existe é sistema educativo a menos! Dramaticamente a menos.

8. Como se acaba de ver, são muitas as fontes de conflito próximas e imediatas – embora nem sempre visíveis para todos. Mas depois existem as restantes, que se relacionam com o nicho socioeconómico ou com a sociedade onde a escola se insere e de que emana. Por isso o “conflito”, embora por vezes casuístico, não pode ser abordado de forma redutora – ou então a solução não será mais do que aparente e, a prazo, inconsequente.

9. Ao contrário do que alguns afirmam, o insucesso escolar e a indisciplina, hoje, não são maiores do que nos anos ’60 e ’70 do século passado, isto é, antes do 25-de-Abril – se, para os alunos, tomarmos como referência o mesmo universo económico, social e cultural. A escola de então era, na generalidade, uma escola para uns poucos e feita à sua medida, pelo que não era de espantar que as coisas corressem bem. Mas a escola, felizmente, abriu-se para todos depois do 25-de-Abril – e, entrando lá todos, entraram com eles todos os problemas. E a escola viu-se a braços com a impossibilidade de lhes dar resposta! E daí os profissionais da “gestão de conflitos” – como se este fosse um problema de “gestão”. Já vimos que o não é, e que não é possível construir um muro que impeça que os problemas do lado-de-fora-da-escola passem para o lado-de-dentro – pela simples e óbvia razão de que estamos perante um todo, em que não existe o “dentro” e o “fora”.

10. Num país com quase 900.000 desempregados, com milhares de licenciados em caixas de supermercado ou com vencimentos de 500 euros, com uma taxa de desemprego a rondar de facto os quase 20%, com mais de 20% das pessoas em situação de pobreza e com outros 20% que aí se situariam se não fossem os apoios sociais – estamos a falar de 4.000.000 de pessoas em 10.000.000 de habitantes –, e sendo os nossos alunos filhos destas pessoas, é fundamental que pensemos sobre o que significa a expressão “gestão de conflitos” quando aplicada à realidade das nossas escolas. As escolas têm de estar atentas a estas situações? Certamente que sim – mas, demagogicamente, não se peça às escolas o que elas não podem nem devem dar ou, ainda pior, que resolvam problemas que de todo se situam fora do seu âmbito. Cuidado com o milagre da tecnocrática “gestão de conflitos”. Alertados conscientemente para tal, assumindo a sua parcela de responsabilidade, e não mais do que essa, as escolas e os docentes estarão em condições de trabalhar melhor, com o grau de autonomia que atrás referimos – e com o apoio concreto de uma equipa sociopsicopedagógica (real, não apenas no papel) constituída por docentes, pais, psicólogos, assistentes sociais, funcionários, e até alunos mais velhos…

José Calçada

Paredes, Maio. 2012

Cortesia do infatigável Livresco:

El curso escolar podría arrancar entre huelgas

El conflicto principal radica en las instrucciones anunciadas por la Comunidad para la Educación madrileña. Como ésta, todas las protestas están todavía en el aire. En los próximos días sabremos cómo y cuándo tendremos la vuelta al cole de este año.

Los profesores irán a la huelga contra los recortes de Aguirre

Los recortes avivan el descontento sindical al inicio de un curso conflictivo

El sindicato pide un pacto constitucional entre los grandes partidos políticos, semejante al del techo de déficit que se debate estos días en las cortes, para salvar la educación y su financiación

Peligra el comienzo del curso escolar en varias comunidades

Rebelión contra el recorte educativo

Galicia va a la huelga y los profesores de Madrid amenazan con hacerlo por la reducción de plantilla a costa de subir las horas lectivas – Castilla-La Mancha se suma al tijeretazo.

Recortes en Educación: la vuelta al cole sin profesores interinos

Rebelión en las aulas

En un momento especialmente complicado para el sistema educativo español, que registra una de las tasas más altas de Europa de abandono escolar (uno de cada tres alumnos deja los estudios antes de los 16 años); en un momento en el que el último informe PISA nos vuelve a colocar muy por debajo de la media europea en Matemáticas, en Ciencia y en Lectura.

Conteúdos aqui.

Será que não sabiam que o Teixeira dos Santos estava com os camaradas chineses? Já pensaram activar a conexão Lisboa-Pequim para intercederem por nós?

Reunião no ME confirmou: medidas do Governo provocarão mais desemprego e dificuldades ao funcionamento das escolas

É forte o ataque que tem sido desferido contra os trabalhadores da Administração Pública, no plano dos direitos sociais, do emprego, das carreiras e dos salários. Os professores são, neste plano, dos que mais sofrem os efeitos destas medidas, que se inserem nos objectivos definidos pelo governo de combate à “crise”. Duro é o golpe na escola pública com as medidas que lhes são dirigidas, seja pela via do próprio orçamento da educação, seja ainda pelo facto de também as autarquias estarem sujeitas a um dos maiores apertos de que há memória.

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