CNE


O som está baixo, mas percebe-se.

Como professor bem disciplinado, cumpri o tempo que me tinha sido atribuído (15-20 min), pois fui o último a falar, antes do encerramento, num painel que levou com os atrasos dos anteriores em cima. Quando se é político, em especial da Situação, tende-se a falar como se fossemos donos do tempo e os outros que se aguentem.

Não segui texto escrito, preferindo ir incorporando na apresentação alguns dos elementos ouvidos desde meio da manhã.

Também por isso, não tive direito ao contraditório, como os colegas de mesa, ao contrário do que aconteceu com todos os outros painéis. Em especial, quando algumas pessoas mereciam resposta, nem sempre pelas melhores razões.

O relatório tem coisas bastante interessantes, no bom e mau sentido. Uma delas é basear muito do seu conteúdo no diagnóstico feito por 12 especialistas.

Vamos lá ver uma coisa… a questão da retenção ser um “problema” nem é problema. O “problema” é mesmo optar-se por considerar que a maioria das opiniões destas 12 pessoas deve ser a base de um diagnóstico completo.

Certo, ninguém está a dizer que se fossem 24 ou 36 seria melhor o diagnóstico ou que deveria escolher-se a opinião de uma minoria esclarecida.

Mas quer-me parecer que, embora sendo transparente a metodologia, a mesma carece de alguma fundamentação mais densa (porque foram estes considerados “especialistas” e não outros é a mais evidente).

E claro que a questão da “cultura da retenção” me é especialmente cara quando se baseia em sete opiniões. sendo que em matéria de agrupamentos de escolas se ouviram quase só testemunhos do velho condado de Coimbra, entre o Tejo e o Douro (sim, eu sei que Ponte de Sor e Arraiolos ficam do lado de riba-do-tejo de quem vem a cavalo de Portucale).

Por acaso não haveria meios para fazer um inquérito alargado, nem que fosse por mail ou online a uma centena de agrupamentos, seleccionados entre os que têm mais e menos insucesso, bem como melhor evolução deste indicador?

Ficam aqui os elementos, sem mais considerações, relacionados com a “cultura da retenção” que tem ocupado algum do pensamento e do discurso do presidente do CNE nos últimos tempos, já se percebe agora melhor porquê.

CNERet2(…)

CNERet3(…)

CNERet1

 

 

Está aqui e deveria ter saído junto com a recomendação, porque é muito melhor do que a dita cuja (a autoria técnico-científica é diferente do relato…), mesmo se mantém alguns erros conceptuais muito elementares.

O mais grave baseia-se na extrapolação dos eventuais gastos por aluno para calcular um valor global para o número de retenções.

A demonstração deste erro é demasiado elementar e julgo que só mesmo um enviesamento do olhar o pode justificar.

Para ser válida a extrapolação deveria demonstrar-se que o número de alunos retidos corresponde a um número concreto de turmas adicionais por escola/agrupamento, o que não vejo em lado nenhum.

A verdade é que só de forma residual estes alunos aumentam os encargos, pois a larga maioria incorpora turmas já existentes e a minha observação directa é que a retenção raramente implica o aumento de turmas num determinado ano de escolaridade, muito menos com o aumento do número de alunos por turma que se verificou nos últimos anos.

É minha convicta convicção que não existe qualquer relação directa entre o número de alunos retidos e o valor de 600 milhões de euros adiantado por estes dias para o seu custo. 

Gostaria que me demonstrassem o contrário.

Já o que fica claramente demonstrado, mesmo se com números que me parecem mesmo assim inflacionados, é a enorme diferença do custo por aluno em Portugal e a média da OCDE, quanto mais para os países verdadeiramente desenvolvidos nestas matérias:

CNE2015

Mais especificamente ao número muito razoável de professores que lá estão e que aprovaram a recomendação hoje em debate na comunicação social.

Para quando deixam de ter medo de ser “corporativos” e ousam, por uma vez que seja, sugerir que o CNE se debruce sobre os “problemas emocionais” dos professores (eu sei que são os que menos interessam, mas mesmo assim…) perante o que se tem passado nos últinmos anos “nas escolas”?

Ou será pedir muito e fica mal?

Já que aprovaram por unanimidade uma recomendação a favor do fim das retenções “nas escolas” por serem “caros e provocarem problemas emocionais aos alunos, para quando a recomendação para que acabem os exames em todos os níveis de ensino visto que são caros e evidente causa de problemas emocionais aos alunos reprovados?

Não chega ficar por isto:

O presidente do CNE recusou ainda estabelecer qualquer «relação direta» entre os exames de final de ciclo e as taxas de retenção, até porque, se no 6.º ano de escolaridade os exames recentemente instituídos podem ajudar a explicar as elevadas taxas de retenção, o mesmo já não se aplica para o 8.º ano, um daqueles em que os ‘chumbos’ aumentaram «de forma significativa».

Se quiser, caro David Justino, eu explico-lhe o aumento de “chumbos” no 8º ano, tal como no 3º… e a relação “directa” com o sistema de avaliação das escolas…

Não arranjam melhores justificações?

Eu vou ler o raio do relatório e depois logo vejo se lá há alguma coisa que vá além destas variações em torno da “eficácia” e “chá com bolinhos”..

Conselho Nacional de Educação defende fim dos chumbos

Órgão consultivo do Ministério da Educação diz que retenção dos alunos sai demasiado cara ao Estado, pode provocar “problemas emocionais” nos alunos e não é eficaz.

De uma coisa eu tenho a certeza… os nexos de causalidade apresentados podem ser perfeitamente revertidos com ganhos de lógica, nomeadamente os que associam a retenção à indisciplina e ao abandono. Não serão a falta de regras de disciplina e o abandono a motivarem, em primeiro lugar, a retenção e não o contrário?

Fizeram o estudo das causas das retenções? Terá sido apenas culpa dos insensíveis professores?

A investigação demonstra que alunos retidos, nomeadamente nos anos iniciais da escolaridade, não melhoram os seus resultados e são mais propensos a uma nova retenção, além da evidente associação entre a retenção e o aumento dos níveis de desmotivação, indisciplina e abandono escolar. Verifica-se igualmente que existe uma maior probabilidade de retenção de alunos com piores condições socioeconómicas, bem como de alunos provenientes de países estrangeiros.

A recomendação é fraquinha, fraquinha e não passa de muita conversa com pouca demonstração, mas eu não esperaria muito mais, confesso, porque sou muito preconceituoso e arcaico na minha mundivisão.

Eu gostava era de apresentar a certos “relatores” o aluno que hoje me comunicou que quer mesmo chumbar no 7º ano para fazer a terceira retenção e assim ter a possibilidade de fazer um vocacional de 2 anos e não ter de passar por exames para concluir o 3º ciclo.

Enquanto o sistema permitir estes truques, deixemo-nos de conversas fiadas sobre “problemas emocionais” e discursos tremendistas deste tipo:

Chumbos são “a situação mais grave do sistema de ensino em Portugal”

O que eu queria era vê-los a dar a volta a este texto em vez de relatarem tretas que já caem de tão velhas. A começar pelo “novo” pai dos pais que cada vez parece tão instrumental quanto o anterior.

Custa muito ver o CNE a render-se aos argumentos mais primários da “eficácia financeira” e dos referidos “problemas emocionais”.

Seminário “Processos de Descentralização em Educação”

Phosga-se… tirando a sessão de encerramento, sou o último a falar… olha se o saco já estiver demasiado cheio de tanto ouvir… ? A menos que adormeça…

 

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