Classificadores


… parece que vai ser feita à força.

Federações sindicais frisam que professores podem recusar corrigir testes de inglês

Na semana passada, o Ministério da Educação e Ciência indicou aos directores escolares que deviam inscrever docentes na formação exigida por Cambridge aos correctores do teste de diagnóstico, apesar de a legislação determinar que a actividade é para voluntários.

Andam a ser nomeados voluntários, por vezes de forma mais do que duvidosa, mas nada como esperar para que se saiba tudo aquilo que o MEC é capaz de fazer quando se ensarilha nos seus próprios passos.

Professores de Inglês “voluntários à força” para a correcção da prova

Chegou-me por mail devidamente identificado:

Caro Paulo Guinote,

Apesar do Despacho n.º 4168-B/2014 de 19 de Março referir que adesão à bolsa de professores classificadores seria VOLUNTÁRIA e que esses mesmos professores  receberam formação específica da Cambridge English Language Assessment, o IAVE está a pressionar (leia-se obrigar) as escolas a indigitar professores para serem professores classificadores sem que lhes seja dada a possibilidade de se negarem a tal serviço.

Curioso ainda que o nosso Ministro, em Setembro de 2013,  tenha dito que o exame seria implementado sem qualquer custo para o Estado e depois envie um email aos professores de inglês que se voluntariaram para serem professores classificadores com o seguinte teor:

 

Caros Professores/as de Inglês

Considerando a necessidade da colaboração de um número de professores (Speaking Examiners) que garanta o processo de aplicação do teste Key for Schools, tendo em conta o Despacho n.º 4168-A/2014, de 19 de março, bem como a informação enviada aos Diretores dos Agrupamentos de Escolas/Escolas não agrupadas, agradecemos que manifestem as vossas disponibilidades de horário para a realização das sessões de Speaking, junto das Direções das Escolas onde exercem funções. Relembra-se que, de acordo com o Despacho referido, constitui dever dos professores que se voluntariaram e realizaram a formação promovida pelo IAVE e por Cambridge English participar no processo de classificação e de avaliação do Speaking, não estando prevista a figura de desistência do processo após terem sido suportados pelo MEC os custos inerentes à sua formação.

Agradecemos ainda, caso ainda o não tenham feito, que concluam a vossa certificação na plataforma do Cambridge. Para acederem à plataforma, podem usar a palavra de acesso que vos foi enviada. Caso não tenham a palavra-passe, podem solicitá-la através do vosso Team Leader.

Se por qualquer razão não puderam frequentar a sessão de formação presencial, poderão ainda fazê-lo, em Lisboa ou no Porto, numa das sessões que estão a ser agendadas para o dia 11 de abril, sexta-feira. A certificação através da plataforma tem lugar após a sessão presencial.

Recordamos que devem levar para as sessões de speaking o código de Examiner, para poderem preencher devidamente as grelhas.

Com os melhores cumprimentos,

 

Caro Paulo Guinote,
.
Envio a carta do IAVE instando-me para ser classificadora de exames Key for schools. Peço-lhe que a  divulgue considerando que o governo:
.
– faz negociatas com Bancos como o BPI e cujo lucro dos certificados pagos pelos alunos, conforme foi divulgado por responsáveis do ministério da educação (num encontro realizado na Maia a que fui instada a ir a troco de 11 cêntimos por km), reverte a favor da Fundação Bissaya Barreto. 
.
A que propósito será esta fundação beneficiada?
.
– os professores “examiners” de institutos como a International House são pagos a 30 € a hora de correção enquanto que os professores do 9º ano que foram instados a serem classificadores recebem custas das viagens a 11 cêntimos, o km. Está justíssimo!
.
– O exame terá início em março – abril e a formação decorre a 11 de fevereiro, perfeitamente a tempo para se ajustarem todos os mecanismos para tal exame que irá desdobrar-se em três partes distintas e com um alto grau de complexidade. Não há problema… um professor de Braga pode ir a Viana do Castelo, é mesmo ali ao lado, a 63 km de distância, sem se saber se terá viatura, tempo ou até transporte público (dificilmente o comboio, que neste caso serão dois) chegará às 9 e meia em ponto!
.
– Devem supor que é uma honra para um professor ser “instado” a comparecer! Pode até haver temporal…but who cares?
.
Obrigada colega
Cara….
O Key for Schools Portugal é um projeto que tem como principal objetivo a aplicação nos estabelecimentos de ensino de um teste de língua inglesa concebido pelo Cambridge English Language Assessment, entidade da Universidade de Cambridge responsável pelo desenvolvimento de instrumentos de avaliação no domínio da língua inglesa.

O IAVE, I. P., é o organismo que irá assegurar a gestão do respetivo processo, garantindo o rigor e a fiabilidade da sua aplicação e da sua classificação.

Para este projeto contamos com a colaboração de cerca de 1000 professores/as de Inglês, que irão assegurar o processo de classificação dos testes e a aplicação da componente oral dos mesmos.

Estes/as professores/as classificadores/as serão acompanhados/as por cerca de 50 supervisores/as ou Team Leaders, que tiveram formação específica orientada por uma equipa do Cambridge English for Schools.

Cada Team Leader irá acompanhar no terreno um grupo de classificadores/as (Examiners), transmitindo a formação recebida e acompanhando durante o processo de classificação dos testes.

Temos o gosto de lhe comunicar que foi escolhido/a para ser Examiner, no âmbito do Key for Schools Portugal.

Assim, indicamos em seguida a informação referente à ação de formação em que irá participar.

Turma: 15

Nome do/a Formador/a: Maria Manuela Soares da Costa

Local da Formação: Escola Secundária de Monserrate

Morada da Escola: Av. do Atlântico 4904-860 Monserrate

Telefone da Escola: 258801800

Data da Formação: 11 de fevereiro de 2014

Horário da Formação: 9h30 – 17h30

Mais informamos:

1. Foi autorizada, pelo Senhor Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, a dispensa da componente letiva e não letiva no período em que decorre a formação. Esta informação encontra-se disponível para as direções das escolas na Extranet do IAVE.

2. Para pagamento de eventuais despesas de deslocação, de acordo com a legislação em vigor, deverá:

– Preencher o boletim itinerário mensal e juntar os originais de todos os recibos

– Enviar por correio, ao Conselho Diretivo do IAVE, no prazo de 15 dias após a realização das tarefas, sendo estas reportadas ao mês em que foram efetuadas.

Antecipadamente gratos pela sua colaboração, enviamos os melhores cumprimentos.

… mas estou com um ataque de maturidade fora de época e nem sequer vou ser sarcástico e corrosivo como tudo isto mereceria.

“Independentemente da justiça da prova, do ponto de vista de quem a faz, está em causa o respeito pelo trabalho de quem a corrige. Um professor consciente e competente, com experiência, sabe que uma resposta com aquela dimensão demora a corrigir entre meia-hora a três quartos de horas e não se sujeitará a isto”, disse Edviges Ferreira ao PÚBLICO. Frisando que falava não como dirigente da APP, mas a título individual, comentou que “uma empregada doméstica ganha seis euros à hora” e considerou a proposta feita aos professores “ridícula”. Quase mais valia não terem oferecido nada”, disse.

Cada vez me sinto mais envergonhado por esta época em que me vi obrigado a viver.

Caro(a) Classificador(a) de Português,

No momento em que se anuncia a realização da prova de avaliação de conhecimentos e capacidades (PACC), específica para a docência, cumpre a este Instituto assegurar a gestão do respetivo processo de classificação. Neste sentido, pretendemos contar com aqueles que ao longo dos últimos anos têm sido o garante do rigor e da fiabilidade da classificação das nossas provas: os nossos Classificadores, em articulação com os Supervisores. Assim, não podemos deixar de lhe propor que nos acompanhe em mais este projeto, pelo que solicitamos que nos informe da sua disponibilidade para exercer as funções como Classificador(a) da PACC, no modelo de supervisão estabelecido para outros projetos.

Informamos que o papel do(a) Classificador(a) implica a classificação, em média, de 100 respostas a um item de resposta extensa, o que corresponde a 100 provas. Cada resposta terá entre 250 e 350 palavras, aproximadamente.

Como Classificador(a), desenvolverá esta tarefa em regime de acumulação, previsivelmente durante a interrupção letiva de dezembro/janeiro, auferindo o valor de 3 € por resposta classificada.

Caso deseje participar neste projeto, deverá preencher a ficha em anexo a este e-mail, para procedermos à atualização dos seus dados. Depois de devidamente preenchida, a ficha deve ser gravada no mesmo formato (Excel) e enviada, para este endereço eletrónico, até ao dia 18 de novembro, juntamente com uma cópia do recibo de vencimento. Para proceder a esse envio, deverá usar o mesmo endereço eletrónico que indica na sua ficha como email pessoal para contacto, que se presume ser consultado com regularidade.

Solicitamos, ainda, caso não pretenda participar neste projeto, que nos informe, em resposta a esta mensagem eletrónica, no prazo máximo de 3 dias (até 14 de novembro).

Até ao final de novembro, informá-lo-emos sobre a sua participação, conhecido que seja o número de candidatos inscritos na PACC.

Antecipadamente gratos pela sua colaboração, enviamos os melhores cumprimentos,

Paula Meneses

A Direção de Serviços de Avaliação Educativa

Mas e a pessoa não quiser, não basta não responder?

E já, agora, há quem se preste a este serviço? O meu desprezo antecipado.

Recebi hoje um telefonema da CAP da minha escola a dizer que a inspecção vai lá amanhã por causa de eu e outro colega nos termos “recusado” a classificar exames. Como parto amanhã de férias durante 20 dias, mandei o seguinte mail ao ministro Crato.

.
Ex-mo Sr. Ministro da Educação e Ciência.
Sou professora de Português do Ensino Secundário na Escola Secundária ……………..
Mais uma vez, confrontei-me este ano com um número de provas para classificar (49 provas) dentro dum prazo absolutamente irrealista (5 dias e meio) para que o trabalho possa ser feito em consciência e de modo a não prejudicar aqueles para quem trabalhamos: os nossos alunos.
Envio em anexo a declaração que enviei ao Agrupamento de Exames (Santa Maria de Sintra) e a declaração que deixei perante a inflexibilidade do Agrupamento em diminuir o número de provas a classificar. Aliás, fui confrontada com a informação de que “ou são os 49 exames ou nenhum”.
No passado ano lectivo já tinha procedido da mesma forma e acabaram por me distribuir o número de provas pelas quais eu me responsabilizava.
Note-se que um exame de Português de 12º ano implica, entre as tarefas de correcção normais, a obrigatoriedade de contar o número de PALAVRAS em duas questões (I B e III), tarefa que tem que ser repetida bastas vezes porque uma palavra a mais ou a menos implica um desconto.
Não consigo corrigir BEM nenhum exame em menos de 2 horas (contar palavras, trancar espaços, analisar e cotar as questões, rever o exame e preencher as grelhas), ainda mais não sendo um trabalho mecânico que se consiga fazer 10 ou 12 horas de seguida. Muitas vezes há ainda que confrontar provas entre si para aferir da uniformização da aplicação  dos critérios que estamos a utilizar.
E tudo isto considerando que, como já aconteceu, não aparecem, a meio do trabalho, directrizes do Gave, via supervisora, que obrigam à revisão do trabalho já feito.
Considero deplorável que a quantidade seja mais importante do que a qualidade. Lamento, mas não é assim que eu trabalho e penso e tenho provas de que os meus alunos beneficiam desta minha forma de trabalhar e de encarar a profissão.
Por último, gostaria que fosse considerada, na avaliação dos resultados dos exames nacionais as condições cada vez piores em que este trabalho é realizado.
Há muito tempo que acho que cada classificador deveria saber se os seus exames foram sujeitos a recursos em que a nota atribuída tivesse sido alterada de forma significativa. E analisar essas situações sempre que se verificassem ser recorrentes. Todos somos falíveis, mas as condições de “aviários de classificadores” em que nos estão a transformar potenciem, e MUITO, essa falibilidade.
Grata pela atenção dispensada, estou disponível a partir do final das minhas férias, para prestar os esclarecimentos que entenderem necessários, até porque os problemas que rodeiam a tarefa de classificação de exames nacionais não se esgotam nestas minhas linhas.
Ana Cristina Henriques Mendes da Silva
.
Omiti os anexos porque, se bem me lembro, já os fui publicando por aqui em outro momentos.
anexo também a declaração enviada ao agrupamento em 2012
Nota: reservo-me o direito de divulgar estas minhas reflexões pelas vias que entender apropriadas, esperando que a mesma sirva para uma profunda reformulação e reflexão sobre a classificação de exames nacionais.

« Página anteriorPágina seguinte »