Choques


Após um dia de trabalho rematado com acompanhamento pós-laboral de um parente a consulta médica – que agora não há cá dispensas para acompanhar ascendentes, mesmo que não tenham meio de se deslocarem por si mesmos, pelo que é preciso contorcer horários – um tipo janta fora de horas, senta-se no sofá liga a televisão e sai-lhe com um Zorinho impante de sorriso a despejar coisas como inovação, liderança, qualificação, desafio, infraestruturas, formação, inovação outra vez, qualificação de novo, desafio a duplicar e por aí abaixo.

Realmente também eu começo a não gostar de segundas-feiras.

Ora cá temos as grelhas de avaliação dos docentes propostas pela tutela, que isto da autonomia das escolas e da diferenciação das estratégias de avaliação conforme os contextos são coisas muito divertidas para se proclamarem, mas não para colocar em prática. Portanto, vamos lá em defesa da diferenciação, uniformizar isto tudo e em nome da autonomia, explicar por onde é que ela passa (mais exactamente por 1 parâmetro em cada categoria).

Outra coisa interessante é que, afinal, o modelo dos relatórios críticos de desempenho que não permitiam uma verdadeira avaliação do mérito dos docentes é retomado na generalidade dos parâmetros.

Mas o que mais me deixa curioso é saber como, vamos imaginar num Departamento Currcicular com 15 ou 20 docentes e 1 ou 2 professores titulares, será possível fazer estas avaliações (ver aqui ficha para os 2º e 3º CEB e ES, e aqui para o 1º CEB, graças à indicação da Maria Lisboa), muito em especial quanto a alguns itens do grupo B e a quase todos do C.

Eu nem vou discutir a relevância ou oportunidade de alguns dos critérios, neste momento só me “divirto” ao pensar no aparato burocrático que isto vai significar para o funcionamento das escolas e principalmente para os responsáveis pela avaliação dos restantes docentes – algo que neste momento até me conforta pelo facto da DRELVT me ter bloqueado o acesso a titular – que ficarão submersos num trabalho quase inconsequente para a qualidade de ensino nas escolas.

E já agora, especialmente para esse(a)s colegas, atentem no grupo E dos parâmetros e vejam lá se não se assustam com o que está implícito em termos de consequências práticas, do tipo teoria dos efeitos perversos.

Eu percebo que se queiram estimular novas práticas de gestão. Até compreendo que muita gente que se instalou nas Universidades pensou que o topo estava alcançado e que bastava fazer as provas académicas em prazos mais ou menos alongados para garantir a subsistência e o estatuto até ao resto da vida. Posso dar nomes, se for necessário, entre antigos professores e colegas cuja actividade de investigação se resumiu anos a fio a muito pouco acima do zero.

Sei que sempre houve muito clientelismo, nepotismo e falta-de-vergonhismo no recrutamento dos docentes universitários, quantas vezes baseado na horizontalidade da posição de quem se candidatava, inflacionando artificialmente os quadros de pessoal.

Tudo bem. A Universidade precisa de se renovar, ir em busca da excelência e tudo o mais. Num país de desenvolvimento económico medíocre, a Universidade e a Educação parecem ser os únicos sectores – excepto o futebol – a que se pede um desempenho acima da média em muita coisa. O Céu na Terra, se possível.

Mas será necessário amesquinhar desta forma a Academia, fazendo dotações orçamentais que nem sequer chegam para pagar ao pessoal?

Será esse o caminho certo para o despertar?

Não será apenas uma forma de amesquinhar a instituição universitária perante a opinião pública, usando um pouco a mesma estratégia adoptada com os docentes do Ensino Não-Superior e as escolas públicas?

Por muitas reservas que tenha em relação ao funcionamento dos feudos e mandarinatos universitários, não me parece que seja assim que se vai elevar o nível das Universidades ou melhorar radicalmente as práticas. Apenas se vai piorar o que já era mau e impedir que as coisas melhorem.

Com o sistema de empréstimos bancários como cenário, estão a empurrar as Universidades para o aumento das propinas e, por essa via, para o financiamento do Ensino Superior pelas famílias, a juros, mesmo que bonificados.

Sabemos todos das histórias excepcionais de parcerias em torno de projectos inovadores e tudo o mais. Acho mesmo que o Ministro que tutela as Universidades esteve ligado a experiências dessas.

Mas será que acreditam que a maioria da nossa rede de ensino superior universitário e politécnico pode sobreviver dessa forma? Que a nossa malha empresarial e a mítica sociedade civil podem aguentar uma universidade sub-orçamentada?

Ou esta é apenas uma forma de aplicar os princípios da selecção natural e, por tabela, acabar por reduzir a oferta educativa de nível superior e resolver o problema “dramático” e “do país” que é como Maria de Lurdes Rodrigues chama, por exemplo, ao desemprego dos recém-licenciados na área das Ciências da Educação?

Sinceramente, cada vez percebo menos disto. Ou talvez perceba. Não sei.

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Repito aqui que acho o mais meritório possível que exista um Plano Nacional de Leitura. A iniciativa é boa, os objectivos originais são excelentes, não é nada disso que me aflige. O que me provca certa urticária é ter a sensação, à medida que o tempo passa, que o PNL se tornou uma espécie de sopa da pedra para onde a cada rodada se atira mais um par de ingredientes.

Se na dose certa é a minha segunda sopa favorita, quando os condimentos e ingredientes são excessivos corro, porém, o risco de panhar uma indigestão.

Ora desde que foi lançado o PNL tem engordado em variadíssimos aspectos, a saber:

  • Nomes, muitos nomes. Para além dos cinco elementos da Comissão, temos vinte e três no Conselho Científico e mais de cem numa Comisão de Honra onde parece que só não cabem docentes do Ensino Não-Superior (catam-se com muito esforço nas listas, em especial se não acumularem com a condições de autores), embora sobrem notáveis na área abrangente do PS e umas quantas flores de outras cores para disfarçar. Se o Luís Figo se percebe por causa do marketing, já me é estranho o que Vitor Constâncio, João Salgueiro, Vital Moreira ou a Maria João Avillez lá fazem, para além de polir o ego.
  • Obras, muitas obras. Em vez de apostarem num corpus bibliográfico coerente e relativamente compacto para servir de base ao trabalho no âmbito do PNL, fornecendo materiais de apoio de qualidade, neste momento já existe uma listagem com 1700 títulos, o que é de uma enorme dispersão. Mais valia nem fazerem uma lista e apoiarem a leitura de livros, ponto final. São 333 obras propostas para Jardins de Infância e mais de 500 para o 1º ciclo (150 só para o 1º ano da escolaridade). Isto é um manifesto exagero, que eventualmente os autores e editoras agradecem, mas que está longe de ser muito prático. Em especial quando se acrescenta nas listas que «todos os títulos que pertencem a uma colecção podem ser substituídos por outro título da mesma colecção, se o professor o entender. Alguns títulos estão ainda em estudo. Prevê-se uma actualização regular da lista.» Dissessem: leiam, leiam muito, e já estava. Percebia-se melhor. Assim parece-me um manifesto exagero.
  • Actividades, gigabytes de actividades para desenvolver no âmbito da disciplina de Língua Portuguesa. As orientações para o ano lectivo de 2007-08 são uma verdadeira girândola de propostas, que apostam na superficialidade das abordagens do que num trabalho de ancoragem da leitura e de uma verdadeira interacção com o ensino do funcionamento da língua. Tudo o que a TLEBS tinha de obsessivo com o ensino da terminologia, o PNL tem de oposto, ao parecer esquecer que a literatura não é tudo. Aliás, como o ano passado constatei, PNL e TLEBS eram praticamente incompatíveis num trabalho normal com as turmas em Língua Portuguesa. Repare-se que se quer, em cada período lectivo, a leitura de um ou dois livros com exploração aprofundada numa sequência de aulas, cumulativamente com a leitura de outros livros na sala de aula. Isto sem que se perceba se contabiliza a leitura, que já antes existia, de uma obra completa, acompanhada da produção e preenchimento de guiões de leitura. Tudo isto mais a realização de jogos, concursos, rally papers, etc, etc.

Sendo eu um acérimo defensor da leitura e do uso dos livros, parece-me que há aqui algo que peca por excesso.

Não seria mais interessante sugerir que uma das ACND – caso da Área de Projecto – passasse a ser destinada à implementação do PNL em articulação com Língua Portuguesa? Ou então que se eliminasse de vez a existência de um manual de leituras para a disciplina?

Porque o problema de gigantismo que está a atacar neste momento o PNL pode ser contraproducente ao dispersar orientações e ao não estabelecer prioridades claras nas suas propostas. As mais de 50 páginas de orientações para actividades de leitura no 1º ciclo estão aí para o demonstrar. Claro que isso resulta em muito de tudo ser formulado em gabinete, com pouca ligação à terra ou a que existe parecer ter algum rebuço em admitir que não é possível meter os Campos Elíseos na Avenida dos Aliados, por muito boa vontade que se tenha.

Por isso, na minha modesta e pedestre opinião de soldado raso, talvez fosse mais útil concentrar o PNL em matéria de prioridades, no sentido de não dispersar recursos e orientações de um modo que acabe por fazer perder eficácia ao plano.

Ler, ler muito, é excelente. Mas tenham lá calma com a forma como acrescentam às centenas os títulos propostos (há colecções de dezenas de livros e editoras que aproveitaram para estampilhar todas as obras infanto-juvenis), respirem fundo e vejam lá se não matam ainda o paciente com tanto remédio.

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E o regulamento? Está no moodle.
E as instruções para os alunos? Estão no moodle.
E as avaliaçôes? Ficam no portefólio.
E os programas? Estão no moodle.
E os horários, os manuais: Estão no moodle.
E isto e aquilo: Ficam no portefólio.

Agradecendo a referência à Teresa V.:

Seeing No Progress, Some Schools Drop Laptops

(…)
“After seven years, there was literally no evidence it had any impact on student achievement — none,” said Mark Lawson, the school board president here in Liverpool, one of the first districts in New York State to experiment with putting technology directly into students’ hands. “The teachers were telling us when there’s a one-to-one relationship between the student and the laptop, the box gets in the way. It’s a distraction to the educational process.”
(…)
Yet school officials here and in several other places said laptops had been abused by students, did not fit into lesson plans, and showed little, if any, measurable effect on grades and test scores at a time of increased pressure to meet state standards. Districts have dropped laptop programs after resistance from teachers, logistical and technical problems, and escalating maintenance costs.

Such disappointments are the latest example of how technology is often embraced by philanthropists and political leaders as a quick fix, only to leave teachers flummoxed about how best to integrate the new gadgets into curriculums. Last month, the United States Department of Education released a study showing no difference in academic achievement between students who used educational software programs for math and reading and those who did not.

Those giving up on laptops include large and small school districts, urban and rural communities, affluent schools and those serving mostly low-income, minority students, who as a group have tended to underperform academically.

Uóteduiumine?

Ariuquidinguemi?

(c) Antero Valério

Se o primeiro eixo do chamado Plano Tecnológico da Educação se resolve com o anúncio de uma chuva de equipamentos subsidiados pela União Europeia e, de certa forma, com dinheiro na mão, basta ir à loja, comprar e mandar entregar, já o segundo eixo é algo que levanta mais problemas porque implica produzir algo. Implica muito mais o factor humano por parte do envolvimento da tutela. Repare-se logo como de 5 itens no primeiro eixo se passa para dois no segundo, sendo que um – o Escola Simplex – não se pode considerar propriamente de conteúdos, mas sim de funcionamento burocrático-administrativo.

Pelo que no segundo eixo, de essencial, resta o Mais-Escola.pt, que fica sem se perceber exactamente o que é, de tão vagas ou desencontradas são as suas propostas de intervenção (dos portefólios digitais dos alunos à articulação entre a escola e o mundo do trabalho).

Mas se assumirmos qu é um projecto que visa disponibilizar ferramentas em suporte digital, disponíveis online ou em software de apoio à prática pedagógica na sala de aula, ficamos ainda com uma área imensa de acção, na qual cumpre percebermos alguns aspectos como:

  • Exactamente que tipo de conteúdos vão ser produzidos? De aspecto metodológico sobre a aplicação das TIC na sala de aula? Adequados a cada disciplina ou área disciplinar? Conteúdos mais especificamente relacionados com as disciplinas (a ideia de uma sebenta electrónica deixa-me um pouco apreensivo) dos vários níveis de ensino?
  • Quem vai produzir esses conteúdos? No caso da aplicação das TIC, o “mercado” de “especialistas” já deve estar a esfregar as mãos com a antecipação dos milhões. Já no caso dos especialistas na produção mesmo de conteúdos de apoio ao trabalho nas várias disciplinas, ficamos sempre com a dúvida sobre os critérios da sua escolha e, a avaliar pelo histórico recente da produção de exames ou mesmo dos materiais de apoio à naufragada experiência da TLEBS, a qualidade dos produtos finais deixa-nos naturalmente apreensivos. Claro que se espera que, na área da metodologia, o senhor Secretário de Estado já tenha os nomes delineados para diversas equipas, pois nem outra coisa seria concebível.
  • Qual será a calendarização de todo este processo? A habilidade em atirar as coisas para 2010 é engraçada, pois nas eleições de 2009 há sempre desculpa para o que não estiver concretizado. É uma táctica habitual nestes planos que raramente chegam verdadeiramente ao fim, deliciando-se antes no processo. O objectivo está para lá da legislatura, pelo que…

No caso do Mais-Escola.pt, o 3º trimestre de 2007 é apresentado como de «definição do modelo de gestão e operação». Quem vai ou está a fazer essa definição? O lançamento da primeira fase da «operacionalidade» está agendado para um ano depois, ou seja, apenas a tempo de servir para alguma coisa em 2008-09. É certo que depressa e bem há poucos quem, mas…

De certa forma, este eixo do PTE deveria ser encarado como crucial e não subsidiário, o que implica uma sua formulação clara e uma implementação que fugisse às redes clientelares costumeiras nestas andanças. Não chega colocar a tecnologia nas escolas sem elas estarem preparadas e terem outros instrumentos disponíveis, assim como não adianta comprar equipamentos caríssimos para hospitais se depois não existem técnicos para os operar e manter ou dinheiro para pgar a luz, ou mesmo comprar imensos computadores topo de gama, todos xpto, para equipar serviços do Estado se depois o software é de pura fancaria.

Ora no Eixo-Tecnologia, este PTE é demasiado lacunar e percebe-se que este aspecto foi, pelo menos nesta fase inicial, martelado no projecto, para não parecer que não estava lá qualquer preocupação com a produção de conteúdos. Claro que não chega fazer apenas novos coisos-show propagandísticos como o mais recente.

Mas muito mais importante, não chega copiar alguns conceitos de estudos internacionais, se for para esquecer algumas das suas conclusões menos agradáveis, nomeadamente a falta de uma relação incontroversa entre input tecnológico na sala de aula e output dos resultados (p. 25 e ss do documento acima linkado, com destaque para a p. 29). É verdade que sou originalmente de História e que essa é a área onde se indicam os menores ganhos, mas não é por isso que levanto diversas reservas à eficácia do e-learning e outras estratégias muito baseadas em suportes tecnológicos. As minhas reservas são exactamente quanto á qualidade da aplicação desses meios, dos materiais disponíveis e da formação adequada dos recursos humanos (e o Eixo-Formação não me tranquiliza nada a esse respeito).

Entretanto, percebe-se que muito do PTE foi retirado  daqui (mesmo se alguns números são algo discordantes), sendo que se analisarmos as datas dos documentos em presença e os pretextos próximos usados pelo Governo/ME para justificar o PTE – resultados dos exames em Matemática – se percebe facilmente que algo não bate certo. Assim como é notória a fixação na experiência finlandesa e outras, esquecendo-se – sempre – que as medidas implementadas nesses países o foram – com destaque para o caso finlandês – em contextos educativos muito diversos, desde logo porque a literacia aí já atingiu os 100% há bastant tempo e porque, em termos socio-culturais, as famílias apresentam um perfil completamente diverso do nosso.

Mas enquanto se acreditar que, como no caso da Revolução Industrial, é possível replicar “saltos” na evolução, utilizando as mesmas estratégias em contextos diferentes (e apontando prazos ainda mais curtos para fazer o balanço da experiência), já sabemos que resultados (não) é possível esperar. Em especial resultados reais e não cosméticos.

Claro que em 2009 só pelo habitual milagre dos efeitos dos truques legislativos (como alterar as regras da avaliação ou impedir que se considerem como abandono ou NEE situações que antes o eram) haverá resultados. Mas, de qualquer maneira, mesmo se forem escassos há sempre a desculpa do objectivo ser o de 2010 e mais além, pelo que ficaremos sempre no domínio da habitual inimputabilidade política (ou outra).

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Poderia começar por analisar o recentemente anunciado e agora mais especificado Plano Tecnológico da Educação, por questionar a hierarquia aparente dos eixos, colocando-se o dos meios antes do da formação e da produção de conteúdos, mas já sei que tudo isto é o que é e que à frente chega quase sempre a carroça com os aparatos, pois são os aparatos que, como a própria designação demonstra, dão maior aparência e produzem efeito mais aparatoso para a opinião pública. Claro que é difícil estabelecer redes locais nas escolas e colocá-las a funcionar se não for dada formação a quem as vai implementar e usar, mas esses são aqueles detalhes que o ME faz por ignorar, apostando sempre no voluntarismo dos docentes para tapar os buracos das medidas decretadas nos gabinetes.

Mas prefiro começar por criticar este Eixo Tecnologia com base em outro aspecto.

Não sendo eu o mais entusiasmado apoiante das tecnologias como estratégia salvífica para os males do insucesso escolar, não deixo lá por isso de reconhecer que é melhor dispôr de um “kit tecnológico” do que dispôr só da minha voz, um pau de giz e um quadro gasto onde mal se consegue escrever alguma coisa. A tecnologia é um acessório, mas é um acessório que não recuso.

Por isso mesmo, este Eixo Tecnologia deveria ter sido a primeira medida do Ministério da Educação neste mandato – até de acordo com as promessas pré-eleitorais de choques e planos tecnológicos – no sentido de melhorar a situação da Educação. Só que, pelo contrário, em vez de investir, preferiu começar por desinvestir e por atacar o estatuto profissional dos docentes.

Foi uma opção. Errada, como se percebe com facilidade.

Se o ME tivesse apresentado um plano deste tipo aos docentes e, na sua sequência, aparecesse com a necessidade de reformar o Estatuto da Carreira Docente, talvez muitos de nós tivesse recebido com menor acrimónia algumas das medidas menos lesivas da nossa dignidade pessoal e profissional. Porque ficaríamos com a sensação – mesmo que fosse ilusória – que a tutela estava mais interessada em melhorar a Educação do que servir de ponta de lança ou mera estrutura de missão ao serviço do Ministério das Finanças para a Educação.

Repare-se que com a comparticipação anunciada de fundos comunitários, o investimento nacional neste Plano Tecnológico será de cerca de 100 milhões de euros, o que não é especialmente relevante em matéria de Orçamento do ME, pois corresponde a menos de 2% das suas despesas, ou seja, menos de metade do que diminuiu essa mesma despesa entre 2006 e 2007 (a retracção foi superior a 250 milhões de euros no subsector Estado).

Portanto, não vale a pena encherem páginas de quadros e texto com os milhões, porque esses milhões são muito relativos. Parecem mais quando lidos ou ouvidos repentinamente, do que depois de analisados de forma calma e ponderada.

Por isso, este tipo de Plano, visando requalificar e modernizar os estabelecimentos de ensino em termos de equipamentos teria sido uma óptima forma – repito a ideia –  do ME demonstrar a sua boa vontade e sinceridade quanto ao intuito de melhorar a Educação em Portugal. Optando por, antes de tudo o mais, atacar os docentes, obrigando-os a trabalhar mais pela mesma remuneração e cortando a 75% as hipóteses de progressão na carreira, apenas demonstrou que preferia que fossem os docentes a financiar o próprio sistema, porque as poupanças feitas desde o congelamento das progressões dão para pagar – e ainda sobram muitos milhões – todos estes kits tecnológicos e muito mais.

Em especial este primeiro «projecto-chave» do Plano Tecnológico da Educação (não deveria ser «para a Educação»?), mais não passa do que da aplicação de fundos comunitários conjugados com o dinheiro que os próprios docentes deixaram e deixarão de receber.

É, no fundo, um financiamento coercivo pelos docentes do sistema educativo, como se não bastasse o que já voluntariamente dispendem todos os anos.

É, ao contrário do que a propaganda oficial quer afirmar, um investimento feito pelo ME com dinheiros alheios, sejam os que chovem (ainda) da Europa, sejam os que foram retirados aos docentes com a limitação da sua progressão – cá em casa somos contribuintes líquidos já em largos milhares de euros que dão para muitos dos afamados kits, mesmo sem ser a preço de retalho.

Portanto, este é um Plano certo, com um calendário errado, porque tardio, e com um financiamento que deve tudo aos truques do Ministério, tanto os truques do congelamento salarial e da limitação da progressão na carreira, como aos truques da propaganda, que oculta que tudo isto representa uma gota no Orçamento do ME.

Resolução do Conselho de Ministros que aprova o Plano Tecnológico da Educação e estabelece a respectiva estrutura de coordenação

Esta Resolução aprova o Plano Tecnológico da Educação, instrumento estratégico para a modernização tecnológica das escolas, tendo em vista (i) reforçar e actualizar o parque informático na maioria das escolas portuguesas, aumentar a velocidade de ligação à Internet e construir redes de área local estruturadas e eficientes; (ii) desenvolver uma estratégia coerente para a disponibilização de conteúdos educativos digitais e para a oferta de formação e de certificação de competências em tecnologias da informação e da comunicação (TIC) dos professores; e (iii) adoptar um modelo adequado de digitalização de processos que garanta a eficiência da gestão escolar.

O que não fica imediatamente visível nesta peça de propaganda é que os dinheiros para estas iniciativas serão comparticipadas entre 70 e 85% por fundos comunitários.

Quanto aos três eixos ou projectos-chave a implementar (Tecnologia, Conteúdos e Formação) eu durante o fim de semana logo tentarei poerceber melhor o seu alcance, embora me esteja já a chegar uma comichão razoável quanto ao modo como será concretizado o segundo no que se refere à «produção, distribuição e utilização dos conteúdos informáticos» (já estou a ver o perfil das equipas nomeadas a dedo para a missão), mas muito em especial quanto ao terceiro, no ponto da avaliação electrónica que «visa promover a utilização pedagógica das TIC, bem como reforçar a segurança e imparcialidade nos momentos de avaliação e uniformizar critérios de avaliação e ritmos de aprendizagem.»

Não sei se estão bem a atingir toda a dimensão desta medida mas, a ser colocada em prática como é habitual com esta equipa ministerial e os seus pressurosos agentes no terreno, a generalidade dos docentes não vai ter espaço para dar um ai, sem que o mesmo entre num registo destinado à sua posterior avaliação.

Big Sister Will Be Watching You…

Estas imagens da reportagem da Sic-Notícias hoje CCB demonstram bem ao estado de encenação a que chegámos. O estado de representação da realidade que passou a substituir o real de uma maneira pós-pós-moderna.

Já agora, dava jeito que o WordPress permitisse incluir imagens com outras origens que não apenas o Google, o YouTube ou o Daily Motion. O Sapo-Vídeos é pobrezinho, mas tem as nossas coisinhas.

E reparem já agora, no comportamento de duas das figuras que estão na entourage socrática com os nomes de código VL-sorriso e CZ-saltitante.

Afinal…

Afinal já achei o vídeo da peça da RTP1 no Youtube. Depois de 1’50” de propaganda temos 40 segundos de pura delícia, insubordinação e quebra de lealdade. Vale a pena esperar para ver. Imperdível ainda o momento em que, numa tirada que não foi bem pensada quando foi escrita Sócrates afirma que as medidas se destinam e retirar o dinheiro das escolas. Que pena os Gato Fedorento estarem de férias!

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