Choques


Fui para História, é possível que isso me livre da suspeição de ser maluquinho por números e coisas assim. Mas impressiona-me sempre a abordagem holística (eufemismo para outra coisa) que muita gente defende para conhecer os fenómenos sociais e mesmo os educativos.

Ou aquela postura anti-avaliação, muito maiode68, do paradoxal proibido proibir como se fosse proibido avaliar de forma quantitativa, como se isso fosse um atestado de menoridade intelectual e conceptual a quem o defende e pratica, pelo meio de outras coisas. Como se fossemos praticar a horrível selecção e a abominável exclusão. Como se não pudesse ser apenas uma forma de conhecer.

Conhecer a realidade – a menos que sejamos empedernidos idealistas – implica de alguma forma medir qualquer coisa, nem que seja de forma imperfeita o tempo e o espaço em que nos movemos. Qualquer movimento nosso implica um cálculo, mesmo a quem nem se apercebe de tal.

Não que tudo se deva reduzir a números – isso é a parvoíce de muito economista de algibeira e investigador social armado em “cientista” – mas pelo menos algumas coisas ganham em ter uma configuração quantitativa, mesmo que isso implique – ó meus zeuses e júpiteres – o estabelecimento de seriações e comparações, bases e topos. e nada mais caricato do que ver quem critica o igualitarismo numas coisas a criticar as tabelas ordenadas em outras.

O mesmo para quem acha que a existência de exames implica um “paradigma” específico na sua prática pedagógica. Desculpem-me lá, se só por existir um exame no final do ano ou do ciclo de escolaridade mudam toda a vossa forma de ensinar ou se sentem inadaptados é porque andam com baias estreitas a limitar-vos a metodologia.

Sim, eu sei… há quem seja um one trick pony e tenha ficado com aquilo em que passou a acreditar há 10. 20. 30 ou 40 anos como fé única, a menos que seja como muitos dos nossos políticos que foram a lavar lá fora e entraram na Portela penteadinhos e liberais quando tinham saído desgrenhados e neo-marxistas (embora apenas tenham substituído um trick por outro).

Os exames, a avaliação quantitativa, os rankings fazem parte da vida de alunos e professores e assim deve ser. Mas não esgotam essa mesma vida, são apenas uma das suas partes. A sua existência não é um mal em si. Centrarem-se – defensores e opositores – apenas nisso ou quase em exclusivo nisso é que é um erro.

Sei que não sou doutor dos que prepararam alunos para a Universidade, pois lido com isto a uma escala menos dramática (sou um professor básico, logo, de segunda, para muitos dos que não gostam de hierarquias e seriações, excepção àquelas em que se sentem no topo), mas quando ouço ou leio alguém a dizer que a existência de exames implica um tipo de ensino obcecado com exames dá-me vontade de lhe atirar uma panela de azeite a ferver para cima, pois apenas está a confessar que apenas sabe fazer uma coisa, ou uma coisa de cada vez e é incapaz de circunscrever a preparação para os exames à sua real dimensão na sua prática pedagógica.

Ahhhh… e isto tem tudo a ver com o início do post, porque é muito habitual que esta forma de encarar a avaliação vá a par do horror à quantificação.

Bem… nem sempre… há quem até goste de medir os outros e o que os outros fazem. Só não o querem é para si.

Mas isso agora não interessa nada.

… ou mesmo dois.

O ministro dos Assuntos Parlamentares afirmou que o «choque reformista» vai permitir ter, até ao fim de 2012, um poder local mais «enxuto, ágil, eficiente e também mais próximo do cidadão».

«Este é um choque reformista. Já tive a oportunidade de o dizer. Portugal precisa de reduzir na administração central, regional e local», disse o governante, que falava à margem da inauguração do Pavilhão de Desportos de Vila Real.

Nem discordo da ideia. Sou contra a pulverização municipal que serve, em muitos locais, só para multiplivar clientelismos aparelhistas.

O problema é que eu acho que ao ministro Miguel ainda falta comer muitas papas de sarrabulho porque isto não é um concurso para uma Associação de Estudantes ou uma Jota, por muitos truques que se tenham aprendido.

SALTO À CORDA

O cordão
que nos abre
aos acres ventos de humidade e sombra,
a luva dura nos
abriga
ou é que nos enforca, nos afoga?
Mal saltamos à terra,
dela
nos soltam como às aves
da espécie das galinhas.
Mas o fantasma duma
linha cinza,
esse nos fecha os olhos
e diz: saltai à corda.
E é
questão então a de saber
se temos pés azuis
ou sangue negro e goma

que nos cape. O pé direito sobe,
oh, que vitória, no verdadeiro ar.

Mas que invisível fio
o puxa e traz à pequenez do outro?
Que terror
canaliza
cada comparação? De que margem,
de que maresia mesmo o cheiro
nos agrada?
Que pátria e que dolores?
Que malfeição?

(Um aceno
insular
habita o nosso olhar.
Uma pílula pink
dá-se ao dente que a
trinque.
E que ternura é esta,
rosa de sal, giesta,
serra aberta de
pinhas,
toque de campainhas?)

[Pedro Tamen]

Não chega soltar os prisioneiros… há que tentar perceber se eles sabem ao que andam, há que lhes dar ao menos algumas roupas, o passe social e…

Se é liberdade do ponto de vista pedagógico, concordo.

Marçal Grilo defende autonomia imediata para escolas do ensino básico e secundário

(…)

Marçal Grilo falava esta manhã no colóquio promovido pelo Fórum para a Liberdade de Educação, com o tema “Que serviço público de educação queremos para Portugal?”.

O antigo ministro defendeu que, “correndo todos os riscos”, deve ser dada “imediatamente autonomia a todos os agrupamentos” de escolas do ensino básico e secundário. Grilo defendeu que é esta “a” medida a tomar.

“Sou contra grandes reformas. Se me voltam a falar em reformas, desisto”, disse na Gulbenkian, lembrando que já existem as leis necessárias. Para garantir melhorias, o que é necessário são “medidas cirúrgicas”.

Para a minha petiza, a noite de ontem foi particularmente ilustrativa do estado de degradação social que atravessamos, que não é apenas de agora, mas que não houve biliões europeus que resolvessem, deixando grande parte da nossa população sempre no limiar do descalabro.

Não é que ela já não tivesse visto, mas talvez tivessem sido as cores da noite a acrescentar um pouco de dramatismo.

Talvez o facto de ser em zonas centrais da capital.

Talvez a concentração no espaço de um par de horas.

A mendicidade sempre a deixou cheia de perguntas e lágrimas nos olhos. Mas ontem aquilo a que muitas vezes assistiu (o pedido de dinheiro por parte dos arrumadores, os mendigos em cruzamentos) concentrou-se num trajecto curto, desde o idoso que pedia dinheiro junto a um luminoso grande espaço comercial ao precocemente envelhecido homem que apareceu perante os nossos olhos, num cruzamento próximo do Marquês, sem palavras, apenas com um papelão a gritar-nos Tenho Fome, não esquecendo, já com a noite mais avançada, o grupo de homens que, de modo ordeiro, seleccionava o lixo de um supermercado, mostrando uma paradoxal alegria pela fruta imprópria para venda que encontravam e uma inesperada quantidade de sumos com as embalagens danificadas.

O catar do lixo, fenómeno conhecido de há muito junto às traseiras e dianteiras de supermercados urbanos, para busca de comida, juntou-se ao tradicional vasculhar de monos, papelões e outros materiais para uso ou revenda que sempre conheci por bandas mais suburbanas.

Só que nos últimos meses tem recrudescido este fenómeno de viver do que os outros abandonam ou recusam por pequenas imperfeições, revelando até que ponto esta República alargou um fosso imenso de desigualdades.

Explicar a uma criança pequena que aqueles homens, ainda em pleno vigor da idade, estão empurrados para procurar o lixo alheio, é algo que se torna chocante para nós mesmos e nos faz interrogar sobre a espiral de consumo supérfluo a que alguns se entregaram, enquanto nas suas sombras há quem seja obrigado a viver dessas sobras.

Não é gente que prefira viver assim, que opte por debruçar-se em contentores de lixo em busca de um saco de peras a começarem a apodrecer, a pescar pacotes de leite amassados, de uma forma tão ordeira e calma que demonstra como é já uma rotina. Quem conhece a zona, sabe que aqueles rostos não são os mesmos que, de dia, ali estão a arrumar carros, ou mais adiante, encostados a uma ombreira satisfazendo algum vício. Alguns daqueles homens não estão desmazelados, não são marginais, são gente que até pode ir a caminho de casa com os despojos da noite.

E talvez esse seja o maior choque.

Explicar a uma criança que eles não são ainda a base mais despojada da sociedade.

Alguns ainda são como caçadores em busca de comida para a sua família, que a vida transformou em necrófagos dos grandes e médios predadores. Que em casa há outras crianças à espera que ele regresse com a colheita possível. E isto não é neorealismo ou demagogia, porque não é literatura, nem política. É o real a entrar-nos pelos olhos dentro, ao mesmo tempo que ergue o rosto do contentor.

São uma face da república (assim, minúscula…) que não é hoje homenageada. Porque o artifício, o desperdício, o simulacro, a aparência venceram no culto de um regime que vai falhando cada vez mais.

Há quem critique a I República por ter sido um regime que se transformou na coutada de uma clique oligárquica, violenta, progressivamente desligada do Povo em nome do qual tinha afirmado fazer a Revolução.

Não estarão a falar desta III República, com a única diferença que a violência das bombas e assassinatos foi substituída por uma violência menos estrondosa, mas mais insidiosa?

E aqueles que exaltam essa mesma I República (ontem não consegui ver mais de uns minutos de um Prós & Prós, enviesado a um ponto extremo…), não conseguem perceber que aquilo de que se alimentaram nos últimos anos, em espírito de negócio comemorativo, é a herança do pior que o folclore republicano teve para nos dar?

Será que certos analistas que tão rapidamente ajuízam sobre o passado não estarão cegos perante o presente?

Será que perderam o olhar da criança que, na sua falta de filtros e teorias, se choca quando ?

Se quiserem ainda tenho por aí uns modems a 56K que posso dispensar de borla:

Net no Interior atinge velocidade pré-histórica

Amigo Fafe, por favor, confirma…

CCAPRel20

Tem obviamente graça ler no relatório do CCAP (p. 20) que os mega-departamentos (de início criados com a desculpa que era para o concurso de titulares, mas já agora ficam assim…) funcionam pior a vários níveis do que os anteriores departamentos.

Nada que não se saiba ao nível das escolas. O retorno aos grupos disciplinares, de modo formal ou informal, tem sido a solução para contornar os entorses de funcionamento do novo sistema.

Deveria acontecer algo parecido com a avaliação, mas…

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