Choques


Fui para História, é possível que isso me livre da suspeição de ser maluquinho por números e coisas assim. Mas impressiona-me sempre a abordagem holística (eufemismo para outra coisa) que muita gente defende para conhecer os fenómenos sociais e mesmo os educativos.

Ou aquela postura anti-avaliação, muito maiode68, do paradoxal proibido proibir como se fosse proibido avaliar de forma quantitativa, como se isso fosse um atestado de menoridade intelectual e conceptual a quem o defende e pratica, pelo meio de outras coisas. Como se fossemos praticar a horrível selecção e a abominável exclusão. Como se não pudesse ser apenas uma forma de conhecer.

Conhecer a realidade – a menos que sejamos empedernidos idealistas – implica de alguma forma medir qualquer coisa, nem que seja de forma imperfeita o tempo e o espaço em que nos movemos. Qualquer movimento nosso implica um cálculo, mesmo a quem nem se apercebe de tal.

Não que tudo se deva reduzir a números – isso é a parvoíce de muito economista de algibeira e investigador social armado em “cientista” – mas pelo menos algumas coisas ganham em ter uma configuração quantitativa, mesmo que isso implique – ó meus zeuses e júpiteres – o estabelecimento de seriações e comparações, bases e topos. e nada mais caricato do que ver quem critica o igualitarismo numas coisas a criticar as tabelas ordenadas em outras.

O mesmo para quem acha que a existência de exames implica um “paradigma” específico na sua prática pedagógica. Desculpem-me lá, se só por existir um exame no final do ano ou do ciclo de escolaridade mudam toda a vossa forma de ensinar ou se sentem inadaptados é porque andam com baias estreitas a limitar-vos a metodologia.

Sim, eu sei… há quem seja um one trick pony e tenha ficado com aquilo em que passou a acreditar há 10. 20. 30 ou 40 anos como fé única, a menos que seja como muitos dos nossos políticos que foram a lavar lá fora e entraram na Portela penteadinhos e liberais quando tinham saído desgrenhados e neo-marxistas (embora apenas tenham substituído um trick por outro).

Os exames, a avaliação quantitativa, os rankings fazem parte da vida de alunos e professores e assim deve ser. Mas não esgotam essa mesma vida, são apenas uma das suas partes. A sua existência não é um mal em si. Centrarem-se – defensores e opositores – apenas nisso ou quase em exclusivo nisso é que é um erro.

Sei que não sou doutor dos que prepararam alunos para a Universidade, pois lido com isto a uma escala menos dramática (sou um professor básico, logo, de segunda, para muitos dos que não gostam de hierarquias e seriações, excepção àquelas em que se sentem no topo), mas quando ouço ou leio alguém a dizer que a existência de exames implica um tipo de ensino obcecado com exames dá-me vontade de lhe atirar uma panela de azeite a ferver para cima, pois apenas está a confessar que apenas sabe fazer uma coisa, ou uma coisa de cada vez e é incapaz de circunscrever a preparação para os exames à sua real dimensão na sua prática pedagógica.

Ahhhh… e isto tem tudo a ver com o início do post, porque é muito habitual que esta forma de encarar a avaliação vá a par do horror à quantificação.

Bem… nem sempre… há quem até goste de medir os outros e o que os outros fazem. Só não o querem é para si.

Mas isso agora não interessa nada.

… ou mesmo dois.

O ministro dos Assuntos Parlamentares afirmou que o «choque reformista» vai permitir ter, até ao fim de 2012, um poder local mais «enxuto, ágil, eficiente e também mais próximo do cidadão».

«Este é um choque reformista. Já tive a oportunidade de o dizer. Portugal precisa de reduzir na administração central, regional e local», disse o governante, que falava à margem da inauguração do Pavilhão de Desportos de Vila Real.

Nem discordo da ideia. Sou contra a pulverização municipal que serve, em muitos locais, só para multiplivar clientelismos aparelhistas.

O problema é que eu acho que ao ministro Miguel ainda falta comer muitas papas de sarrabulho porque isto não é um concurso para uma Associação de Estudantes ou uma Jota, por muitos truques que se tenham aprendido.

SALTO À CORDA

O cordão
que nos abre
aos acres ventos de humidade e sombra,
a luva dura nos
abriga
ou é que nos enforca, nos afoga?
Mal saltamos à terra,
dela
nos soltam como às aves
da espécie das galinhas.
Mas o fantasma duma
linha cinza,
esse nos fecha os olhos
e diz: saltai à corda.
E é
questão então a de saber
se temos pés azuis
ou sangue negro e goma

que nos cape. O pé direito sobe,
oh, que vitória, no verdadeiro ar.

Mas que invisível fio
o puxa e traz à pequenez do outro?
Que terror
canaliza
cada comparação? De que margem,
de que maresia mesmo o cheiro
nos agrada?
Que pátria e que dolores?
Que malfeição?

(Um aceno
insular
habita o nosso olhar.
Uma pílula pink
dá-se ao dente que a
trinque.
E que ternura é esta,
rosa de sal, giesta,
serra aberta de
pinhas,
toque de campainhas?)

[Pedro Tamen]

Não chega soltar os prisioneiros… há que tentar perceber se eles sabem ao que andam, há que lhes dar ao menos algumas roupas, o passe social e…

Se é liberdade do ponto de vista pedagógico, concordo.

Marçal Grilo defende autonomia imediata para escolas do ensino básico e secundário

(…)

Marçal Grilo falava esta manhã no colóquio promovido pelo Fórum para a Liberdade de Educação, com o tema “Que serviço público de educação queremos para Portugal?”.

O antigo ministro defendeu que, “correndo todos os riscos”, deve ser dada “imediatamente autonomia a todos os agrupamentos” de escolas do ensino básico e secundário. Grilo defendeu que é esta “a” medida a tomar.

“Sou contra grandes reformas. Se me voltam a falar em reformas, desisto”, disse na Gulbenkian, lembrando que já existem as leis necessárias. Para garantir melhorias, o que é necessário são “medidas cirúrgicas”.

Para a minha petiza, a noite de ontem foi particularmente ilustrativa do estado de degradação social que atravessamos, que não é apenas de agora, mas que não houve biliões europeus que resolvessem, deixando grande parte da nossa população sempre no limiar do descalabro.

Não é que ela já não tivesse visto, mas talvez tivessem sido as cores da noite a acrescentar um pouco de dramatismo.

Talvez o facto de ser em zonas centrais da capital.

Talvez a concentração no espaço de um par de horas.

A mendicidade sempre a deixou cheia de perguntas e lágrimas nos olhos. Mas ontem aquilo a que muitas vezes assistiu (o pedido de dinheiro por parte dos arrumadores, os mendigos em cruzamentos) concentrou-se num trajecto curto, desde o idoso que pedia dinheiro junto a um luminoso grande espaço comercial ao precocemente envelhecido homem que apareceu perante os nossos olhos, num cruzamento próximo do Marquês, sem palavras, apenas com um papelão a gritar-nos Tenho Fome, não esquecendo, já com a noite mais avançada, o grupo de homens que, de modo ordeiro, seleccionava o lixo de um supermercado, mostrando uma paradoxal alegria pela fruta imprópria para venda que encontravam e uma inesperada quantidade de sumos com as embalagens danificadas.

O catar do lixo, fenómeno conhecido de há muito junto às traseiras e dianteiras de supermercados urbanos, para busca de comida, juntou-se ao tradicional vasculhar de monos, papelões e outros materiais para uso ou revenda que sempre conheci por bandas mais suburbanas.

Só que nos últimos meses tem recrudescido este fenómeno de viver do que os outros abandonam ou recusam por pequenas imperfeições, revelando até que ponto esta República alargou um fosso imenso de desigualdades.

Explicar a uma criança pequena que aqueles homens, ainda em pleno vigor da idade, estão empurrados para procurar o lixo alheio, é algo que se torna chocante para nós mesmos e nos faz interrogar sobre a espiral de consumo supérfluo a que alguns se entregaram, enquanto nas suas sombras há quem seja obrigado a viver dessas sobras.

Não é gente que prefira viver assim, que opte por debruçar-se em contentores de lixo em busca de um saco de peras a começarem a apodrecer, a pescar pacotes de leite amassados, de uma forma tão ordeira e calma que demonstra como é já uma rotina. Quem conhece a zona, sabe que aqueles rostos não são os mesmos que, de dia, ali estão a arrumar carros, ou mais adiante, encostados a uma ombreira satisfazendo algum vício. Alguns daqueles homens não estão desmazelados, não são marginais, são gente que até pode ir a caminho de casa com os despojos da noite.

E talvez esse seja o maior choque.

Explicar a uma criança que eles não são ainda a base mais despojada da sociedade.

Alguns ainda são como caçadores em busca de comida para a sua família, que a vida transformou em necrófagos dos grandes e médios predadores. Que em casa há outras crianças à espera que ele regresse com a colheita possível. E isto não é neorealismo ou demagogia, porque não é literatura, nem política. É o real a entrar-nos pelos olhos dentro, ao mesmo tempo que ergue o rosto do contentor.

São uma face da república (assim, minúscula…) que não é hoje homenageada. Porque o artifício, o desperdício, o simulacro, a aparência venceram no culto de um regime que vai falhando cada vez mais.

Há quem critique a I República por ter sido um regime que se transformou na coutada de uma clique oligárquica, violenta, progressivamente desligada do Povo em nome do qual tinha afirmado fazer a Revolução.

Não estarão a falar desta III República, com a única diferença que a violência das bombas e assassinatos foi substituída por uma violência menos estrondosa, mas mais insidiosa?

E aqueles que exaltam essa mesma I República (ontem não consegui ver mais de uns minutos de um Prós & Prós, enviesado a um ponto extremo…), não conseguem perceber que aquilo de que se alimentaram nos últimos anos, em espírito de negócio comemorativo, é a herança do pior que o folclore republicano teve para nos dar?

Será que certos analistas que tão rapidamente ajuízam sobre o passado não estarão cegos perante o presente?

Será que perderam o olhar da criança que, na sua falta de filtros e teorias, se choca quando ?

Se quiserem ainda tenho por aí uns modems a 56K que posso dispensar de borla:

Net no Interior atinge velocidade pré-histórica

Amigo Fafe, por favor, confirma…

CCAPRel20

Tem obviamente graça ler no relatório do CCAP (p. 20) que os mega-departamentos (de início criados com a desculpa que era para o concurso de titulares, mas já agora ficam assim…) funcionam pior a vários níveis do que os anteriores departamentos.

Nada que não se saiba ao nível das escolas. O retorno aos grupos disciplinares, de modo formal ou informal, tem sido a solução para contornar os entorses de funcionamento do novo sistema.

Deveria acontecer algo parecido com a avaliação, mas…

RTP e SIC com empate técnico, mas ligeira vantagem para o PSD. TVI com vitória clara do PSD.

yes-we-can-Vital

(c) Luís Guerreiro

Resta esperar por confirmações…

Mas então agora temos o dever de participar na governança com as regras definidas por outros?

Tutela acusa professores de Santo Onofre de “não cumprirem dever de cidadania”

O Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, afirmou hoje que o Conselho Executivo do agrupamento de Escolas de Santo Onofre foi destituído e substituído por uma Comissão Administrativa Provisória (CAP) “porque os professores não quiseram participar na governação das suas escolas e não cumpriram um dever de cidadania: o de apresentar uma ou mais listas ao Conselho Transitório”.

“Choca-me que não tirem partido desse direito, mas se é assim que querem muito bem: a escola é pública e o Estado tem a obrigação de assegurar a sua governação nos termos da lei”, disse, em declarações ao PÚBLICO.

Mas afinal, mais adiante, já é um direito?

Choque, choque é certos alguéns armarem-se em pregadores da cidadania com currículos que ficam um bocado a dever à coerência.

Eu sou, por caso, obrigado a concorrer à Junta de Freguesia da aldeia onde vivo?

Algum outro profissional é obrigado a candidatar-se a um órgão de não-sei-quê-transitório no seu local de trabalho?

Mas então a Ministra não disse no Parlamento – eu vi e gravei para não me desmentirem – que era a comunidade local que não queria tomar conta da Escola?

Entendam-se ou isto é uma anarquia. E nós não queremos isso. Apenas a Lei e a Ordem!

– Sou colega na Escola Secundária André de Gouveia, em Évora. Aquela que, no final do passado ano lectivo, teve a visita do Engenheiro (?) e da  sua amada ministra para implementação do Plano Tecnológico, com não sei quantos quadros interactivos e net em toda a escola, com a DRAlentejo toda lá em peso para compensar a ausência quase total do corpo docente e, assim, dar a entender perante as câmras que estava muita gente…
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Ora bem, passadas que estão mais de duas semanas de aulas deste novo ano lectivo, os quadros interactivos não funcionam e a escola não tem net em lado nenhum…
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Segundo ouvi dizer, o PCE chegou a pedir para não iniciar a 15 de Setembro porque a escola não estava em condições de abrir, mas a DRAlentejo não autorizou o adiamento. Vai daí, andamos todos sem internet e, na primeira semana, houve mesmo professores que tiveram que dar aulas em salas sem quadros! Isto porque, por imposição do Engenheiro (?) e da sua amada ministra, os quadros de giz saíram e colocou-se, em sua substituição, o famoso avanço tecnológico, que tinha que ficar mesmo ao centro da sala para aparecer bem na peça que as tv’s iriam mostrar naquele dia…
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As reclamações choveram e, claro, lá voltaram os quadros de giz (ou de caneta), mas colocados a um canto da sala, o que obriga a que todos os alunos tenham que ocupar as filas laterais da sala para poderem ver alguma coisa.
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Enfim, aqui ficou o exemplo de uma escola que até funcionava muito bem em termos de acesso à internet e que até tinha já dois quadros interactivos que algumas pessoas já utilizavam de vez em quando. Passámos, com o Plano Tecnológico, à Idade da Pedra. O que funcionava deixou de funcionar, a partir do momento em que o Engenheiro (?) e a sua amada ministra lá puseram os pés. Mais: parece também que, como do pacote do PTec fazem parte não sei quantos metros de fibra óptica, houve que desinstalar a que a escola já tinha (e que funcionava) e instalar a do pacote (que não funciona). Outra: como os novos cartões para alunos e professores que vieram substituir os que tínhamos (e que funcionavam) não funcionam, voltou toda a gente a ter que andar com dinheiro na escola. Ainda outra: parece que os colegas (poucos) que tinham formação para usar os quadros interactivos e que, esporadicamente, quando necessário, utilizavam, vão deixar de poder utilizar porque, afinal, os do Engenheiro (?) e da sua amada ministra funcionam (ou melhor: não funcionam) com outro sistema.
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Confuso? Bem-vindo ao maravilhoso mundo do governo do Engenheiro (?) e da sua amada ministra.
Pergunto-me: nas outras escolas, também vítimas da intervenção do governo, as coisas estão a funcionar?
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Professor devidamente identificado, mas que prefere o anonimato.

Já apanhei a reportagem a meio, no noticiário nocturno da SIC. Pelo que percebi era sobre a excelência e custos de alguns colégios privados de Lisboa e do Porto, respectivamente do Colégio de ão João de Brito, da Oporto British School, e, esse vi em directo, do Colégio Luso Internacional do Porto mais conhecido por The Oporto International School.

Ensino à britânica, boas instalações, tudo com legendas e instruções em inglês, incluindo as Rules and Regulations. Actividades curriculares em catadupa e extra-curriculares em dupla catadupa.

Como não vi a peça toda, concentrei-me, maravilhado, nas condições do CLIP. Um dos responsáveis, felizmente português e expressando-se em português para as câmaras (na British School foi tudo very british), explicou adequadamente o funcionamento do colégio, desmentindo que só alguns possam frequentá-lo, atendendo ao custo das propinas. Que não, que até 85% dos 700 alunos são portugueses, alguns mesmo da classe média, «que se esforça» por dar qualidade à educação dos filhos. Mais atrás referiu mesmo que, por vezes, é necessário, algumas famílias privarem-se das férias por tão boa causa.

E então quanto custa, perguntamos nós? De acordo com a reportagem a coisa pode fazer-se por 8.000 euros anuais, ao que parece um valor mais acessível do que o do Britânico (de que não acho o site…) que é mais caro, pois as mensalidades oscilam entre os 780 e os 1150 euros.

Áu mache?

cavaco.jpg

Já perdemos demasiado tempo com avisos que caem em saco roto. Este Estatuto do Aluno, teoricamente retocado sob sugestão da Presidência, ficou uma lástima absoluta. Se sugestões existiram por parte de Belém, ou pouco de diferente tinham a acrescentar ou pura e simplesmente foram ignoradas.

Para Rainha de Inglaterra, já chega. O magistério de influência já se reparou que só funciona quando interessa.

Assim como é triste que seja preciso uma filmagem amadora de um adolescente mal-educado a idolatrar o comportamento de uma colega igualmente mal-educada, para as almas se inquietarem.

Os avisos sucessivos, durante três anos, por parte de quem está «por dentro» do sistema e sabe há muito os erros cometidos, neste período e antes, de nada serviram. São sempre tomadas de posição «corporativas», de quem quer «manter o poder» e os «privilégios».

Chega um caso singular e o copo parece que de repente está cheio e a transbordar, quando antes parecia ainda estar meio vazio. No caso dos docentes há muito que transborda. Para as almas subitamente inquietadas é que parece que agora chegou o momento de reclamarem.

É triste. Repito-o.

Este episódio e o que significa mais não é do que o corolário de um processo, que vivemos há anos, de destruição da imagem e fundamentos da Escola como instituição para ser levada a sério e do trabalho que lá se desenvolve como fulcral para o país.

O declínio da Educação não é culpa nem dos alunos, nem das famílias, nem dos professores.

É culpa, pura e simplesmente dos políticos.

Há que dizê-lo sem rodeios.

Foram eles que forneceram o roteiro para o descalabro do aspecto essencial e ventral da Educação que é a transmissão de competências e saberes, na forma de aquisição de aprendizagens e preparação para novas descobertas.

Não é demagogia, apenas a pura realidade objectiva. A culpa é dos políticos que (verdade seja dita) ajudámos a aleger, por acção ou omissão. Dos mesmos políticos que delapidaram, sem vantagens evidentes, os dinheiros do FSE e agora vão fazer o mesmo com as Novas Oportunidades. Milhões e milhões se perderão nas canalizações e filtros burocráticos que lucra(ra)m com estes fundos comunitários. Quanto ao país e à população em geral, servem-se-lhe qualificações e certificações em forma de canudo.

Mas o actual Presidente da República também tem as suas responsabilidades e talvez por isso se expliquem certas hesitações.

No seu primeiro mandato maioritário permitiu que Roberto Carneiro lançasse uma reforma demasiado ambiciosa para o nosso país (não estou aqui a evocar afinidades ou diferenças globais ou específicas com a dita reforma). Depois, no segundo mandato, deixou que a retalhassem por completo e dela deixassem ficar quase só o lado negativo. Foi então – quando os ministros da Educação se sucederam entre coutos, durões e leites – que floresceu a Pedagogia do Sucesso, o húmus de onde brotaram as benaventes que vieram a seguir e os valteres que agora aturamos a completar o serviço que deixaram inacabado nos anos 90.

Nas escolas públicas, a generalidade dos alunos e professores fazem o que podem para sobreviver e dar um mínimo de dignidade a esta charada legislativa. Mas cada vez observam que esse é um esforço não recompensado, nem sequer socialmente gratificante. Os bons alunos são em muitas circunstâncias amesquinhados e maltratados física e psicologicamente pelos campeões dos pátios, os rebeldes que não sabem o que é uma causa nem que a vejam pintada de cor de rosa, em forma de elefante, num corredor iluminado. Os professores que se esforçam apoucados no seu trabalho por uma tutela que só gosta de autómatos acríticos, geradores de sucesso estatístico.

Não há que recear ser claro, nem sob ameaça de processos disciplinares ou judiciais: a culpa foi e é de políticos seduzidos pelos resultados de curto prazo. Pelos efeitos mediáticos fáceis. Pelas estatísticas para consumo interno e externo. Pelas fórmulas retóricas tonitruantes mas de conteúdo nulo.

Foram muitos os ME’s neste últimos 20-25 anos. pois foram. Mas foram globalmente (sendo muito escassas as excepções e quase singulares os casos que aliaram qualidade e obra efectiva) medíocres. Nisso não deparamos hoje com novidades. A única diferença é que no actual ME os defeitos refinaram e as qualidades perderam-se quase por completo.

O Presidente da República está chocado.

Seja bem-vindo ao clube.

Pelas minhas contas é um clube vasto com centenas de milhar (ou mais) de alunos, encarregados de educação e docentes responsáveis e que a cada dia que passa se questionam sobre o que terão feito para serem obrigados a suportar isto.

Ouço Daniel Sampaio na Sic-Notícias e concordo com quase tudo. O que significa que ou entrei num universo paralelo ao que vivi durante uma década ou mais, ou um de nós mudou de opinião sobre muita coisa.

Não é sem espanto que ouço dizer que devem ser castigados, para além da aluna, toda a turma que pactuou com o sucedido e o cineasta-amador.

  • Que não é possível transigir com estas situações.
  • Que a Escola não se deve deixar enredar num «discurso psicologizante» para justificar estes actos.
  • Que o professor deve ser assertivo e coerente na sua acção, não permitindo quebras às regras. Que todos os professores devem desenvolver abordagens semelhantes nas suas aulas perante as questões disciplinares.
  • Que a «Escola dos Afectos» foi um erro, por promover uma demasiada aproximação entre alunos e docentes.
  • Que o Estatuto do Aluno é uma monstruosidade.

Tudo coisas sensatas, de uma quase alma gémea.

Daniel Sampaio pode dizer que não fez uma «inversão de marcha», como escreveu numa recente crónica. Que escreve com liberdade, de acordo com as situações que observa.

Mas, desculpem-me lá, eu lembro-me bem das suas prelecções durante grande parte dos anos 90 e fase inicial deste novo milénio.

No hard feelings…

Daniel Sampaio pode considerar-se parcialmente desculpado pelo contributo que deu às erradas políticas desenvolvidas em Portugal na área da Educação durante uma boa dúzia de anos.

Eu acredito que o reconhecimento do erro pode ser uma das vias para achar o caminho certo.

Pronto, será desta vez que compro mesmo um livro seu?

o-sabadoo-da-ministra.jpg

Do jornal As Beiras, notícia de hoje, pois não sai ao domingo, graças ao João Cardoso.

Graças ao DA, acedi a este relato de um encontro de escolas do Norte com MLR e VL que, no fundo, faz uma síntese de tudo o que tem aparecido em catadupa nos últimos meses.

O que é extremamente grave é que já há quase dois meses tenha sido veiculada a informação seguinte:

No que respeita à avaliação, os departamentos que são relevantes são os do concurso, não os das escolas (se forem mais do que aqueles).

Esta indicação é obviamente abusiva e especialmente grave partindo dos governantes responsáveis pela publicação das leis cujo desrespeito explicitamente prescrevem.

Isto é mesmo, mas mesmo muito, muitíssimo, grave.

Alguém com responsabilidade está com um mínimo de atenção a isto?

É admissível que uma Ministra recomende a aplicação de regras não legisladas, evocando para o efeito leis por si assinadas que claramente dizem algo diferente?

Vai começando a estar no Umbigo ao Quadrado, mas olhem que tem dado trabalho. Mais logo coloco o resto…

… ora bem, já lá está toda, sendo que o WordPress não aceitou a coisa em thumbnails e as imagens entraram no tamanho inicial (mesmo trabalhadas, com mais de 500 kb) e depois foi preciso reduzi-las para caberem no formato do post, mas por outro lado não ficam completamente legíveis. De qualquer modo, já lá se explica como é possível isolar as imagens para ler.

Mas por isso mesmo, deixo aqui algumas pérolas para quem gosta dos pontos altos, para além das que já são destacadas nos títulos mais visíveis:

Do ponto de vista científico, eu trabalho com os conceitos standards – saídas antecipadas, abandono precoce, etc – mas do ponto de vista da interpretação não acho que esses conceitos sejam a chave interpretadora do problema.

(suspiro de desânimo equivalente ao lançado durante a leitura de parte do estudo sobre o insucesso escolar do investigador António Martins, também ele um aparente adepto dos conceitos standards)

A verdade é que durante 32 anos, Portugal só deu uma via única de ensino ás pessoas. Ou seja, todos tinham de gostar de “comer” aquele tipo de ensino.

(duplo suspiro, meio “comido” por ter ficado embuchado por mais um conceito standard)

Quando, há cerca de dois anos, o programa Novas Oportunidades foi para o terreno e, no fundo disse que não temos de percorrer todos a mesma via, mas antes ter a capacidade para chegar aos sítios que quisermos, estes números começam a mudar.

(bocejo, enquanto apita o meu detector de lambuzice só-cretina)

Temos que meter na cabeça dos portugueses que fazer as coisas de maneira diferente não significa fazer de forma facilitista. O que se passa é uma grande hipocrisia social. Se calhar, muitos deputados que criticam o que está a ser feito, pela idade que têm e pelas reformas educativas que atravessaram, nunca fizeram um exame na vida. Se calhar, até foi por isso que passaram sempre…

(é impressão minha ou aqui MM estendeu-se ao comprido, em completa espargata retórica? E que idade terá ela? E que exames fez? Por exemplo para o cargo que exerce? E afinal sempre faz bem chumbar e fazer exames?)

O que eu não quero é que pelo sistema de faltas aumente o abandono escolar.

(memorável, absolutamente memorável, a marcação de falta é que fomenta o abandono e não o inverso… é neste momento que começo a arrancar os primeiros pelos da barba a sangue frio…)

No meu primeiro ano, fechei 900 escolas. E, apesar do respeito que tenho por eles, eu não negoceio com presidentes de juntas de freguesia. Não poderia, até porque tenho 96 municípios em mãos.

(e catrapumba, lá vai uma cachaporrada das antigas em qualquer ilusão de territorialização da educação a na área da DREN. MM lá tem tempo para negociar com quem foi a votos? E depois o ruim sou eu…)

Sabe, o Norte tem uma tradição e tem uma reforma da administração local por fazer. Temos um tecido muito disperso, ainda temos muitas localidades dentro das freguesias, e muitas destas localidades ainda tinham escolas.

(horror horribilis… freguesias com localidades e localidades com escolas!!! Fim a esses atavismos!!! Queremos freguesias sem localidades e, se possível, sem escolas!!! Aplainemos o Norte e transformemo-lo no Alentejo onde há poucas localidades e as tradições… É pá… calma que no Alentejo há muita vermelhidão ainda. Pensando bem…)

Fonte: Correio do Douro, 5 de Dezembro de 2007.

Os defeitos e equívocos da configuração já sabemos, os atrasos nas entregas também. Que crasham muito e que a net “barata” é muito fraquinha também não é novidade.

O que agora parece novo é o problema da assistência técnica quando os bichinhos deixam de ronronar ou apresentam uma pieira que não se pode.

Ao que consta e me contaram, a coisa é assim: queixas ou pedidos de ajuda para a Siemens ou Toshiba dão em nada, porque parece que os números de série/registo dos computadores (será de todos ou só de alguns?) não se encontram nas bases de dados dos fabricantes. Ligar para as operadoras que os forneceram esbarram no facto de elas alegaram que são só responsáveis pela ligação uáirelésse. Devolvê-los às escolas, para daí irem de volta para o ME, também não é opção aceitável, porque não há assistência técnica na 5 de Outubro.

O resultado acaba por ser pagar do próprio bolso a manutenção ou esperar que os números apareçam  nas bases de dados dos fabricantes.

E esperar sentado.

Excepto casos notórios de inépcia – Diamantino Durão, Maria do Carmo Seabra – ou de contornos duvidosos na sua acção – Alarcão Troni há muito tempo por causa de factores C, Ana Benavente e Valter Lemos por desenvolverem linhas políticas demasiado erradas – não acho que grande coisa se resolva com a dança das cadeiras das remodelações governamentais, em especial em governos em circuito fechado.

Muda-se algo, para que tudo fique na mesma. Não adianta. É uma perda de tempo.

Por isso, a notícia de hoje do Sol que dá Maria de Lurdes Rodrigues como “remodelável” a curto prazo não é especialmente interessante. Até a própria já anda a preparar o terreno para isso. Se ela sair, o maior mal está feito e as perspectivas de sucessãodificilmente farão adivinhar coisa melhor.

Se não, vejamos o conteúdo da notícia e tudo o que ela revela sobre quem efectivamente manda, um pouco como nos tempos de Ana Benavente inamovível na Secretaria de Estado, enquanto os ministros passavam pela 5 de Outubro, pelo menos um deles com o qual já nem mantinha quase contacto:

Dentro do Ministério da Educação, as relações entre Maria de Lurdes Rodrigues e o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, azedaram devido à polémica sobre o estatuto do aluno. Foi com o secretário de Estado que o grupo parlamentar do PS articulou as alterações ao diploma – e a ministra chegou a queixar-se publicamente de não ter sido informada em tempo útil das mudanças operadas.

Os lamentos da ministra não serão, no entanto, suficientes para anular o peso político do seu secretário de Estado. Afinal, Valter Lemos é da Covilhã, tal como Sócrates, e tem sido o ‘pivô’ na ligação do Ministério da Educação ao aparelho do PS. (Sol, 1 de Dezembro de 2007, p. 9, notícia assinada por Graça Rosendo e Helena Pereira)

Lido isto, que só publicita o que se sabe há muito, percebe-se que uma remodelação ou levará Valter Lemos a ministro (e nesse caso agarrem-se todos que ele destruirá tudo o que ainda houver de funcional no “sistema”, para o reconfigurar à sua medida, inversamente proporcional ao peso político) ou o deixará novamente como eminência-parda de um(a) novo(a) testa-de-ferro.

Maria de Lurdes Rodrigues percebeu tarde – se é que não aceitou esse papel desde o início – que era uma figura decorativa para consumo público. Só que a sua inabilidade e crispação exactamente nessa área, que nenhum retoque cosmético ou gabinete comunicacional conseguem disfarçar, e estando aprovada a legislação prevista, fazem com que a sua presença deixe de ser necessária. E assim se irá, certamente para algo mais do que o seu ISCTE paternal e acolhedor. Enquanto o “ajudante” fica, rejubilante.
Quem se lembrar da história de Luís XIII, sabe perfeitamente que era Richelieu que mandava em França.

O nexo de encadeamento lógico de quase todo este discurso proferido na abertura da conferência A Escola Face a Novos Desafios. Garanto que não é má vontade.

O ponto 2 apresenta uma descrição histórica sumária do desenvolvimento dos sistemas educativos europeus que está errada para metade da Europa Atlântica ou Ocidental incluindo nessa metade praticamente todos os países não-católicos cuja escolarização se baseou em escolas organizadas pelas comunidades locais com escassa intervenção estatal.

Se bem percebo, no ponto 3 admite-se que tudo o que o ME pretende impor aos professores pode falhar, a menos que profissionalizem a gestão das escolas. O que atendendo ao exemplo vindo da gestão dos Hospitais EPE é realmente uma solução muito aconselhável.

Quanto ao ponto 4, a redundância e circularidade do discurso é tal que me deixou positivamente entontecido. Transcrevo apenas a parte final:

Assim, a somar às competências mais tradicionais ou básicas – como a comunicação na língua materna e em línguas estrangeiras, em matemática e em ciências  – existe hoje a competência digital, obviamente, bem como um crescente número de competências mais transversais.

Refiro-me às competências sociais e cívicas, ao espírito de iniciativa, à sensibilidade e à expressão culturais.

Estas competências representam a actualização das exigências no campo da cidadania, no sentido lato da participação nas diferentes áreas da vida colectiva (a política, a económica, a ambiental, a fiscal) projectadas num espaço mais além do que as fronteiras de cada Estado-Membro.

Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr. E pensava eu que o Carlos Zorrinho alinhava o discurso vazio mais entusiástico da nossa praça técnico-política. Afinal há pior. E apresentar a sensibilidade cultural como uma nova competência é uma ideia extraordinária. E então o que dizer da introdução da competência para a participação na vida fiscal? De antologia.

A conclusão tem expressões como «mapeamento da realidade» e «fertilização cruzada» e estaria tudo dito se não ficasse a pérola maior de MLR nesta prosa e que é – em consonância com as suas declarações sobre o Estatuto do Aluno e as eventuais e naturais apetências dos jovens pelo sol – a seguinte:

Desejo também que, além de uma boa conferência, possam desfrutar do nosso sol e clima ameno, passando na nossa cidade uns dias agradáveis.

Pim. Pois.

E as fotos do jantar solene são munta porreiras, pá! 

Pam.

E ainda há quem diga que eu é que sou ruim.

Pum.

Medina Carreira hoje na Sic-Notícias, sobre o país, os seus protagonistas políticos, a Educação e tudo o mais.

Podemos não concordar com todas as suas posições, mas o estilo é para mim irresistível. A velocidade a que lhe saíram frases memoráveis foi demasiada para eu anotar uma pequena parte delas de forma rigorosa e nem sequer tinha cassete livre disponível para mais tarde recordar.

Sobre a Educação e a situação dos professores, acerca de cujo Estatuto disse não saber se era bom ou mau, mas que dele não dependia nada da qualidade da Educação:

Como é que os professores podem ser respeitados pela comunidade se não têm poder para se fazer respeitar numa sala de aula?

Podiam pôr lá professores catedráticos que a falta de respeito era o mesmo e continuavam a não aprender nada.

As famílias precisam de se convencer que a escola é um local de trabalho, não um depósito para os filhos.

Sobre o insucesso escolar:

Temos 35-40% de insucesso escolar e fala-se muito disso, mas não se fala dos 35-40% que ficam lá na Escola a não aprender nada.

Sobre a distribuição de computadores:

Detestável como propaganda política.

Lamentável um Primeiro-Ministro armado em comerciante a distribuir caixinhas.

Sobre o Primeiro-Ministro e as suas declarações após o discurso do Presidente da República (e aqui junto elementos de duas declarações semelhantes em dois momentos diferentes da entrevista):

Debitou um discurso decorado, uns números decorados em casa, não se sujeitou a perguntas e foi-se embora. Enquanto os políticos não se sujeitarem a responder às pessoas eu não acredito no que dizem.

O Primeiro-Ministro não tem capacidade para manter uma conversa séria sobre este assunto.

Sobre o regime político e a governação:

Nós vivemos num regime que é essencialmente de mentira.

Nas eleições usam-se truques para esconder tudo o que é importante.

E muito, muito mais, para minha delícia. Agora estou impaciente para ler o livro O Dever da Verdade, mesmo se para isso terei de passar pela foto e perguntas do Ricardo Costa.

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