Cegueira


As manifestações de ontem, convocadas pela Plataforma Sindical, tiveram aquilo que se pode considerar «uma escassa adesão», em especial no Porto e em Lisboa.

As razões para tal escassez poderão ser debatidas a breve prazo por aqui, se isso não significar meramente o arremesso de pedradas entre facções mais aguerridas de professores pró e anti-sindicatos que temos. Embora as coisas possam e devam ser discutidas sem preconceitos e tabus, com a necessária clareza no sentido de encontrar – de novo – pontos de união entre todos.

Como balanço das iniciativas de ontem fica um sabor amargo aos organizadores, que subitamente parecem ter perdido – sem perceber o como e o porquê – o seu exército numeroso de há uma dezena de semanas e procuram encontrar um sentido para o seu modo de vida. No rescaldo as declarações dos líderes da FNE e Fenprof dificilmente poderiam ser mais desastradas.

Vejamos João Dias da Silva:

«Os professores devem ter entendido que o protocolo de entendimento assinado com o Ministério da Educação salvaguardou questões essenciais e têm a garantia dos sindicatos de que não vão ceder», afirmou o líder da Federação Nacional da Educação (FNE), João Dias da Silva.
«Esta manifestação pretende dizer claramente que o protocolo de entendimento não significa que os professores estão resignados», salientou o líder da FNE, frisando que os docentes pretendem negociar com o governo «matérias relevantes» que não foram contempladas no protocolo.
(…)
«O Ministério da Educação deu um sinal positivo com a assinatura do protocolo de entendimento, agora é preciso que essa nesga de disponibilidade para o diálogo seja concretizada», afirmou João Dias da Silva.

Fico sem perceber se JDS atribui a escassa mobilização ao facto dos professores terem «entendido o (…) entendimento» e portanto terem debandado das fileiras, se entende que a manifestação foi uma espécie de validação da política sindical e nesse caso terá sido uma fraquíssima validação. Seja como for, o que ressalta das declarações deste sindicalista é que, ao que parece e por ele, tudo está bem, desde que o ME aceite os sindicatos à mesa. Segundo ele, os sindicatos não cederão, mas não percebemos exactamente no quê, assim como fica por perceber que «matérias relevantes» irão ser negociadas, para além dos pacotes legislativos contestados pela larga maioria dos docentes.

Quanto a Mário Nogueira, as declarações não são muito mais animadoras:

«Este é o encerrar do ciclo das lutas que decorrem da marcha da indignação de 8 de Março e que fundamentalmente tem a ver com os grandes problemas que afectam a educação em Portugal, a começar pelo sub-financiamento, regime de avaliação de desempenho, estatuto da carreira docente e o novo modelo de gestão das escolas», disse à agência noticiosa Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof.

Estamos, portanto, perante o «encerrar do ciclo de lutas que decorrem da marcha da indignação»!

Lê-se e não se acredita! Encerra-se o ciclo de lutas decorrentes da marcha da indignação? Mas estamos a ver a vida ao contrário? Não terá sido a Marcha de 8 de Março o culminar de um ciclo de luta iniciado anteriormente? E não deveria estar agora em decurso a preparação de um novo ciclo e não o seu encerramento.

Já sei qual será a desculpa, citação fora de contexto, transcrição errada das declarações, não foi bem isso que queria dizer… etc, etc. Mas o problema é que me parece que não é nada disso. Parece-me mesmo que, por este andar, a Plataforma Sindical está prestes para, com umas reuniões pelo meio na 5 de Outubro ou no CNE, ir de férias em descanso, pois o «ciclo de lutas» está encerrado por agora, desculpem lá, voltem em outra altura que se nos esgotaram as energias e as ideias, ou vice-versa.

Pelo que se percebe, a desmobilização até se justifica, se estamos no varrer dos cestos.

E justifica-se uma nova mobilização, a partir «de fora», o mais tardar no início do próximo ano lectivo, se o discurso oficial dos sindicatos continuar a ser este.

Eu sei qu a conjuntura não é fácil, o desnorte é razoável e ninguém sabe muito bem o que fazer a partir daqui. Mas, desculpem lá, que vai para essas andanças não se pode queixar que elas são difíceis. Isso é voluntário e não pode ser só feito na base das marchinhas e recomeço da colagem de papéis nos placards sindicais, desaparecendo das escolas.

Porque se assim for, então é que isto tudo foi inútil e vocês não aprenderam nada com o que passou nestes últimos meses.

E não me venham dizer que, se não estive lá, não posso criticar quem esteve. Porque não é isso que eu estou a fazer. O que estou a tentar é que percebam que, com declarações destas, só mesmo os indefectíveis das estruturas sindicais voltam a aparecer, mais um lote de boa gente sempre voluntária nestes casos. Os outros, voltam a desacreditar .

Primaries are ‘bedevilled by policy hysteria’

Focus on “mission strategies” and “leadership vision” has led to primary schools being run like US businesses, falling victim to one fad after another.
An interim report from the ongoing national review of primary education said schools had been bedevilled by policy hysteria.
As a result, they follow a pattern in which innovations are piloted, briefly become very popular, then decline rapidly before the next new innovation appears.
The report, by academics from Manchester Metropolitan University, said: “There have been too many initiatives, too many short-term responses to media scares, involving ever shortening cycles of reform, multiple innovations and frequent policy shifts.”
The management, marketing and financial responsibilities of the job have also increased. The report said: “Policy trends have emphasised the role of the headteacher in ‘turning round’ schools and ‘delivering excellence’ via highly proactive ‘visions’ and leadership ‘mission strategies’.”
As a result, primary heads were finding it much harder to follow their preferred approach of hands-on leadership, leading by example: “Innovation is too often a matter of ill-considered policy-borrowing.”

Garanto que não fui eu nem qualquer conspiração que inventou estes estudos e estas conclusões que se adaptam de forma tão evidente ao que estamos agora a experimentar. Muito do que se pretende implementar está errado, já se percebeu isso em outros lugares, sublinho-o, mas o nosso ME parece ter dificuldade em compreender os erros cometidos nos anos 90 em outras paragens e insiste neles. Se há 10 anos isso seria desculpável, hoje já não é.

Leiam as conclusões sobre os efeitos devastadores provocados pela mania das «lideranças fortes» e sobre as consequências perversas a catadupa de medidas legislativas e chorem, porque está aqui tudo escrito o que nos vai acontecer.

Não entende quem não quer, quem tem o bestunto curto ou quem não é capaz de admitir os erros de apreciação.

“Não houve uma única escola a pedir suspensão da avaliação”

A ministra da Educação afirmou ontem que “não há uma única escola que tenha pedido a suspensão da avaliação” e que esta “decorre com tranquilidade” em todos os estabelecimentos. Para Maria de Lurdes Rodrigues o que há são “manifestações de preocupação” e “desejos de não concretização da avaliação” – que, do seu ponto de vista, não equivalem a um pedido de suspensão – vindos de professores (individualmente ou em grupo) e de conselhos pedagógicos, que não retratam a posição das escolas.

Fica, no entanto, por explicar, porque motivo o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, reuniu há poucos dias com representantes de 20 agrupamentos de escolas do distrito de Coimbra, depois de ter sido noticiado que estes tinham pedido a suspensão da avaliação, e de um deles – o presidente do conselho executivo da EB 2,3 Drª Mª Alice Gouveia, João Carlos Gaspar-, ter mesmo dito ao DN que considerava o processo avaliativo: “um monstro que não sabe andar”.

Recorde-se que, nas cerca de duas dezenas de missivas já enviadas ao Ministério por grupos de docentes de escolas de todo o País, inclui-se uma carta, de Fevereiro, subscrita pela presidente do seu conselho executivo do agrupamento de Escolas de Lousada Oeste, onde era pedido o “adiamento” da avaliação para momento posterior à aprovação de todas as regras e normas previstas no decreto 2/2008, sendo ainda solicitado um prazo adicional para as escolas integrarem as regras.

Mesmo considerando esta missiva não tenha configurado um pedido de adiamento, torna-se mais difícil antever que a avaliação esteja a decorer com “tranquilidade” no agrupamento de escolas de Montemor-o -Velho, cujos professores deciriram recentemente, quase por unanimidade, suspender unilateralmente o processo por considerarem não existirem condições para o aplicar.

 

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Com o devido agradecimento à Maria José de la Fuente.

Do episódio ocorrido no Carolina Michaelis, Luís Portela, médico e administrador, extrai a consequência da necessidade de avaliação dos professores. Eis a peça final na argumentação (lógica?) daqueles que, cegos pela luz salvadora de um farol do qual não conseguem libertar-se, se estilhaçam nas rochas do ridículo:

E a professora que não se sabe impor dentro da sala de aula e que apenas participa um episódio desta gravidade oito dias depois, quando ele já é do conhecimento público, não deverá ser reavaliada e submetida a acção de formação apropriada? Resta o Conselho Executivo da escola que permite (ou não) este estado de coisas no ambiente escolar. Vamos ver como ele resolve esta situação e como cria condições para que ela não se possa mais repetir.

Talvez por tudo isto se compreenda a necessidade da reforma na Educação em Portugal.
A necessidade de os professores serem formados e avaliados no seu trabalho, de forma a conseguir-se uma maior competência técnica e disciplinar de quem tem que cumprir a função de educar e, ao mesmo tempo, suprir as deficiências dos encarregados de educação.

É natural que uma classe que tem vivido sem grande controlo da sua actividade, num clima de algum facilitismo, reaja emocionalmente à tentativa de aumento da responsabilização e melhoria, pelo método de avaliação, que o Ministério da Educação tem tentado implementar. Independentemente de alguns erros metodológicos que possam ter sido cometidos pelo Ministério, parece muito importante e urgente implementar a reforma e conseguir melhorar o ambiente e a disciplina escolares, de modo a que os nossos jovens possam aprender a serem homens e mulheres correctos e responsáveis e profissionais competentes e dedicados.

Para não dar razão ao senhor doutor, não vou reagir emocionalmente, nem escrever tudo aquilo que penso deste tipo de operação em que 2+2=7,54.

Sou um homem generoso, pelo menos é o que diz a minha mãe

Embora se perceba bem que nem o próprio estará muito convencido de tal qualidade…

vita.jpgOuvir Vitalino Canas a debitar pela enésima vez a mensagem «Antes de nós, o caos!» na RTPN.

Por favor, não cometi assim tantos pecados nesta vida para merecer tamanho castigo!

Imagem recolhida aqui.

Ministra: 100 mil docentes na rua «não é relevante»

E 100.000 votos nas urnas, será relevante? Mais ou menos? Um bocadito? Quiçá uns pontinhos percentuais a menos de votos?

Oxalá, digo eu! Mas a senhora Ministra é que sabe avaliar da relevância destes fenómenos sociais. Afinal Sociologia (e da Aprofundada) é consigo e com o Secretário de Estado Pedreira. Quanto ao SE Valter Lemos, desde que seja ele a mexer todos os cordelinhos nos bastidores, não se importa com o resto.

E como se vê, MLR contribui decisivamente para o apaziguamento dos ânimos e para combater o «clima de crispação»

As disciplinas ensinadas na escola são valiosas de uma forma única, tanto para os indivíduos como para a sociedade. Uma sociedade que não ensina Ciência ao público em geral alimenta a proliferação de queixas irracionais e sistemas de crenças anti-científicas. Uma sociedade que vira as costas ao ensino da História encoraja a amnésia das massas, deixando o o público na ignorância de acontecimentos importantes e ideias do passado humano, erodindo a inteligência cívica necessária para o futuro. Uma sociedade democrática que falha o ensino às gerações jovens dos seus princípios de auto-governo coloca esses princípios em risco. Uma sociedade que não ensina os jovens a apreciar os grandes trabalhos da literatura e arte permite um, enrudecimento e degradação da sua cultura popular. Uma sociedade que é racialmente e etnicamente diversa requere, mais do que outras sociedades, um esforço consciente para construir valores e ideais partilhados entre os seus cidadãos. Uma sociedade que tolera o anti-intelectualismo nas suas escolas pode esperar por ter uma cultura básica que honra a celebridade e a sensação mais do que o conhecimento e a sabedoria. (Diane Ravitch, Left Back – A Century of Failed School Reforms, New York: Simon & Schuster, 2000, p. 466)

Em tudo aquilo que contrarie os Regulamentos Internos das Escolas encontra-se, por exemplo, no site da DRELVT. É o ofício-circular que chegou ontem a muitas Escolas e hoje julgo que a todas.

Por estranho que pareça há quem ainda insista em não perceber uma coisa tão simples como esta. Não falo das próprias Escolas, mas sim de quem anda pela blogosfera e na «sociedade civil», possivelmente à cata das migalhas de algum subsídio.

Por mera coincidência incluo aqui um estranhíssimo comunicado colocado a circular pela Confap sobre o assunto (08-0130_com_map_estatutoaluno.pdf), no qual se desmente aquilo que se procura desmentir, um pouco na esteira daquele famoso texto de Umberto Eco.

Pelo que percebo não é a Lei 3/2008 que está suspenso, é apenas a Lei 30/2002 que continua em vigor em tudo o que contrarie os Regulamentos Internos das Escolas.

Como se vê é muito diferente. Não é uma lei que está suspensa, é apenas outra que continua em vigor.

E se notarem bem, no preâmbulo detecta-se uma certa e determinada irritação quanto a certos «profissionais da destabilização». Se fossem «subsidiodependentes da situação» estaria tudo bem.

Em entrevista à Lusa, a ministra desvalorizou as providências cautelares interpostas pelos sindicatos contra o processo de avaliação, considerando que as mesmas não põem em causa a sua concretização, por se referirem apenas a um despacho da tutela «que nem sequer tinha carácter vinculativo forte». «É uma questão técnica. O processo não será adiado», garantiu. (Portugal Diário)

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Entrámos de forma decisiva numa 5ª dimensão jurídico-política na área da Educação.

A partir de agora temos uma nova figura jurídica que é o despacho com «carácter vinculativo forte», supondo eu que existirão ainda despachos com carácter vinculativo fraco, intermédio, muito fraquinho e super-cola 3, o despacho com carácter vinculativo mesmo a sério.

Se assim é com o carácter «vinculativo» dos diplomas que o próprio ME produz e desvaloriza passados uns dias, o que deveremos achar de tudo o resto?

Pelo menos percebe-se que os pareceres dos órgãos «consultivos» devem ir imediatamente para a trituradora de papel quando não interessam.

Será que o despacho da repetição dos exames do 12º ano também era tinha um «carácter vinculativo fraco» e que deveria ter sido ignorado?

Assim como a forma irregular de implementação das aulas de substituição que os tribunais foram pacientemente desautorizando?

Esta pergunta dirige-se, em especial, aos defensores de «um novo paradigma para a Educação», visto que serem eles que aparecem hoje a defender a postura absolutamente irresponsável do ME em variadíssimas matérias, pelo que suponho que concordam com esta nova forma de legislar.

Quanto à Presidência da República resta a esperança que esteja a «acompanhar» mais esta nova forma do ME encarar o Estado de Direito.

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Um dos articulistas que mais apoio deu a Maria de Lurdes Rodrigues e que, Sousa Tavares à parte, sempre se dirigiu aos docentes de forma pouco respeitosa como uma massa de «zecos», por onde despontariam alguns faróis luminosos que ele lá conheceria (é o que consta nos mentideros bloguísticos), foi Fernando Madrinha nas páginas do Expresso (daí que tenha passado a designá-lo como padrinho… da Ministra).

Tudo o que escreveu em 2005 e 2006 sobre a matéria poderia fazer parte de uma antologia da análise preconceituosa e enviesada obre as matérias da Educação. Para Madrinha, A Ministra sempre foi uma firme defensora do rigor, do mérito e da transparência quanto aos docentes e as suas políticas, como ainda refere agora visavam «distinguir o trigo do joio no universo do pessoal docente». Suponho que em tempos de carestia do trigo como os actuais, para se expressar de forma tão decidida, Madrinha tenha os seus armazéns plenos de bom trigo e se enjoe perante a visão do joio alheio.

Mas adiante, que depois acusam-me de ser demasiado crítico. O que até é verdade quando me lembro de passagens (nem estou para ir à procura do link do post em causa) como aquela em que o dito articulista elaborou sobre quem, ao fazer mestrados e doutoramentos e beneficiando de uma sabática, não traria nada de novo à sua prática pedagógica e «sobrecarregaria» (foi a expressão usada) quem permanecia nas escolas no seu rame-rame (esta parte acrescento eu).

Mas se em 2005 e 2006 Madrinha estava com a Ministra de corpo e alma, em 2007 começou a entrever algumas frinchas no pretenso rigor ministerial. Claro que foi relativamente ao Estatuto do Aluno, que quanto aos professores a defesa da albarda e da arreata curta continuou.

Abre-se o ano de 2008 e Madrinha quase que faz uma pirueta à la Pedreira e surge a criticar a Ministra, ou melhor, o Ministério e um Secretário de Estado, no que se refere ao método de avaliação dos professores.

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Claro que não critica as quotas para as classificações, nem nada disso. Vá lá que critica o peso, o burocratismo do processo, assim como a dependência da avaliação dos docentes dos resultados dos seus alunos e os desmandos legislativos e os agora sacramentais prazos curtos.

Mas principalmente Madrinha critica – se lermos bem as entrelinhas e fizermos um pouco de hermenêutica especulativa q.b. – o facto da avaliação dos docentes no antigo 10º escalão ser igual à dos outros com a agravante de já não poderem progredir, ao facto dos avaliadores terem pouco tempo para assistirem às aulas previstas e a falta de liberdade na avaliação dos alunos.

Chamem-me desconfiado, mas aqui quase parece haver gata(o) com o rabo reluzente de fora.

Tudo o que Madrinha agora escreve sobre a irracionalidade da política ministerial, já o poderia ter escrito há muito, tão visíveis as coisas eram. Madrinha optou por não vê-las então porquê? Se parece tão bem informado sobre os meandros de todo o processo (não se lhe conhecendo dotes anteriores neta matéria)?

Será que a posição actual de Madrinha sobre esta questão, a parcial inversão da sua análise, resultará de qualquer contacto imediato com as consequências do processo?

Eu não quero acreditar que isto resulte – sei lá – de uma maior sensibilidade a opiniões de alguns adesivos meio desavindos com o ME, que só agora tenham percebido a carga de trabalhos que lhes caiu em cima a meio de um ano lectivo, não se resumindo isto a exercer um poder de avaliação discricionário sobre os colegas.

Eu não quero acreditar que Madrinha defenda, afinal, apenas tempo para que os avaliadores munidos das suas grelhitas de registo nas mãos, possam retemperar forças no Verão e atacar pela madrugada do ano lectivo de 2008-09.

Eu não quero acreditar que Madrinha envolveu em imensos argumentos, tão válidos hoje como há meses para qualquer observador mediano, um qualquer interesse próximo na matéria.

Eu quero acreditar que Madrinha apenas começou a ver a luz. Pouca, mas mais do que nenhuma. Ou então apenas decidiu abrir os olhos.

Porque acreditar em qualquer outra coisa seria desacreditar nas virtudes, qualidades e sinceridades da alma humana e considerar que estas opiniões seriam condicionadas por interesses particulares e não por uma visão global e desinteressada sobre a Educação.

Dificilmente estaremos esquecidos das críticas ferozes do Governo quanto ao incumprimento de muitas autarquias em relação ao seu péssimo desempenho financeiro e ao seu galopante endividamento bancário para pagar, no curto prazo, as imensas dívidas acumuladas.

No entanto lê-se hoje no Público (sem link permanente) que:

Governo abre caminho à gestão de pessoal docente pelas câmaras municipais

(…)
A proposta de diploma do Governo relativa à transferência de competências para os municípios em matéria de Educação abre a possibilidade de as autarquias virem a assumir a gestão de pessoal docente do ensino básico e da educação pré-escolar. Um cenário colocado sob a designação de “projectos-piloto” e que ficará dependente da celebração de contratos específicos entre o Ministério da Educação e os municípios.
No diploma, ainda em fase de negociação com a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), não está especificado o que se entende por “gestão” do pessoal docente. E o Ministério da Educação, ontem contactado pelo PÚBLICO, também não esclareceu, em tempo útil, que tipo de competências poderão vir a ser transferidas para as câmaras municipais que aceitem participar nos tais projectos-piloto.

Sabendo nós o estado em que se encontram algumas das maiores autarquias do país, este tipo de medida só tem justificação no desejo do ME fazer uma cosmética no seu Orçamento e transferir os encargos com pessoal para o Ministério das Finanças, ao mesmo tempo que se desresponsabiliza quase por completo pela gestão do sistema público de ensino.

A um acordo deste tipo também não são estranhos os fumos de um potencial acordo – do género totonegógio guterrista – entre autarquias e Poder Central para colocar o contador das dívidas do Poder Local a zeros ou quase.

E também é difícil resistirmos à sensação que todas as fátimas e valentins deste país se vão escapar sem qualquer tipo de punição formal (as gravações incriminatórias desaparecem, os prazos prescrevem, as testemunhas falecem de tédio, os procuradores deixam de procurar, as provas parece que afinal não o são), enquanto os bexigas são espancados e os seus casos arquivados.

Perante tudo isto quem se preocupa com um projecto coerente para a Educação Nacional (ou Pública) fica de cabelos em pé, mas sem alternativas para que se virar, pois da Esquerda à Direita não há quem, de forma articulada, apresente um projecto alternativo.

O Bloco não sabe bem o que quer nesta matéria, o CDS só quer «liberdade de escolha», o PCP só agora parece reagir sob pressão dos sindicatos e o PSD presta-se a espectáculos deprimentes como aquele a que assisti há coisa de um hora num telejornal qualquer: Luís Filipe Menezes, autarca de uma das Câmaras mais endividadas do país, apresenta como solução para a crise do Sistema Nacional de Saúde a municipalização dos cuidados primários de saúde.

Um tipo ouve, não quer acreditar, mas é obrigado a admitir que tudo isto caminha para um completo surrealismo que desafia a nossa compreensão e encoraja de forma quase irresistível o consumo de substâncias o mais psicotrópicas possível, para não nos sentirmos fora da trip colectiva que parecemos estar a atravessar.

Subitamente entrámos num mundo alternativo, em que tudo mudou de lugar e em que os vilões de há uns meses, aqueles que ameaçavam a estabilidade financeira do Estado e se provava serem relapsos incumpridores das suas obrigações, se tornaram subitamente virtuosos gestores da coisa pública a quem se pode entregar a tutela sobre sectores estratégicos e estruturantes da vida nacional.

Entretanto, já não sei se nos consola saber que a Presidência da República «acompanha» as questões da Educação.

Com jeitinho, se acompanhar muito de perto, cai no abismo juntamente com todos nós.

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Adenda final: E ainda acham que a evocação da reforma do Rodrigues Sampaio não foi apropriada?

Como um grande companheiro e amigo recentemente referiu numa reunião (de duas altas instituições de pais e professores), os professores obtém a sua dignidade, principal e especialmente, dentro da sala de aula. Quando fora dela (felizmente apenas alguns, infelizmente, por norma, em lugares de destaque) afirmam-se com as incompetências que costumam apregoar quando lhes é sugerido (ou pedido ou indicado ou obrigado) que vão além da sua formação específica: a falta dessa formação (como o fazem – quando dá jeito, aliás – na incapacidade de organização de processos disciplinares, de aulas de substituição ou qualquer outra matéria que fuja à sua rotina…)!
(Fernando Lourenço Gomes, no site da Confap)

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Para além de incompreensível, este parágrafo evoca-me alguns comentários deixados aqui no Umbigo por “vários” críticos, pela desconexão do raciocínio, profusão de vírgulas, sintaxe revolt(e)ante e bílis epidérmica.

Mas são apenas coincidências, porque alguém com tantos cargos, não anda por estas bandas.

E como de costume, nada como uma crítica destas para demonstrar de que lado está o estilo trauliteiro.

Gestão escolar vai mesmo mudar

O novo modelo de gestão escolar proposto pelo Governo “não será desvirtuado”, assegurou o secretário de Estado da Educação, Jorge Pedreira, que assim reagia a um parecer do Conselho das Escolas que sugere 20 alterações à proposta.

“Que não restem dúvidas de que as escolas vão mudar. Vai mudar a abertura da escola à comunidade e a participação dos pais, das autarquias e das estruturas locais”, referiu Jorge Pedreira.

A cegueira e isolamento a que este ME se está a votar é algo absolutamente inexplicável. Tem umas ideias sobre uns assuntos, mal lidas em experiências externas e, apesar de todas as resistências, mesmo por parte dos organismos criados para uma validação tácita das suas medidas, quer avançar de forma orgulhosa para o abismo.

A seu lado, apenas os consultores albinos subsidiados pelo ME e os autarcas ansiosos por deitarem a mão a mais um manancial de postos de trabalho para distribuir pelas suas clientelas.

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