Cansado


… é que podemos acordar tarde e não recear que tenha saído em DR a nomeação de mais um franguinho de aviário para acompanhar os trabalhos da troika cá no torrão.

… que agora parece especialmente destinada a saraivar os professores a todo o custo. O pretexto é mais um relatório de coiso, feito pelos seilásessão alguma coisa de jeito, pois têm falhado tudo o que é previsão.

A ancoragem interna nos borginhos e lobbys conexos que se passeiam e saracoteiam com escasso pudor e evidente lascívia pelos corredores dos ministérios é muito, muito forte.

Os factos passaram a ser empecilhos, perante a sedução da narrativa. Falseada.

A sério, não é com os métodos e rotinas do costume que isto se trava.

E tudo é servido de forma ainda mais insidiosa do que antes, porque o actual ministro sorri enquanto Roma arde.

amanhã.

Sete Canções de Declínio

1
Um vago tom de opala debelou
Prolixos funerais de luto de Astro
E pelo espaço, a Oiro se enfolou
O estandarte real livre, sem mastro.

Fantástica bandeira sem suporte,
Incerta, nevoenta, recamada
A desdobrar-se como a minha Sorte
Predita por ciganos numa estrada …

2
Atapetemos a vida
Contra nós e contra o mundo.
— Desçamos panos de fundo
A cada hora vivida!

Desfiles, danças embora
Mal sejam uma ilusão…
Cenário de mutação
Pela minha vida fora!

Quero ser Eu plenamente:
Eu, o possesso do Pasmo.
Todo o meu entusiasmo,
Ah! que seja o meu Oriente!

O grande doido, o varrido,
O perdulário do Instante
O amante sem amante,
Ora amado, ora traído …

Lançar os barcos ao Mar
De névoa, em rumo de incerto…
Pra mim o longe é mais perto
Do que o presente lugar.

…E as minhas unhas polidas
Idéia de olhos pintados…
Meus sentidos maquilados
A tintas conhecidas …

Mistério duma incerteza
Que nunca se há de fixar…
Sonhador em frente ao mar
Duma olvidada riqueza …

Num programa de teatro
Suceda-se a minha vida
Escada de Oiro descida
Aos pinotes, quatro a quatro! …

3
Embora num funeral
Desfraldemos as bandeiras
Só as cores são verdadeiras
Siga sempre o festival!

Quermesse — eia! — e ruído!
Louça quebrada! Tropel!
(Defronte do carrossel,
Eu, em ternura esquecido… )

Fitas de cor, vozearia —
Os automóveis repletos:
Seus chauffeurs — os meus afetos
Com librés de fantasia!

Ser bom… Gostaria tanto
De o ser… Mas como? Afinal
Só se me fizesse mal
Eu fruiria esse encanto.

— Afetos?… Divagações…
Amigo dos meus amigos…
Amizades são castigos,
Não me embaraço em prisões!

Fiz deles os meus criados,
Com muita pena decerto.
Mas quero o Salão aberto,
E os meus braços repousados.

4
As grandes Horas! — vive-las
A preço mesmo dum crime!
Só a beleza redime —
Sacrifícios são novelas.

“Ganhar o pão do seu dia
Com o suor do seu rosto…”
— Mas não há maior desgosto
Nem há maior vilania!

E quem for Grande não venha
Dizer-me que passa fome.
Nada há que se não dome
Quando a Estrela for tamanha!

Nem receios nem temores,
Mesmo que sofra por nós
Quem nos faz bem. Esses dós
Impeçam os inferiores.

Os Grandes, partam — dominem
Sua sorte em suas mãos:
— Toldados, inúteis, vãos,
Que o seu Destino imaginem!

Nada nos pode deter;
O nosso caminho é de Astro!
Luto — embora! — o nosso rastro,
Se pra nós Oiro há de ser! …

5
Vaga lenda facetada
A imprevisto e miragens —
Um grande livro de imagens,
Uma toalha bordada …

Um baile russo a mil cores.
Um Domingo de Paris —
Cofre de Imperatriz
Roubado por malfeitores.

Antiga quinta deserta
Em que os donos faleceram —
Porta de cristal aberta
Sobre sonhos que esqueceram …

Um lago à luz do luar
Com um barquinho de corda…
Saudade que não recorda —
Bola de tênis no ar…

Um leque que se rasgou —
Anel perdido no parque —
Lenço que acenou no embarque
De Aquela que não voltou …

Praia de banhos do sul
Com meninos a brincar
Descalços à beira-mar,
Em tardes de céu azul…

Viagem circulatória
Num expresso de vagões-leitos —
Balão aceso — defeitos
De instalação provisória …

Palace cosmopolita
De rastaquoères e cocottes —
Audaciosos decotes
Duma francesa bonita …

Confusão de music-hall,
Aplausos e brou-u-ha —
Interminável sofá
Dum estofo profundo e mole. . .

Pinturas a “ripolin”,
Anúncios pelos telhados —
O barulho dos teclados
Das Lynotype do Matin…

Manchete de sensação
Transmitida a todo o mundo —
Famoso artigo de fundo
Que acende uma revolução …

Um sobrescrito lacrado
Que transviou no correio,
E nos chega sujo — cheio
De carimbos, lado a lado. . .

Nobre ponte citadina
De intranqüila capital —
A umidade outonal
De uma manhã de neblina …

Uma bebida gelada —
Presentes todos os dias. . .
Champanha em taças esguias
Ou água ao sol entornada …

Uma gaveta secreta
Com segredos de adultérios…
Porta falsa de mistérios —
Toda uma estante repleta:

Seja enfim a minha vida
Tarada de ócios e Lua:
Vida de Café e rua,
Dolorosa, suspendida —

Ah! mas de enlevo tão grande
Que outra nem sonho ou prevejo…
— A eterna mágoa dum beijo,
Essa mesma, ela me expande …

6
Um frenesi hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida.
Fui um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida …

Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil,
Na idéia de um país de gaze e Abril,
Em duvidosa e tremulante imagem …

Parou ali a barca — e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento,
Não mais aparelhou… — ou fosse o vento
Propício que faltasse: ágil e santo …

…Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguescida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor-de-rosa,
As torres de platina e de saudade.

Avenidas de seda deslizando,
Praças de honra libertas sobre o mar
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos — carícias de âmbar flutuando …

Os palácios de renda e escumalha.
De filigrana e cinza as catedrais —
Sobre a cidade a luz — esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais …

Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho — solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada…

Exílio branco — a sua atmosfera,
Murmúrio de aplausos — seu brou-u-ha…
E na praça mais larga, em frágil cera,
Eu — a estátua “que nunca tombará”…

7
Meu alvoroço de oiro e lua
Tinha por fim que transbordar…
— Caiu-me a Alma ao meio da rua,
E não a Posso ir apanhar!

 

[Mário de Sá-Carneiro]

nem o demitem, nem a gente almoça

E este país é governado, há muito tempo, por gente a quem eu não compraria um carro novo, quanto mais um usado.

agora que já só temos para falar das sombras interditas
quando desenhamos com cuidado as horas igualmente repartidas
dizemos ainda ser a flor certa um sorriso desconhecido
muitas vezes sonhada e sempre verdadeira

 

ninguém subirá ao púlpito para gritar que estamos perdidos
e estaremos perdidos por nisso acreditarmos vagamente

 

esta flor mágica sempre visível na seiva petrificada
corrompe a nossa fé e recupera fragmentos intocáveis
repete texturas esquecidas quando se regenera
recorda-nos ser inacessível a verticalidade da superfície polida

 

eu aviso-vos para que não queiram crer sem acreditar

dizia o púlpito sempre a descer por escadas cristalinas

 

a limitação do olhar ou recordações que se bebem sem respirar
estaremos no fluxo da alma desmedida e sempre aí retidos
olharemos relógios fixos e as suas imagens tácteis
suspiraremos pelas margens sombrias onde já nos refugiamos

No mais, Musa, no mais, que a lira tenho
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
não no dá a pátria, não, que está metida
no gosto da cobiça e na rudeza
duma austera, apagada e vil tristeza.

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