Assim Vou Mesmo Parar Ao Inferno


quanto é artificial no verso — a rima, o metro, a estrofe — é principalmente nocivo secundariamente. Não é tanto o mal que faz a rima, o metro, ou a estrofe em serem em si mesmas artificiais. O mal é que desviem a atenção da emoção ou do pensamento, criam novos pensamentos, e assim interrompem o que originalmente se pensaria.

[Álvaro Pessoa]

 

Calma, meu morto, ainda distingo o artificial do sintético.

Percebe-se, pela linguagem corporal, que considera que a salsicha é grande.

Mas… por todos os santinhos do altar… quão parvo se pode ser?

Há coisas que se lêem e ouvem, mas que é quase impossível acreditar:

Os ex-ministros da Educação Maria de Lurdes Rodrigues e David Justino defenderam ontem que critérios de seleção de professores como “nota” e “anos de carreira” são o «grau zero da inteligência», estão «desregulados» e levam à «batota».

Então expliquem-me umas coisas:

  • Anos de carreira permitem “batota” e subcritérios da treta, feitos à medida, não permitem?
  • A “nota” é um factor de desregulação? Então, na última década, o que fizeram ambos para “moralizar” a forma de funcionamento dos cursos de acesso à docência e respectiva avaliação? Vão refugiar-se na “autonomia” virtual do Ensino Superior?

A posição de DJ já a conheço e prefiro comentá-la quando tivermos hipótese de o fazer pessoal e publicamente. Já várias vezes concordámos em discordar sobre diversas matérias, sendo esta uma delas. Em meu entender, DJ tem uma posição teórica válida sobre isto mas que choca de frente com muitos aspectos da realidade.

Quanto à ex-ministra prevaricadora, seria tempo de ela pensar no que diz, exorcizar os seus demónios de juventude e reduzir no disparate:

«Quando se institui como critérios de base para recrutar a nota de curso e tempo de carreira, isto é o grau zero da inteligência no recrutamento», referiu Maria de Lurdes Rodrigues.

Para a ex-ministra de Sócrates, «ter mais anos de profissão faz toda a diferença» e «deve ser considerado mas de forma significativa», ou seja «os anos passados a dar aulas e não tempo de calendário». Como exemplo, apontou o de «um conhecido sindicalista» que «chegou ao décimo escalão da profissão com três anos de docência apenas».

A diatribe final contra o tal “conhecido sindicalista” já é coisa patológica. Se queria resolver esse tipo de situações, teve mais de 4 anos, mas a verdade é que acabaram os dois a fazer entendimentos convenientes para ambas as partes, mesmo se danosos para quem passou efectivamente anos a dar aulas.

Quanto ao resto, MLR poderia explicar-nos o que fez durante o seu mandato para valorizar efectivamente quem estava nas escolas e, de caminho, explicar porque usou como CRITÉRIO ÚNICO (só podiam concorrer docentes do índice 245 para cima) de elevação à categoria de titulares, com acesso por quotas, exactissimamente o tal “tempo de carreira” que agora considera o “grau zero da inteligência”?

Haverá, um dia, decoro?

Um pinguito de vergonha?

Um mea culpa? Pela metade ou por inteiro?

 

 

Só é triste que use o argumento deplorável que usa para se justificar e nem estou a falar da sanha anti-aposentados, já de si lamentável.

Falo da demagogia do pior gosto ao usar o argumento da filha para se colocar a jeito de uma nomeação para… deputado? secretário de Estado adjunto?

(poderíamos sempre afirmar que a causa é puramente egoísta e feita com um explícito propósito anti-solidário, mas penso que isso é assumido pelo escriba)

Até que ponto se pode descer neste jogo de disponibilidades?

Isto é pior do que injecções de botox, colagénio e silicone para se tornar aprazível…

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(…)

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Expresso, 23 de Maio de 2014

 

… e não é pela primeira vez quando constato que:

  • Se fizer críticas gerais a procedimentos e comportamentos considerados menos apropriados, um tipo é acusado de não ter coragem para dar os nomes aos bois (e distintas fêmeas, I presume…) e de se ficar por denúncias inconsequentes.
  • Se fizer críticas direccionadas, apontando factos concretos e atitudes individuais, um tipo é acusado de ser um raivoso crítico ad hominem (ou uma qualquer variante da expressão).

No que ficamos?

No silêncio?

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Nem sabem o esforço que eu tive de fazer para me portar bem com o título deste post. Confesso que ainda estou arrependido por não ter querido fazer uma alusão literário-bedéfila e designar o post apenas como Tintin au Congo.