Aprender É Tão Fofinho!


 

o Erasmus.

 

 

Estou este ano, por contingências diversas mas com imenso prazer, a leccionar pela primeira vez em mais de uma década, o 7º ano de escolaridade de História. Três turmas, duas regulares e uma de PCA. Até 1992 leccionei 3º ciclo mas depois disso só de forma muito ocasional.

Tenho, portanto, uma noção do que foi evoluindo entre o que se fazia mesmo no arranque do programa ainda em vigor (tendo chegado a fazer em coautoria um manual de 7º ano que julgo agora plenamente enquadrado, pois à época foi considerado demasiado complexo), como a coisa foi sendo simplificada e amputada à medida que os tempos lectivos foram minguando e como está neste momento.

Também é importante o facto de, há poucos meses, ter participado na planificação para as aulas do 3º ciclo na minha escola e saber quantas semanas tem o ano lectivo e quantos tempos lectivos cada semana.

Por isso, vamos lá considerar que são 38 semanas com 3 tempos de 45 minutos (ou um de 90 e outro de 45). Isto dá um máximo de 114 tempos lectivos.

Descontemos um punhado de feriados. Vá lá… apenas 4. Ficam 110 tempos. Descontemos 12 tempos para realização de testes (dois por período, coisa pacífica) e 3 tempos para discussão da avaliação no final de cada período. Já temos apenas 95 tempos disponíveis. Imaginemos que não se fazem quaisquer outras actividades que não sejam as ditadas pelas metas, nem saídas para visitas de estudo, nem quaisquer interrupções decorrentes de outras actividades extra-curriculares na escola (visitas de outras disciplinas, desporto escolar, etc). Imaginemos ainda que nem se falta uma única vez porque todos temos saúde de ferro, nenhum parente a precisar de apoio ou algo vagamente… humano.

Temos 95 tempos de 45 minutos.

Quantas metas define o programa para o 7º ano?

Apenas 185, distribuídas por 4 domínios.

Com o detalhe delicioso dos 4 primeiros subdomínios terem todos 25 metas numa simetria assinalável, entre comunidades recolectoras e produtoras, neolítico, mundo helénico e Roma.

Se as metas fossem coisas elementares poderíamos considerar que a coisa seria exequível nos limites da aceleração exponencial do modelo de aulas expositivas sem qualquer discussão, debate, esclarecimento de dúvidas, análise de documentos e todas aquelas minudências que fazem parte do ensino, mesmo do não-eduquês.

Mas não.

As metas são coisas deste tipo:

Conhecer o processo de hominização

1. Localizar as regiões do mundo onde foram encontrados vestígios dos processos de diferenciação da espécie humana, destacando a importância da arqueologia, bem como o carácter provisório e limitado do conhecimento científico.
2. Identificar as principais fases de evolução desde o Australopithecus ao Sapiens Sapiens, realçando a lentidão do processo.
3. Enumerar as mutações fisiológicas correspondentes a cada estádio de desenvolvimento da espécie humana, salientando a importância da interdisciplinaridade para o estudo destes processos.
4. Reconhecer o fabrico de instrumentos, o domínio do fogo e linguagem verbal como conquistas fundamentais.
5. Saber relacionar esta problemática com questões tratadas pelas ciências da natureza e pelas religiões (evolucionismo/criacionismo).

Pela tabela de tempos disponíveis isto tudo deverá ser dado em 90 minutos, mais um bocadinho de outra aula de 45. Se for em 90+45 minutos já ficamos em défice.

É pá… está bem… é do género despejanço a metro… como é possível que certos doutores façam nos anfiteatros académicos, sem direito a questões ou interrupções.

Já percebemos…

Eles nunca viram uma aula de 7º ano, a não ser em visita guiada… ou então em regime de ouve e não bufes.

(nota final: em boa verdade num ano lectivo, com sorte, sem ser numa realidade alternativa com tempo elástico, conseguem-se 80 aulas/tempos de 45′ “de matéria”… o que significa que as metas acima descritas devem estar contidas numa aula de 90 minutos).

Não tem de especialmente especial. Apenas é interessante no contexto e um MEC que vinha para romper com certos hábitos fofinhos e apenas acaba por romper com os professores em quem ele dizia confiaa antes da reconversão.

De: “DGIDC”
Data: 12 de Dez de 2012 16:09
Assunto: Educação para a Cidadania
Para:

Exmo(a). Senhor(a) Diretor(a) de Agrupamento de Escolas / Escolas não agrupadas

O Ministério da Educação e Ciência, através da Direção-Geral da Educação (DGE), elaborou as linhas orientadoras da Educação para a Cidadania e disponibilizou-as, na passada semana, no portal da DGE.

Em anexo segue a versão em formato PDF do referido documento, sem prejuízo da sua consulta no portal da DGE:

http://www.dge.mec.pt/educacaocidadania/index.php?s=directorio&pid=71

Esperamos que a disponibilização da versão pdf do referido documento contribua para uma mais fácil divulgação do mesmo junto dos membros da comunidade escolar do seu agrupamento de escolas ou escola não agrupada.

Informamos ainda que se procederá à divulgação dos referenciais ou outros documentos orientadores para as diversas áreas da educação para a cidadania à medida que forem sendo elaborados e aprovados, à imagem do que foi feito com o Referencial de Educação Rodoviária.

Com os melhores cumprimentos,

Lisboa, 12 de dezembro de 2012

                                                                    O Diretor-Geral da Direção-Geral da Educação

                                                            

                                                                                              Fernando Egídio Reis

O PAPI – Plano de Acompanhamento Pedagógico Individual.

Só de ouvir desatam-me a tinir todas as campaínhas do eduquês mais fofinho.

Acabou o PCT? Não me parece…

2 — O plano de acompanhamento pedagógico de turma ou individual é traçado, realizado e avaliado, sempre que necessário, em articulação com outros técnicos de educação e em contacto regular com os encarregados de educação.
3 — Aos alunos que revelem em qualquer momento do seu percurso dificuldades de aprendizagem em qualquer disciplina ou área disciplinar é aplicado um plano de acompanhamento pedagógico, elaborado pelo professor titular de turma, no 1.º ciclo, ou pelo conselho de turma, nos 2.º e 3.º ciclos, contendo estratégias de recuperação que contribuam para colmatar as insuficiências detetadas.

Pois, só devem ser o(a)s melhores se for a jogar à bola ou nos castings para moranguette.

Educação: Crise aumenta pressão de pais e professores sobre as crianças para serem “alguém no futuro”

O que dizer quando o legislador se interroga em pleno diploma sobre o seu conteúdo?

A portaria é a 243/2012 e no número 3 do anexo XII encontra-se esta pérola (enviada pela Isabel C. a quem agradeço as boas gargalhadas que dei) da cólidade legislativa, em que o(a) autor(a) da port(c)aria deixa para a posteridade a sua dúvida que alguém resolverá…

Por PEA entenda-se Prova Extraordinária de Avaliação, algo que a secretária de Estado da Educação precisa, aparentemente, de fazer com alguma brevidade…

Meta curricular para o 3º ano:

Ler um texto com articulação e entoação corretas e uma velocidade de leitura de, no mínimo, 110 palavras por minuto.

Só como termo de comparação, com essa idade, o Mário lia 330, em 30 segundos caso aparecesse por perto um microfone de plástico.

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